Isabel de Fátima Alvim Braga
A imagem que circula é de uma máquina no metrô. QR Code, frasco, discreção. São Paulo instalou dispensadores automáticos de PrEP e PEP nas estações Brás, Consolação, Luz, Santana e Vila Sônia. Desde junho de 2024, a prefeitura paulista contabiliza milhares de retiradas. Em julho de 2026, a experiência foi apresentada na Aids 2026 — no Rio de Janeiro.
O Rio escolheu outro atalho. Em dezembro de 2025 a Secretaria Municipal de Saúde lançou a TelePrEP pelo site minhasaude.rio: consulta online, receita digital, retirada em unidade. Em 2024 havia 14.711 pessoas cadastradas; em 2025, 22 mil. A rede municipal fala em mais de 200 unidades dispensadoras. Preservativo, teste rápido e gel continuam no cardápio oficial.
Nada disso é irrelevante para o HIV. A PrEP, tomada com adesão, de forma importante o risco de infecção pelo vírus. O SUS autoriza o comprimido a partir dos 15 anos, com teste negativo e seguimento. Isso já foi descrito, com números e ressalvas, em O mapa do HIV no Brasil: o que o Ministério da Saúde tem com isso.
O que a máquina e a teleconsulta não fazem é o que a maternidade continua vendo. E a parte da maternidade que virou FIV por causa da infertilidade cuja causa pouco se nomeia.
O que a PrEP não cobre
A bula e o Ministério da Saúde são explícitos: a profilaxia pré-exposição é contra o HIV. Não impede sífilis, clamídia, gonorreia, hepatites nem HPV. Quem troca a barreira mecânica só pelo comprimido troca um vírus por bactérias que o fármaco não enxerga.
Isso não autoriza a frase preguiçosa “a PrEP causou a sífilis”. Não há mecanismo biológico que transforme tenofovir em Treponema. O que os boletins autorizam é outra frase, já escrita na reportagem anterior: mais detecção, mais sexo sem barreira, e falha em tratar o parceiro. Em 2024 o Brasil notificou 89.724 casos de sífilis em gestantes (35,4 por mil nascidos vivos) e 24.443 casos congênitos (9,6 por mil). A meta da OMS para sífilis congênita é menos de 0,5 por mil. Só 17,7% dos parceiros das mães tratadas foram tratados na série 2010–2024.
O Rio lidera o mapa que a PrEP não vê. Em 2024 a taxa estadual de sífilis em gestantes foi 68,3 por mil nascidos vivos — a mais alta do país. Na capital, 92,8 por mil: mais de nove mães diagnosticadas a cada cem nascidos vivos. A cidade conseguiu reduzir a sífilis congênita de 16,3 para 9,5 por mil entre 2014 e 2025. Ainda é dezenove vezes a meta internacional. Detectar mais no pré-natal evita parte da transmissão vertical. Não apaga a infecção que chegou antes da primeira consulta.
A clamídia que o sistema quase não conta
A sífilis pelo menos entra no Sinan. A clamídia, no Brasil, não é de notificação compulsória nacional. O próprio Ministério da Saúde admite: não há dado epidemiológico oficial contínuo. O que existe são estudos pontuais e o protocolo, que já recomenda rastrear clamídia e gonorreia em gestantes com menos de 30 anos na primeira consulta — enquanto o teste molecular segue mal incorporado ao SUS.
Quando alguém mede, o número não é pequeno. Em gestantes atendidas em unidades básicas de Salvador, 11,6% tinham Chlamydia trachomatis e 21,5% tinham ao menos uma IST bacteriana curável. Metade era assintomática. Sem exame, a infecção atravessa o pré-natal e só aparece — se aparecer — como parto prematuro, conjuntivite do recém-nascido ou, anos depois, como trompa fechada.
A página do Ministério lista o que a infecção não tratada pode fazer: infertilidade, dor pélvica crônica, gravidez nas trompas, aborto, parto precoce, infecção puerperal. A via clássica é a doença inflamatória pélvica.
Depois de um episódio, cerca de 19% das mulheres estavam inférteis em sete anos, em séries clássicas; o risco sobe com a repetição. Revisões brasileiras encontram correlação consistente entre C. trachomatis e infertilidade tubária. Não é preciso moralizar a noite para ler isso: é anatomia. A bactéria sobe, a trompa cicatriza, o óvulo não passa.
Em outro texto desta revista ficou o outro lado da conta demográfica: os nascimentos caíram 18,9% no Brasil entre 2018 e 2024, e a prematuridade voltou a subir em 27 estados. A clamídia não explica sozinha essa curva. Ela é uma causa evitável de trompa inutilizada numa geração que já tem menos filho.
O antibiótico também cansa
A gonorreia virou emergência de resistência. No programa da OMS (2022–2024), a resistência à ceftriaxona subiu de 0,8% para 5% e à cefixima de 1,7% para 11%; a ciprofloxacina já não serve em 95% dos isolados acompanhados. O Brasil ainda encontra, nas séries do SenGono, gonococo sensível à ceftriaxona — e resistência crescente à azitromicina, o outro braço da terapia dupla que o protocolo nacional usa precisamente porque clamídia e gonorreia costumam andar juntas. Tratar no escuro, pela síndrome, sem teste, é o caminho mais curto para selecionar cepa.
A clamídia resiste menos que o gonococo, mas o mesmo comprimido de azitromicina está sob pressão — inclusive por Mycoplasma genitalium, que o pré-natal brasileiro quase não procura. Cada noite sem barreira que termina em antibiótico “por via das dúvidas” alimenta esse estoque.
O que a saúde pública pode fazer sem fiscalizar a cama
Ninguém vai telefonar no dia seguinte para validar o encontro de ninguém. Essa frase basta. A política não precisa entrar no quarto. Precisa entrar na porta da noitada com o que já sabe funcionar contra bactéria: camisinha no bolso antes, não no discurso depois; teste rápido de sífilis e HIV onde a gente de fato circula; e, no pré-natal, o exame de clamídia e gonorreia que o protocolo já escreveu e o SUS ainda entrega pela metade.
A PrEP continua indicada para quem tem risco real de HIV. Ampliar retirada — máquina em São Paulo, teleconsulta no Rio — é logística de um vírus. Celebrá-la como se fosse prevenção sexual completa é trocar o mapa. O berçário não recebe o vírus que o comprimido bloqueou. Recebe o Treponema que o preservativo teria barrado e o parceiro que ninguém tratou. Recebe, sem estatística oficial, a clamídia que pode fechar a trompa da próxima gravidez.
A solução honesta não é interditar o desejo. É parar de vender o atalho como cobertura total. Menos hipocrisia, mais barreira, mais teste na hora em que a exposição acontece — e tratamento do par, não só da ficha da gestante. O resto é vida privada. Só que criança não tem nada que isso.
Isabel de Fátima Alvim Braga
Médica. Revista Pahnorama
Referências
1. BBC News Brasil. PrEP: as ‘pílulas anti-HIV’ que São Paulo distribui no metrô. 27 jul. 2026.
2. Agência Aids. Experiência inédita com máquinas de PrEP e PEP no metrô será apresentada por São Paulo na AIDS 2026. 13 jul. 2026.
3. Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Rio lança TelePrEP para ampliar acesso à prevenção ao HIV. Dez. 2025.
4. CREMERJ News. Rio lança TelePrEP para ampliar acesso à prevenção ao HIV. 16 dez. 2025.
5. Ministério da Saúde. Rio de Janeiro amplia vacinação contra o HPV para usuários da PrEP. 4 jul. 2024. Nota do próprio ministério: a PrEP não impede a infecção por outras ISTs.
6. Braga, I. F. A. O mapa do HIV no Brasil: o que o Ministério da Saúde tem com isso. Pahnorama, 30 ago. 2026. https://revistapahnorama.com.br/2026/08/30/hiv-no-brasil-mapa-prep-sifilis-sus/
7. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico da Sífilis 2025. 89.724 gestantes (35,4/1.000 NV); estado do RJ 68,3/1.000 NV; capital 92,8/1.000 NV.
8. Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Rio alcança redução histórica da incidência de sífilis congênita. Queda de 16,3 para 9,5/1.000 NV (2014–2025).
9. Ministério da Saúde. Clamídia (saúde de A a Z). Não há dado nacional contínuo de notificação; complicações incluem infertilidade e gravidez tubária.
10. Pesquisa Uneb em gestantes de Salvador (Rev. Latino-Am. Enfermagem / divulgação 2026): Chlamydia trachomatis 11,6%; ao menos uma IST bacteriana curável 21,5%.
11. Passos et al. The Correlation between Chlamydia Trachomatis and Female Infertility: A Systematic Review. Rev Bras Ginecol Obstet, 2022.
12. Braga, I. F. A. Os nascimentos caíram. A prematuridade voltou ao pico. Em 27 estados. Pahnorama, 6 set. 2026. https://revistapahnorama.com.br/2026/09/06/os-nascimentos-cairam-a-prematuridade-voltou-ao-pico-em-27-estados/
13. OMS / EGASP. Resistência gonocócica 2022–2024: ceftriaxona 0,8% para 5%; cefixima 1,7% para 11%; ciprofloxacina 95%.
14. Projeto SenGono / Machado et al., 2022. Brasil: resistência à azitromicina em alta; ceftriaxona ainda sensível nas séries publicadas.
15. CRT-DST/Aids-SP. Informações sobre PrEP. A profilaxia não protege de sífilis, clamídia, gonorreia, hepatites nem HPV.