O sistema de consórcios brasileiro fechou agosto de 2026 com 13,55 milhões de participantes ativos e R$ 389,59 bilhões em negócios realizados de janeiro a agosto, recorde para o período e 24,2% acima dos R$ 313,72 bilhões registrados no mesmo intervalo de 2025, segundo levantamento da ABAC, a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios. No mesmo período, foram comercializadas 3,82 milhões de cotas, alta de 15,1%.

O avanço é puxado principalmente pelo consórcio de imóveis, por um tíquete médio cada vez mais alto e por consumidores que vêm utilizando o planejamento como alternativa para adquirir bens de maior valor em um ambiente de juros elevados.

O ano começou sobre uma base já histórica. 2025 terminou com 5,16 milhões de cotas vendidas, negócios superiores a R$ 500 bilhões e 12,76 milhões de participantes ativos. Para 2026, a ABAC projetava inicialmente crescimento de até 11%, cinco pontos percentuais acima da estimativa utilizada para 2025. O resultado de 2025, porém, superou a expectativa e registrou crescimento de 15%.

Os primeiros meses confirmaram o ritmo. Ao fim do bimestre, eram 12,85 milhões de participantes ativos, novo recorde e alta de 12,6% sobre o ano anterior. Foram comercializadas 873,09 mil cotas, 8,8% acima do mesmo período anterior. O ponto de atenção estava nas contemplações, que somaram 309,19 mil no bimestre, queda de 10,3%.

No primeiro quadrimestre, o sistema movimentou R$ 179,4 bilhões em créditos comercializados, cerca de 27% a mais que um ano antes. O total de contemplados chegou a 623,70 mil, uma das melhores marcas da década para o período.

Em junho, o setor cruzou uma fronteira simbólica: o total de participantes ativos superou pela primeira vez a marca de 13 milhões. Em julho, o número chegou a 13,41 milhões. No acumulado até então, foram comercializadas 3,31 milhões de cotas, alta de 14,9%, enquanto os créditos comercializados alcançaram R$ 331,60 bilhões, crescimento de 22,9%. As contemplações chegaram a 1,03 milhão, alta de 3,2%, e os créditos disponibilizados somaram R$ 74,38 bilhões, crescimento de 9,6%.

Agosto manteve o ritmo. As 510,67 mil adesões registradas no mês representaram o maior volume mensal dos últimos dez anos, acima da média de 477,44 mil observada em 2026. O tíquete médio chegou a R$ 113,57 mil, 13,8% acima dos R$ 99,79 mil registrados em agosto de 2025.

No acumulado até agosto, as contemplações chegaram a 1,18 milhão, 1,2% acima do ano anterior, enquanto os créditos disponibilizados alcançaram R$ 85,72 bilhões, alta de 6,5%.

Isso mostra que, neste momento, as adesões estão crescendo em ritmo superior ao da liberação de créditos — movimento compatível com a expansão da base de participantes do sistema.

A mudança está nos imóveis

A grande mudança de 2026 está na composição do sistema.

Segundo a ABAC, cinco dos seis segmentos registraram crescimento nas vendas até agosto, com imóveis na liderança, com alta de 39,4%.

O segmento chegou a 3,34 milhões de participantes ativos em agosto, 33,7% acima do mesmo mês de 2025, e passou a ser o segundo maior segmento do sistema, atrás apenas dos veículos leves.

O FGTS ajuda a explicar parte desse movimento. De janeiro a julho, 2.795 consorciados utilizaram R$ 257,68 milhões do fundo, 32,9% acima do mesmo período de 2025.

O dado chama atenção porque mostra uma mudança importante no perfil do consórcio imobiliário. Ele deixa de ser visto apenas como uma alternativa para quem quer comprar um imóvel no futuro e passa a integrar estratégias mais amplas de planejamento patrimonial.

A projeção inicial da ABAC para o segmento de imóveis em 2026 era de crescimento de 25%. Os resultados registrados até agora estão significativamente acima dessa expectativa.

E os demais segmentos?

Nos demais segmentos, o quadro é mais moderado, mas predominantemente positivo.

Veículos leves continuam sendo o maior segmento em número de participantes. Até agosto, chegaram a aproximadamente 5,5 milhões de participantes ativos, mantendo a liderança do sistema.

As motocicletas também continuam apresentando crescimento, enquanto os serviços avançam em ritmo positivo.

Os veículos pesados, por outro lado, seguem como ponto de atenção. As vendas acumuladas apresentaram retração, embora os resultados mensais indiquem sinais de recuperação gradual.

A fotografia, portanto, não é de crescimento uniforme. O sistema cresce, mas alguns segmentos estão avançando muito mais rapidamente que outros.

Nem tudo é euforia

O crescimento dos números não significa ausência de riscos.

A confiança dos executivos do setor esfriou ao longo do ano. O Índice de Confiança do Setor de Consórcios (ICSC) fechou junho em 53,8 pontos, queda de 10,8 pontos em relação a fevereiro.

Apesar da queda, o indicador permaneceu acima dos 50 pontos, linha que separa confiança de cautela.

Segundo o economista da ABAC, Luiz Antonio Barbagallo, o recuo recomenda prudência diante do ambiente econômico e das eleições. A pesquisa apontou a percepção sobre a economia como principal fator para a queda da confiança, enquanto as expectativas em relação ao próprio sistema permaneceram positivas.

É uma distinção importante.

Os executivos podem estar mais cautelosos com a economia sem necessariamente enxergar uma deterioração do modelo de consórcios.

Perspectiva para 2027

A ABAC ainda não divulgou uma projeção oficial de crescimento para 2027.

Em setembro, porém, a entidade já apresentou uma primeira leitura sobre o cenário. Segundo o economista Luiz Antonio Barbagallo, uma avaliação mais precisa dependerá do ambiente econômico que se formar após as eleições e das medidas que forem adotadas pelo próximo governo. A entidade informou que somente a partir do final de outubro deverá trabalhar com um novo cenário e estimar taxas de crescimento para cada um dos seis segmentos do sistema.

Os sinais disponíveis apontam para um cenário menos linear.

De um lado, o sistema chega ao segundo semestre com 13,55 milhões de participantes ativos, forte crescimento no segmento imobiliário e utilização crescente do FGTS.

De outro, a confiança dos executivos recuou ao longo de 2026, a base de comparação será mais alta e o ambiente econômico continua sujeito a mudanças.

A própria ABAC avalia que uma eventual desaceleração da economia pode produzir números mais modestos em 2027.

Por isso, mais do que tentar antecipar uma taxa de crescimento, vale observar três variáveis: o comportamento da renda e do emprego, a trajetória dos juros e a evolução do segmento imobiliário.

A leitura de que 2027 poderá apresentar um crescimento mais moderado que 2026 é, portanto, uma análise dos indicadores disponíveis — e não uma projeção oficial da ABAC.

O que os números já mostram, entretanto, é uma transformação importante: o consórcio está deixando de ocupar apenas um espaço ligado à compra planejada de veículos e imóveis e ganhando relevância como ferramenta de planejamento de patrimônio.

E talvez essa seja a parte mais importante desse boom.

Não se trata apenas de vender mais cotas.

Trata-se de entender por que cada vez mais pessoas estão escolhendo planejar antes de comprar.

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Eduardo Mello é educador financeiro e especialista em consórcios. Atua há mais de 30 anos na área de ensino, como professor e coordenador de cursos de graduação e pós- graduação. É também jornalista, com 7 anos de experiência na TV Globo, publicitário e gestor de empresas certificado com as credenciais PgMP (Program Management Professional) e PMI- RMP (Risk Management Professional), ambas concedidas pelo Project Management Institute (PMI). Além disso, Eduardo participou por 8 anos de projetos em parceria com o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e o CIAT (Centro Interamericano de Administrações Tributárias), atuando junto às Secretarias de Fazenda do Brasil, México, Argentina, República Dominicana, Chile e Panamá. Com uma linguagem acessível e foco em soluções práticas, ele já ajudou milhares de brasileiros a entenderem melhor como planejar suas finanças e conquistarem seus objetivos de vida. Na Ademicon, Eduardo atua na linha de frente da Unidade Jacarepaguá que leva conhecimento, orientação e inspiração para quem deseja transformar sua relação com o dinheiro.

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