Isabel de Fátima Alvim Braga

Esquema para leigo: o peptídeo nasce no intestino, o receptor também mora no neurônio e na célula que enrola a mielina. A mesma fabricante da caneta comprou o spray psicodélico.

Maria Emília Gadelha estava no lugar certo. Falava de transporte de gordura pela via do GLP-1 (A das canetinhas) e da camada que o corpo guarda quando a caneta começa a trabalhar. Não era show. Era aula em forma de show. Quem trata obesidade e diabetes precisa dessa aula: o peptídeo não é mágica de Instagram, é sinal de intestino que o pâncreas e o cérebro já conheciam.

Eu estava na plateia. Quando ela fechou o desenho da gordura, perguntei: “mas se esse intestino da foto está cheio de gordura por transporte… O que vai acontecer com os neurônios?”. O neurônio também tem receptor de GLP-1 — e o que aquilo fazia com a bainha de mielina. Ela não rebateu. Acenou com a cabeça. Concordância de quem reconhece o andar de cima sem precisar desmontar o chão em que estava falando.

Este texto não é contra ela. Muito pelo contrário. É o andar que o aceno autorizou. E como nós duas concordamos que há mais malefícios vindos da indústria farmacêutica que as vacinas de Covid.

O que a caneta faz no corpo que todo mundo vê

Tirzepatida — Mounjaro, da Eli Lilly — não é só GLP-1. É GLP-1 e GIP no mesmo injetável. O primeiro veio do intestino depois da refeição e avisa o pâncreas para soltar insulina quando há glicose. O segundo é o outro hormônio da mesma família. Juntos, atrasam o esvaziamento do estômago, diminuem fome, sobem o sinal de saciedade no hipotálamo. A balança desce. A glicada desce. Isso está na bula e nos ensaios que levaram o registro.

O que a bula descreve com menos poesia: náusea, vômito, diarreia, constipação, risco de pancreatite, vesícula. Perda de peso que não escolhe só gordura. Parte do que some é músculo. Na sessão da Academia Nacional de Medicina de 14 de maio de 2026, a acadêmica Mônica Gadelha pediu o óbvio que a moda esquece: preservar massa magra, sobretudo no idoso. Exercício e proteína não são complemento de catálogo. São a diferença entre emagrecer e desmontar.

Há outro ponto que a campanha não coloca no anúncio: o olho. Séries observacionais publicadas associaram semaglutida a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica. Não são sentença. Não são “a caneta cega”. São o tipo de dado que obriga quem prescreve a perguntar se o paciente já tem disco lotado, apneia, hipertensão mal controlada — e a não tratar perda de visão como efeito colateral menor.

A pergunta “quando parar” quase não entra no consultório que depende de receita continuada de paciente para rodar o financeiro. Enquanto o sinal está ligado, o apetite fica baixo. Quando o sinal some, o corpo que perdeu músculo e não mudou o ambiente volta a pedir o que pedia. Não é falha moral. É fisiologia. Parar sem plano de comida e de força é devolver o peso com juros de composição corporal.

O que a caneta faz no lugar que a palestra não deu tempo de desenhar

O receptor de GLP-1 não mora só no pâncreas e no estômago. Mora em neurônio. Mora em célula da glia. A mielina — a capa de gordura que deixa o axônio conduzir depressa — é trabalho de célula de Schwann no nervo e de oligodendrócito no cérebro. Sem ela, o fio existe e o recado atrasa.

Revisão de 2022 (Takaku e cols.) juntou o que o tubo e o animal já tinham: agonista de GLP-1 acelera mielinização em cocultura de neurônio com Schwann, sobe proteína da mielina periférica, mexe na via PI3K/AKT. Isso não é ensaio de fase 3 em esclerose múltipla. É biologia de bancada. Quem transforma bancada em milagre mente. Quem finge que o receptor some na porta do crânio também mente.

Em setembro de 2025, Cell Metabolism publicou o pedaço que amarra a caneta nova à bainha. O receptor de GIP — o segundo braço da tirzepatida — está enriquecido em oligodendrócito. Sem esse receptor na célula que fabrica mielina, o agonista de GIP deixa de reforçar o emagrecimento do agonista de GLP-1. O mecanismo que os autores descrevem não é “queima gordura da coxa”. É acesso: o sinal no oligodendrócito muda a porta da eminência mediana, o fármaco chega melhor no axônio de vasopressina, o hipotálamo obedece. A célula da bainha não é plateia. É pedágio.

Por isso a pergunta na palestra não era hostil. Era o mapa. Se o GIP da caneta precisa do oligodendrócito para fazer o peso cair do jeito que cai, a frase “é só gordura da barriga” ficou curta. Maria Emília descreveu o transporte no tecido que o paciente vê no espelho. O paper descreveu o tecido que o paciente não vê. Os dois cabem no mesmo desenho.

O que ainda não cabe: ensaio clínico desenhado para mielina humana sob tirzepatida. Desfecho de condução nervosa. Ressonância de lesão desmielinizante. Tempo de exposição. Dose. Sexo. Idade. Quase nada disso foi pago para ser medido no usuário da caneta. Ausência de evidência não é evidência de ausência. É orçamento.

A mesma casa comprou o outro interruptor

Em 16 de julho de 2026 a Eli Lilly anunciou a compra da AtaiBeckley. A Reuters descreveu o teto: até 3,8 bilhões de dólares. 2,8 bilhões à vista. O ativo principal é BPL-003, spray nasal de mebufotenina — 5-MeO-DMT sintético — em desenvolvimento para depressão resistente. Há filme bucal de DMT e um candidato de R-MDMA para ansiedade social. A Lilly que fez o Prozac, que fatura o Mounjaro e o Zepbound, entra no psicodélico com o caixa da caneta.

Não é poesia. É alocação. O mesmo balanço que vende o sinal de incretina no hipotálamo agora compra o sinal de serotonina 5-HT2A no córtex. Um encurta o estômago e conversa com oligodendrócito. O outro quer abrir uma janela curta de plasticidade em quem não respondeu ao antidepressivo clássico. A Johnson & Johnson já tinha o esketamina. A AbbVie comprou o análogo de DMT da Gilgamesh. A Lilly chegou por último e chegou maior.

Quem trata cabeça e quem trata cintura fingem que são especialidades separadas. A indústria não finge. O paciente que emagrece na tirzepatida, perde músculo, dorme mal, fica com o humor no chão e depois ouve que “agora tem um spray” é o mesmo organismo. Serotonina, GLP-1, GIP e mielina não assinam especialidade no CRM.

A coincidência que não é coincidência: o que a Anvisa mede quando mede

Em 17 de janeiro de 2021 a Diretoria Colegiada da Anvisa autorizou, por unanimidade, o uso emergencial da CoronaVac. O número que a relatora levou à mesa não foi “0,9 contra morte”. Foi 50,39% — 50,4% no paper do PROFISCOV — contra doença sintomática. O intervalo de confiança ia de 35,3% a 62%. O piso que a OMS aceitava para autorização emergencial era 50%. A vacina encostou no piso. Contra doença grave, no follow-up publicado depois, o mesmo ensaio deu 82,1%. Contra morte, estudos observacionais no Brasil e no Chile circularam faixas de 74% a 86% na população geral, e caíram para cerca de 35% acima dos 90 anos. Quem transformou isso em “90% contra morte” estava vendendo outro estudo, de outro país, ou o desejo de um secretário. O papel brasileiro que a Anvisa leu no domingo era o 50,4%.

Isso não é um ataque infundado à vacina inativada em janeiro de 2021. É o tamanho da régua. Com 50,4% e um termo de compromisso de imunogenicidade para 28 de fevereiro, a agência liberou o estoque que o país tinha. A frase oficial foi segurança nacional. A frase técnica foi: passou do piso.

Quatro anos depois a mesma casa escreve a Nota Técnica 200/2025 sobre caneta. Semaglutida registrada como biológico: na prática, sem o IFA do fabricante dono do registro, a farmácia de manipulação não importa e não manipula. Tirzepatida registrada como sintético: a porta fica entreaberta, com RDC 67, rastreio, teste de lote. A Eli Lilly chamou a brecha de “contradição que continua expondo a população”. Entidades médicas pediram para fechar a tirzepatida também. Em abril de 2026 a Anvisa anunciou mais fiscalização: 130 quilos de IFA no segundo semestre de 2025, conta da própria agência, dariam 25 milhões de doses. Onze inspeções, oito interdições. Na primeira quinzena de setembro de 2026, no Galeão, Anvisa, Receita e Polícia Federal apreenderam mais de mil canetas e peptídeos — tirzepatida irregular e retatrutida, molécula sem registro comercial em país nenhum.

A agência não “criminalizou a molécula” no Código Penal. Fechou a porta do magistral onde o biológico do laboratório dono da patente não quer vender o pó. Abriu a conta de quem importa 130 quilos. Chamou de qualidade. O efeito no balcão é o mesmo: o frasco da fábrica sobe de preço relativo quando o frasco da farmácia da esquina some.

O psicodélico entra no mesmo prédio por outra porta. DMT, 5-MeO-DMT e MDMA continuam na Portaria SVS/MS 344/1998. Ayahuasca religiosa tem resolução do Conad desde 2010. Esketamina tem registro para depressão resistente. Psilocibina e MDMA terapêuticos não têm via no Brasil. Em setembro de 2026 o MPF no Acre deu 30 dias para Anvisa e Conad se pronunciarem sobre um grupo de trabalho que, em dois anos, atualizaria o DMT também para uso terapêutico. Enquanto o GT não existe, a Lilly comprou a AtaiBeckley e o spray de 5-MeO-DMT que ainda não tem fase 3 fechada. A substância que a portaria brasileira lista como controlada é o ativo que o laboratório da caneta agora tem no pipeline. A Anvisa ainda não registrou o spray. O movimento já está no balanço.

O país em que o míssil senta na usina e o perigo oficial é a farmácia

No mesmo calendário em que a Anvisa conta quilo de IFA no Galeão, o mapa societário da energia nuclear mudou de dono. A Eletrobras vendeu fatia da Eletronuclear ao grupo que controla a Âmbar. O mesmo grupo, por outra porta, notificou ao Cade a compra da linha que faz o ASTROS. O detalhe está no dossiê da Pàhnorama sobre o litro e o sócio — não é metáfora deste texto. É o papel do tribunal de contas, do Cade e da empresa. Indústria com míssil pode sentar na mesa da usina. A pergunta que o Estado faz com mais pressa, no entanto, é se a farmácia da esquina pode pesar tirzepatida.

Não é defesa da caneta batizada no fundo do balcão. 130 quilos sem auditoria de fabricante é risco sanitário de verdade. Retatrutida sem registro em país nenhum no porão do Galeão é contrabando, não “acesso”. Quem troca isso por folclore erra duas vezes.

É o tamanho da régua outra vez. Em 2021 a régua de emergência aceitou 50,4% contra sintoma e mandou vacinar. Em 2025–2026 a régua do emagrecedor aceita o IFA do dono do registro e trata o magistral como ameaça à qualidade — enquanto o mesmo Estado discute, sem o mesmo alarme, quem senta no conselho da empresa que fende o átomo na Costa Verde. Em 2026 a régua do psicodélico ainda é a lista de 1998, com exceção religiosa e um GT que o MPF teve de pedir. A fabricante que vende a caneta já comprou o spray. A agência ainda não desenhou a via. O mercado desenhou sozinho.

Três pesos, uma frase só: o perigo que a nota técnica nomeia é a manipulação. O perigo que o papel da usina e o papel do míssil nomeiam quase não vira nota técnica. O perigo que o pipeline da Lilly nomeia — 5-MeO-DMT sintético em depressão resistente — ainda é substância da lista, até o dia em que deixar de ser. Quem decide o dia não é a plateia da palestra de gordura. É a mesma casa que, em janeiro de 2021, leu 50,4% e chamou de segurança nacional.

O que a plateia pode levar para casa

Maria Emília estava certa no recorte dela. Gordura se move. Caneta acelera o recado. Idoso sem músculo é outro doente. Isso merece ser dito com educação — e foi.

O aceno dela, na pergunta da bainha, vale mais do que uma nota de rodapé. Vale o reconhecimento de que o receptor não termina no adipócito. Termina, também, na célula que enrola gordura no axônio. O paper de 2025 transformou essa frase em mecanismo de rato. O consultório brasileiro ainda trata a caneta como lapiseira da balança.

Três frases juntas, sem drama:

A tirzepatida emagrece e mexe em glicose. Isso está medido.

A tirzepatida conversa com célula que fabrica mielina. Isso está no animal e no tubo. Não está no desfecho que a bula lista.

A fabricante da caneta comprou a empresa do spray psicodélico. Isso está na Reuters de julho de 2026.

Quem junta as três não está acusando a palestrante. Está recusando o folder que cabe num slide só.

A conduta que o conjunto sustenta continua prosaica: indicação verdadeira, proteína, força, olho, tempo de uso escrito, plano para o dia em que a caneta sair. E a pergunta que o congresso já aguentou — o que o neurônio tem a ver com a gordura que a aula mostrou — não precisa esperar o próximo pôster para ser feita de novo.

Isabel de Fátima Alvim Braga

Fontes

1. Reuters, 16 jul. 2026. Lilly enters psychedelic drug race with up to $3.8 billion AtaiBeckley deal.

2. Fierce Biotech; BioSpace; Pharmaceutical Technology, jul. 2026. Termos da compra: US$ 2,8 bi à vista; até US$ 3,8 bi com marcos. Ativo BPL-003 (mebufotenina / 5-MeO-DMT nasal); VLS-01 (DMT); EMP-01 (R-MDMA).

3. Liskiewicz et al. Glucose-dependent insulinotropic polypeptide receptor signaling in oligodendrocytes increases the weight-loss action of GLP-1R agonism. Cell Metabolism, 2025;37(9):1820-1834.

4. Takaku S. et al. Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists as Potential Myelination-Inducible and Anti-Demyelinating Remedies. Front. Pharmacol., 2022.

5. Academia Nacional de Medicina. Sessão “Terapia incretínica, GLP-1 e GIP na prática”, 14 maio 2026. Intervenção sobre massa magra.

6. Bula e ensaios registradores de tirzepatida (Mounjaro / Zepbound, Eli Lilly).

7. Anvisa, 17 jan. 2021. Uso emergencial CoronaVac e Covishield. UOL/Agência Estado: eficácia relatada na sessão, 50,39% contra doença sintomática.

8. Moreira et al. PROFISCOV. Eficácia primária 50,4% (IC 35,3–62,0%) contra COVID sintomática; 82,1% contra COVID grave no follow-up.

9. Anvisa, Nota Técnica 200/2025/SEI/GIMED e despacho de 25 ago. 2025 sobre IFA de agonistas de GLP-1. G1, Estadão, Veja Saúde: semaglutida biológica inviabilizada na prática; tirzepatida sintética com brecha.

10. Agência Brasil, 6 abr. 2026. 130 kg de IFA no 2º semestre de 2025; 11 inspeções, 8 interdições.

11. Veja, 22 set. 2026. Apreensão no Galeão: mais de 1.000 canetas e peptídeos (tirzepatida irregular e retatrutida sem registro mundial).

12. Portaria SVS/MS 344/1998; Resolução Conad 1/2010 (ayahuasca religiosa). Folha, 10 set. 2026: MPF/AC pede GT Anvisa-Conad sobre DMT.

13. Revista Pàhnorama, 29 ago. 2026. “O litro, o silêncio e o sócio”: fatia da Eletronuclear e notificação Cade da linha ASTROS.

O aceno no congresso é relato de quem estava na sala.

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Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

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