Isabel de Fátima Alvim Braga

Para abrir a coluna

Uma cientista da UFRJ passou quase trinta anos estudando uma proteína que, no laboratório, parecia ajudar ratos com a medula cortada a mexer as patas de novo. O caso chegou ao Brasil inteiro como se a paralisia tivesse cura. O papel que sustentava essa conversa era um rascunho de 2024, com oito pacientes, sem grupo de comparação e com um gráfico em que um morto aparecia melhorando quase 400 dias depois. A patente, essa, é de 2007. Não nasceu desse estudo. E a proteção fora do Brasil, segundo a própria pesquisadora, caiu porque faltou dinheiro para pagar a taxa.

O que é essa substância, sem jargão

A medula é o cabo que liga o cérebro ao corpo. Quando esse cabo se rompe, a ordem de mexer a perna não chega. A laminina é uma proteína que o corpo já fabrica, sobretudo na placenta, e que ajuda os neurônios a se encostarem uns nos outros. Tatiana Coelho de Sampaio, bióloga e professora da UFRJ, e a equipe dela montaram em laboratório uma versão grudada dessa proteína, a polilaminina. A ideia é simples de contar: jogar essa cola no buraco da lesão, para o nervo ter por onde tentar passar.

Isso não é um comprimido de farmácia. É um produto experimental, aplicado direto na medula, em lesão recente. Ainda não é remédio aprovado nem está à venda.

A história, na ordem

O fio começa no fim dos anos 1990, no Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ. Em 2010 a equipe publicou, no FASEB Journal, um resultado de verdade em rato: a forma polimerizada melhorava o andar depois de compressão ou corte da medula; a laminina solta, não. É o alicerce científico. Não é milagre, é artigo de animal.

Em 2007, bem antes de qualquer paciente, a pesquisadora pediu patente no Brasil para essa versão inicial e o uso em lesão medular. Patente não é prova de que funciona em gente. É um pedido de exclusividade sobre uma invenção. A concessão só saiu em 2025. Como o relógio de 20 anos começa no dia do pedido, essa primeira patente vence por volta de 2027. Ela contou ter pago do próprio bolso para não deixar a nacional morrer.

Os oito pacientes entram em 2018. Lesão traumática completa, aguda. Todos receberam a substância. Não houve um grupo igual, operado e fisioterapado do mesmo jeito, sem a proteína. Em 2021 o laboratório Cristália fecha parceria com a UFRJ para tentar virar isso em medicamento. A empresa fala em cerca de R$ 100 milhões; reportagens posteriores citam algo perto de R$ 150 milhões, somando uso compassivo e papel de patente.

O artigo humano só aparece em fevereiro de 2024, num site de rascunhos científicos, o medRxiv. Pré-print quer dizer isto: o autor publicou antes de outros cientistas julgarem. Tatiana disse ao g1 que deixou o texto lá para registrar autoria, achando que não ia dar ibope, e que ele não estava bem escrito. Em 2026 o caso viralizou. Aí o rascunho virou manchete.

O erro que qualquer leitor entende

No rascunho, um paciente morria cerca de cinco dias depois da aplicação. No gráfico, o mesmo paciente aparecia acompanhado por quase 400 dias, melhorando. Não dá para morrer na terça e melhorar no ano seguinte. A pesquisadora chamou de erro de digitação: o gráfico seria de outra pessoa. Em março de 2026 ela admitiu isso ao g1 e prometeu revisar o texto.

Havia mais. Os exames de eletromiografia, que medem se músculo e nervo estão conversando, saíram crus e mal montados. Especialistas disseram que não mostravam a melhora escrita ao lado. Ela disse que trocaria as figuras. E que reescreveria o artigo, sem mudar a conclusão.

O que o rascunho não conseguia provar

O erro de gráfico é feio, mas se corrige. O desenho do estudo, não.

  1. Não tinha grupo controle. Todo mundo tomou a proteína. Quem melhorou pode ter melhorado da cirurgia, da fisioterapia intensa ou do que o corpo às vezes recupera sozinho. Sem a fila de comparação, não dá para apontar o dedo para a substância.
  2. Eram oito pessoas. Seis teriam tido algum movimento de volta, em graus bem diferentes. O vídeo que correu no celular não é a média. É um caso.
  3. O teste não tinha sido registrado antes num banco internacional de pesquisas clínicas. Ela disse que não sabia que precisava. Revista séria cobra isso para evitar que o resultado seja contado só quando agrada.
  4. A régua de comparação era frágil. O texto usava uma taxa de melhora espontânea de cerca de 9%. Editores contestaram o número. Revisores também disseram que o mecanismo não ficou explicado e que o efeito parecia artefato: coisa que parece real e pode ser falha de método.

Nature Communications, outra revista do grupo Nature e o Journal of Neurosurgery recusaram o trabalho. Em agosto de 2026 uma versão corrigida saiu na Spinal Cord, mais sóbria, falando de segurança e de ser possível aplicar, não de cura. O gráfico do morto foi consertado. O tamanho da amostra e a falta de controle continuaram.

A patente não era o estudo

Quem leu a polêmica pode achar que o artigo dos oito pacientes era o que dava direito de patente. Não era. O pedido da molécula é de 2007, onze anos antes do primeiro paciente e dezessete antes do rascunho. A pesquisadora chegou a segurar a publicação dos dados humanos porque ainda não tinha a patente fechada e temia que outro grupo reivindicasse a descoberta. Ou seja: a patente veio antes do artigo, não por causa dele.

Fora do Brasil, ela diz que a universidade perdeu a proteção porque não pagou a anuidade, sobretudo nos cortes de 2015 e 2016. A frase atribuída a ela é direta: por causa dos cortes, perderam todas as patentes fora do Brasil. O corte nas federais naqueles anos é fato. O Valor, em abril de 2026, registra a perda da exclusividade internacional entre 2016 e 2017 por falta de taxa, com a patente brasileira da molécula valendo até 2027. O que não aparece, com lista e comprovante, é o país a país.

O Cristália conta outra história, e as duas cabem ao mesmo tempo. Em nota de 19 de fevereiro de 2026, o laboratório diz que pediu em 2022 a patente nacional e em 2023 a internacional do processo de extrair, purificar e polimerizar a substância, feito no centro de pesquisa da empresa. Se concedidas, valeriam até 2042 e 2043. O vice-presidente Rogério Almeida explicou ao Valor que a estratégia é segurar o processo quando a molécula de 2007 cair em domínio público, em 2027. Pedido não é patente dada. Esses pedidos ainda estavam em análise.

O que a coluna pode dizer sem escorregar

Dá para reconhecer o trabalho de décadas e o dado de rato de 2010 sem transformar oito pessoas num remédio. Dá para dizer que a pesquisadora admitiu o gráfico e a redação. Dá para dizer que, sem grupo de comparação, ninguém provou que foi a proteína. Dá para dizer que a patente velha é de 2007, que a internacional da UFRJ caiu por anuidade não paga, e que o que o laboratório tenta proteger agora é o modo de fabricar, não o rascunho de 2024.

A Anvisa autorizou em janeiro de 2026 uma fase 1: cinco adultos, lesão torácica completa, recente, para ver se é seguro aplicar. Fase 1 não responde se cura. Uso compassivo, aquele em que um paciente recebe o produto fora do ensaio, também não. Não tem fila de comparação nem pergunta definida antes.

A frase que segura a coluna é esta: houve uma pesquisa séria de laboratório, um piloto pequeno demais e mal apresentado, e duas conversas de patente que o noticiário misturou.

Esperança não é o problema. O problema é vender esperança com um gráfico em que o morto anda.

Fontes

[1] Pré-print, fev. 2024. DOI 10.1101/2024.02.19.24301010.

medRxiv

[2] Menezes et al., FASEB Journal, 2010. DOI 10.1096/fj.10-157628.

FASEB Journal

[3] g1, 7 mar. 2026. Admissão de erros no gráfico e na escrita.

g1, entrevista

[4] g1, 11 mar. 2026. Por que as revistas recusaram.

g1, recusas

[5] g1, 4 ago. 2026. Publicação na Spinal Cord; eficácia segue incerta.

g1, Spinal Cord

[6] Estadão, 27 fev. 2026. Rejeição por ao menos três revistas; crítica de artefato.

Estadão, rejeição

[7] Estadão, 24 fev. 2026. Estudo sem grupo controle.

Estadão, controle

[8] Estadão Verifica, 24 fev. 2026. Perda da patente internacional da UFRJ.

Estadão Verifica

[9] O Globo, 25 fev. 2026. Pedidos do Cristália de 2022 e 2023.

O Globo

[10] Nota do Cristália, 19 fev. 2026.

Cristália, nota

[11] Valor International, 22 abr. 2026. Anuidades, domínio público em 2027, pedidos em análise.

Valor

[12] Página do Cristália. Fase 1 autorizada em janeiro de 2026; parceria em 2021.

Cristália, polilaminina

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Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

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