quinta-feira, abril 23

Entre amor, exaustão e realidade, o lado invisível da maternidade

Este é o quarto texto da série “Mulheres que Sustentam: liderança, maternidade e o que ninguém vê”, que busca trazer à luz as experiências femininas reais por trás de papéis socialmente idealizados. No primeiro, falamos sobre liderança, no segundo sobre os bastidores da liderança e o terceiro sobre a síndrome da impostora.

Esses são alguns dos papéis femininos que, ao mesmo tempo em que são valorizados, também são silenciosamente sobrecarregados. Um dos principais é a maternidade, muitas vezes, apresentada como um espaço de plenitude constante ou até mesmo compulsória como se fosse obrigatório.

Criou-se uma imagem construída por gestos de cuidado, amor incondicional e realização. Uma narrativa que emociona — mas que, quando isolada, não sustenta a complexidade da experiência real. Até porque ela é vivida de forma totalmente particular.

Há mães que encaram tantas dificuldades, desde a gravidez até a educação dos filhos cuja maternagem não é florida e sim um campo minado. Não vamos aprofundar aqui, mas temos desde o mal estar físico (só cada mãe sabe o que passou na gravidez, parto e puerpério) até os problemas de relacionamento e atividade profissional. Ou você realmente acha que é legal enjoar, ver seu peito sangrar, pessoas se afastarem e seu trabalho mudar?

Maternidade e Maternagem

Há mulheres que não exercem a maternidade mas sim a maternagem. E isso é muito mais forte. Em tempo, vamos aos conceitos:

Maternidade é a condição biológica ou legal de ser mãe (gerar/adotar), frequentemente associada a uma construção social. Maternagem é o conjunto de práticas de cuidado, afeto e acolhimento diário, podendo ser exercida por qualquer pessoa (pai, avós, cuidadores).

Portanto não é preciso ser mãe para maternar, não à toa se diz ” mãe é quem cria”. Por isso podemos dizer que a maternidade é mais ligada ao ter filhos, biológicos ou adotivos. Já a maternagem é o cuidado.

Há maternagens e maternagens. Nem toda mãe, mulher que exerce a maternidade, necessariamente materna. Por isso vemos tantos relacionamentos desafiadores entre mães e filhos, inclusive cá entre nós arrisco dizer que isso se deve especialmente ao fato de quem nem sempre as mães olham para a sua própria história, mas enfim isso é outro papo.

É senso comum que ser mãe é um lugar de amor profundo, só que não. Lembra da maternagem? Algumas mães tem dificuldades por inúmeros motivos. Agora incontestável mesmo é a exaustão. Aff, nem se fala!

Ser mãe e trabalhar fora ou “só” cuidar da casa é exaustivo!

Entre mulheres que empreendem, trabalham fora, lideram ou sustentam suas casas, a maternagem não acontece em paralelo à vida profissional. Ela acontece junto. ” tudo-ao-mesmo-tempo-de-uma-vez” sabe?

Misturada.No mesmo espaço. No mesmo tempo. No mesmo corpo.

  • Responder uma mensagem de trabalho enquanto um filho chama.
  • Tomar decisões importantes com o cansaço acumulado.
  • Tentar estar emocionalmente disponível enquanto administra demandas práticas.
  • Reprogramar a agenda devido a um mal estar do filho e se deparar com falta de empatia.
  • Mandar um aúdio com a voz do filho ao fundo.
  • Ter dificuldade de se colocar na agenda.

Continue… a lista é imensa. Eu mesma, como mãe de 3 poderia citar mais exemplos e sim, todos os itens já me aconteceram. O mais desafiador sem dúvida é o primeiro, pois tem dias que a vontade é fugir só para não fazer nada. Mas ai me lembro de todas as 550 coisas que preciso dar conta, trabalho inclusive, e sigo exaurida, mas de pé.

E não podemos esquecer das mães que não trabalham fora e se dedicam “só” aos cuidados domésticos e familiares. Sim “só” pois se você for um adulto minimamente funcional, sabe que as tarefas domésticas são inesgotáveis,” a exaustão é igual ou até pior a depender da dinâmica/estrutura familiar.

E, ainda assim, pouco se fala sobre isso com honestidade.

A romantização da maternidade cria um cenário onde o cansaço parece inadequado. Onde a sobrecarga parece falha. Onde o limite parece incapacidade.

Mas não é.

O cansaço não diminui o amor.
A sobrecarga não invalida a dedicação.
O limite não define a competência.

Ele apenas revela que há mais sendo exigido do que o possível de sustentar de forma saudável.

Há uma expectativa silenciosa de que a mulher dê conta de tudo — e faça isso bem.

Cuide. Produza. Organize. Eduque. Trabalhe. Esteja presente.

Sem pausas. Sem falhas. Sem ruídos.

E, quando isso não acontece, surge a culpa.

Uma culpa que não vem necessariamente de fora — mas que foi aprendida.

Porque, durante muito tempo, ser uma “boa mãe” foi associado à capacidade de se anular.

Mas essa lógica começa a ser questionada.

Cada vez mais, mulheres têm falado sobre a maternidade real. Sobre os dias difíceis. Sobre a sobrecarga. Sobre a necessidade de apoio. Sobre o direito de não dar conta de tudo o tempo todo. E principalmente, sobre a necessidade fundamental de olhar para si mesma.

E esse movimento não enfraquece a maternidade.

Ele fortalece.

Porque permite que ela seja vivida com mais verdade — e menos cobrança.

Falar sobre o que ninguém conta não é negar a beleza da maternidade.
É ampliar a sua compreensão.

É reconhecer que, para além do amor, existe uma estrutura que precisa ser sustentada não só pela família e amigos, mas principalmente por políticas públicas. Quer um exemplo?

Você sabia que na rede municipal do Rio o horário “integral” é das 07h30 as 14h30?

Quem pega e fica com a criança se o responsável só consegue buscar a criança, com sorte e se trabalhar perto, a partir das 17h30 sendo otimista? Isso sem contar a distancia escola-trabalho-casa enfim, são vários fatores.

Ser mãe e maternar pode sim ser uma experiencia intensa de amor e transformação, mas a maternagem não é exclusividade da mãe, afinal “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.”

Se a maternidade transforma a rotina, ela também transforma algo ainda mais profundo: a identidade.

No próximo texto, a reflexão avança para um ponto sensível e muitas vezes silencioso:

o que acontece com a mulher por trás da mãe.

Como reconstruir a própria identidade depois da maternidade?
O que se perde, o que se transforma — e o que pode ser resgatado?

Essa é a nossa conversa.

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Joana D’arc Souza é jornalista, escritora, ghostwriter e revisora. Une técnica e sensibilidade para transformar ideias em textos que tocam, inspiram e despertam reflexão. Apaixonada por cultura, especialmente livros e pela força das palavras, acredita que a leitura e escrita são formas de autoconhecimento e de conexão com o outro. Seu objetivo é que cada texto seja um convite a sentir, pensar e se expressar com verdade. Instagram: @ajoanadarcsouza

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