O poder sempre fala alto demais para não ouvir o silêncio que denuncia sua culpa.

Por Silver D’Madriaga Marraz

O som da desigualdade não é o grito — é o contraste entre quem fala e quem não é ouvido. As periferias, condenadas à mudez institucional, sobrevivem entre vozes interrompidas e ecos que nunca retornam. Já as elites, acostumadas à reverberação de si mesmas, transformam qualquer sussurro em discurso, qualquer interesse em verdade. Vivemos numa sociedade em que o volume do poder define o valor da fala, e o silêncio dos esquecidos é confundido com consentimento.

O silêncio das periferias não nasce da ausência de voz, mas da recusa em escutá-las. Há séculos, o barulho das elites cobre as palavras que emergem das margens. Quando o pobre fala, o sistema troca de estação. Quando o favelado denuncia, o noticiário muda de pauta. Quando a periferia chora, a cidade liga o som. O ruído das elites não é apenas acústico — é simbólico. Ele serve para encobrir a dissonância da injustiça.

A elite aprendeu a transformar sua fala em autoridade. O poder econômico e cultural amplifica o que dizem e eterniza o que pensam. Suas ideias não precisam ser profundas, basta que sejam ouvidas. Já a periferia precisa gritar para existir — e, mesmo assim, raramente é compreendida. A diferença entre o centro e a margem é que, no primeiro, o som se multiplica; no segundo, ele é abafado.

Mas há força no silêncio. O silêncio das periferias é uma resistência que amadurece em subterrâneo. É o murmúrio que se acumula até virar movimento. É o gesto contido que, um dia, se transforma em levante. O silêncio é o terreno fértil das revoluções. As elites não o percebem, porque confundem ausência de fala com ausência de pensamento. Não sabem que, enquanto fazem barulho para se manterem, há um país inteiro aprendendo a escutar o próprio grito.

O ruído das elites é também o ruído do medo. Medo de perder o privilégio, medo de enxergar o abismo, medo de reconhecer que sua tranquilidade é construída sobre a inquietação alheia. Falam muito para não ouvir. Fazem barulho para não pensar. O som constante do poder é a trilha sonora de sua própria alienação.

A periferia, por outro lado, fala através de outras linguagens: o corpo, a música, o grafite, o funk, o slam. Onde falta microfone, nasce arte. Onde falta espaço, nasce ocupação. O silêncio, aqui, não é ausência — é forma de sobrevivência. É o intervalo entre uma batida e outra, onde a dignidade se reinventa.

Enquanto o ruído das elites se multiplica em discursos e promessas, o silêncio das periferias se transforma em voz coletiva. E, quando esse silêncio se rompe, não há mais retorno: o som que emerge é o da história sendo corrigida.

A sociedade que teme o silêncio das margens ainda não entendeu que é nele que germina o futuro. O ruído do poder é efêmero; o silêncio dos oprimidos é paciente. E o tempo, inevitavelmente, dá razão a quem soube esperar calado até ser impossível não ouvir.

Talvez a verdadeira revolução comece quando aprendermos a escutar o que o silêncio diz — e a questionar o que o barulho tenta esconder. No fim, o ruído das elites é apenas disfarce; já o silêncio das periferias é o som contido da verdade prestes a explodir.

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