Por Natália Vale Landim
Após o Jogo das Estrelas 2025, realizado no Maracanã, o ex-jogador Zico protagonizou um episódio que deslocou o foco do futebol para um debate mais profundo sobre responsabilidade, machismo estrutural e a dificuldade histórica do esporte brasileiro em lidar com denúncias feitas por mulheres. Na saída do amistoso, o maior ídolo do Flamengo foi questionado sobre a reportagem da jornalista Renata Mendonça, que revelou condições precárias oferecidas ao time feminino do clube no Centro de Futebol Zico, o CFZ, localizado no Recreio dos Bandeirantes.
A apuração divulgada em outubro expôs imagens incontornáveis. Água escura saindo das torneiras, vestiários improvisados em containers, chuveiros inadequados, sujeira, falta de manutenção e uma estrutura incompatível com o status profissional das atletas. O centro de treinamento utilizado pelo futebol feminino do Flamengo funciona em um espaço criado originalmente por Zico como escolinha esportiva, e que leva seu nome.
O conteúdo apresentado por Renata Mendonça não foi desmentido por ninguém até agora. Nem o presidente do Flamengo, nem dirigentes do clube, nem o próprio Zico contestaram a veracidade das imagens. O que se viu, desde então, foi uma estratégia recorrente no futebol brasileiro. Atacar a mensageira em vez de responder à mensagem.
Zico afirmou que Renata Mendonça nunca teria pisado no CFZ. A informação é irrelevante diante do fato central. A reportagem foi realizada por uma equipe, as imagens são reais e as condições expostas falam por si. A estrutura mostrada no vídeo existe, foi filmada e segue sem explicações públicas convincentes por parte do clube.
O ex-jogador também declarou que a água escura registrada teria sido um problema pontual que afetou toda a região do Recreio dos Bandeirantes naquele dia. Ainda que essa justificativa fosse aceita, o que não foi comprovado, restam todos os outros pontos da denúncia. Containers como vestiários, estrutura reduzida, sujeira, precariedade e a manutenção inexistente. Nada disso foi explicado.
Ao afirmar que o CFZ foi envolvido em uma história que não teria relação com o local, Zico ignorou o ponto central da reportagem. É no CFZ que o futebol feminino do Flamengo treina. Quem decidiu utilizar um espaço concebido como escolinha para abrigar uma equipe profissional foi o clube. Não foi a jornalista. O uso de verbos no passado ao descrever supostas qualidades do centro de treinamento também chamou atenção, pois sugere uma realidade que já não existe.
Outro ponto que gerou reação foi o uso da palavra “denegrir” ao se referir à reportagem. O termo carrega uma carga histórica racista amplamente debatida por movimentos negros e já desaconselhada por manuais de redação de grandes veículos. Até o momento, Zico não se retratou publicamente pelo uso da expressão.
Se a imagem do CFZ foi abalada, a responsabilidade recai sobre quem permitiu que o espaço chegasse ao estado exibido no vídeo. Não sobre quem revelou a situação. Como o centro leva seu nome, era esperado que Zico direcionasse sua indignação à gestão que permitiu a deterioração do local, e não à jornalista que cumpriu seu papel profissional.
Renata Mendonça afirmou que foi procurada por Zico para falar sobre a reportagem. O perfil Dibradoras divulgou mensagem enviada pelo Flamengo informando que o clube não se posicionaria formalmente sobre o vídeo. O contato telefônico existiu, mas a postura pública adotada por Zico após o amistoso não trouxe esclarecimentos e tampouco solidariedade à jornalista, que tem sido alvo de ataques misóginos desde a divulgação da denúncia.
Nenhum colega presente na entrevista confrontou Zico com perguntas básicas e necessárias. Ninguém questionou se as imagens eram falsas, se não pertenciam ao CFZ ou quem decidiu que aquele espaço seria a casa do futebol feminino do Flamengo. O silêncio foi eloquente.
O episódio expõe mais uma vez a dificuldade do futebol brasileiro em enfrentar o machismo estrutural que atravessa o esporte. A ausência de manifestações mais contundentes da classe futebolística, com exceção de posicionamentos isolados como o de Leila Pereira, reforça esse cenário. A CBF permanece em silêncio.
Quando denúncias como essa são relativizadas, atacadas ou empurradas para o esquecimento, o recado é claro. Mulheres que expõem problemas no futebol pagarão um preço. O risco é que novos episódios de misoginia sigam acontecendo, cada vez mais explícitos, enquanto dirigentes, ídolos e instituições escolhem não agir. A conta desse silêncio é coletiva e inevitavelmente chegará.
