Isabel de Fátima Alvim Braga

O que o Outubro Rosa raramente menciona
Outubro Rosa costuma falar de mamografia, autoexame, fatores de risco clássicos e detecção precoce. Quase nunca se fala da melatonina. No entanto, há décadas de estudos científicos relacionando níveis mais baixos desse hormônio a maior risco de câncer de mama, principalmente em mulheres após a menopausa e em quem trabalha à noite ou fica exposto a luz artificial durante a madrugada.
A melatonina não é apenas “o hormônio do sono”. Como explicado no capítulo “E se a melatonina não for o hormônio do sono?” do livro Noites de Renovação, ela é, antes de tudo, uma molécula reparadora dos tecidos. O sono que ela ajuda a induzir é, em grande parte, um efeito colateral: o organismo precisa reduzir o gasto de energia para que os reparos celulares possam ocorrer. Quando a produção ou a disponibilidade da melatonina cai — seja pela idade, pela luz azul das telas à noite ou por processos inflamatórios — o tecido mamário fica mais vulnerável a danos.
A queda com o envelhecimento e o que isso significa
A produção de melatonina pela glândula pineal (uma pequena glândula no cérebro que funciona como um “relógio interno”) diminui naturalmente com a idade. A partir dos 40–50 anos, a quantidade de melatonina que o corpo libera à noite costuma cair de forma progressiva. Essa queda acontece no mesmo período em que a incidência de câncer de mama aumenta, especialmente depois da menopausa.
Quando um exame de sangue ou de urina mostra “melatonina baixa”, isso não significa automaticamente que a glândula pineal esteja produzindo menos. Pode haver duas coisas acontecendo ao mesmo tempo:
- Menor produção: a pineal simplesmente fabrica menos hormônio à noite.
- Maior consumo: o próprio organismo está gastando mais melatonina porque a está usando como antioxidante. Em situações de inflamação, estresse oxidativo (excesso de radicais livres que danificam células) ou reparo de DNA, a melatonina é consumida para proteger as células. Ou seja, ela está sendo “usada” mais rapidamente e, por isso, aparece em menor quantidade nos exames.
Essa distinção é importante e ainda pouco discutida na prática clínica. Um resultado “baixo” pode refletir tanto uma glândula que produz menos quanto um corpo que está gastando mais a molécula para se defender de danos. Os exames comuns não conseguem separar com clareza essas duas situações.
Estudos observacionais e meta-análises (análises que juntam vários estudos) mostram um padrão consistente: mulheres depois da menopausa que apresentam níveis mais elevados de metabólitos da melatonina (especialmente a 6-sulfatoximelatonina medida na urina da noite) tendem a ter menor risco de desenvolver câncer de mama. Em mulheres ainda na menopausa a relação é mais fraca ou não aparece de forma clara.
Há também estudos com mulheres completamente cegas. Como elas não sofrem a supressão da melatonina pela luz, sua secreção noturna costuma se manter mais estável ao longo da vida. Alguns desses estudos registraram incidência menor de câncer de mama nesse grupo. Os dados, porém, têm limitações: o número de participantes é pequeno, nem sempre se mediram os níveis de melatonina diretamente, e existem outros fatores que podem influenciar o resultado. Por isso, não se pode tratar esses achados como prova definitiva, mas eles apontam na mesma direção dos demais estudos.
Em resumo: a queda da melatonina com a idade coincide com o aumento do risco de câncer de mama após a menopausa. Um nível baixo no exame pode significar tanto menor produção quanto maior consumo da molécula pelo próprio organismo. Mulheres pós-menopáusicas com níveis mais altos de metabólitos de melatonina apresentam, em média, menor risco, e as mulheres cegas — que mantêm a secreção mais estável — também aparecem com incidência reduzida em alguns estudos, embora com ressalvas metodológicas.
Como a melatonina ajuda a proteger o tecido mamário
Quando pesquisadores estudam células de câncer de mama em laboratório ou fazem experimentos com animais, a melatonina mostra várias ações que podem ajudar a frear o crescimento do tumor. Essas ações não são “mágicas”; elas atuam em mecanismos específicos que o câncer de mama costuma usar para crescer e se espalhar. Abaixo explico cada uma de forma simples:
- Reduz o estímulo do estrogênio nas células. Muitos cânceres de mama crescem estimulados pelo hormônio estrogênio. As células têm “antenas” (chamadas receptores de estrogênio alfa, ou ERα) que captam o estrogênio e, a partir disso, recebem o sinal para se multiplicar. A melatonina consegue diminuir a quantidade e a atividade dessas antenas. Com menos antenas funcionando, o estrogênio tem menos força para impulsionar o crescimento das células tumorais. É um efeito parecido com o de alguns medicamentos usados no tratamento do câncer de mama, só que natural.
- Diminui a produção local de estrogênio. Mesmo depois da menopausa, quando os ovários produzem pouco estrogênio, o corpo ainda consegue fabricar uma quantidade desse hormônio dentro do próprio tecido gorduroso e dentro do tumor, graças a uma enzima chamada aromatase. A melatonina inibe essa enzima. Menos aromatase significa menos estrogênio sendo produzido no local, o que reduz o combustível disponível para as células cancerígenas.
- Ajuda as células doentes a morrer e freia o crescimento e a invasão. Células normais têm um mecanismo de “morte programada” (apoptose) que as elimina quando estão danificadas. Células de câncer frequentemente desligam esse mecanismo e passam a se multiplicar sem controle, invadem tecidos vizinhos e formam novos vasos sanguíneos para se alimentar (angiogênese). Em estudos, a melatonina favorece a reativação da morte programada nas células tumorais, reduz a velocidade com que elas se dividem, dificulta sua capacidade de invadir e diminui a formação desses novos vasos que o tumor precisa para crescer.
- Protege o DNA de danos dentro das mitocôndrias. As mitocôndrias são as “usinas de energia” das células. Elas também produzem radicais livres — moléculas que, em excesso, danificam o DNA e favorecem o câncer. A melatonina funciona como um antioxidante muito eficiente dentro das mitocôndrias, neutralizando esses radicais e protegendo o material genético. É uma proteção direta contra um dos caminhos que levam ao surgimento e à progressão do tumor.
- Limita a capacidade das células de se dividirem sem fim. Algumas células de câncer conseguem se multiplicar quase indefinidamente porque ativam uma enzima chamada telomerase, que protege as pontas dos cromossomos e permite que a célula continue se dividindo. Em experimentos com células de câncer de mama que respondem ao estrogênio, a melatonina reduz essa atividade da telomerase estimulada pelo hormônio. Com a telomerase menos ativa, a célula perde parte da capacidade de se multiplicar sem limite.
Além desses mecanismos observados em laboratório, existe uma associação importante na vida real: o trabalho noturno e a exposição frequente à luz artificial durante a madrugada. A luz, especialmente a luz azul de telas e lâmpadas, suprime a produção de melatonina pela pineal. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), órgão ligado à Organização Mundial da Saúde, classifica o trabalho em turnos que envolve disrupção do ritmo circadiano (ou seja, a desregulação do relógio biológico por causa da luz à noite) como provavelmente carcinogênico para seres humanos. Essa classificação se baseia em vários estudos que mostram maior risco de câncer de mama em pessoas que trabalham à noite por longos períodos.
Em outras palavras: tanto os experimentos de laboratório quanto os dados de população apontam na mesma direção — manter uma boa produção noturna de melatonina parece estar associado a menor estímulo para o crescimento do câncer de mama, enquanto a supressão crônica dessa produção (por luz artificial à noite ou trabalho noturno) está ligada a maior risco.
Exposição a radiação e o duplo papel da melatonina
A radioterapia usada no tratamento do câncer de mama aplica uma dose de radiação ionizante direcionada à região da mama. Essa radiação causa dano oxidativo (danos por radicais livres) tanto nas células do tumor quanto no tecido saudável ao redor. O objetivo é destruir as células doentes, mas o tecido normal também sofre algum impacto.
Estudos feitos em laboratório (pré-clínicos) mostram que a melatonina pode ter um efeito dual interessante nesse contexto:
- Nas células de câncer de mama, a melatonina pode aumentar a sensibilidade à radiação (efeito chamado de radiosensibilizante). Isso acontece, em parte, porque ela reduz a quantidade de proteínas que as células usam para reparar quebras no DNA (como as proteínas RAD51 e DNA-PKcs) e também interfere em vias relacionadas ao estrogênio. Com menos capacidade de se reparar, as células tumorais ficam mais vulneráveis ao tratamento com radiação.
- No tecido mamário saudável, a melatonina pode atuar como radioprotetora. Estudos indicam que ela ajuda a reduzir a dermatite radioterápica (vermelhidão e inflamação da pele causada pela radioterapia), o estresse oxidativo e a inflamação no tecido normal. Em outras palavras: a mesma molécula que no dia a dia ajuda a proteger a mama de danos oxidativos pode, durante a radioterapia, potencializar o efeito sobre as células doentes e, ao mesmo tempo, diminuir parte dos efeitos colaterais no tecido saudável.
Ainda faltam ensaios clínicos grandes e bem controlados para confirmar esses achados na prática clínica. O perfil de segurança da melatonina, no entanto, torna essa linha de pesquisa promissora e justifica mais investigação.
A questão da radiação da mamografia e as controvérsias
A mamografia de rastreamento (o exame de rotina feito para detectar o câncer precocemente) também usa raios X, mas em doses muito baixas — bem menores do que as usadas na radioterapia de tratamento. Mesmo assim, o tema da radiação gera controvérsia. Esse texto não manda acabar com a mamografia, mas ausência de evidência de risco não deve ser interpretada como ausência de risco. O que se defende é o consentimento informado: o exame contem radiação. E o livre debate sem censura pelas sociedades médicas e pelas clínicas que lucram com esses exames.
Na Suíça, por exemplo, foi um relatório de 2014 de um comitê médico (Swiss Medical Board) que questionou o equilíbrio entre benefícios e riscos do rastreamento populacional (incluindo sobrediagnóstico) na mamografia. O relatório gerou debate, mas não resultou em proibição. As autoridades de saúde suíças continuam recomendando a mamografia a partir dos 50 anos, e programas de rastreamento seguem ativos na maioria dos cantões.
No Brasil, o debate gerou processos. Em 2024 e 2025, médicos foram investigados e, em alguns casos, condenados pela Justiça por afirmações sem suposto respaldo científico. Um exemplo é o médico L. F. M. , que afirmou em redes sociais que “uma mamografia gera uma radiação para a mama equivalente a 200 raios-X” e que isso aumentaria a incidência de câncer de mama. A Justiça Federal de Minas Gerais determinou a remoção do conteúdo, proibiu novas publicações semelhantes e condenou o profissional ao pagamento de danos morais coletivos.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) e sociedades médicas classificaram essas afirmações como fake news. A dose de radiação de uma mamografia é considerada baixa pelas autoridades de saúde, e o benefício da detecção precoce supera o risco teórico da radiação em mulheres na faixa etária recomendada para o rastreamento. Quem decide qual dose é baixa? Isso não deveria ser explicado aos pacientes?
Mas vamos a um debate interessante. A síndrome de Li-Fraumeni é uma condição genética rara em que a pessoa herda uma mutação no gene TP53, conhecido como “guardião do genoma”. Esse gene ajuda a reparar o DNA e a impedir que células danificadas se transformem em câncer. Quem tem a síndrome tem risco muito elevado de desenvolver vários tipos de câncer ao longo da vida, inclusive câncer de mama em idade jovem.
Por causa dessa fragilidade no sistema de reparo do DNA, a exposição à radiação ionizante (como a da mamografia ou da radioterapia) pode aumentar ainda mais o risco de novos tumores. Por isso, nas diretrizes de acompanhamento de pessoas com Li-Fraumeni, evita-se o uso de exames que envolvem radiação. Em vez da mamografia, recomenda-se a ressonância magnética (RM) das mamas como método de rastreamento. A RM não usa radiação ionizante, é mais sensível para detectar tumores precoces nessas pacientes de alto risco e reduz a exposição desnecessária a raios X. O acompanhamento costuma começar cedo e ser feito com RM anual (às vezes associada a outros exames sem radiação), sempre sob orientação de equipe especializada em síndromes de predisposição ao câncer.
Questiona-se: se na síndrome que tem risco aumentado de câncer, não se faz mamografia, não era o caso das mulheres saberem que existe algum risco, ainda que mínimo? Esse debate não deveria estar sendo colocado na mesa, ao invés de se censurarem os medicos que ousaram questionar a medicina default?
A ressonância magnética poderia substituir a mamografia?
A ressonância magnética (RM) das mamas não usa radiação ionizante. Ela é mais sensível do que a mamografia para detectar alguns tumores, especialmente em mamas densas. Por isso, diretrizes internacionais recomendam a RM como exame complementar (não como substituto) para mulheres de alto risco (por exemplo, portadoras de mutação nos genes BRCA ou com histórico familiar muito forte).
A RM tem limitações importantes para uso como rastreamento populacional de rotina:
- É mais cara e menos disponível.
- Tem menor especificidade: detecta mais lesões que no final se mostram benignas, o que gera mais biópsias, mais ansiedade e mais custos.
- Em mulheres de risco médio, o ganho em detecção não justifica, até o momento, a substituição da mamografia.
No caso específico de mulheres com próteses de silicone, a mamografia tem limitações técnicas: a prótese pode obscurecer parte do tecido mamário. A RM é superior para avaliar a integridade da prótese e, em alguns estudos, mostra melhor desempenho na detecção de lesões em mulheres com implantes.
Mesmo assim, a RM não é adotada como exame de rastreamento de rotina para todas as mulheres com prótese pela maioria dos médicos. Em geral, recomenda-se informar o técnico sobre a presença de implantes para que sejam feitas incidências específicas na mamografia, e a RM fica reservada para situações de dúvida, alto risco ou investigação de sintomas.
Fatores de risco que se confundem
Muitos dos fatores que os médicos chamam de “fatores clássicos de risco” para câncer de mama também mexem com a melatonina. Obesidade, síndrome metabólica (conjunto de problemas como excesso de gordura abdominal, resistência à insulina e pressão alta), trabalho noturno, privação de sono, inflamação crônica no corpo, pouca exposição à luz solar durante o dia e muita exposição à luz artificial à noite (especialmente a luz azul de telas) reduzem a produção de melatonina ou fazem o organismo gastar mais dela.
A melatonina funciona como um antioxidante poderoso. Quando o corpo está inflamado, com excesso de radicais livres ou precisando reparar DNA, ele “consome” mais melatonina para se proteger. Ao mesmo tempo, a luz artificial à noite e o trabalho em turnos suprimem a fabricação da molécula pela glândula pineal. O resultado é o mesmo: menos melatonina disponível no organismo.
Isso cria uma dificuldade importante na interpretação dos estudos. Quando uma pesquisa mostra que “trabalho noturno aumenta o risco de câncer de mama” ou que “obesidade aumenta o risco”, parte desse aumento pode estar acontecendo porque esses fatores baixam a melatonina. Em outras palavras: o que aparece nos gráficos como “risco independente” pode, em parte, ser mediado pela queda da melatonina. Separar o que é causa direta do que é consequência exige cuidado metodológico que muitos estudos ainda não fazem de forma completa.
Esse é exatamente o tipo de lacuna apontada no capítulo “E se a melatonina não for o hormônio do sono?” do livro Noites de Renovação (Isabel de Fátima Alvim Braga). Quando se dosa a melatonina no sangue ou na urina e se assume automaticamente que aquele número reflete a quantidade realmente disponível dentro das células ou no sistema nervoso, corre-se o risco de interpretações incompletas. O exame mede o que está circulando ou sendo excretado naquele momento, mas não distingue com clareza se a glândula está produzindo menos ou se o corpo está gastando mais a molécula para se defender de danos. Essa distinção muda a forma como entendemos o risco e a possível proteção.
Em termos práticos: preservar o ritmo circadiano (dormir no escuro, reduzir luz azul à noite, expor-se à luz natural de dia) não é apenas uma recomendação de “qualidade de sono”. É também uma forma de manter níveis mais adequados de uma molécula que estudos experimentais e observacionais associam a menor estímulo para o crescimento do câncer de mama. Os fatores de risco clássicos continuam importantes, mas parte do seu efeito pode passar pela via da melatonina — e essa via ainda é pouco discutida no Outubro Rosa tradicional.
O que isso significa na prática
Nenhuma informação deste texto substitui acompanhamento médico, exames de screening ou as recomendações oficiais de rastreamento. O ponto é que a prevenção também passa por preservar o ritmo circadiano: dormir no escuro, reduzir a luz azul das telas antes de dormir, expor-se à luz natural durante o dia e, em situações específicas e sob orientação profissional, avaliar a possibilidade de suplementação em doses baixas e fisiológicas. Ignorar o papel da melatonina deixa de lado um mecanismo biológico com décadas de evidência experimental e observacional.
Como ressaltado no livro Noites de Renovação, a ausência de evidência definitiva de risco não deve ser lida como evidência de ausência de risco. Ao mesmo tempo, a sociedade aceita facilmente a ideia de “pílula mágica” enquanto reduz a exposição solar diurna e aumenta a exposição a luz artificial noturna. Outubro Rosa pode e deve ir além da detecção: também pode falar de preservação dos ritmos naturais que protegem o tecido mamário ao longo da vida.
Referências principais (seleção):
• Hill SM et al. Melatonin: an inhibitor of breast cancer. Endocrine-Related Cancer. 2015.
• Revisões e meta-análises sobre níveis de melatonina e risco de câncer de mama em mulheres pós-menopáusicas.
• Estudos pré-clínicos sobre radiosensibilização e radioproteção com melatonina em células de câncer de mama (ex.: Alonso-González et al., Journal of Pineal Research).
• Classificação da IARC sobre trabalho noturno e disrupção circadiana.
• Braga IFA. Noites de Renovação. Capítulo 4: “E se a melatonina não for o hormônio do sono?”
