LUZ, CÂMERA, CRÍTICA! — Por Manu Cárvalho

Nicole Kidman e Harris Dickinson em “Babygirl” (Foto: reprodução/Courtesy Everett Collection)

Provocador, intenso e, por vezes, desconfortável. Assim é “Babygirl”, o novo longa dirigido por Halina Reijn, que nos convida a mergulhar em um thriller erótico que flerta com os limites do desejo e do poder. Estrelado por Nicole Kidman, no papel de Romy Mathis, e Harris Dickinson, como Samuel, seu jovem estagiário, o filme não tem medo de explorar as nuances da vulnerabilidade e da dominação. Mas, para além de suas ousadias, será que “Babygirl” entrega um retrato que realmente faz jus à complexidade dos temas que aborda?

Uma premissa que provoca reflexões

A trama gira em torno de Romy, uma poderosa CEO de tecnologia que, apesar de todo o seu sucesso profissional, sente-se emocionalmente distante e presa em um casamento sem paixão. Sua vida dá uma guinada quando Samuel, um jovem estagiário cheio de carisma e charme, entra em cena. O que começa como uma atração silenciosa logo evolui para uma relação repleta de tensão sexual, jogos de poder e exploração emocional.

O filme é audacioso em suas escolhas narrativas. Ele não aborda apenas a atração entre uma mulher mais velha e um homem mais jovem, mas também mergulha em questões de consentimento, desejo reprimido e dinâmicas de poder dentro de um ambiente corporativo. A proposta, no papel, é intrigante e estimulante. No entanto, na prática, senti que o filme entrega um resultado misto: provoca reflexões, mas hesita em ir fundo nas discussões que propõe.

Romy (Nicole Kidman) se envolve com Samuel (Harris Dickinson), um homem mais jovem em ‘Babygirl’ — (Foto: reprodução/Courtesy Everett Collection)

Nicole Kidman: magnética, mas carregando o filme sozinha

Nicole Kidman, como era de se esperar, brilha no papel de Romy. Sua performance é cheia de nuances, trazendo ao personagem uma combinação fascinante de força e fragilidade. Kidman nos apresenta uma Romy ao mesmo tempo imponente e vulnerável, uma mulher que tenta desesperadamente manter o controle enquanto sucumbe aos seus próprios desejos. Há uma dor latente em sua atuação que ultrapassa os diálogos e é traduzida com maestria.

Por outro lado, senti que Harris Dickinson, embora competente como Samuel, carece de magnetismo. Ele interpreta bem o papel do jovem sedutor e enigmático, mas falta profundidade para tornar o personagem memorável. Em muitos momentos, parece que Kidman está carregando o filme sozinha – e isso não é exatamente uma crítica a ela, mas sim à falta de equilíbrio no roteiro e nas atuações.

Direção e estética: um banquete visual de Babygirl

Halina Reijn faz um trabalho primoroso na construção da atmosfera do filme. A paleta de cores é fria, quase clínica, refletindo o mundo controlado e restritivo em que Romy vive.

Mas, à medida que ela se envolve com Samuel, o visual do filme se torna mais quente e envolvente, espelhando a intensidade emocional e sexual da relação dos dois.

As cenas íntimas, que já geraram muitos comentários, são filmadas com uma mistura de ousadia e delicadeza. Reijn evita a vulgaridade, focando na conexão emocional e na tensão entre os personagens, em vez de recorrer ao erotismo explícito. Ainda assim, algumas cenas podem ser desconfortáveis para o espectador – e acredito que esse desconforto faça parte da proposta do filme de desafiar e provocar.

Cena do filme Babygirl (Foto: reprodução/Courtesy Everett Collection)

Narrativa: uma história que promete mais do que entrega

Apesar de sua estética impecável e da performance magnética de Kidman, “Babygirl” sofre com a falta de profundidade narrativa. A premissa é fascinante, mas o roteiro parece hesitar em explorar as complexidades dos temas que aborda. Questões como a diferença de poder entre os personagens, os dilemas éticos da relação e o impacto emocional das escolhas de Romy são apenas superficialmente discutidos.

O filme parece mais interessado em criar momentos de impacto visual e emocional do que em desenvolver uma narrativa coesa e envolvente. Para uma obra que promete explorar as nuances do desejo e do poder, senti que faltou coragem para realmente mergulhar na psique dos personagens e nas implicações mais profundas de suas ações.

Por exemplo, o conflito interno de Romy é apresentado, mas nunca explorado com profundidade. Somos levadas a entender que ela luta contra seus próprios desejos e as pressões sociais, mas o filme hesita em nos mostrar mais sobre sua história, suas motivações ou os efeitos das decisões que toma. E Samuel, por sua vez, embora misterioso e sedutor, é pouco desenvolvido. Quem ele realmente é? O que o motiva? O roteiro não responde, deixando o personagem como um enigma vazio.

Essa falta de ousadia narrativa também afeta o ritmo do filme. Após um início promissor e tenso, a história perde força no meio, com cenas que parecem repetitivas ou que não avançam a narrativa. A tensão sexual, que é o motor do filme, vai se diluindo, e o clímax – ou a falta dele – deixa a sensação de que algo ficou inacabado.

A divisão entre crítica e público

Desde sua estreia, “Babygirl” tem dividido opiniões. Críticos como os do The Australian elogiaram a coragem de Kidman em assumir um papel tão desafiador e destacaram o filme como uma obra provocativa, ideal para discussões sobre poder e desejo. Por outro lado, veículos como o The Guardian criticaram o filme por não ir além da superfície, chamando-o de “um thriller que promete transgressão, mas acaba domesticado demais para deixar uma marca”.

Entre o público, a divisão é igualmente perceptível. Algumas espectadoras apontam identificação com os dilemas de Romy, enquanto outras enxergam no filme uma tentativa estética que não se sustenta narrativamente. É um daqueles casos em que o filme não é para todas, mas encontra seu público entre aquelas que apreciam obras que desafiam as normas convencionais.

Babygirl (Foto: reprodução/Courtesy Everett Collection)

Reflexões provocadas pelo filme

Apesar de seus tropeços, “Babygirl” tem o mérito de trazer questões provocadoras para o centro da conversa. O filme não apenas questiona as dinâmicas de poder em relações íntimas, mas também explora os desejos femininos de uma forma raramente vista no cinema. Romy não é retratada como uma vilã ou uma vítima, mas como uma mulher multifacetada, com desejos que muitas vezes entram em conflito com seu papel na sociedade.

A narrativa também toca em um ponto sensível: a maneira como o poder e o controle moldam nossas relações. Romy, uma mulher poderosa em sua carreira, mas emocionalmente vulnerável em sua vida pessoal, reflete o peso das expectativas impostas às mulheres. A relação com Samuel é quase uma metáfora para o desejo de escapar dessas pressões, mesmo que temporariamente.

Conclusão: um filme que divide e provoca

“Babygirl” é, sem dúvida, um filme que divide opiniões – e talvez esse seja um de seus maiores méritos. Esteticamente impecável, com uma performance magnética de Nicole Kidman, a obra sofre com uma narrativa que parece ter medo de ir mais fundo. Para algumas espectadoras, será uma provocação fascinante; para outras, uma experiência frustrante e insatisfatória.

Se você está disposta a assistir a um filme que flerta com questões complexas sem necessariamente resolvê-las, “Babygirl” pode ser uma experiência intrigante. Mas, se espera uma história mais coesa e emocionalmente rica, talvez seja melhor ajustar suas expectativas antes de embarcar nessa jornada.

No final das contas, mesmo com suas falhas, “Babygirl” nos lembra que o desejo – e as histórias que o cercam – continuam sendo um dos terrenos mais férteis e desafiadores para o cinema. E só por isso, já vale a pena a conversa.

thriller erótico

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Jornalista, publicitária, carioca, ruiva, leonina, motoqueira, dona de pet e filha do Carvalho. Informo a galera sobre esportes, cultura pop e algumas críticas de cinema. Conto histórias que estão na rotina do cidadão, do meu jeitinho carioca.

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