Isabel de Fátima Alvim Braga

Este texto não é sobre esquerda nem sobre direita. Não é a favor de candidato. É sobre a vida. Sobre o que o corpo faz quando a frase custa o lugar no bando, e sobre o que se perde quando se ama a pessoa apesar da divergência, ou ignorando a divergência, em vez de amá-la inteira, incluindo o que de bom a divergência pode trazer. Amor ao eleitor, no caso. Mas vale pros amores da vida.

Na evolução primata-humana, houve um tempo em que ficar de fora do bando era sentença. Primata expulso não vigia a noite com os outros, não chega perto da comida sem apanhar, não tem quem avise da chegada do predador. Fome, frio, dente. O cérebro não arquivou isso como lenda. Arquivou como alarme. O alarme continua ligado. A savana, não.

A amêndoa que não espera a frase

O alarme tem nome e endereço. Chama-se amígdala. Não é um sentimento. É um pedacinho de cérebro, do tamanho de uma amêndoa, um de cada lado, lá no fundo. Ela não escreve discurso. Ela guarda o que já doeu. Na próxima vez, dispara antes de a pessoa terminar de pensar a frase. E tem uma cordinha ligada à memória.

O circuito. O olho e o ouvido chegam ao tálamo. A via rápida acorda a amígdala. O GABA freia. O coração sobe. A boca fecha. O córtex chega tarde.

Cada vez que a pessoa abrou a boca e foi chamada de fascista. Cada vez que abriu a boca e foi chamado de communista. Cada vez que a expressão sexual foi travada. Cada vez que a religião foi usada como motivo pra chacota. Cada cartinha do conselho profissional. Cada negativa de investigação de conselho profissional. Cada vez que insinuou que não concordava e veio a palmatória moral… O cérebro gravou como risco. Ainda que a memória episódica não esteja lá. O circuito fica como forma de proteção.

O caminho é simples. O olho e o ouvido mandam o que viram e ouviram para uma central de triagem, o tálamo. Dali saem duas rotas. A rápida vai direto ao alarme. É burra e veloz: uma sombra, um tom de voz, a cara do chefe, o logo de um processo. A lenta sobe para a parte do cérebro que compara e lembra, e que pode dizer: isso não é um leão. O corpo, porém, já começou. O coração sobe. A boca seca. A mão esquenta. A vontade é sumir ou concordar. Esse é o sistema luta e fuga.

Dentro desse alarme, há dois recados. Um empurra o susto. O outro segura. O que segura se chama GABA. Não é coragem. É o freio. Impede que o corpo inteiro pegue fogo a cada sombra. Remédio da família do diazepam empurra esse freio, e a pessoa sente o mundo mais suportável. O mundo não ficou mais verdadeiro. Ficou mais calado. Estresse longo afroxa o freio. Aí uma chamada, um rótulo, a ameaça de ficar sem o grupo passam a valer como no bicho. Coragem não é ser alguém sem medo ( E com falhas nesse sistema). Coragem é enfrentar o medo.

Por isso, as pesquisas não funcionaram. As pessoas mentiram. Formou-se uma espiral de silêncio.

Muitos alegaram que as pesquisas haviam sido fraudadas, mas ainda que essa informação seja verdadeira, a reação de surpresa dos próprios candidatos derrotados fala a favor da tese desse artigo.

Quando o primata tem medo do que vai dizer

Aqui está o que ninguém previu. Quando o primata tem medo do que vai dizer e medo da punição que a frase pode trazer, o sistema inibitório do GABA manda a boca fechar. Não é decisão de assembleia. É freio. A pessoa sabe o que pensa. O corpo trata o dizer como afastamento do bando. A boca obedece ao freio, não ao córtex. Quem está de fora vê silêncio e lê adesão. Leu o freio.

O grupo moderno, na maior parte das vezes, não deixa o expulso morrer de fome. O circuito não recebeu o recado. Processo administrativo, chefe perguntando por que se segue aquela pessoa, rede fora do ar, apelido na testa: para a amígdala é a beira do bando. Falar é se afastar. Calar é continuar comendo. A punição não precisa ser cadeia. Precisa parecer expulsão. O medo faz o resto. Foi isso que as planilhas não tinham como ver.

Por isso, tantos candidatos tabelaram votos de amigos que não receberam na urna.

O dado público não é o ato

Quem mede só o que se diz em público mede o teatro. Eduardo Paes tinha a camisa, a rede, o palanque, o comentário que cabia. Não tinha o que a mão faria atrás da cabine. O caso Garotinho é a mesma conta com outro nome: tratar o visível como se fosse o eleitorado. O visível é o que sobrou depois do freio. A cabine é o minuto em que o GABA da reputação não manda.

Na fila da urna, havia vermelho e meia dúzia de camisetas do Brasil.

O resultado não conversava com a fila. Não é torcida. É método. Servidor dizia em voz alta que era de um lado e, no privado, torcia pela virada. Não porque tivesse mudado de alma na seção. Porque a alma já estava lá, e a boca estava fechada pelo freio.

Ninguém previu a quantidade de cadeiras de Senado do PL porque ninguém media a boca fechada. Mediam o discurso obrigatório. O discurso obrigatório é o mapa ao contrário.

Se as pessoas não podem dizer a verdade, o mapa do poder fica invertido. Quem não deixa falar não sabe quem está com ele.

Cria o inimigo invisível e ainda acredita no próprio gráfico. Inimigo vira aliado na planilha. Aliado vira silêncio.

Don Corleone, personagem de O Poderoso Chefão de Mario Puzzo, dizia “quem entende a força do silêncio, domina o jogo”. O silêncio nunca é visto como submissão ou covardia, mas sim como uma arma de extrema sabedoria estratégica e autocontrole.

E é por isso que a direita veio de forma imprevísível. Assim como na vacina da covid, muitos dos que eram de opinião divergentes foram silenciados. Mas a vacina se tornou obrigatória. O voto era secreto. Ainda nao foi criado o voto obrigatório no candidato decidido pelo juiz.

O mesmo freio fora da seção

O mecanismo não nasce na eleição. Um texto que ninguém curte e todo mundo encaminha em público.

Um vídeo sobre disfunção erétil? O aplauso público mede zero. O privado mede o resto. Milhares de vizualizações e compratilhamentos.

Nas relações interpressoais, alguém tenta dizer que não está legal e ouve que não pode e tem que estar bem, que está errado em suas convicções antes que elas sejam explicadas, que a história nunca aconteceu ou que “você gosta disso sim“. Anos depois, alguém vai embora do barco e a surpresa é chamada de traição. Não era traição. Era boca fechada pelo GABA, durante anos, até o corpo achar outra saída.

Rótulo faz o serviço do freio. Reclamar de filmagem de criança sem alvará vira fobia. Reclamar de compra desproporcional de cetamina, cinco litros para milhares de contenções em bicho de três a quatro quilos, vira ataque à instituição. Reclamar de candidato por corrupção vira sopa de letrinha. O tema muda. O rito não. A tampa impede a frase e, com a frase impedida, quem tapa acha que convenceu.

Na calçada, uma senhorinha comentava o silenciamento das voze divergentes e dizia o nome e baixava a voz: “A gente não pode falar, mas concorda com você“. Ostracismo de organograma não é ostracismo de rua.

Espiral do silêncio é o nome do livro e o nome do fenômeno. A pessoa acha que está sozinha porque ninguém fala. Como acha que está sozinha, não fala. O poder lê a ausência como vitória. A urna, quando não está filmando e quando falar não é crime, devolve a conta. Não afirmo o que não medi. O gráfico que troca do nada, e a apuração que para uma hora, continuam pergunta para quem sabe estatística. Culpar uma região inteira é atalho.

Professor Mário dizia em aula que inimigo visível é um problema e pessoa próxima, calada e maltratada, é outro. Ela não precisa gritar. Basta má vontade e o mínimo do ofício. É assim que se arrebenta um serviço, um casamento, uma cidade. O dinheiro que deveria aposentar quem trabalha na rua virando voo e noite cria o mesmo inimigo: gente com medo, sem boca para dizer. Não precisa de quebra-quebra. Precisa de cabine.

O silêncio forçado não para no meio. Balança como pêndulo. Empurra a boca para um lado, com medo, rótulo e a ameaça de ficar sem o grupo, e o peso não fica onde foi posto. Volta. E, na volta, passa do centro. Quem só olha o extremo do empurra lê adesão. Quem espera a cabine, o encaminhamento, a frase dita sem plateia, vê o outro extremo: a reatância, o efeito bumerangue, a escolha feita justamente porque tentaram impedi-la. Quanto mais alto soltam o peso, mais longe ele chega do lado de lá. Não é conversão súbita. É retorno. O pêndulo não premia quem empurrou. Devolve o empurrão, com atraso, e chama isso de surpresa.

Em inglês, isso é psychological reactance. Quem descreveu foi Jack Brehm, em 1966.

A pessoa sente que a liberdade de escolher está ameaçada. A resposta não é obedecer. É recuperar a liberdade, muitas vezes fazendo o contrário do que pediram. Quanto mais a ordem aperta, mais o outro lado fica atraente.

Efeito bumerangue é o resultado visto de fora: a tentativa de convencer empurra a opinião para o lado oposto. Reatância é o mecanismo. Bumerangue é o que aparece na conta.

Psicologia reversa não é o fenômeno. É a manobra de quem pede uma coisa esperando a reatância e o contrário. Espiral do silêncio é outra coisa: a pessoa cala porque acha que está sozinha. Pode calar e, na hora sem plateia, ir para o outro lado. Aí, os dois cabem juntos.

E o grande risco: as pessoas não querem apenas retirar o Alexandre, O Grande. Elas querem SER o novo ditador que decide a pena do juiz, ainda que fora da lei.

O grande perigo da virada do pêndulo é travestir a vingança de justiça. A justiça para no limite dos direitos humanos e da lei. Prende. Pune. Mas não atende ao Robespierre que executa Maria Antonieta depois de séculos de dinastia e rouba os brioches ao final.

Amar inteiro

Volto ao que este texto é. Não é legenda de urna. É legenda de vida. Amor fraterno não é amar a pessoa apesar das divergências. Apesar já é uma forma de pôr a divergência para fora da pessoa, como mancha que se tolera. Também não é amar ignorando as divergências, como se o silêncio sobre elas fosse paz. Paz de boca fechada é GABA, não é encontro.

Amar por inteiro é incluir o que a divergência pode trazer de bom. A frase que o outro não podia dizer no trabalho pode ser a frase que salva o diagnóstico, o filho, a conta pública, o casamento. Quem exige uniformidade de boca pede o freio e chama o freio de união. União sem a frase é bando antigo. Bando antigo come junto e expulsa quem destoa. Família, amizade e cidade que prestam não expulsam o destoante. Ouvem o que o freio queria calar.

Para quem só quer imagem e a foto perfeita de viagem, qualquer teatro basta. A seção não era teatro. O efeito de calar foi o oposto do desejado, e o oposto não cabe num lado. Cabe em qualquer poder que confunda silêncio com consenso. Da próxima vez, quem quiser saber o que as pessoas farão não pergunte no lugar em que a frase custa o emprego. Pergunte onde a amígdala pode descansar. Nesse país, esse lugar ainda cabe numa cabine.

E, na vida, cabe numa mesa em que divergir não é ser expulso do bando. Ninguém engana todo mundo o tempo todo. Silenciar não produz verdade. Produz a verdade ao contrário.

Isabel de Fátima Alvim Braga

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Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

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