FORÇA, CONSCIÊNCIA E CRIATIVIDADE
Ela acredita que a arte não apenas decora o mundo, mas cura quem o habita. Com um pé no interior paulista e o coração batendo no ritmo do Sul, nossa convidada de hoje transformou sua própria jornada em um manifesto de expressão nas redes sociais.
Nascida em Guararema, interior de São Paulo, ela percorreu os quilômetros que separam suas raízes paulistas da energia de Esteio, na região metropolitana do Rio Grande do Sul, hoje morando na cidade maravilhosa, Rio de Janeiro. Essa mistura de sotaques e vivências moldou a visão de mundo de uma mulher de apenas 25 anos. Sabe exatamente de onde veio e para onde quer levar sua arte.
Primeiramente, seja bem-vinda, Mana!
Roberto Valleck:
Mais do que um nome, você se tornou parte de um movimento. Quem te acompanha já conhece bem o mantra que virou sua marca registrada: ‘Muita força, consciência e criatividade para você!’ Todos que assistem seus vídeos esperam o momento desta sua fala. Como surgiu a ideia deste bordão tão impactante?
Mana Mayaa: O bordão nasceu depois de um entendimento do impacto das palavras. As palavras criam, abençoam e amaldiçoam. Quem é poeta, filósofo ou mago sente isso. Queria algo para abençoar a pessoa de maneira verdadeira com pilares que já haviam me sustentado. Força de fluxo, não apenas a força do esforço, mas a energia que ronda nossos pensamentos, ânimo, alegria. Assim que encontramos essa força, inevitavelmente encontramos a consciência e, da consciência, podemos criar coisas novas. Com arte, com falas, com abraços, com comida, do jeitinho individual de cada um.
Roberto Valleck:
Interessante, em falar em arte, entre o rigor acadêmico da sua graduação e a visão da arte como um sacerdócio/ terapêutico, onde reside a sua motivação pessoal? O que a levou a escolher as Artes Visuais como o seu meio de expressão e ofício?
Mana Mayaa: Fui resultado de políticas públicas aplicadas, eu fazia Mais Educação, passava a tarde na escola e aquilo era incrível, fazia diferentes oficinas todos os dias à tarde. Tinha artes marciais, teatro, circo, percussão, tudo que era relacionado a artes me dava prazer sobre a vida, encanto. Os artistas que visitavam a escola me hipnotizavam. Todo mês recebíamos um músico, artista plástico, dentre outros. A minha dúvida só foi qual arte eu iria, fiquei entre moda, dança e teatro. Acabei indo para as Artes Visuais por ver que tinha uma cadeira em diferentes eixos. Entrei na faculdade achando que eu não ia gostar de lecionar, mas amei aprender ensino e aprendizagem. Me apaixonei e consegui mudar muita coisa em mim mesma. Na faculdade, percebi que aprender a aprender era o início do autoconhecimento. Outro grande impacto do curso foi ter ficado menos preconceituosa, por aprender diferentes cosmovisões e culturas. A arte é terapêutica, como somos desestimulados a ela, preciso usar o termo Arte terapia mas arte em si, no meu ponto de vista, já é magia, autoconhecimento. Mas entendo a necessidade de percorrer esse caminho de maneira mais intencional e literal e promover para que as outras pessoas também percorram e se sintam mais completas e felizes.
Roberto Valleck:
Muitas vezes, o imaginário brasileiro sobre o Rio Grande do Sul invisibiliza a força do movimento negro local, que é historicamente consolidado e atuante de acordo com o rico conteúdo que apresenta. Olhando para a sua trajetória, como a sua arte dialoga com essa resistência gaúcha e quais figuras ou lideranças desse movimento foram fundamentais para pavimentar o caminho que você trilha?
Mana Mayaa: O Movimento negro gaúcho e o Hip Hop, construíram minha autoestima e me colocaram no mercado, como dançarina, produtora cultural e facilitadora de rodas. Ali eu tive possibilidade de caminhos, assim como na escola com o Projeto Mais Educação. Me senti abraçada nas rodas de conversas e consegui curar muitas feridas e dores. Às vezes, não conseguimos voar mais alto se continuamos a levar dores como um saco pesado nas costas, mesmo que não tenhamos sido nós que enchemos esse saco. Ele encosta nas feridas e fica abrindo mais o machucado. Sanny Figueiredo foi minha principal mentora e mãe em muitos caminhos, no político-social, no espiritual, ela também é fruto do abraço do movimento negro gaúcho, ela sempre fala: “Sejamos sementes”, ela me semeou assim como várias outras mulheres do movimento que me empurraram de inúmeras formas. Como a Titi, Vera Tita, Odete, Flávia Ferreira e outros nomes bem conhecidos na região de Porto Alegre pelo movimento.
Como o seu desenvolvimento pessoal e a sua percepção de mundo foram atravessados pelas questões de raça e gênero ao longo da vida? Mana Mayaa: Desde bebê, na verdade, cresci na Serra do RS. Com três anos de idade,e eu já sabia que era negra. Fui adotada na infância por uma família de cor branca, mas voltei para minha mãe depois. Quando passeava com a minha mãe adotiva, era comum acontecer algo racista. Eu sinto que sempre fui incrível, mas me apagava, como se eu não merecesse brilhar, esse sentimento em muitas meditações, imersões foi herança dos olhares e falas racistas que recebi enquanto crescia. A questão de gênero me abafou muito na expressão corporal da dança, levou muitos anos para eu conseguir realmente me soltar, era como se meu corpo fosse pecado.
Roberto Valleck:
O crescimento orgânico do seu perfil mostra que seus conteúdos sobre arte e magia ressoam profundamente com a nova geração. Considerando que essa audiência é altamente influenciável em suas escolhas e visões de mundo, como você lida com o peso dessa liderança? Existe um limite ou uma curadoria específica que você impõe ao seu processo criativo para proteger seu público?
Mana Mayaa: Sim, eu faço alguns acordos comigo mesma e meus mentores espirituais. Por falar de assuntos delicados como autoconhecimento, eu interior. Eu leio constantemente as críticas de intelectuais sobre a indústria da cura. Às vezes, o que era pra ser cura pode virar pressão. O autoconhecimento é bem desafiador por si só. Eu trabalho com alternativas e poder de escolha, tem assuntos que são científicos mas tem assuntos que entram na minha cosmovisão particular, deixo exposto esse debate de tempos em tempos. Sou alguém que acredita em magia e no poder doperdão,o por exemplo, mas existem muitas filosofias e sacerdotes de cura com métodos diferentes e devemos apresentar isso as pessoas, é o que acho mais ético. Curar também é sobre aumentar a perspectiva, minha e do outro.
Roberto Valleck:
Olhando para a sua trajetória desde cedo, como você lidou com as pressões externas e o julgamento social para manter a coragem de expressar sua verdadeira identidade através da sua arte e do seu estilo?
Mana Mayaa: Olha Valleck (risos), Aceitar ser diferente: Mesmo que machucasse e recebesse rejeição ou piadas dos colegas de classe por exemplo, me vestia extremamente autêntica, fazia minhas próprias roupas, chorar fazia parte mas deixar de ser quem eu era… não.
Roberto Valleck:
Uma curiosidade, qual é o primeiro passo para quem deseja navegar com consciência entre as influências sociais e manter a sua autenticidade?
Mana Mayaa: Entender o poder dos movimentos sociais, como tudo é moldado por discursos e grupos, devemos escolher bem onde estamos.
Roberto Valleck: O jovem é teimoso de acordo com cada signo rs, em sua trajetória, de que maneira o ato de discordar e a ‘teimosia’ deixaram de ser obstáculos para se tornarem as ferramentas que definiram a sua voz e o seu sucesso?
Mana Mayaa: Ser teimosa com meus sonhos, discordar de tudo o tempo todo me levou ao meu próprio discurso. Mulheres tem visões únicas sobre o mundo e a vida que constantemente tem medo de compartilhar, discordar foi a teimosia necessária para minha harmonia interna e alcance das minhas metas.
Roberto Valleck:
Baixou o filosofo aqui agora (risos). Qual é o maior desafio e a maior recompensa em decidir ser diferente em uma sociedade que valoriza o óbvio e o superficial?
Mana Mayaa: Conhecimento é poder, falar e ouvir isso não faz com que vc entenda, vc só vai entender quando for afundo nisso, ser explorador e pesquisador de si mesmo e da história do mundo. Quanto mais fundo vc vai mais raso vc vê que está. Mas aos poucos sua vida muda por isso.
Roberto Valleck:
2026, em um mundo movido por algoritmos e militância digital, o que ainda falta para que as transformações sociais sejam realmente humanas?
Mana Mayaa: A empatia pode ser construída intelectualmente, mas precisa ser sentida. Nenhum movimento social, pauta ou tecnologia tem sentido se não conseguirmos alcançar amor, o afeto e o amor precisam ser pautas.
Roberto Valleck:
Hoje vivemos uma polarização um tanto quanto insuportável nas redes sociais, na sua opinião, ser ‘do contra’ é revolucionário ou apenas uma armadilha que nos impede de mudar a realidade de quem mais precisa?
Mana Mayaa: (pensativa), É descolado odiar tudo e todos e isso faz manutenção das desigualdades das classes de base.
Para finalizar. Existe um mito de que ser forte é ignorar a dor (essa é uma pratica minha). Como você ressignificou o conceito de força ao decidir encarar aquilo que já te machucou?
Mana Mayaa: A revolução precisa começar dentro do meu coração, trabalhando individualmente tudo que me machucou ignorar não me fez, não me faz e nunca me fará mais forte.
Roberto Valleck:
Considerações finais…
Mana, muito obrigado pela sua generosidade em compartilhar sua visão e seus saberes conosco, achei muito importante sua perspectiva, ela traz uma luz muito necessária para os tempos atuais e tenho certeza de que nossos leitores se sentirão inspirados tanto quanto eu. Que sua jornada continue sendo guiada por boas energias, clareza e seja bem-vinda a sua nova morada, o Rio de Janeiro!
Roberto Valleck:
Última pergunta.
Você acredita que a arte e o brincar são acessórios na nossa vida ou eles ocupam um lugar de necessidade básica para o ser humano?
Mana Mayaa: Valleck, não somos donos da natureza, somos natureza, é muito importante se divertir e brincar, assim como fazer arte, tão importante quanto comer, tomar água.

Instagram: @mana_mayaa
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A entrevista conduzida por Roberto Valleck foi muito interessante e intensa: indagações concretas e respostas impactantes..