Realizado no último sábado (28), na Barra da Tijuca, o tradicional Arraiá do Baixola reuniu cerca de 600 convidados, entre familiares, personalidades e artistas, numa celebração que foi além da música e da comida típica — uniu cultura popular, cenografia grandiosa e arrecadação solidária para a obra Dona Meca.

Arraiá do Baixola: uma festa com propósito e afeto

“Se tem uma coisa que o Romário sabe fazer além de gol, é forró.” A frase veio acompanhada de uma gargalhada cúmplice de uma convidada vestida de chita e chapéu de palha, dançando animadamente entre a cadeia cenográfica e a grande fogueira montada na casa do ex-jogador e atual senador, na Barra da Tijuca. Era sábado, 28 de junho, e o Rio de Janeiro assistia à 17ª edição de uma das festas juninas mais aguardadas do calendário carioca: o Arraiá do Baixola.

Mas não era só mais um arraiá de celebridade. Sob a luz dos balões e ao som de sanfona e zabumba, a noite teve um tempero que vai além do milho e do baião de dois: o ingrediente principal foi a solidariedade. Cada convidado — cerca de 600 no total — doou 2 kg de alimentos não perecíveis para a obra social Dona Meca, que acolhe crianças com deficiência. Uma corrente de cuidado que, em tempos de superficialidade e redes sociais plastificadas, aquece mais que quentão.

Caricaturas, cenários e personagens: a cultura como espetáculo

A decoração foi um show à parte. Comandada por Leco Biagioni, produtor da festa há 15 anos, a residência de Romário foi transformada em um vilarejo nordestino cinematográfico. Celeiro, igrejinha, carroça, cadeia cenográfica e uma vaca de mentirinha dividiam o espaço com banners de dois metros com caricaturas da família Faria, rebatizados com nomes como Romário Carcará, Davisinho do Agreste (Romarinho), Bellinha Xodó, Zoraidi Mandacaru e Ivy do Luar. O bom humor e o regionalismo deram o tom: era a elite se permitindo brincar com a cultura popular — e respeitando-a.

“Não é só uma festa, é a nossa forma de mostrar afeto, de valorizar o que o Brasil tem de mais bonito: sua gente, sua música, sua comida, seu coração”, diz Romário, entre uma selfie com fãs e um gole de quentão.

Forró, charme e teatro: da quadrilha ao sertão performático

A pista de dança coberta sobre a piscina pulsou até o amanhecer. A quadrilha Carcará fez bonito no figurino e na coreografia. Os DJs Michell, com seu baile charme de Madureira, e Fabiano Bove não deixaram ninguém parado. E, como se não bastasse, Os Elétricos encarnaram Maria Bonita e Lampião, em uma performance que arrancou aplausos emocionados. Um arraiá que também é palco.

“As pessoas acham que festa junina é só bandeirinha e paçoca, mas aqui a gente conta histórias, homenageia ancestrais e mantém tradições vivas”, conta Moniquinha Flor, uma das “personagens” criadas para a ambientação.

Crianças brincando, adultos brindando: alegria para todas as idades

Enquanto os pequenos corriam entre brinquedos infláveis sob os cuidados do animador Salsicha, os adultos se deliciavam com os drinks do Rei dos Drinks e um banquete de respeito, assinado pelo chef Sergio Avelino, o Serjão. Entre as iguarias: caldo de abóbora com carne seca, vaca atolada, angu com linguiça, baião de dois, milho na manteiga, cuscuz, canjica, pipoca, espetinho e quentão. Uma verdadeira viagem aos sabores da roça em pleno asfalto da Zona Oeste.

A solidariedade como bandeira

Não há exagero em dizer que o Arraiá do Baixola virou uma referência de como a cultura pode caminhar ao lado do compromisso social. “Todo ano, além da festa, a gente faz questão de apoiar a Dona Meca. É nossa maneira de agradecer tudo que temos, ajudando quem mais precisa”, reforça Zoraide Faria, mãe de Romário.

Segundo dados do IBGE, mais de 30% das famílias com crianças com deficiência vivem abaixo da linha da pobreza no Brasil. Em um país com tantas urgências, cada gesto importa — e alimentar essas famílias é um ato político, mesmo quando vem envolto em bandeirinhas de festa.

O São João da inclusão

A XVII edição do Arraiá do Baixola provou que tradição e transformação podem dançar juntas na mesma quadrilha. Que é possível celebrar a cultura popular sem diluí-la. Que política também se faz com afeto, riso e partilha.

Ao fim da noite, entre os últimos passos de forró e as últimas colheres de canjica, uma pergunta se ouvia em tom uníssono:

“E aí, quando é o do ano que vem?”

Num país ferido por desigualdades históricas, cada celebração que honra a cultura do povo e se compromete com a justiça social é, antes de tudo, um ato de resistência. Que o Brasil seja menos cínico e mais arraiá — cheio de alma, cheiro de fogueira, e pão dividido na mesa.

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