Um início de noite em que a chuva deu trégua na Cidade Maravilhosa — conhecida mundialmente pelo sol escaldante — reuniu um público familiar no Experience Music para a primeira edição do Ashen Metal Fest. O evento celebrou o encontro de fãs fiéis que não se intimidaram e compareceram em peso, mesmo após a onda de fortes temporais que atingiu a cidade.

O palco era uma tela em branco prestes a se tornar uma grande obra de arte. Com uma forte pegada estética que une a cena Visual Kei, Thrash Metal, influências góticas e elementos neoclássicos, a Banda Lys subiu ao palco para dar início aos trabalhos. Ao som de um piano introdutório, a bailarina Annabel entregou uma performance de delicadeza ímpar que flertou sutilmente com o terror. Curvando-se ao primeiro ato, ela deu passagem para a banda abrir o show com a faixa “Fantocchio”, mostrando logo de cara a que veio. Houve algumas falhas pontuais no microfone, mas nada que comprometesse a técnica, o profissionalismo e a entrega do grupo no palco.

Lys

Na sequência, a execução de “Puppeteer” trouxe um peso marcante, fortemente influenciado pelo Heavy Metal do final dos anos 80 e flertando com o Power Metal tradicional. O repertório seguiu com pedradas como “Soul Society” (cover do Kamelot), “Cerise Rouge” e “Gardenia” (Malice Mizer). A faixa “Monsters” apresentou um andamento impecável, enquanto a versão de “Poison Heart” (clássico punk dos Ramones e trilha sonora de Cemitério Maldito II) promoveu uma verdadeira viagem ao início dos anos 90. A apresentação foi encerrada com a faixa-título “Les Fleurs du Mal”.

A segunda atração da noite foi a MIG-gaijin Project, apostando em um visual Visual Kei com pitadas de metal moderno. O grupo teve o set parcialmente prejudicado por falhas técnicas no sampler que reduziu seu tempo de apresentação, mas nada que tirasse o brilho da apresentação apesar do transparente frustração, o que normal, arte é isso. Com um som agressivo que soa aparentemente caótico, lembrando que o caos faz parte do gênero, a banda cumpriu bem o seu papel. Demonstrando a construção de uma identidade própria, o grupo já prepara um álbum que mergulha ainda mais nesse universo, impulsionado pelo lançamento recente do single “A New Era”.

O setlist da MIG-gaijin Project contou com as autorais “New Era”, “Fight Back”, “Underdog”, “Parasite” e “Me X Myself X By Myself”, além de uma série de releituras com a assinatura da banda: “Kingslayer” (Bring Me The Horizon & Babymetal), “Beast of Blood” (Malice Mizer), “Headache Man” (the GazettE) e “What’s Up People?” (Maximum the Hormone).

Quando o relógio passou das 20h20, a atmosfera evocava a metáfora do clássico A História Sem Fim (1984): a perda da esperança, a imaginação sufocada e o desespero — um vislumbre quase profético do clima que antecedia as eleições do dia seguinte. Contudo, em seu conceito filosófico, o Nadha  refere-se ao som sagrado, a vibração primordial que deu origem a tudo o que existe no universo. E foi exatamente essa vibração, cercada de peso e fortes influências de Stoner, Death, Black e Doom Metal, que o Nadha levou ao palco.

Nadha

Trazendo uma sonoridade extremamente agressiva, a banda executou seu setlist com maestria, apresentando as faixas “Dense Trance”, “Then Who?”, “Venomous Vein”, “Ephemeral Being”, “Tidal Disruption”, “Broken Scepters”, “Rewind” e “The Marble and the Sculptor”. Um desempenho impecável que não surpreende, dada a bagagem dos músicos, já veteranos da cena do metal carioca. Em nova fase após mudanças na formação, a execução de “Then Who?” marcou o primeiro passo desse novo momento e antecipou o que está por vir no próximo álbum.

Para fechar a noite com chave de ouro, os veteranos da Pagan Throne — prata da casa — subiram ao palco entregando um Pagan Metal repleto de atmosferas épicas, sombrias e melancólicas. Embora frequentemente associada ao Viking Metal, a banda passeia por diversas referências, provando que sua sonoridade não se prende a um único rótulo. O trabalho mais recente do grupo, o álbum Terra Dourada, resgata e celebra a riqueza do folclore brasileiro.

Com uma qualidade de som excelente, o repertório contou com “Pelas Vastas Florestas (Intro)”, “Swords of Blood”, “Aliança de Fogo”, “Fallen Heroes”, “Os Donos Dessas Terras”, “Black Hordes” e “Liberdade Ainda Que Tardia”. O ponto alto de ousadia ficou por conta do cover de “Progenies of The Great Apocalypse”, da banda norueguesa de Black Metal Sinfônico Dimmu Borgir — um desafio executado com precisão, dada a complexidade dos arranjos orquestrados.

Pagan Throne

O Ashen Metal Fest provou ser um evento extremamente promissor e com uma excelente organização. As pequenas falhas decorrentes da dependência tecnológica (como o uso de samplers) são consequências naturais dos novos tempos, mas em nada apagaram o talento dos músicos envolvidos. Cada banda entregou uma performance memorável para seu público, deixando no ar a certeza de que o metal carioca permanece vivo, forte e em constante renovação.

Fotografia: Júlio Tio Verde @juliotioverde

Bandas:

@lys.band

@miggaijinproject

@nadha.band

@paganthrone

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10 Comentários

  1. Marcio de Souza Freitas on

    Muito legal também o fato de ter sido um evento focado em bandas autorais. O underground tem carecido disso. E muito obrigado pela cobertura e pela sua presença.

  2. JULIO CESAR FERREIRA DA SILVA on

    Curti muito ter fotografado um evento com bandas sensacionais e muito bem organizado, parabéns a todos (as) e que venham os próximos!!!!

  3. Nilton Cabral on

    Foi uma experiência muito rica de arte – sim, metal pesado é arte! – e de amor fraterno. Posso ser suspeito pra falar porque tinha não só família mas amigos de infância envolvidos, mas a qualidade das bandas revelou que é possível sim fazer eventos autorais dentro do nicho que amamos e ser um estrondoso sucesso de qualidade.

    Mal posso esperar pelo próximo!!!

  4. Gabriela Saes on

    O evento foi demais, mas ler essa matéria fez a gente reviver tudo de novo, e de uma maneira muito emocionante. Foi muito especial ver tudo o que aconteceu naquela noite sendo contado com tanto cuidado e sensibilidade. Dá até aquela sensação de voltar para o evento e lembrar de cada momento.

    Valleck, você mandou muito! Obrigada mais uma vez por ter vivido esse momento com a gente e por transformar tudo isso em um registro tão especial. Ficou incrível! 🖤

  5. Ashen Metal Fest on

    Que felicidade ver a primeira edição do Ashen sendo registrada dessa forma!

    A gente sabe tudo o que existe por trás de um evento acontecer, mas é muito especial quando alguém consegue traduzir em palavras aquilo que foi vivido naquela noite. E foi exatamente o que você fez, Valleck.

    A matéria conseguiu transmitir muito da energia que rolou no Experience e registrar esse primeiro capítulo do Ashen de uma forma que vai ficar para a nossa história. E as fotos do Tio Verde deram aquele tchan maneiríssimo na matéria! Foi muito foda ver o evento através do olhar de vocês dois.

    Valleck, obrigado pela presença, pela cobertura e pelo cuidado com o Ashen e com a cena. Tio Verde, mais uma vez, obrigado por essas imagens que deram ainda mais vida ao registro.

    E nosso agradecimento à Pàhnorama pelo espaço e por abrir as portas para que a primeira edição do Ashen pudesse ser contada e chegar a ainda mais pessoas. Para um evento que está começando, ter um registro assim é muito especial para a gente.

    Foi um prazer ter vocês com a gente nessa primeira edição. Que seja só o começo! ❤️

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