quinta-feira, abril 23

Existem trajetórias que parecem escritas para nos lembrar do poder da resiliência. Nossa convidada de hoje carrega no nome a raridade de sua história: como uma joia lapidada pelo tempo e pelos desafios, ela transformou vivências em sabedoria e obstáculos em degraus. De uma origem humilde à conquista de espaços de influência, ela prova que o destino não é onde começamos, mas a coragem que imprimimos no caminho.

Hoje, temos a honra de mergulhar no processo criativo, nas inspirações e na trajetória dessa artista que, tal qual a gema que carrega no nome, transforma grãos de inquietude em obras de rara e absoluta beleza.

Pérola, seja muito bem-vinda.

Roberto Valleck: Quero iniciar essa entrevista com uma pergunta clichê: Quem é Pérola, como foi sua infância, quando a arte entrou na sua vida, como começou a estudar arte e o que você está estudando hoje?

Pérola: Em meu território sou conhecida como Alessandra, tive uma infância linda crescendo na periferia da cidade de Eldorado no Vale do Ribeira interior de São Paulo (13 mil habitantes), cresci atravessada pelo contexto do conservadorismo da cidade, pela monocultura da banana e pelas culturas e lutas que via nos Quilombos, existem 11 comunidades quilombolas na cidade de Eldorado, o mais velho deles é o Ivaporunduva, do qual eu tenho ascendência por parte de meu pai, minha mãe vem de uma comunidade também em contexto rural e isolada de Eldorado porém com maioria de pessoas brancas (Batatal). A arte entra em minha vida aos meus 17 anos, através do graffiti, comecei a estudar arte através do que eu via pela Internet pois em minha cidade nao havia outra referência feminina. Nunca tive até então a oportunidade de fazer uma graduação em Artes Visuais, porém tive a experiência de estudar no Parque Lage no RJ durante 1 ano, atualmente estou finalizando minha graduação em Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense.

Pérola Santos

Roberto Valleck: Seu trabalho é profundamente ligado às suas raízes. Como a vivência no Vale do Ribeira e o contato com a cultura quilombola moldaram o seu olhar artístico antes mesmo de você segurar um pincel profissionalmente?

Pérola: Minhas primeiras obras falavam sobre a monocultura da banana, eu sempre quis ser política em meu trabalho, vejo que meu papel é usar a arte como forma de denúncia e valorização do que acontece em meu território.

Roberto Valleck: Acompanhando algumas obras notei uma presença muito forte de tons terrosos, amarelos vibrantes e azuis profundos em suas telas. Existe uma simbologia específica por trás da sua paleta de cores na representação da pele e do cotidiano negro?

Pérola: Atualmente não mais, pinto conforme achar necessário, porém em meus trabalhos antigos, eu utilizava a cor do pan-africanismo.

Roberto Valleck: Suas obras trazem figuras humanas com olhares muito expressivos e marcantes. Para você, o ato de pintar um Mestre ou uma Mestra de tradição é uma forma de documentação histórica ou um portal espiritual?

Pérola: Sim, percebi conforme os anos e aprendizados, que quando eles querem enfraquecer algum movimento político da comunidade, eles atacam primeiro as lideranças, então usei o raciocínio reverso, para apresentar e despertar o interesse por aquelas comunidades e manifestações culturais, eu trouxe primeiro os mestres. Também sinto que a presença deles causa impacto, principalmente para os que conviveram pessoalmente com esses Grios.

Griô refere-se aos mestres e mestras dos saberes tradicionais, responsáveis por preservar e transmitir a memória, a cultura e a história das comunidades locais através da oralidade.”

Roberto Valleck: Sua estética pessoal também é muito forte. Como você enxerga a relação entre a “Pérola artista” e a “Pérola modelo fotográfica”? A forma como você se apresenta é uma extensão da sua arte?

Pérola: Entendo a moda como algo muito pessoal, e como uma mulher racializada vejo o quanto minha imagem pessoal interfere na maneira da qual serei tratada em um ambiente. Mas não acho que seja uma extensão de minha arte, acho que meu corpo é político e ele fala por si só.

Roberto Valleck: Em telas como a do “Mestre Cicinho” homem com a espada e o traje vermelho, há uma clara referência a iconografias que remetem à proteção e religiosidade. Como você trabalha a fé e a espiritualidade dentro do seu processo criativo?

Pérola: Mestre Cicinho era um Griô da cultura de Reisado em Juazeiro do Norte no Ceará, o reisado tem muita ligação com a religiosidade. Eu apenas tento representar o que vejo respeitando os traços culturais de cada mestre e suas crenças.

Mestre Cicinho

Roberto Valleck: Embora o Vale do Ribeira esteja em São Paulo, ele é muitas vezes invisibilizado. Quais são os maiores desafios de levar a estética e as pautas do interior e dos quilombos para os grandes centros urbanos e galerias de arte contemporânea?

Pérola: Sinto que o grande desafio seja conseguir espaço dentro do mundo da arte, e também pela dor de ver o tempo passar, minha família envelhecendo e morrendo e eu estar longe de casa. Vejo que por meu tema ser sobre algo quase “utópico” para os moradores das Metrópoles, as curadorias dão preferência a temas que mostrem o que acontece na cidade. Mas levando em consideração que a maioria da população brasileira não tem acesso a educação, entendesse que eles apenas conhecem o próprio estilo de vida como possível, desconhecendo outras possibilidades de existência, sendo assim enxergo que levar o tema do formato de vida quilombola para dentro desses espaços dedicados a arte, cultura e educação seja um ato contracolonial.

“O Quilombo Ivaporunduva, localizado em Eldorado (SP) no Vale do Ribeira, é a comunidade quilombola mais antiga de São Paulo e uma das primeiras tituladas no Brasil. Formada por descendentes de escravizados no século XVII, destaca-se pela produção de banana orgânica, artesanato, turismo comunitário, forte organização coletiva e preservação da Mata Atlântica”.

Roberto Valleck: Suas pinceladas ora são suaves, ora trazem texturas que lembram a própria terra ou o tecido. Você poderia nos contar um pouco sobre sua escolha de materiais e como você desenvolveu sua técnica de pintura a óleo/acrílica?

Pérola: Eu comecei a pintar com tinta tecido por questão de acesso, em minha cidade não há muitas opções de materiais, quando me mudei para o RJ tive acesso a tinta óleo e acrílica, desenvolvi minha técnica através de estudos em casa com meu ex-companheiro e depois fui me aprimorando sozinha pintando e experimentando.

Roberto Valleck: Você participou do evento Bisous Rio em Laranjeiras. Como foi ver sua arte circulando em espaços que misturam exposição, DJ sets e uma atmosfera de “casa aberta”?

Pérola: Isso muda a forma como o público consome sua obra? Foi diferente de expor dentro de um museu ou espaço cultural, sinto que muda sim a forma como o público consome a obra, talvez pela sensação de ser algo mais acessível.

Roberto Valleck: Além de artista plástica, você atua como arte-educadora. Como o ensino da arte pode servir como ferramenta de emancipação para jovens que, assim como você, buscam se reencontrar em sua própria ancestralidade?

Pérola: Olha, eu vejo que quando estou fazendo alguma atividade com crianças de escolas públicas e falo sobre o quilombo, a maioria, pra não dizer 100%, não sabem do que se trata (mesmo sendo em maior parte crianças pretas e pardas). Como eu disse anteriormente, entendo que mostrar novas possibilidades de existência sem ser a já conhecemos das Metrópoles, é um ato contra colonial. Sei que pessoas sem ligação direta de sangue com a comunidade não podem morar no Quilombo (a não ser que se casem com um quilombola) mas quando digo sobre o Quilombo, falo sobre uma das diversas comunidades tradicionais e originárias, o que quero trazer em questão é que existe a possibilidade do seu filho crescer sem ver violência, armas, pobreza e fome todos os dias, que o contato com a terra no plantio vai te equilibrar novamente, tirando a ansiedade que o Centro Urbano trás com a necessidade de produção constante. Creio que os que cresceram na Cidade podem encontrar uma saída para viver o resto de suas vidas em um ambiente onde estejam inseridos na natureza e não contra ela.

 Roberto Valleck: Quando olharem para o conjunto da sua obra daqui a 50 anos, qual a principal mensagem que você espera que as pessoas recebam sobre a identidade brasileira e quilombola através das suas mãos?

Pérola: Que é um formato de vida possível.

Pérola Santos e Nany People

Roberto Valleck: Pérola muito obrigado pelo seu tempo particularmente como artista plástico sou um admirador de suas obras, deixo o espaço livre para considerações finais.

Pérola: Agradeço pelo convite e pela atenção dedicada à leitura. 

Nego Bispo
Braimeira

Imagens: instagram.com/perola_santos_

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