O último final de semana o subúrbio carioca provou, mais uma vez, que a potência cultural do Rio de Janeiro pulsa forte longe dos cartões-postais tradicionais. Em uma dobradinha cultural impecável que uniu literatura, debate social e gastronomia, a Zona Norte reafirmou sua identidade e relevância, mostrando-se tão vibrante quanto à Pavuna e a Tijuca.
A programação teve início no fim da tarde de sábado com mais uma edição do Leão de Etíope do Méier em seu 12º aniversário de resistência. O evento, que já se consolidou como um símbolo de resistência e entretenimento no bairro, manteve sua estética irretocável, oferecendo ao público palestras e o melhor das comidas típicas locais.
O grande destaque da noite ficou por conta da roda de leitura “O Espelho”, dedicada à obra de Machado de Assis — indiscutivelmente um dos maiores nomes da literatura mundial. A condução do debate ficou a cargo do professor Dr. João Cezar de Castro Rocha, da UERJ, que navegou com maestria pelo universo do escritor. O encontro ganhou um toque ainda mais especial com a participação de seu filho, que cativou o público esbanjando carisma e inteligência. O Méier se expande e se firma como o embrião de um movimento que abriga grandes personalidades da nossa cultura.
No domingo, o tom de Copa do Mundo deu espaço a um diálogo profundo e necessário na Livraria Belle Époque, que sediou o Seminário de Cultura, Comunicação e Direitos Humanos. Realizado em parceria com o Instituto de Formação e Promoção de Políticas Públicas e a UFRRJ, o evento propôs pontes urgentes entre a academia e a sociedade.
Thiago Rosa abriu os debates trazendo uma visão crítica sobre os “muros” invisíveis que ainda afastam a universidade do povo, destacando as iniciativas necessárias para unificar esses dois mundos.
Na sequência, uma roda de conversa potente com Paulo Santos, do Lins, Ivan Errante e convidados que compartilharam a vivência real e sem filtros de quem habita as comunidades cariocas.
O cronista Leandro Leal (das páginas “Meu Parente Oficial” ), André Gabeh
e (“Suburbano da Depressão”) encerrou as discussões abordando como a grande mídia, muitas vezes de forma externa e caricata, perpetua estereótipos negativos sobre o cidadão suburbano.
Uma demonstração inequívoca de que o subúrbio não é apenas um lugar de passagem, mas um polo produtor de arte, intelecto e entretenimento de altíssimo nível.
