Isabel de Fátima Alvim Braga
De onde vem o whey protein
Whey protein é a proteína do soro do leite. O leite de vaca tem dois grandes grupos de proteína: a caseína (cerca de 80%) e as proteínas do soro (cerca de 20%). Quando se faz queijo, a caseína coagula e forma a massa sólida. O líquido que sobra é o soro — o whey. Esse líquido contém as proteínas solúveis, lactose, minerais e um pouco de gordura residual.
O soro não é jogado fora. Ele passa por processos de filtração (ultrafiltração, microfiltração) que concentram as proteínas e reduzem lactose e gordura. Depois é seco (geralmente por spray drying) até virar o pó que vai no pote. Dependendo do grau de purificação, o produto final pode ser:
• Concentrado: em geral 70–80% de proteína, com um pouco de lactose e gordura.
• Isolado: cerca de 90% ou mais de proteína, quase sem lactose.
• Hidrolisado: a proteína já vem parcialmente quebrada em peptídeos menores, o que pode acelerar a absorção.
Whey protein não é inventado em laboratório. É um subproduto da fabricação de queijo que a indústria aprendeu a concentrar e vender. Quanto mais queijo se produz, mais soro sobra. E foi exatamente isso que aconteceu em grande escala nos Estados Unidos.
O excedente americano de soro e a origem industrial do suplemento
Nos Estados Unidos a produção de queijo cresceu muito ao longo do século XX. Cheddar, muçarela para pizza e outros queijos geravam quantidades enormes de soro líquido. Por décadas esse líquido era tratado como resíduo: despejado em rios, no solo ou simplesmente descartado. Isso poluía a água (a matéria orgânica consumia oxigênio) e representava perda econômica — proteína de boa qualidade estava sendo jogada fora.
Com o avanço das tecnologias de membrana (ultrafiltração e microfiltração) e de secagem, a indústria passou a concentrar o soro. O líquido que antes era problema virou pó proteico com valor comercial. O que começou como solução ambiental e econômica para o excedente da indústria de queijo se transformou no mercado de whey protein que conhecemos hoje. A demanda de academia veio depois e amplificou o negócio, mas a matéria-prima em escala industrial já existia porque se produzia muito queijo.
Em resumo: muito queijo = muito soro sobrando. Em vez de poluir e perder dinheiro, a indústria transformou o subproduto em suplemento. O pote de whey que está na prateleira hoje é, em grande parte, o aproveitamento desse excedente gerado pela produção de queijo em escala industrial.
O que o Inmetro e a Proteste encontraram nos rótulos
Em 2014 o Inmetro analisou 15 marcas de whey protein concentrado disponíveis no mercado brasileiro (nacionais e importadas). O resultado foi duro: 14 das 15 marcas apresentaram algum tipo de não conformidade. Apenas a Met-Rx passou em todos os critérios avaliados.
Os problemas mais comuns foram: quantidade de proteína abaixo do declarado (Solaris e Voxx tinham cerca de 30% a menos), quantidade de carboidrato diferente do rótulo (várias marcas tinham bem mais carboidrato do que o informado) e presença de substâncias não declaradas (cafeína em algumas fórmulas). Em um caso havia proteína de origem diferente da declarada (trigo e soja misturados). O Inmetro enviou o relatório à Anvisa.
A Proteste fez testes independentes em laboratório. Em 2014, de cerca de 20 produtos, apenas seis ficaram dentro da margem de tolerância legal de ±20%. Houve casos extremos: um produto apresentou 844% a mais de carboidrato e menos proteína do que o rótulo prometia; outro tinha 320% a mais de carboidrato e 43% a menos de proteína.
Em 2018 a Proteste testou 30 marcas (sabor baunilha). Os rótulos melhoraram um pouco em relação à proteína, mas ainda havia problemas graves de carboidrato — uma marca chegou a +114% em relação ao declarado. Produtos que se apresentavam como “isolados” (que teoricamente deveriam ter cerca de 90% de proteína) tinham concentrações bem menores, algumas na casa dos 70%.
O que esses testes mostraram, na prática, é que muitos potes no mercado brasileiro da época não entregavam “tudo proteína”. O rótulo anunciava uma quantidade alta, mas parte do pó era carboidrato, gordura ou outros ingredientes. Em alguns casos havia o chamado amino spiking: adição de aminoácidos baratos (como glicina ou taurina) para inflar o resultado do teste de nitrogênio sem entregar proteína de qualidade real. O consumidor pagava por proteína e recebia menos do que o rótulo prometia.
A proteína do músculo não “some” — o que realmente acontece
Uma ideia comum na academia é que “o treino destrói o músculo e a proteína some”. Por isso seria urgente repor tudo logo depois do treino com whey. Essa visão não é tão razoável quanto parece.
Quando se treina (especialmente força), o músculo aumenta tanto a síntese quanto a degradação de proteínas. As fibras sofrem microlesões e parte das proteínas é quebrada. Mas os aminoácidos que saem dessas proteínas não desaparecem. Eles são liberados na circulação e ficam disponíveis no sangue. O corpo reutiliza boa parte deles.
O músculo não é um balde furado de onde a proteína escorre e some. Ele entra num estado de maior turnover: mais quebra e mais construção ao mesmo tempo. O que determina se a pessoa ganha ou perde massa muscular ao longo do tempo é o balanço entre síntese e degradação, não a quebra isolada de uma única sessão. A maior parte dos aminoácidos liberados pela quebra continua no sistema e pode ser recapturada.
O whey é útil porque entrega aminoácidos de forma rápida e com boa quantidade de leucina, o que ajuda a estimular a síntese proteica. Mas ele não está “repondo o que foi destruído e sumiu”. Ele está fornecendo matéria-prima extra para que a síntese supere a degradação. A proteína que saiu do músculo circula e pode ser reutilizada. A necessidade de “repor imediatamente” é mais uma estratégia de otimização do que uma emergência biológica. Comer proteína suficiente ao longo do dia importa mais do que a ideia de que tudo foi destruído e precisa ser substituído na hora.
O que os estudos dizem sobre o uso indiscriminado
Uma revisão sistemática publicada em 2021 reuniu 11 estudos sobre possíveis efeitos adversos do whey. A conclusão foi que o uso crônico, em doses altas e sem orientação profissional está associado a possíveis efeitos negativos, principalmente no fígado e nos rins. Outros achados incluíram piora de acne, alterações na microbiota intestinal e, em alguns casos, aumento de agressividade. O risco pareceu maior em pessoas sedentárias — que tomam o suplemento sem treinar e sem necessidade real de proteína extra.
Uma revisão narrativa de 2024 analisou riscos potenciais e encontrou associações (em alguns estudos) com sobrecarga hepática e renal, alterações na microbiota, acne e impactos em massa óssea ou comportamento, dependendo da dose e do contexto. A recomendação dos autores é de cautela: pessoas com problemas prévios de fígado ou rim, ou propensas a acne, devem ter cuidado. O uso equilibrado e com indicação faz mais sentido do que o consumo indiscriminado. Os autores pedem mais pesquisas de longo prazo.
Meta-análises sobre suplementação proteica em geral mostram que os ganhos de performance e recuperação são modestos. Em muitos casos os benefícios só aparecem quando o grupo que toma suplemento consome mais calorias no total do que o grupo controle. Isso sugere que parte do efeito vem do aumento de energia e proteína total da dieta, e não de algo especial do whey em si. Para quem já come proteína suficiente na alimentação comum, o suplemento acrescenta pouco.
Outros pontos levantados na literatura incluem: doses altas podem aumentar a carga de trabalho dos rins (mais ureia para filtrar); em pessoas suscetíveis pode piorar acne; e o uso excessivo de produtos “para músculo” (incluindo whey) tem sido associado, em alguns estudos, a preocupação excessiva com a imagem corporal. Além disso, muitos potes contêm outros ingredientes além da proteína — carboidratos, adoçantes, aromatizantes e aditivos.
O whey não é veneno. Mas também não é obrigatório nem inofensivo em qualquer quantidade. Os artigos que questionam o uso indiscriminado destacam que tomar muito, por muito tempo e sem necessidade real (especialmente sem treinar e sem orientação) pode sobrecarregar fígado e rins, piorar acne ou trazer outros efeitos. Para a maioria das pessoas que já come bem, o suplemento é opcional. A proteína da comida comum — ovos, leite, queijo, carne, peixe, leguminosas — resolve a maior parte das necessidades.
Considerações finais
Whey protein é, no fundo, o soro do leite concentrado. Ele existe em escala industrial porque a produção de queijo gera excedente de soro, e a indústria aprendeu a aproveitar esse líquido em vez de descartá-lo. Os testes do Inmetro e da Proteste mostraram que, no mercado brasileiro, muitos rótulos não entregavam o que prometiam — menos proteína e/ou mais carboidrato do que o declarado. A ideia de que o treino “destrói” a proteína e ela some é exagerada: os aminoácidos circulam e podem ser reutilizados. E os estudos que questionam o uso indiscriminado alertam para riscos em doses altas e crônicas, especialmente sem orientação e sem necessidade real.
Para a maioria das pessoas, o mais importante continua sendo a alimentação como um todo. O pote pode ser uma ferramenta conveniente em alguns contextos, mas não é mágica nem obrigatória. E, como qualquer produto, vale a pena olhar o rótulo com atenção e desconfiar quando o preço ou a promessa parecem bons demais.
Referências
1. Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). Relatório de Análise de Produtos – Suplementos Proteicos para Atletas (Whey Protein). 2014. Disponível no site do Inmetro.
2. Proteste – Associação Brasileira de Defesa do Consumidor. Testes de whey protein realizados em 2014 e 2018.
3. Vasconcelos QDJS, Bachur TPR, Aragão GF. Whey protein supplementation and its potentially adverse effects on health: a systematic review. Appl Physiol Nutr Metab. 2021;46(1):27-33. doi:10.1139/apnm-2020-0370.
4. Investigating the Health Implications of Whey Protein Consumption: A Narrative Review of Risks, Adverse Effects, and Associated Health Issues. Healthcare (Basel). 2024;12(2):246. doi:10.3390/healthcare12020246.
5. The effectiveness of protein supplements on athletic performance and post-exercise recovery − a Bayesian multilevel meta-analysis of randomized controlled trials. J Int Soc Sports Nutr. 2025.
6. Examine.com – Whey Protein (revisão de evidências científicas atualizada).
7. Relatos e matérias sobre os testes do Inmetro (2014) veiculados no Fantástico e em veículos de comunicação, além de análises posteriores de não conformidades de rotulagem no mercado brasileiro.
Texto elaborado com base nas informações discutidas e nas fontes públicas listadas acima. Para decisões individuais de saúde ou nutrição, consulte profissional habilitado.
