Um ex-colaborador da página de notícias Cerrado in Foco registrou uma ocorrência por ameaça contra Klerysson Rodrigues de Sousa, identificado no documento policial como proprietário do veículo. Em depoimento prestado à Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), o jovem também relatou que trabalhou durante meses sem receber e afirmou que a equipe teria sido informada de que passaria a ser remunerada quando fossem liberadas emendas parlamentares da deputada distrital Doutora Jane.
A ocorrência nº 161.073/2026-1 foi registrada na manhã deste domingo (30), por meio da Delegacia Eletrônica da PCDF, e encaminhada à 6ª Delegacia de Polícia, no Paranoá, responsável pela apuração. O caso foi registrado como ameaça e, segundo o documento, envolve fatos que teriam ocorrido entre 31 de julho e 24 de agosto.

De acordo com o relato prestado à polícia, Samuel Machado Silva trabalhou para o Cerrado in Foco como filmmaker, realizando gravações em estabelecimentos comerciais para a produção de conteúdo publicitário. Posteriormente, passou a atuar como operador de som do programa Cerrado Mania, também vinculado ao veículo.
O registro policial também traz uma afirmação envolvendo recursos provenientes de emendas parlamentares.
Samuel declarou à PCDF que Klerysson teria informado aos integrantes da equipe que eles passariam a receber mensalmente pelos serviços prestados quando fossem liberadas emendas parlamentares da deputada distrital Doutora Jane. Segundo o jovem, no entanto, a remuneração prometida não teria sido paga. O trabalhador afirmou que estava sem receber desde janeiro, embora continuasse prestando serviços de forma habitual. Conforme seu relato, ele trabalhava todas as quintas-feiras e também era solicitado em outros dias para realizar gravações em eventos e estabelecimentos comerciais.
Cobrança por pagamentos antecedeu conflito
Segundo Samuel, após meses sem receber, ele decidiu procurar ajuda externa.
O jovem contou à polícia que procurou um jornalista e comunicador que atua nas redes sociais e relatou a situação envolvendo os pagamentos. O comunicador teria, então, indicado um advogado de sua confiança para auxiliá-lo na tentativa de solucionar a cobrança. Posteriormente, segundo a ocorrência, o mesmo comunicador passou a publicar críticas e informações relacionadas a Klerysson e ao Cerrado in Foco. As publicações teriam provocado uma reação do proprietário da página.
Samuel afirma que passou a receber mensagens de Klerysson pelo WhatsApp relacionadas ao conteúdo divulgado nas redes sociais. De acordo com o histórico registrado pela Polícia Civil, Klerysson teria enviado mensagens com ameaças relacionadas às publicações e afirmado que Samuel iria “ver” caso o comunicador voltasse a publicar informações sobre o assunto. Após esses episódios, o jovem procurou a Polícia Civil e registrou a ocorrência por ameaça.
Imagens, documentos, áudios e vídeos foram anexados à ocorrência
Além do relato, o registro policial informa que Samuel apresentou materiais à Polícia Civil. Segundo o documento, foram anexados imagens, documentos, arquivos de áudio e arquivos de vídeo, que ficaram disponíveis no sistema interno PCDFNet. O conteúdo desses arquivos não está reproduzido na cópia da ocorrência analisada pela reportagem. Dessa forma, não é possível determinar, com base apenas no documento, o teor ou o alcance probatório do material apresentado.
Samuel também declarou formalmente que deseja representar criminalmente para que os fatos narrados sejam investigados e para que sejam adotadas as providências previstas em lei.
Caso será apurado pela Polícia Civil
A ocorrência foi homologada na manhã deste domingo e encaminhada à unidade policial responsável pela apuração. O despacho determina o encaminhamento do registro à unidade competente e informa que a vítima deverá ser intimada a comparecer à delegacia para formalizar o Termo de Representação contra o autor apontado e apresentar os meios de prova à autoridade policial.
O registro representa, portanto, o início da apuração policial e não uma conclusão sobre a ocorrência do crime ou sobre eventual responsabilidade da pessoa apontada pelo comunicante. O documento analisado apresenta a versão de Samuel Machado Silva, mas não contém manifestação de Klerysson Rodrigues de Sousa sobre as acusações.
Áudio revela discussão sobre pagamentos a colaborador e uso de recursos de emendas parlamentares
Uma gravação de aproximadamente 55 minutos, obtida pela reportagem, registra uma reunião envolvendo Samuel Machado Silva, familiares e Klerysson Rodrigues de Sousa, identificado em ocorrência policial como proprietário do Cerrado in Foco. A conversa aborda pagamentos pendentes pelos serviços prestados por Samuel, recursos provenientes de emendas parlamentares e a relação do veículo com o meio político.
Logo no início da reunião, um dos participantes questiona a falta de pagamento a Samuel e afirma que o jovem continuava trabalhando sob a expectativa de receber valores que estariam pendentes. Na conversa, Klerysson Rodrigues de Sousa reconhece que inicialmente havia combinado o pagamento de R$ 500 mensais a Samuel e que, posteriormente, o acordo teria sido alterado para pagamentos pelos dias trabalhados em ações publicitárias.
Em outro momento, Klerysson afirma que, após a obtenção de uma emenda parlamentar, repassou R$ 4 mil a Samuel. Segundo ele, o dinheiro deveria ser utilizado pelo jovem para a compra de um celular que serviria como instrumento de trabalho. A conversa também faz referência a uma segunda emenda parlamentar que estaria prevista, mas que, segundo Klerysson, não teria sido liberada. Ele atribui o atraso a problemas envolvendo o Governo do Distrito Federal e afirma que, durante esse período, passou a pagar valores menores, entre R$ 20 e R$ 50, pela presença de Samuel no estúdio.
Klerysson admite, contudo, que Samuel realizou outros trabalhos externos sem receber. Durante a reunião, afirma: “Das vezes que ele estava indo comigo pra rua, realmente eu não estava pagando pra ele.” Na sequência, justifica a situação dizendo que aguardava a resolução de outra negociação financeira.
Gravação traz declaração sobre dinheiro e período eleitoral
Um dos trechos que mais chama atenção ocorre quando a conversa passa a tratar das perspectivas financeiras do projeto durante o período político. Segundo a transcrição do áudio, Klerysson afirma que aquele seria o momento de “aproveitar para ganhar dinheiro” e menciona valores de R$ 20 mil, R$ 30 mil e R$ 50 mil que, segundo ele, poderiam surgir de diferentes fontes durante o ano político.
Em outro momento da reunião, ele afirma que realizava reuniões frequentes com políticos em busca de acordos e menciona uma promessa de R$ 100 mil feita por um deles. A conversa também cita Gilvan Máximo. A gravação registra ainda Klerysson afirmando que, quando recebesse novos recursos, pretendia calcular os valores devidos a Samuel e efetuar o pagamento. Ele também relata que utilizou dinheiro recebido por meio de uma emenda parlamentar para quitar uma dívida anterior com outra pessoa.