Por Cigana Carmem

Vestimentas Ciganas – Matéria-prima concedida por Deus.

Olá, minha amada leitora. Hoje, ao escrever para você sobre o legado cigano e os elementos que compõem nossa cultura, fui dar uma espiada por aí, com o intuito de tentar me convencer de que algo havia mudado a respeito das banalidades, futilidades e equívocos que se espalham por aí a nosso respeito. Encontrei o que já imaginava: nada significativo a ponto de enaltecer nosso legado. Assim, sendo uma cigana, ainda que seja uma entidade, conheço melhor do que ninguém a nosso respeito. Eu mesma, então, vou confabular com você sobre um assunto que me arrebata: as vestimentas ciganas. E já inicio nosso bate-papo com o seguinte comentário: Nós, ciganos, viemos ao mundo para celebrar a vida e honrá-la.

Na semana passada, discorri a respeito do significado do ouro para nossa cultura. Assim, como o ouro, nada é por acaso para nós. Nossas vestimentas também têm o objetivo de demonstrar esse amor pela vida e a liberdade. Por isso, vermelho é a que norteia nossa maneira de vestir. O vermelho representa a vida, desde o sangue menstrual, porque é da mulher que a vida tem origem, até o fogo, que representa a limpeza das impurezas, bem como a ardência e o desejo. Além disso, vermelho ancora nossa essência vigorosa, nossa paixão, dinamismo, sensualidade, força, e energia. Vermelho é símbolo de desejo, o desejo de respeitar a liberdade da essência da alma.

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Também já citei aqui, na matéria da semana passada, o conceito de liberdade para nós. Essa premissa norteia nossa vida. Nada nos fará desligar da busca por evolução espiritual. Mas o que nossa forma de se vestir tem a ver com isso? Tem a ver porque somos livres, nascemos livres, e a liberdade nos dá a responsabilidade de evolução, crescimento e vontade. A consciência é o único bem nessa terra que iremos realmente aproveitar. Por isso, cuidamos dela, enchendo-a de moralidade, bons conhecimentos e bons atos. Consciência é o que precisamos para adquirir felicidade plena em nossa alma. Deus dá a matéria-prima, cabe a nós a utilizarmos da melhor maneira possível. Por isso, como eu falei na semana passada, o ato de passar horas nos embelezando tem a ver com a responsabilidade de honrar a matéria-prima que nos foi cedida por Deus. E nossa vestimenta tem suas cores fortes e vivas, estampas, cetins, para exaltar nosso compromisso com a responsabilidade e a consciência para com nossa evolução espiritual.

Para as mulheres, representa a feminilidade sem vulgaridades. Nossas saias rodadas, longas e franzidas resguardam nossos corpos, mas reverenciam o estabelecimento de uma relação telúrica através dos nossos rodopios nas danças. Por isso, quanto mais rodada a saia, mais reverências conseguimos fazer a Deus e à vida por ele concedida.

Os homens também são vaidosos. Suas vestimentas representam sensualidade, virilidade, imponência e autoridade. E claro, sua conexão com forças divinas, orixás e guias espirituais. Além disso, as cores fortes, especialmente o vermelho, instigam a expansão da mediunidade e a abertura da intuição e do terceiro olho. Bem como revisitam o instinto e aguçam o desejo e a força masculina. A roupa, para nós, tem uma função mais nobre do que apenas se vestir. Vestir, quer dizer cobrir. Interessante, não é mesmo? Quem se cobre, se cobre de algo. Logo, cobrir o corpo com roupas que elevam nosso espírito e nos permitem contato mais íntimo com nosso interior é o objetivo das vestimentas ciganas. Elas transitam entre a exuberância e o mistério. Mistério esse, diga-se de passagem, que também revela os dons mediúnicos do meu povo. Por isso, nossas roupas são esvoaçantes e pesadas. Esvoaçantes expressando a leveza e fluidez da vida e pesadas simbolizando o fardo das dificuldades enfrentadas por nossa gente diante dos ataques e humilhações que vivenciamos. Nossas vestimentas transmitem coragem e resistência, união e tradição, resgate e tradição. É lindo!

As roupas femininas, os corpetes em especial, mexem com o imaginário masculino porque salientam as curvas dos corpos femininos, porém não os expõem. Isso valoriza a sensualidade e a sexualidade femininas. Mulheres ciganas gozam da consciência de que o amor-próprio está diretamente ligado à vaidade, e a vaidade vem de amar-se a si, pelo simples fato de ser mulher. Já o desleixo, convém ressaltar, não é amor-próprio.

As ciganas, portanto, nunca estão desarrumadas. Ainda que estejam de maneira simplória, estão muito bem ornamentadas. Para nós, ciganas, é imperioso que a mulher se nutra de si mesma de todas as formas. Assim, as vestimentas femininas nutrem seu corpo, sua vaidade e seu espírito, uma vez que o corpo é a morada da alma. E a alma carece de alimento. O alimento espiritual, emocional, psíquico e material. Então, sendo a vestimenta cigana imbuída de tantas características ordeiras, podemos encontrar riqueza, prosperidade e abundância nesta matéria-prima concedida por Deus. E nós, ciganos, fazemos questão de usufruir dessa ferramenta divina de maneira consciente, desperta e responsável.

Minha amiga leitora, mando um afago para seu coração.

Cigana Carmem.

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