Isabel de Fátima Alvim Braga
O vitimista é, no fundo, um invejoso disfarçado. Ele não quer necessariamente o que o outro tem. Ele quer que o outro não possa existir livremente — sem carregar a dívida, sem se sentir culpado, sem precisar cuidar dele: é sobre tirar do outro. A performance de fragilidade sequestra a bondade e a empatia alheias e as transforma em recurso. O outro é manipulado para ceder, prover e permanecer, enquanto o vitimista permanece na posição de quem sofre e de quem tem razão. A inveja se esconde sob o teatro do coitado. E, enquanto se esconde, continua operando. Esse texto nomeia o mecanismo: um desejo do narcisita de que o outro não tenha aquilo que ele jamais terá.
No começo há sempre um disfarce. O coitadinho se apresenta como frágil, atencioso, disponível. A mulher registra essa disponibilidade e essa aparente vulnerabilidade. Algo dentro dela grita que tem algo errado, mas ela resolve dar uma chance. O cuidado parece escolha. A bondade ainda é livre. A pessoa não vê o sequestro porque ele ainda não se declarou.
Com o tempo, o disfarce se desfaz em atos concretos. O homem larga o emprego e passa a depender dela. A mulher começa a descuidar dos filhos porque a energia está toda voltada para sustentar a posição dele. Os limites que antes eram possíveis passam a ser lidos como abandono. Cada pequena concessão — dinheiro, tempo, silêncio, a renúncia a uma saída — reforça o ciclo. O cérebro aprende que interromper o cuidado gera culpa imediata. A cegueira não é falta de inteligência. É o reforço repetido de uma dinâmica que trata a saída como ameaça.
A cegueira se mantém porque o coitadismo sequestra a empatia antes que a contradição se torne insuportável. A mulher, mesmo vendo os filhos negligenciados e o emprego abandonado, permanece presa porque já associou a interrupção do cuidado a perigo e a culpa. O teatro inicial criou o vínculo. As pequenas extrações o consolidaram. E o narcisismo disfarçado continua operando sem precisar se declarar, porque a pessoa que cuida já está condicionada a não ver a porta aberta como liberdade, mas como abandono. O circuito da inveja sempre esteve lá. Ele só precisava do teatro para não ser nomeado.
O circuito da inveja
O giro fusiforme registra o outro: a leveza, a disponibilidade, a capacidade de existir sem drama, a bondade, a possibilidade de se importar sem se vitimizar. O dACC registra a dor da comparação — não necessariamente com o que o outro tem, mas com o fato de o outro conseguir existir sem precisar se apresentar como frágil. Em vez de elaborar essa dor, o coitadinho a converte em demanda e em terceirização de culpa. A bondade do outro deixa de ser livre. Ela passa a ser cobrada. Qualquer recuo é lido como abandono. Qualquer limite é lido como crueldade. O outro é obrigado a carregar a responsabilidade pelo estado do coitadinho. O estriado ventral registra o alívio quando o outro cede, se explica ou permanece. Não é prazer explícito. É a redução temporária da tensão da comparação. O outro, ao usar a própria bondade, diminui temporariamente a distância. O coitadinho permanece na posição de quem sofre e de quem tem razão. A bondade alheia é o que sustenta essa posição no tempo. Sem ela, o teatro se esgota. Com ela, o coitadinho não precisa se mover. O outro é que fica preso na tentativa de ser bom o suficiente.

Filosoficamente, isso é a inveja operando de forma econômica, como Zuenir Ventura descreve em Inveja: Mal Secreto: a tristeza pelo bem alheio não precisa destruir o bem. Basta capturá-lo. A cobiça quer ter o que não se tem; a inveja quer que o outro não tenha — ou que não possa desfrutar livremente. O jogo não é o que se ganha, mas o que o outro perde. A inveja se esconde. Ela não se declara. O ciclo se reforça porque a tentativa de devolver a responsabilidade é frequentemente recebida como mais uma prova de insensibilidade. O circuito se fecha: a tentativa de devolver a responsabilidade é lida como agressão, e a posição de vítima se reforça. O narcisismo que ninguém vê não se eleva. Ele se abaixa e faz a bondade do outro se abaixar junto. O resultado é o mesmo: o outro deixa de existir livremente. Ele existe para sustentar a posição do coitadinho. E, enquanto parece necessidade, a bondade alheia continua sendo extraída sem que o circuito de inveja precise se mostrar.
A dissonância cognitiva
O segredo oculto dos narcisistas que se sentem coitados é a dissonância cognitiva. Eles se sentem inferiores. E, ao mesmo tempo, carregam um ego interno inflado que os faz achar que merecem algo — atenção, cuidado, controle, o lugar do outro, a ausência de responsabilidade. A dissonância cognitiva é o que sustenta o teatro. A inferioridade sentida não é elaborada. Ela é convertida em demanda. O ego inflado justifica a demanda: “eu sofro, portanto mereço”. O coitadinho não precisa se elevar abertamente. Ele se abaixa e faz o outro carregar o peso de resolver a contradição.
Zuenir Ventura distingue: cobiça é querer o que não se tem; inveja é querer que o outro não tenha. Aqui a inveja opera sobre a própria inferioridade sentida. O coitadinho não quer necessariamente o que o outro tem. Ele quer que o outro não possa existir sem pagar pela diferença. A dissonância — sentir-se pequeno e, ao mesmo tempo, merecedor — é resolvida terceirizando a responsabilidade. O outro é que deve compensar. O outro é que deve se diminuir. O outro é que deve sustentar a posição. E, enquanto o outro sustenta, o ego inflado permanece intacto e a inferioridade sentida não precisa ser assumida.
Zuenir Ventura distingue: cobiça é querer o que não se tem; inveja é querer que o outro não tenha. Aqui a inveja opera sobre a própria inferioridade sentida. O coitadinho não quer necessariamente o que o outro tem. Ele quer que o outro não possa existir sem pagar pela diferença. A dissonância — sentir-se pequeno e, ao mesmo tempo, merecedor — é resolvida terceirizando a responsabilidade. O outro é que deve compensar. O outro é que deve se diminuir. O outro é que deve sustentar a posição. E, enquanto o outro sustenta, o ego inflado permanece intacto e a inferioridade sentida não precisa ser assumida.
A inveja se disfarça muitas vezes de posse para manter a narrativa do amor. O ciúme declara o medo de perder. A cobiça declara o desejo de ter. A inveja, para não se nomear, se apresenta como cuidado, como “eu preciso de você”, como “se você me ama, você fica”. A posse é o disfarce. O outro não é desejado livremente. Ele é retido para que não possa existir sem carregar a dívida.
O discurso de amor esconde o desejo de que o outro não tenha a liberdade de sair. O ressentimento se acumula quando a diferença permanece. E a schadenfreude aparece, de forma discreta, quando o outro cede ou se explica. A inveja se mantém escondida porque a narrativa do amor autoriza a extração. O coitadinho não precisa se declarar superior. Ele se declara dependente, e a dependência vira direito de posse. O outro permanece preso na tentativa de provar que ama, enquanto a inveja continua operando sem ser nomeada.
| Sentimento | Definição | O que se deseja | Como se manifesta |
|---|---|---|---|
| Ciúme | Querer manter o que se tem | Preservar a posse ou a relação | Medo de perder |
| Cobiça | Querer o que não se tem | Possuir o objeto ou o status do outro | Desejo explícito de ter |
| Inveja | Querer que o outro não tenha | Que o outro perca ou não possa desfrutar | Se esconde; tristeza pelo bem alheio |
| Ressentimento | Mágoa acumulada pela comparação | Que o outro pague pela diferença | Culpa terceirizada, narrativa de vítima |
| Schadenfreude | Prazer com a perda do outro | Alívio quando o outro cai ou cede | Redução da tensão (estriado ventral) |
No circuito, o giro fusiforme registra o outro: a capacidade de existir sem drama, de se responsabilizar, de não precisar se vitimizar. O dACC registra a dor da comparação e da inferioridade. Em vez de elaborar, a pessoa converte a dor em performance de coitado e em exigência. O estriado ventral registra o alívio quando o outro cede ou se explica. A dissonância não se resolve. Ela se mantém porque a resolução real exigiria assumir a inferioridade e o desejo. O teatro evita isso. E a bondade alheia é sequestrada para manter a dissonância funcionando.
Isso é o que os torna, no limite, vagabundos sem dignidade. A dignidade exigiria assumir o desejo recalcado, a inferioridade sentida e a responsabilidade pelo próprio estado. O coitadinho não assume. Ele força a ida ao banheiro, chora nas telas, se sente excluído, submete quem não pode falar e ainda se apresenta como vítima. O ego inflado permanece porque a dissonância é externalizada. O outro carrega. E o narcisismo que ninguém vê se sustenta exatamente nisso: a recusa de elaborar a contradição interna e a extração permanente da bondade e da empatia alheias para não ter que enfrentá-la.
O ser humano é capaz de sentir inferioridade e não transformar o outro em recurso para resolvê-la. Quando a inferioridade sentida convive com o ego inflado que exige merecimento, e a solução é o teatro do coitado, o mecanismo que está operando é o da inveja disfarçada. E, como Zuenir aponta, ela se esconde. O coitadinho se esconde nela. E chama de injustiça o que é, no fundo, a recusa de ser o senhor da própria vida.
O sequestro da bondade e o aprisionamento do cuidado
Mulheres de valor desprezam essas figuras. E, mesmo assim, muitas vezes se aprisionam pelo instinto de cuidado. O desprezo existe e é lúcido. Elas reconhecem o teatro, a terceirização da culpa, a dissonância entre a inferioridade sentida e o ego inflado que exige merecimento. Reconhecem o coitadinho que não assume o desejo, que submete quem não pode falar e ainda se apresenta como vítima. O problema não é a falta de percepção. É o sequestro neural do cuidado.
O instinto de cuidado é real e tem base neural. Circuitos de empatia e de apego (envolvendo a ínsula, a amígdala e vias de oxitocina) predispõem a responder à fragilidade do outro com sustentação. O coitadismo sequestra exatamente isso. Transforma o cuidado livre em obrigação permanente. A bondade deixa de ser gesto. Ela vira dívida. Qualquer recuo é lido como abandono. Qualquer limite é lido como crueldade. A inveja opera sobre a liberdade da mulher de valor: o desejo de que ela não tenha a possibilidade de cuidar livremente, de sair, de não carregar. O teatro converte essa inveja em demanda moral. E o instinto de cuidado é capturado para sustentar a posição.
Como descrevi no artigo sobre o pássaro preso e a chave da gaiola, a relação abusiva redefine a percepção de liberdade. A mulher de valor, mesmo despreciando a figura, pode permanecer presa porque o circuito foi condicionado a tratar a saída como perigo. O giro fusiforme continua registrando a disponibilidade dela. O dACC registra a dor da comparação e da possível responsabilidade. Em vez de elaborar, o coitadinho converte essa dor em exigência. O estriado ventral registra o alívio quando ela cede ou permanece. A dissonância cognitiva — sentir-se inferior e, ao mesmo tempo, merecedora — não se resolve. Ela se mantém porque a mulher de valor está presa no cuidado. E, enquanto ela está presa, o narcisismo que ninguém vê continua operando sem precisar se declarar.
Isso é o que torna o aprisionamento tão eficaz e tão neuralmente reforçado. A mulher de valor despreza a figura. Mas o instinto de cuidado é sequestrado antes que o desprezo se transforme em saída. O coitadinho não precisa convencer. Ele precisa apenas continuar se apresentando como frágil o suficiente para que o cuidado não possa ser interrompido sem culpa. A chave da gaiola está visível. Mas o cérebro, condicionado pela dinâmica, trata a porta aberta como ameaça. E a inveja — o desejo de que a outra não tenha a liberdade de não cuidar — se esconde sob o teatro. Como Zuenir aponta, a inveja se caracteriza por se esconder. Aqui ela se esconde no sequestro do instinto que a mulher de valor não consegue, ou não quer, desligar de uma vez.
O ser humano é capaz de cuidar sem se aprisionar. Quando o cuidado é capturado para sustentar a dissonância e o ego inflado do coitadinho, o mecanismo que está operando é o da inveja disfarçada de necessidade. E a mulher de valor, mesmo desprezando a figura, muitas vezes permanece presa exatamente porque o teatro sequestra o que há de mais real nela — e o cérebro, por um tempo, trata essa prisão como proteção.
A Maria da Penha falsa e o carrapato humano
Mulheres que se vitimizam aprisionam homens que não as amam pelos circuitos abusivos da vítima. A Maria da Penha falsa opera exatamente o narcisismo que ninguém vê. Ela é sempre a vítima e nunca a protagonista da própria história. Por isso permanece consumida pela culpa que terceiriza e nunca é amada de fato.
O homem condicionado a não machucar tem o cérebro manipulado: o giro fusiforme registra a fragilidade apresentada, o dACC registra a dor da possível comparação ou da responsabilidade, e a resposta treinada — reforçada por circuitos de empatia e de aversão à agressão — é ceder para não ser o agressor. O estriado ventral dela registra o alívio quando ele paga, se explica ou permanece. A dissonância cognitiva — sentir-se inferior e, ao mesmo tempo, merecedora — se mantém porque o homem carrega a culpa. Ela não precisa assumir o desejo nem se tornar senhora da própria vida. O teatro do coitadismo resolve a contradição externamente.
Zuenir Ventura distingue: cobiça é querer o que não se tem; inveja é querer que o outro não tenha. Aqui a inveja não é pelo dinheiro em si. É pelo fato de o homem poder existir sem carregar a dívida. O coitadismo quer que ele não tenha a liberdade de sair, de não prover, de não se sentir culpado. O discurso de vítima justifica os meios. O homem culpado vira fonte de consumo fútil. Nada é construído: vem pronto para ser usado. Como no tempo em que sanguessugas eram aplicadas como medicina, o teatro extrai sem produzir. São carrapatos humanos: se sustentam no sangue do outro e não geram nada próprio.
Como desenvolvi no artigo “Homem com dinheiro como uma meta: a nova prostituição disfarçada de hipergamia”, quando o dinheiro se torna critério principal, o cérebro acopla a dopamina ao sinal de recursos, não à pessoa. O desejo genuíno diminui porque a interação se torna extração. O mesmo mecanismo aparece aqui, só que disfarçado de fragilidade: o homem não é conquistado apenas pela grana; ele é aprisionado pela culpa. O fluxo de recursos (dinheiro, atenção, permanência) é extraído sob a bandeira da vitimização. Quando o fluxo é ameaçado, o apego não se dissolve — ele se transforma em acusação. A hipergamia disfarçada de necessidade e a Maria da Penha falsa operam o mesmo circuito: o outro existe para prover, e a narrativa de vítima impede que ele saia sem pagar.
Na criação dos filhos o mesmo padrão se repete. A vitimização autoriza o direito de ir à internet dizer que se arrepende da maternidade, sempre sob a ótica da vítima do papel de mulher oprimida. A criança vira mais um recurso na narrativa. A verdadeira vítima — a mulher estuprada que precisa ser acreditada na delegacia — perde credibilidade porque o circuito foi saturado por pseudo-vítimas. Parte da dificuldade atual de acreditar na vítima real vem exatamente disso: o coitadismo sequestrrou a linguagem da dor e a transformou em ferramenta de extração. O cérebro social aprende a desconfiar da fragilidade apresentada porque ela foi usada, repetidamente, para justificar o meio.
O ser humano é capaz de cuidado e de responsabilidade sem transformar o outro em devedor permanente. Quando o discurso de vítima serve para aprisionar quem não ama, sugar recursos e manter a dissonância interna sem nunca assumir a própria história, o mecanismo que opera é o da inveja disfarçada de fragilidade. O narcisismo que ninguém vê não se eleva. Ele se abaixa, terceiriza a culpa, sequestra o instinto de não machucar e chama de injustiça o que é, no fundo, a recusa de ser protagonista. E, como Zuenir aponta, a inveja se esconde. Aqui ela se esconde no teatro da Maria da Penha falsa, destruindo, de passagem, a possibilidade de que as vítimas reais sejam ouvidas.
A dissonância cognitiva da sociedade aparece quando ela apoia a mãe que vai à internet dizer que odeia a maternidade. O discurso é recebido como coragem, como autenticidade, como denúncia do papel de mulher oprimida. Poucas pessoas param para pensar no que isso normaliza para a criança. A criança vira, no discurso público, a prova viva da opressão da mãe. Ela deixa de ser sujeito e passa a ser recurso narrativo.
A mãe permanece na posição de vítima permanente; a criança, na posição de peso que justifica o ódio. A sociedade, ao aplaudir, resolve a própria dissonância: reconhece que a maternidade pode ser difícil, mas não precisa enfrentar o custo de nomear que transformar a criança em instrumento de vitimização da mãe é uma forma de abuso. O coitadismo da mãe é sustentado coletivamente. E a criança aprende, desde cedo, que sua existência pode ser usada como prova de que alguém sofre. O circuito se fecha: a fragilidade da mãe é validada, a responsabilidade é terceirizada para a criança e para a sociedade, e a dissonância entre o discurso de cuidado e o uso da criança como recurso não precisa ser elaborada.
Como o mecanismo se sustenta no tempo
O coitadismo não precisa de grandes atos para se manter. Ele se sustenta por pequenas extrações repetidas: a explicação, o dinheiro, a permanência, o silêncio, a renúncia a um limite, a renúncia a sair. Cada uma dessas pequenas concessões, isoladamente, parece suportável. O outro cede “só dessa vez”, “só para não piorar”, “só para não ser o cruel”. Mas cada vez que ele cede, o estriado ventral registra um alívio temporário da tensão. O cérebro aprende que ceder reduz o desconforto imediato. O circuito se reforça.
O coitadinho não precisa convencer de uma vez. Ele não precisa de uma grande vitória. Ele precisa apenas que o outro continue tratando a interrupção do cuidado como perigo. Com o tempo, a extração deixa de parecer exceção e passa a parecer o funcionamento normal da relação. O que no começo era uma concessão pontual se transforma em regra não dita: o outro é quem deve se explicar, prover, permanecer e carregar o peso. A bondade alheia é capturada em doses pequenas e contínuas. E o teatro se mantém sem precisar se declarar, porque o outro já está condicionado a sustentar a posição para evitar a culpa de interromper.
O contraste com a responsabilidade real
A pessoa capaz de assumir a própria inferioridade e o próprio desejo não precisa transformar o outro em recurso. Ela elabora a dor da comparação em vez de convertê-la em demanda. Não terceiriza a culpa. Não sequestra a bondade alheia para sustentar a própria posição. A responsabilidade real não exige que o outro permaneça preso. Ela permite que o cuidado seja livre — e que a saída também seja possível.
O coitadismo, ao contrário, precisa que o outro carregue o peso da contradição. Ele precisa que o outro se explique, provisione, permaneça e se sinta culpado por qualquer limite. Por isso o narcisismo que ninguém vê se abaixa e faz a bondade do outro se abaixar junto. A diferença não está na ausência de sofrimento. Está na recusa de usar o outro para não ter que enfrentá-lo. Quem assume a própria inferioridade pode sofrer a comparação e, mesmo assim, não transformar o outro em devedor permanente. Quem não assume, precisa que o outro continue pagando para que a dissonância não precise ser elaborada. O cuidado livre é possível. O coitadismo é o que impede que ele permaneça livre.
Perfis extremos e a mania de justificar tudo
O padrão aparece em perfis extremos, e nesses casos o coitadismo não é apenas uma postura posterior. Ele faz parte da forma como o abuso se organiza e se esconde.
No caso de Gisèle Pelicot, o marido Dominique operou durante anos uma forma extrema do mecanismo. Ele submetia a esposa sexualmente, em segredo, a práticas que ela recusava, dopando-a para anular sua consciência e sua possibilidade de recusar. O livro e os depoimentos descrevem como ele recrutava outros homens e reduzia Gisèle a um objeto sem agência. Quando o caso veio à tona, a postura pública dele incluiu elementos do coitado: pedidos de desculpa, menção à vergonha interna, queixa de que a privação de ver a família era pior do que a prisão, desejo de ser esquecido. A culpa não desapareceu, mas foi parcialmente suavizada pela performance de sofrimento próprio. A inveja — o desejo de que ela não tivesse a liberdade de existir com limites e de recusar — se escondeu sob o teatro da fragilidade, mesmo depois de anos de submissão forçada por meio de drogas.
Wolfgang Priklopil manteve Natascha Kampusch por mais de oito anos em um porão. O sequestro reduziu uma criança a objeto sem agência. Depois da fuga, ele se matou. O mecanismo de reduzir o outro e, em seguida, evitar as consequências plenas da responsabilidade está presente. Natascha, em relatos e no livro, descreve não apenas o controle, mas também a dimensão do peso: a exigência de que ela se mantivesse magra, a vigilância sobre o corpo, a humilhação ligada à aparência. O controle do peso não era só disciplina.
Era mais uma forma de reduzir a agência dela e de manter o sequestrador na posição de quem definia as regras, enquanto ele próprio se apresentava, em alguns momentos, como alguém que “cuidava”. O coitadismo aqui não se declara abertamente como vítima, mas opera na recusa de assumir o peso real do que fez: a criança foi submetida para que ele pudesse exercer controle que não tinha sobre a própria vida.
Anders Breivik, no livro Um de Nós, planejou e executou o massacre de 77 pessoas. A trajetória inclui isolamento, ressentimento e uma narrativa interna de ser incompreendido ou de carregar uma missão. Mesmo em atos de extrema violência, o perfil frequentemente inclui elementos de vitimização própria — a ideia de que a sociedade o forçou, de que ele é o verdadeiro sofredor. O coitadismo alimenta a fantasia de que o ato é justificado pela própria dor.
Jeffrey Dahmer, dramatizado na Netflix, matou jovens homens. O perfil inclui isolamento, dificuldade de conexão e elementos de se apresentar como alguém que sofria e que não era compreendido. O abuso se organizou na redução do outro a objeto. A narrativa de sofrimento próprio, quando aparece, serve para suavizar ou redistribuir o peso da responsabilidade.
Estupradores que se declaram mulheres para serem transferidos a presídios femininos usam a posição de coitado para acessar um espaço e reduzir a consequência dos atos. A performance de fragilidade sequestra a empatia institucional. O coitadismo não é posterior ao ato. Ele é a ferramenta que permite continuar agindo com menos risco de consequência plena.
Existe uma diferença entre um fetiche pessoal e o uso dessa ferramenta. O problema não está no homem que se veste de mulher. O problema está naqueles que se usam do coitadismo, com inveja da mulher, para tirar dela suas liberdades, prerrogativas e conceitos. O fetiche pode existir sem pretensão de redefinir o espaço das mulheres ou de exigir que elas compartilhem banheiros, vestiários ou presídios.
Já o uso do coitadismo transforma a autodeclaração em direito de acesso e em silenciamento da mulher que questiona. A inveja aqui não é pelo corpo feminino em si. É pelo fato de a mulher ter um espaço onde o homem biológico, com pênis, não entra automaticamente.
O coitadinho sequestra a linguagem da opressão para fazer a mulher ceder seu espaço e sua definição. E chama de transfobia a recusa dela de aceitar que um pênis compartilhe o mesmo presídio, o mesmo banheiro ou a mesma categoria. A performance de fragilidade serve para que a mulher que defende seus limites seja lida como agressora. O circuito se fecha: a inveja de ter o que a mulher tem (o espaço, a categoria, a proteção) se esconde sob o teatro do coitado, e a mulher é obrigada a carregar a culpa de não ceder.
No esporte, o mesmo mecanismo aparece quando homens biológicos entram em categorias femininas. A performance de fragilidade sequestra a linguagem da inclusão e transforma a mulher que defende a categoria em agressora. O coitadinho não quer necessariamente competir em igualdade. Ele quer que a mulher não tenha a categoria exclusiva — o espaço onde a diferença biológica de força e desempenho não é anulada.
A inveja opera sobre a prerrogativa da mulher de ter uma competição justa. A autodeclaração vira direito de acesso, e qualquer limite é lido como transfobia. O circuito se fecha: a mulher que questiona é obrigada a carregar a culpa de não ceder, enquanto o homem biológico, sob o teatro do coitado, acessa o espaço e reduz a consequência de competir contra quem tem vantagem biológica. O problema não é o desejo de se identificar. É o uso do coitadismo para tirar da mulher a categoria e o direito de competir em condições de igualdade.
É preciso diferenciar. Há vítimas reais da sociedade. Há quem se faz de vítima. E há quem é as duas coisas: sofreu de fato e, ao mesmo tempo, usa a narrativa de vítima para não enfrentar as consequências dos próprios atos. O risco de achar que bullying na escola justifica tudo é real. Essa mania de justificar tudo alimenta a fantasia do narcisista que se faz de coitado.
A responsabilidade se dissolve. O outro é que deve carregar. O coitadismo narcísico se alimenta da confusão. Quando tudo é justificado por trauma ou por “a sociedade me fez assim”, o circuito de inveja continua operando sem ser nomeado. Nos perfis extremos, o coitadismo não apenas se esconde. Ele permite que a perversidade continue, porque o agente se apresenta, para si e para os outros, como quem também sofre.
Querer ser o Moraes e a inveja coletiva
O coitadinho narcísico não quer justiça pelo que Moraes fez. Ele quer ser o Moraes. A cobiça desejaria o poder. A inveja deseja que o outro não tenha o poder — ou que o observador possa exercer o mesmo tipo de controle. A performance de coitado sequestra a linguagem da justiça e a transforma em autorização para o próprio controle. A vingança é uma forma de liberar ditador interno e chamar de justiça, que seria pagar pelos crimes que cometeu e não ser substituído por outra forma de ditadura.
No caso de Vorcaro, é fácil reconhecer o padrão narcísico no homem de colarinho branco dos grupos de WhatsApp. O que se fala pouco é que grande parte do desejo público de condenação não vem, em primeiro lugar, do uso de dinheiro público. Vem da inveja. A cobiça olharia para o dinheiro e desejaria ter. A inveja olha e deseja que ele não tenha. O jogo não é o que se ganha, mas o que o outro perde.
Muitos homens não querem Vorcaro preso pelos crimes que ele supostamente cometeu — o roubo de milhões e o esquema de prostituição. No fundo, há inveja. Eles queriam ser ele. Querem o acesso, o dinheiro, a possibilidade de circular entre poder e prazer sem as restrições que sentem na própria vida.
A condenação, quando é desejada principalmente porque o outro tinha o que eles não têm, carrega esse desejo de que ele não tenha mais. Alguns que se consideram ou mesmo são oprimidos querem ser os opressores. O coitadismo coletivo sequestra a linguagem da justiça e a transforma em autorização para ocupar o lugar de quem controla. A inveja não se declara. Ela se apresenta como indignação moral. E o observador, ao desejar a queda, muitas vezes deseja, no fundo, a possibilidade de exercer o mesmo tipo de poder sem ter que nomear o desejo.
Conclusão
O ser humano é capaz de bondade, de cuidado e de responsabilidade sem transformar o outro em devedor permanente. A bondade real existe e não precisa de cálculo. O cuidado real não exige que o outro permaneça preso. A responsabilidade real não terceiriza a culpa. Quando o discurso de vítima serve para aprisionar, sugar e manter a dissonância interna sem nunca assumir a própria história, o mecanismo que opera é o da inveja disfarçada de fragilidade. O narcisismo que ninguém vê não se eleva. Ele se abaixa, terceiriza a culpa, sequestra a bondade e chama de injustiça o que é, no fundo, a recusa de ser o senhor da própria vida.
E, como Zuenir aponta, a inveja se esconde. Aqui ela se esconde no teatro do coitadismo, destruindo, de passagem, a possibilidade de que as vítimas reais sejam ouvidas. A linguagem da dor é capturada e usada como ferramenta de extração. A empatia é saturada. A criança vira recurso narrativo. O homem condicionado a não machucar é aprisionado pela culpa. A mulher de valor tem o instinto de cuidado sequestrado. O circuito se fecha porque a tentativa de devolver a responsabilidade é lida como agressão, e a posição de vítima se reforça.
Diferenciar é necessário. Há vítimas reais. Há quem se faz de vítima. E há quem é as duas coisas e ainda assim não pode deixar de sofrer as consequências dos próprios atos. Assumir as consequências também é necessário. O coitadismo não pode ser a desculpa permanente que impede a responsabilidade. Quando tudo é justificado por trauma, por bullying ou por “a sociedade me fez assim”, o circuito de inveja continua operando sem ser nomeado. A bondade alheia continua sendo extraída. E o outro continua existindo para sustentar a posição de quem se recusa a ser o senhor da própria vida.
O ser humano é capaz de sentir inferioridade e não transformar o outro em recurso para resolvê-la. É capaz de cuidar sem se aprisionar. É capaz de querer justiça sem precisar que o outro perca por comparação. Quando essas capacidades são sequestradas pelo teatro do coitado, o que resta é a inveja disfarçada de necessidade. E a inveja, como Zuenir escreve, se esconde. O trabalho de nomeá-la é o que permite que a bondade volte a ser livre e que as vítimas reais possam ser ouvidas.
Referências
BRAGA, Isabel de Fátima Alvim. Homem com dinheiro como uma meta: a nova prostituição disfarçada de hipergamia. Revista Pàhnorama, 14 out. 2026. Disponível em: https://revistapahnorama.com.br/2026/10/14/homem-com-dinheiro-como-uma-meta-a-nova-prostituicao-disfarcada-de-hipergamia/.
BRAGA, Isabel de Fátima Alvim. O pássaro preso e a chave da gaiola: como as relações abusivas redefinem a forma de ver o mundo. Revista Pàhnorama.
GILBERT, Elizabeth. All the Way to the River: Love, Loss, and Liberation. New York: Riverhead Books, 2025.
MALKIN, Craig. Rethinking Narcissism: The Secret to Recognizing and Coping with Narcissists. New York: Harper Wave, 2015.
PELICOT, Gisèle (com Judith Perrignon). Um hino à vida: a vergonha precisa mudar de lado. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Companhia das Letras, 2026.
SEIERSTAD, Åsne. Um de Nós: A história de Anders Breivik e do mais chocante atentado terrorista da Noruega. Tradução de Kristin Lie Garrubo. Rio de Janeiro: Record, 2016.
VENTURA, Zuenir. Inveja: Mal Secreto. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.
