Isabel de Fátima Alvim Braga

Em 18 de março de 2024, na entrevista a Don Lemon, Elon Musk falou da cetamina (ou ketamina) como receita, não como ensaio. Disse que há momentos de “estado químico negativo no cérebro, tipo depressão, ou depressão que não está ligada a nenhuma notícia ruim”, e que a cetamina ajuda a sair desse enquadramento. A receita, segundo ele, veio de “um médico de verdade”. A quantidade que declarou foi “uma quantidade pequena, uma vez a cada duas semanas, ou algo assim”. Disse que não abusa, porque excesso impede o trabalho: “se você usa cetamina demais, não consegue realmente trabalhar.” Atribuiu o quadro à genética e disse ter falado disso em público porque achou que podia ajudar outras pessoas. Do lado do investidor, a frase foi de execução: se algo que toma ajuda a construir valor, deve continuar tomando. É depoimento. Não traz miligrama, não traz escala, não é o spray de escetamina.

O frasco, em linguagem de cozinha

Cetamina, no rótulo também quetamina, é um líquido de hospital e de biotério. Não é antibiótico. Não é vacina. Não é o comprimido de todo dia da depressão. É anestésico. A molécula se chama cloridrato de cetamina. Em 1970 a agência americana de medicamentos aprovou a cetamina, com o nome Ketalar, para cirurgia. Desde então o frasco vive em dois lugares: o centro cirúrgico e o biotério.

O efeito, para quem nunca viu, é este. A pessoa, ou o animal, não apaga como no gás. Fica dissociada. O corpo não responde ao recado de dor do jeito habitual, e a respiração, em geral, continua. Por isso o veterinário usa para segurar um macaco na hora de coletar sangue. Por isso o anestesista usa, em dose baixa e junto com outro fármaco, quando o paciente não aguenta um indutor que derruba a pressão.

A unidade que importa é o miligrama. Um miligrama é um milésimo de grama. O frasco veterinário da cotação que vamos ler traz 100 miligramas em cada mililitro. Um mililitro é a quinta parte de uma colher de chá. A seringa do macaco não leva o frasco. Leva uma fração.

A fechadura

O cérebro fala com glutamato. Glutamato é o recado que excita. O receptor NMDA é a fechadura desse recado. Cetamina entra na fechadura e não deixa o recado passar. Em dose de cirurgia, o resultado é anestesia dissociativa. Em dose baixa, repetida, a hipótese da depressão é outra, e não é poesia: o bloqueio curto em interneurônios inibitórios solta um pulso de glutamato, e esse pulso empurra a plasticidade, a capacidade da sinapse de se refazer. É o que a revisão de farmacologia clínica da escetamina descreve. Não é “feliz na hora”. É um receptor, uma janela de minutos, e um efeito que os ensaios medem em escala. A molécula vendida como cetamina é racemato. Racemato quer dizer mistura de duas metades que são espelho uma da outra, a R e a S. A escetamina é só a metade S. Mesma fechadura. A indústria isolou a S, fez spray nasal e pediu registro para depressão que não cedeu a dois antidepressivos.

Musk descreveu um estado. Não descreveu a fechadura. No livro A sociedade da birra ela já estava desenhada, bem antes do frasco de biotério, e sem o nome de nenhum bilionário.

O cérebro não é um humor. É uma troca de recados. O recado que acende a célula se chama glutamato. A fechadura que recebe esse recado se chama receptor NMDA. Quando a fechadura abre, a célula dispara. Quando trava, o recado não passa. A cetamina é a chave que entra e trava. Em dose de cirurgia, a pessoa, ou o animal, fica dissociada: o corpo não responde como de costume, e a respiração em geral continua. É anestesia, não sono.

Em dose baixa, repetida, a conta muda, e o livro já separava as duas. O bloqueio é curto e cai numa célula pequena, o interneurônio, que estava segurando o recado. Quando ela solta, sai um pulso de glutamato. Esse pulso ajuda a sinapse a se refazer. Plasticidade é o nome técnico. Em linguagem de leigo, é a ligação entre duas células ganhando caminho novo. Não é felicidade de farmácia. Não é “feliz na hora”. É a mesma fechadura, em outra dose, numa janela de minutos. O ensaio mede isso em escala de depressão. O livro avisava que misturar as duas contas, a da cirurgia e a do humor, produz novela.

A molécula vendida como cetamina é mistura de duas metades espelhadas, a R e a S. A escetamina é só a S. Foi ela que virou spray: 56 ou 84 miligramas, dentro de clínica, com duas horas de observação. O paciente não leva o frasco para casa. A “quantidade pequena, a cada duas semanas” que Musk declarou cabe nessa ordem de grandeza. Cabe no depoimento. Não cabe no edital.

O que A sociedade da birra não tinha era a cotação: cinco litros, 140 frascos, 500 gramas, 16.666 aplicações de 30 miligramas, sem o livro de consumo. A fechadura explica o efeito que ele descreveu. Não explica para onde foi o litro.

A depressão que não cedeu

Depressão resistente, na definição do registro americano, é depressão maior que não respondeu a pelo menos dois antidepressivos no episódio atual. O spray se chama Spravato. A FDA aprovou em 5 de março de 2019, junto com antidepressivo oral. Em 2020 estendeu a sintomas depressivos com ideação suicida aguda, também junto com oral. Em 21 de janeiro de 2025 aprovou o uso sozinha, em adulto, como primeira monoterapia desse tipo.

Cada dispositivo entrega 28 miligramas. A dose de indução é 56 ou 84 miligramas, duas vezes por semana, durante quatro semanas. Depois, uma vez por semana ou a cada duas. O paciente não leva o frasco para casa. Aplica na clínica, sob supervisão, e fica duas horas em observação. O programa se chama REMS. Existe por sedação, dissociação e risco de desvio. Pressão é medida antes e depois. Não é comprimido de gaveta.

O ensaio de fase 4, liderado por Adam Janik e publicado na JAMA Psychiatry, comparou 56 mg e 84 mg com placebo, sozinhos, por quatro semanas. No dia 28 a diferença na escala MADRS foi de −5,1 pontos com 56 mg e de −6,8 com 84 mg. O efeito apareceu já nas primeiras 24 horas. Antidepressivo oral clássico leva semanas. Esse é o argumento. Não é cura publicada. É diferença de escala, num ensaio, contra placebo.

O preço de clínica no Brasil não entra nesta peça. Varia por serviço e não saiu de um edital único. O que entra é a dose: dezenas de miligramas, em dispositivo, dentro de sala. Não é litro.

O apelido

Special K é o apelido de rua da mesma substância. O nome não muda a molécula. Muda o frasco e a ausência de livro. A ONU trata como mercado, não como curiosidade. O World Drug Report de 2026 diz que a apreensão subiu até 2022, recuou um pouco em 2023 e 2024, e que 83% do que se apreendeu no mundo entre 2020 e 2024 foi no Leste e Sudeste da Ásia. Em 2023, só nessa região, foram 23,3 toneladas. A Europa ficou com 7% do período. As Américas, com 5%.

O Brasil, na série da Polícia Federal citada pelo jornal O Sul em 9 de junho de 2024, é outro tamanho. A PF passou a tabular a substância em 2021: 4 apreensões, 698 gramas. Em 2022, 10 casos, 2.514 gramas. Em 2023, 22 casos, 4.463 gramas, alta de 78%. Dezessete das 22 foram em São Paulo. O número oficial brasileiro é grama, não tonelada.

Este texto não descreve preço de rua, corte, secagem nem modo de inalar. Isso seria antiético. Isso não é dado de bula e não ajuda a ler o edital. A comparação que cabe é de massa. A porção que circula fora do hospital, nos relatos de saúde pública, também é de dezenas a poucas centenas de miligramas. A compra pública é de litro.

A conta de 30 miligramas

A compra que fecha número é a Cotação Eletrônica nº 45/2019 do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos, o biotério da Fiocruz em Manguinhos. Objeto: aquisição emergencial de anestésico veterinário. Aberta em 6 de setembro de 2019. Relatório no Comprasnet, código 363769.

Dois itens são cetamina a 100 miligramas por mililitro. Item 1: 50 frascos de 10 mililitros. Dá meio litro. Menor lance, R$ 941,39. Item 3: 90 frascos de 50 mililitros. Dá 4,5 litros. Referência, R$ 10.930,50. Menor lance, R$ 9.628,99. Fornecedor dos dois: E. R. Felix Produtos Agrop. Soma: 5 litros.

Cinco litros a 100 miligramas por mililitro são 500 mil miligramas. Quinhentos mil miligramas são 500 gramas. Essa é a massa. Não é estimativa. É multiplicação do edital.

Contenção de macaco, na faixa usada em biotério, fica na casa de 10 miligramas por quilo. Animal de 3 quilos: 30 miligramas. Quinhentos mil divididos por 30 dão 16.666 aplicações. Se a dose for o dobro, 60 miligramas, ainda são 8.333. Se for a metade, 15 miligramas, são 33.333. A conta não diz que foram feitas. Diz quantas cabem no frasco.

Indução cirúrgica humana, faixa publicada de 1 a 2 miligramas por quilo na veia. Adulto de 70 quilos, 1,5 mg/kg: 105 miligramas. Quinhentos mil divididos por 105 dão cerca de 4.760 induções. Um centro cirúrgico grande faz dezenas de anestesias por dia, e cetamina não é o indutor de todas. É opção. Cinco litros, numa compra só, cobrem anos de um bloco, ou um biotério que contenha macaco todo dia e ainda sobre.

Sessão de escetamina, para comparar massa e não produto: 84 miligramas. Quinhentos gramas dariam cerca de 5.950 sessões dessa dose. O spray não é o frasco veterinário. A conta só mostra a escala.

Conta, a partir de 500.000 mgDose usadaQuantas cabem
Contenção de macaco, 3 kg30 mg16.666
A mesma, em dose dobrada60 mg8.333
Indução humana, 70 kg105 mg4.761
Sessão de escetamina, só massa84 mg5.952
Apreensão da PF em 20234.463 ga compra é 11%

Aritmética do edital. Não é consumo comprovado.

Há uma divergência no próprio relatório. A descrição do objeto fala em 100 mg por mL. O campo complementar do item 3 diz 50 mg/mL. Se os dois itens forem 100 mg/mL, a conta é 5 litros e 500 gramas. Se o item 3 for de fato 50 mg/mL, a massa cai para 275 gramas, valor ainda alto.

O edital não fecha sozinho.

A cotação do biotério não é a única. O Comprasnet publica mais três, e o tamanho muda o sentido.Em março de 2020 o Centro de Pesquisa René Rachou, também da Fiocruz, em Belo Horizonte, homologou a cotação 17/2020: 120 frascos de 10 mL de cetamina a 100 mg/mL.

São 1,2 litro, 120 gramas, lance de R$ 2.378,99. Em setembro de 2023 Bio-Manguinhos, no mesmo campus de Manguinhos, homologou a cotação 222/2023: 50 frascos de 10 mL a 100 mg/mL, meio litro, 50 gramas, R$ 1.250,00, mais 50 frascos de 10 mL de escetamina a 50 mg/mL, da Cristália, 25 gramas. Bio-Manguinhos fabrica vacina.

A linha de envase não usa esse frasco. O que o instituto declara usar animal é estudo pré-clínico: soro, resposta imune, coleta de sangue e órgão. Meio litro cabe nessa conta. Em janeiro de 2026 a Saúde de Guarulhos publicou a dispensa 97001/2026, art. 75 da Lei 14.133: 60 frascos de 10 mL a 10%, 0,6 litro, 60 gramas, e o termo de referência escreve a finalidade, eutanásia de animais.

A de cinco litros continua sendo a do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos. Nos dois casos o livro de consumo não está no portal.

A escetamina de Bio-Manguinhos, produto de hospital supostamente comprado em edital de medicamento veterinário, o relatório também não explica. Teoricamente. Não foi considerado aqui seu uso off label e nem a diferença de preço entre as 2 substâncias.

Ketamin, da Cristália, é o nome comercial do cloridrato de escetamina de hospital. A bula do paciente, no site do laboratório, indica anestesia em intervenção diagnóstica e cirúrgica, parto e cesárea, uso adulto e pediátrico, via intravenosa e intramuscular, 50 mg/mL. Registro no Ministério da Saúde 1.0298.0213. Não é o Cetamin de biotério, que é racemato veterinário a 10%.

A molécula é a metade S. O frasco é de centro cirúrgico.


O edital põe os dois no mesmo objeto. O relatório não diz por que um instituto de vacina comprou o anestésico de hospital numa cotação de medicamento veterinário, nem se o frasco entregue foi o de ampola humana ou um equivalente veterinário com o mesmo nome.

Cinquenta frascos de 10 mL a 50 mg/mL são 25 gramas, cerca de 298 sessões de 84 miligramas, a dose alta do spray de depressão, ou cerca de 178 induções humanas de 2 mg/kg num adulto de 70 kg. A conta cabe num bloco cirúrgico pequeno. Não está escrita a finalidade.

Cetamina e escetamina são a mesma família. A primeira é a mistura. A segunda é só uma das metades.

O frasco de biotério traz as duas metades juntas, a R e a S. Chama-se racemato. A escetamina é só a S, a metade que a indústria isolou e vendeu como spray de depressão e como anestésico de hospital. A fechadura é a mesma. O que muda é a dose e o preço.

No animal, a diferença não justifica o frasco caro. Num estudo de 2023 em camundongo, a dose para anestesiar foi a mesma.

No cão, a S foi um pouco mais potente no empurrão único, cerca de uma vez e meia, e igual quando dada em soro. Os autores escreveram que ela não é duas vezes mais forte. Na cabra, metade da dose da S, depois de um sedativo, produziu o mesmo efeito da mistura. O ganho publicado é analgesia e, em gente e em cavalo, acordar um pouco mais rápido. Não é outro remédio.

Bio-Manguinhos comprou os dois na mesma cotação, em setembro de 2023. Cinquenta frascos de 10 mililitros da mistura veterinária, a 100 miligramas por mililitro: 50 gramas, R$ 1.250. Cinquenta frascos de 10 mililitros da metade S, a 50 miligramas por mililitro, marca de hospital da Cristália: 25 gramas, R$ 3.999,50. Cada miligrama da S saiu cerca de seis vezes mais caro.

O edital chama os dois de medicamento veterinário. A bula da Cristália é de centro cirúrgico, adulto e criança. O relatório não diz por que um instituto de vacina pagou o frasco caro para um efeito que, no animal, o frasco barato já entrega na mesma ordem de dose.

O tamanho dos outros

Quinhentos gramas são cerca de 11% de tudo o que a Polícia Federal apreendeu no Brasil inteiro em 2023. Uma cotação, de um instituto, chamada emergencial. Não é o mapa do tráfico. É a escala.

Comparação que está em edital, não em chute. Em janeiro de 2026 a Secretaria de Saúde de Guarulhos publicou dispensa para 60 frascos de 10 mililitros de cloridrato de cetamina a 10%, mais tiopental e xilazina. Sessenta frascos são 0,6 litro. A cotação do ICTB, seis anos antes, pediu 5 litros. Oito vezes o volume de uma secretaria municipal, num instituto que não é hospital de trauma.

Na mesma cotação 45/2019 há o que o biotério usa junto: 10 frascos de tiletamina com zolazepam, 119 de xilazina 2%, 48 de acepromazina. O conjunto é de anestesia veterinária. O que falta é o livro. Quantos primatas havia? Quantas contenções? Quanto venceu? Quanto foi incinerado? E qual a justificativa para comprar tanto?

O ICTB é o biotério da Fiocruz em Manguinhos, Avenida Brasil 4.365. Cria rato, camundongo, coelho e macaco para pesquisa. A unidade gestora das notas de empenho de cartão, noutro anexo, é a 254501. Isso não é a cotação da cetamina. É o mesmo prédio. As compras contidas nos cartões corporativos que nãi tinha sido adicionados aos processos em referência na LAI e questionamentos acima foram solicitados pelo fala.br. E essa reportagem se compromete a corrigir publicamente em até 24 horas qualquer erro de cálculo apontado pelas instituições citadas, bem como qualquer documento oficial emitido pela instituição, desde que constando o CPF e o SIAPE do servidor responsável pela informação. Não serão aceitas declarações em que não conste o nome do responsável pelas mesmas.

O que não se afirma

A cetamina é substância de controle especial da Portaria SVS/MS nº 344/1998. Em 2019, ano da Cotação Eletrônica nº 45/2019, estava na lista C1. A RDC nº 676, de 28 de abril de 2022, tirou a cetamina da C1 e pôs na B1, lista de psicotrópicos, junto com a escetamina. A bula passou a trazer, em destaque, “uso restrito a estabelecimentos de saúde”. Quem compra, guarda e aplica precisa de autorização de funcionamento e autorização especial da Anvisa, escrituração e balanço. Não é compra de luva. O edital não substitui o livro de entrada e saída.

A Polícia Federal não homologa a cotação. Entra quando a substância sai do uso autorizado. A Lei nº 11.343/2006 trata de desvio e tráfico. Os 4.463 gramas apreendidos em 2023 são desse lado, o ilícito. Os 500 gramas do ICTB são do lado lícito, se o livro existir. Sem o livro, a compra publicada não prova consumo veterinário nem prova desvio. Prova só o volume. O pedido de acesso à informação pede esse livro. É ele, não o apelido Special K, que diz se a Polícia Federal tinha o que apurar. O que seria estranho seria o instituto apresentar um relatório de incineração ou descarte por não uso e compras posteriores no mesmo volume rastreável pelo comprasnet. Infelizmente, essa informação não está disponível em razão do período eleitoral.

Não afirmo tráfico nesse caso. Afirmo compra publicada e consumo não publicado. Pedi, pela Lei de Acesso à Informação, o relatório de uso, a entrada, a saída e a sobra. Quando a resposta sair, o número deixa de ser conta e vira livro. Até lá, 5 litros são 500 gramas, 16.666 contenções de 30 miligramas, e 11% da apreensão federal de um ano.

O apelido Special K não transforma o frasco em prova. A ausência do relatório é o que impede fechar a frase. Quem tiver o livro de consumo do ICTB encerra a conta. Sem o livro, a frase que aguenta é esta: a compra é de litro, o uso é de miligrama, e o relatório não está no portal.

E o presidente do Conselho de Veterinária do Rio de Janeiro, ao que parece, diz não ter nada com isso.

Abaixo segue a resposta que foi enviada por e-mail para o presidente:

Prezados,Recebi, às 16h42 de 6 de outubro de 2026, a resposta do presidente Diogo Alves. Agradeço o retorno. Não o aceito como encerramento.O conselho escreveu que a reportagem, por si só, não permite identificar irregularidade no exercício da Medicina Veterinária, e que compra, uso, controle de medicamento e documento público devem ser tratados na instituição responsável. O pedido não era de laudo de licitação. Era de fiscalização do exercício. Quem prescreve, contém, eutanasia e decide tratamento em colônia de primata é médico-veterinário. Isso está na competência que o próprio ofício descreve.Peço averiguação das atas, avaliação da congruência entre o que a ata diz e o que o quantitativo mostra, e avaliação dos quantitativos. Os anexos vão nesta mensagem para esse fim. Não peço que o conselho substitua a Polícia Federal no controle da substância. Peço que leia a ata e diga se o veterinário que assina aquele manejo atuou dentro da profissão.Cetamina. Cotação eletrônica 45/2019, Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos. A reportagem está em https://revistapahnorama.com.br/2026/10/06/cinco-litros-no-bioterio/ e em inglês em https://revistapahnorama.com.br/2026/10/01/five-liters-in-the-animal-facility/. Cinco litros são 500 gramas. Em contenção de 30 miligramas, são 16.666 contenções. A peça não afirma tráfico. Afirma desproporção entre o volume comprado, o plantel e o registro de uso. Peço que o conselho confronte a compra com a ata de uso, o peso médio do macaco-prego e a dose que o veterinário responsável declarou. Congruência é isso: o número fecha ou não fecha.Tuberculose. O relatório do ICTB de 27 de novembro de 2023, “Relatório de monitoramento, controle e prevenção da tuberculose nas colônias de primatas não humanos do ICTB, 2020 a 2023”, descreve casos, providências e vulnerabilidades, e pede apoio da presidência para conter a doença. No mesmo conjunto, a área de isolamento e quarentena aparece como obra, custo estimado de R$ 5 milhões, início previsto para 2024. O serviço não parou entre 2020 e 2023. A pergunta ao conselho é direta: manteve-se criação, manejo e experimento sem área de quarentena pronta, e qual veterinário respondeu por essa manutenção.As atas do CECAL, que seguem em anexo, não são nota de imprensa. São memória de reunião. Em 9 de março de 2012 o plano de ação de controle e prevenção de tuberculose em primatas não humanos do CECAL registra criadouro do SCPrim com 958 animais, 550 macacos rhesus (Macaca mulatta) e macacos-de-cheiro (Saimiri sciureus e S. boliviensis, conforme o anexo). Em 4 de abril de 2012, sala de aula do CECAL, 14h às 16h, reunião para consolidar o plano, com Else Gribel (VPP/LR), Joel Majerowicz (diretoria do CECAL) e a chefia do SCPrim, Cláudia Andrea Lopes Araújo. Cria-se subgrupo coordenado por Denise, do CECAL, com Gilcineí (Dirac), Luci Alves (CECAL) e Maria Aparecida e Marcus (Direh/NUST). A ata manda intensificar EPI e acelerar contenção. Em 10 de dezembro de 2012 a ata do CECAL/SCPrim tem por objeto definir diretriz de diagnóstico confiável de tuberculose. Em 15 de maio de 2012 a memória da reunião dos tecnologistas com a presidência do CECAL, presentes Else, Joel, Cláudia, Fernando, Juliana e Márcia, agenda esclarecimento do surto a todo o CECAL e trata o período de incubação.Em 21 de março de 2013, sala de aula do CECAL, 14h às 16h, memória de entrega de relatório oficial à direção do CECAL e à vice-presidência sobre tratamento da tuberculose. Presentes, entre outros, Beatriz Goldschmidt e Margareth Dalcolmo. Tema: tratamento. Peço que o conselho avalie a conduta dos veterinários nesse caso. Quem indicou esquema, quem recusou tratamento, quem autorizou eutanásia de presumidamente positivos, quem manteve o serviço com surto instalado. O documento de considerações finais do CECAL, assinado por Cláudio Manuel Rodrigues, assessor da direção, diz que operacionalmente o CECAL administra o manejo dos animais acometidos, incluindo segregação e eutanásia dos presumidamente positivos, e que a colônia já estava em vulnerabilidade perante a tuberculose. Isso é exercício profissional. Não é compra.Morte por calor. As atas e os relatórios anexos registram perda de animais em condição de calor, além da perda por tuberculose. Peço que o conselho conte, na ata, quantos morreram por calor, em que recinto, com que temperatura registrada, e qual veterinário respondeu pelo alojamento. Morte por calor em colônia fechada não é clima. É manejo. O conselho que fiscaliza o exercício não devolve esse item à instituição que alojou o animal.Ausência de quarentena com manutenção do serviço. O plano de 2012 já discutia isolamento, tapume, fluxo, EPI e pós-quarentena de rhesus. O relatório de 2023 ainda estima R$ 5 milhões para a área de isolamento, com início em 2024. Entre uma data e outra o serviço seguiu. Peço que o conselho diga se é compatível com o exercício da Medicina Veterinária manter colônia de primata, com surto de tuberculose registrado em ata, sem área de quarentena em funcionamento.Margareth Dalcolmo. Abri protocolo no CREMERJ para avaliação da conduta médica na questão da tuberculose desses primatas, inclusive quanto a exercício de ato privativo da Medicina Veterinária por médica. O número não vai neste e-mail. O fato vai. A ata de 21 de março de 2013 a coloca na sala em que se discute tratamento de tuberculose de primata. Peço que o CRMV-RJ avalie, no que lhe cabe, se houve ato veterinário praticado por quem não tem inscrição no conselho, e que oficie o CREMERJ para cruzar os dois lados. Médica no tratamento de animal é pergunta dos dois conselhos.Denúncia dos primatas ao Ministério Público Federal. Está no processo judicial e segue em anexo. Descreve mortes, tuberculose, manejo, compra de anestésico e a manutenção do serviço. Não peço que o conselho julgue o crime. Peço que leia a peça e diga se o veterinário nomeado na ata responde a processo ético. A representação à Controladoria-Geral da União tem protocolo 00106.020391/2026-48. A representação ao Ministério Público Federal tem protocolo 20260066418. Há ainda comunicação à Polícia Federal, Delegacia de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente, sobre o protocolo de imunização de primatas e sobre o manejo. Os comprovantes vão em anexo. Outros protocolos do Fala.BR sobre o mesmo tema, abertos em 2026, também seguem em anexo, para o conselho não dizer que o fato chegou só pela reportagem.Conflito de interesses. Se algum conselheiro, parecerista ou membro da comissão de ética tiver vínculo com a Fiocruz, com o ICTB, com o CECAL ou com veterinário nominado nas atas, peço que se declare impedido. Nesse caso, peço que o processo seja remetido ao Conselho Federal de Medicina Veterinária. O CFMV, em 9 de setembro de 2026, já respondeu a pedido de comentário da revista dizendo que tomou conhecimento e que, por haver processo na Justiça Federal, não se manifestaria. Processo judicial não suspende ética. Se o regional não puder, que o federal possa.O que peço, em lista. Averiguação das atas anexas. Congruência entre compra, dose e plantel. Quantitativos de morte, inclusive morte por calor. Conduta dos veterinários no surto de tuberculose. Manutenção do serviço sem quarentena. Cruzamento com o protocolo do CREMERJ sobre Margareth Dalcolmo, sem que eu precise repetir o número. Remessa ao CFMV se houver impedimento. Ciência do protocolo.Os anexos desta mensagem são as atas do CECAL, o relatório do ICTB de 27 de novembro de 2023, a representação dos primatas ao MPF e os comprovantes de protocolo na CGU, no MPF e na Polícia Federal. Vou inseri-los antes do envio.Isabel de Fátima Alvim Braga

Isabel de Fátima Alvim Braga. Médica. Rio de Janeiro, 6 de outubro de 2026.

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Referências

  1. CNN Business, Clare Duffy, 18 de março de 2024: Elon Musk details his prescription ketamine use.
  2. New York Magazine / Intelligencer, 18 de março de 2024: What Elon Musk Told Don Lemon About Ketamine.
  3. FDA. Aprovação do Spravato, 5 de março de 2019. Monoterapia em depressão resistente, 21 de janeiro de 2025.
  4. DailyMed. Spravato, dispositivo de 28 mg, dose 56 ou 84 mg, observação de duas horas.
  5. Revisão de farmacologia clínica da escetamina. Receptor NMDA, biodisponibilidade nasal perto de 50%, pico em 20 a 40 minutos.
  6. Janik e colegas, JAMA Psychiatry, fase 4. Diferença MADRS no dia 28: −5,1 (56 mg) e −6,8 (84 mg).
  7. BRAGA, Isabel. A sociedade da birra: como a sinalização de virtude aprisionou o cérebro infantil. Rio de Janeiro: edição da autora, 2025. 172 p. ISBN 978-65-01-03962-6.
  8. Comprasnet. Cotação eletrônica nº 45/2019. Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos, Fiocruz. Código 363769. Objeto: aquisição emergencial de anestésico veterinário. Item 1: 50 frascos de 10 mL, 100 mg/mL. Item 3: 90 frascos de 50 mL. O campo complementar do item 3 registra 50 mg/mL. Fornecedor: E. R. Felix Produtos Agrop. http://comprasnet.gov.br/cotacao/RelatorioCotacao.asp?cot_codigo=363769
  9. Anvisa. RDC 676, de 28 abr. 2022. Cetamina sai da lista C1 e vai para a lista B1 da Portaria SVS/MS 344/1998. Ministério da Saúde. Portaria 344, de 12 mai. 1998.
  10. Comprasnet. Cotação eletrônica nº 17/2020. Centro de Pesquisa René Rachou, Fiocruz, Belo Horizonte. Código 385073. 120 frascos de 10 mL de cetamina a 100 mg/mL. Lance R$ 2.378,99. Homologada em 31 mar. 2020. http://comprasnet.gov.br/cotacao/RelatorioCotacao.asp?cot_codigo=385073
  11. Comprasnet. Cotação eletrônica nº 222/2023. Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos, Bio-Manguinhos, Fiocruz. Código 493459. Objeto: aquisição de medicamentos de uso veterinário. Item 5: 50 frascos de 10 mL de cetamina a 100 mg/mL, uso veterinário, R$ 1.250,00, Licitapharma. Item 3: 50 frascos de 10 mL de escetamina a 50 mg/mL, marca Cristalia-Ketamin, R$ 3.999,50, Cristália, CNPJ 44.734.671/0022-86. Entrega em 27 nov. 2023, Av. Brasil 4365. http://comprasnet.gov.br/cotacao/RelatorioCotacao.asp?cot_codigo=493459
  12. Comprasnet. Descrição complementar do item, código 1762536. Cetamina 100 mg/mL, 50 frascos de 10 mL, entrega em 27 nov. 2023, Av. Brasil 4365. https://comprasnet.gov.br/cotacao/descricaoitem.asp?itc_codigo=1762536
  13. Cristália. Ketamin NP, cloridrato de escetamina, 50 mg/mL, solução injetável, uso adulto e pediátrico, via intravenosa e intramuscular. Bula do paciente. Registro MS 1.0298.0213. https://www.cristalia.com.br/produto/341/bula-paciente
  14. Prefeitura de Guarulhos. Aviso de dispensa eletrônica nº 97001/2026-SFIL. UASG 986477. Processo 1111.2025/0024271-8. 60 frascos de 10 mL de cloridrato de cetamina a 10%, mais tiopental e xilazina. Termo de referência: anestésicos para eutanásia de animais. Lei 14.133/2021, art. 75, II. https://pncp.gov.br/pncp-api/v1/orgaos/46319000000150/compras/2026/22/arquivos/2
  15. UNODC, World Drug Report 2026, apreensão de cetamina. Comunicado de agosto de 2024: 23,3 toneladas no Leste e Sudeste da Ásia em 2023.
  16. Polícia Federal, série 2021–2023, citada por O Sul em 9 de junho de 2024: 698 g, 2.514 g, 4.463 g.
  17. Comprasnet, Cotação Eletrônica 45/2019, ICTB, relatório 363769.
  18. Dispensa de Guarulhos, aviso 97001/2026, 60 frascos de 10 mL.
  19. MA, X. e cols. Esketamine anesthetizes mice with a similar potency to racemic ketamine. Dose-Response, 2023. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36798635/
  20. CASONI, D. e cols. S-ketamine versus racemic ketamine in dogs: their relative potency as induction agents. Veterinary Anaesthesia and Analgesia. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1467298716301830
  21. JUD, R. e cols. Comparison of racemic ketamine and S-ketamine as agents for the induction of anaesthesia in goats. Veterinary Anaesthesia and Analgesia. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1467298716306080
  22. Comprasnet, cotação 222/2023, código 493459. http://comprasnet.gov.br/cotacao/RelatorioCotacao.asp?cot_codigo=493459

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Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

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