
Isabel de Fátima Alvim Braga
Médica. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada — e não tem medo do cancelamento.
A Eletronuclear é a usina: fende o átomo e faz luz. A INB é tudo que vem antes: cava o minério, tira o pó amarelo, vira gás, enriquece, faz a pastilha e entrega o feixe em Angra. Sem a INB, Angra 1 e 2 são prédio sem lenha. Com a INB, o Brasil diz que tem o ciclo — da terra à pastilha — nas mãos do Estado.
O que o folder não cabe é o resto da família: a Orquima do Brooklin nos anos 40, a Nuclemon, a Usina Santo Amaro, os tambores de Torta II em Itu e Interlagos, a cova ácida de Caldas, o uniforme de Caetité lavado na casa do empregado, e duas ampolas do tamanho de um dedo — 8 gramas de gás de urânio a 4,25% — que o inspetor da CNEN não achou na prateleira em julho de 2023. [1]
O TCU, no mesmo levantamento que pesou a Eletronuclear, olhou a INB. Inexigibilidade: 22,5% dos valores gastos. Falhas em convocação de licitantes na auditoria interna. O mesmo Acórdão 671/2026 que cravou R$ 5,3 bilhões de “só tem um fornecedor” na usina cravou o perfil da fábrica de combustível. [2] A frase que cabia em Angra cabe aqui, com outro CNPJ: a estatal do ciclo também compra no escuro o bastante para o passivo da monazita e o yellowcake da Bahia escaparem do pregão.
1. O que a INB é — e o que a Nuclemon foi
Nuclebrás nasce em 1974, Lei 6.189, Acordo Brasil-Alemanha, para ter o ciclo inteiro. O Decreto-Lei 2.464/1988 reformula o programa e rebatiza a empresa de Indústrias Nucleares do Brasil. Em 1994 a INB engole as controladas: Nuclei (enriquecimento), Urânio do Brasil e Nuclemon Mínero-Química Ltda. [3] Quem processava monazita em Santo Amaro não desapareceu. Mudou de placa.
A linha do tempo que o leigo precisa: Orquima (anos 1940-50, Santo Amaro, monazita das areias do Rio, Espírito Santo e Bahia; o negócio era tório para camisa de lampião e terras raras; urânio a 0,3% era subproduto). Encaminhamento pela CNEN: Administração da Produção da Monazita, depois CBTN, depois Nuclemon sob a Nuclebrás (1974-1994), Usina Santo Amaro (USAM) e depósito de Interlagos. Em 1992 a usina para. Descomissionamento declarado concluído em 1998. A INB herda o rejeito, o processo e as ações trabalhistas.
O rejeito tem nome de cozinha e dose de depósito. Torta II: residual do ataque alcalino e da dissolução clorídrica da monazita, rico em tório e urânio. Mesotório: fração rica em rádio-228. De 1975 a 1981 a Torta II foi para um sítio da Nuclebrás em Botuxim, Itu. Depois parte foi para o Complexo de Caldas. Em Itu ainda há cerca de 3,5 mil toneladas.
Em 2024-2026 a INB tentou vender Torta II de Itu, São Paulo e Caldas; o chamamento foi adiado seis vezes e morreu sem proposta em março de 2026. Em 2013 um contrato chinês de R$ 65 milhões não tirou o material do país: a China não licenciou a entrada.[4].
A CPI da Câmara Municipal de São Paulo, nos anos 1990, concluiu: solo contaminado na Usina Interlagos; Nuclemon responsável por descumprir controle de área; CNEN omissa na fiscalização; armazenamento na USAM era risco para trabalhador e vizinho. Relatório interno da própria Nuclemon: 59 trabalhadores acima do limite de dose da população em 1987. A DRT, a Fundacentro, o Sindicato dos Químicos e o MPT fecharam o ciclo da usina.
A ANTPEN e o advogado Luiz Carlos Moro seguem com sobreviventes. O TST, em 2026, manteve ação de indenização por doença tardia. Relato médico citado na imprensa: de um grupo de 65 em acompanhamento, um terço teve câncer.

Figura. Em cima, o ciclo que abastece Angra. Embaixo, a linha da monazita que a INB herdou da Nuclemon e ainda não vendeu.
2. Como a água — e o gás — passam (para leigo)
Pense numa padaria longa. Caetité é o trigo. Resende é o forno. Angra é quem come o pão. Sem o trigo, o forno não assa. Sem o pão, a usina não gira.
Em Caetité, no sudoeste da Bahia, a INB cava minério de urânio a céu aberto — um buraco grande, não um túnel. Desde 1999. O minério não vai cru para Angra. Primeiro mistura-se com ácido e solvente. O que sobra, amarelo, é o yellowcake: um pó/pasta de óxido de urânio (U3O8), o “bolo amarelo” do comércio mundial. De 2000 a 2015 a mina Cachoeira deu 3.750 toneladas desse concentrado. Hoje opera a mina do Engenho.
O yellowcake brasileiro, em boa parte da história recente, ainda viaja para a Europa para virar gás — a conversão. Em Resende a INB também converte e enriquece. Conversão: o óxido vira hexafluoreto de urânio, UF6. Em temperatura ambiente o UF6 pode estar sólido ou gasoso conforme a pressão; na fábrica ele é tratado como gás. Se vaza e encontra o vapor d’água do ar, vira ácido fluorídrico (HF): queima pele e pulmão. Não é a nuvem de Chernobyl. É química de flúor.
Enriquecer é separar. O urânio natural tem só 0,7% do isótopo que fende fácil (U-235). O resto é U-238, pesado demais para o reator de Angra. A ultracentrífuga gira o gás e o U-235, um pouco mais leve, sobe na mistura. O Brasil testa isso desde 1982 e é um dos poucos países que faz. O combustível de Angra sai com cerca de 4% de U-235. Bomba pede dezenas de por cento e outro desenho. As ampolas que sumiram em 2023 tinham 4,25% — grau de usina, 8 gramas cada. Perigoso como inventário e como flúor. Inútil como ogiva.
Depois o gás volta a pó (UO2), o pó vira pastilha preta do tamanho de uma tampa de caneta, a pastilha entra num tubo de liga de zircônio, os tubos viram um feixe — o elemento combustível. O caminhão leva o feixe a Angra. Só ali o urânio fende e esquenta a água do primário de que o outro artigo falou.
Três geografias, três jeitos de dar errado. Caetité: poeira no pulmão, licor (o líquido que carrega urânio) e solvente que, se a chuva pegar, vão à drenagem e ao córrego. Resende: o gás UF6 e a conta de grama a grama que a salvaguarda internacional exige. Caldas: a mina velha de urânio, fechada, com água ácida na cova e barragem. Itu e Interlagos: galpão de sobra da monazita no meio de gente. Não é o selo da tampa de Angra 2. É o começo da cadeia que a usina apresenta como se começasse na pastilha pronta.
3. Vazamentos e omissões — a lista que a imprensa e o MPT documentaram
Abril de 2000, Caetité, começo da mina. Cinco milhões de litros de licor de urânio teriam transbordado das bacias de sedimentação. O CRA baiano aplicou multa máxima. O MPF soube por denúncia, não pelo aviso da empresa. O Ibama suspendeu a Licença de Instalação. A URA parou de novembro de 2000 a julho de 2001. Relato de fiscal: mandaram esvaziar o tanque; a manta não estava compactada; o projeto aprovado não tinha sido executado. [6]
Outubro de 2009, Caetité. Vazamento de solvente orgânico com urânio. Tanque → caixa de brita → chuva → drenagem → Barragem do Córrego do Engenho. 15 m³ de brita e 33 m³ de solo contaminados, retirados para “área de segurança”. Ibama multa R$ 1 milhão por não comunicar na hora, condicionante da licença. É o mesmo verbo de Angra 1 em 2022: o evento existe; o crime institucional é o relógio. [7]
Há na literatura de missão e parecer a cifra de cerca de 30 mil litros de licor na URA em 2009 e 900 litros de licor ao solo por tubo rompido em 2010. Compilaram-se também “estrondo” noturno em 2009, com funcionários mandados para casa — versão de morador, não de laudo. [8]
Caldas, Unidade de Descomissionamento. Lavra encerrada; sítio de 1.360 a 1.400 hectares; cava inundada e ácida; bacia de rejeito; borra de enxofre; bota-fora gerador de drenagem ácida. Em 2023 barragens em emergência nível 1. Em junho de 2023, alumínio dissolvido de 29,53 mg/L no ponto de lançamento — recorde da unidade. Licença de Operação do Ibama nº 1.709/2025, em 9 de janeiro de 2025, para o descomissionamento. O risco descrito no papel técnico: vibração de mineração vizinha mais barramento comprometido = rejeito ácido com urânio e tório no Ribeirão Soberbo e no Rio Verde. [9]
Resende, 2023. Dois eventos que a assessoria não quer na mesma frase. Um: rompimento de equipamento na unidade de enriquecimento, vazamento de UF6; com umidade, HF. A INB falou em quantidade ínfima, sem atingir o meio ambiente. [8] Dois: em julho, transferência interna de ampolas P10 (testemunho dos cilindros da 15ª recarga de Angra 2). O inspetor residente de salvaguardas da CNEN conta e faltam duas. Cada uma: 8 g de UF6 enriquecido a 4,25%. Segunda contagem. Só então a INB formaliza o extravio. Busca interna. GSI e PF. A Eletronuclear, em 2025, diria que o MPF arquivou por erro operacional, sem ilícito, sem dano externo, e que 4,25% não faz bomba. As teorias do navio iraniano são lixo. O furo que sobra é de salvaguarda: duas testemunhas do material-fonte saíram da lista e o inspetor é quem viu, não o operador. [1]
O site da INB, em 2025, publica o PMA de Resende: urânio no ribeirão Água Branca abaixo de 0,02 mg/L (CONAMA 357), fluoreto e amônia também abaixo. “Não há evidências de incremento.” Isso é o gráfico do ano. Não é a história de Caetité nem a Torta II de Itu. [10]
4. Trabalho: Caetité R$ 15 milhões, Nuclemon sem fim
Vara do Trabalho de Guanambi, ACP do MPT e do Sindicato dos Mineradores de Brumado, 2015, sentença em dezembro de 2025 / notícia em janeiro de 2026: INB condenada a R$ 15 milhões por dano extrapatrimonial coletivo, destino FAT. Poeira com potencial de contaminação, ventilação, químico tóxico, uniforme contaminado lavado em casa. A juíza Nara Duarte Barroso Chaves mandou examinar ex-empregado e terceirizado e deixou a porta aberta para pensão se a doença se provar ligada à planta. [11] Relatos da inicial: tubo de ácido sulfúrico corroído pingando no solo; vazamento radioativo; EPI; PCMSO falho. Houve condenação anterior de R$ 100 mil por discriminar terceirizado no treino de segurança — área que chegou a ser interditada por risco radioativo em 2011. [12]
Nuclemon/USAM é o outro polo. A INB, como sucessora, responde. A tese da empresa nos recursos é a de sempre: nexo, prescrição, dose. A tese dos trabalhadores é poeira nas fotos de 1993, dose acima do limite nos próprios livros da Nuclemon, CPI municipal, fechamento pela DRT. Não é Angra 2 com selo e RASO. É fábrica química radioativa no Brooklin paulista, vizinha de prédio, no século em que Goiânia ainda ardia na memória.
5. Santa Quitéria, o urânio que não sai da terra, e as 1.168 travas
Itataia, Santa Quitéria (CE): maior reserva conhecida de urânio do país no discurso da empresa — 80 mil toneladas de U associadas a 8,9 milhões de toneladas de fosfato (0,2% U, 99,8% fosfato). Consórcio INB + Galvani desde 2008. Meta: 1,05 milhão de t/ano de fertilizante, 220 mil t de fosfato bicálcico, 2.300 t/ano de concentrado de urânio para Angra 1, 2 e um dia 3. Investimento falado: R$ 2,5 bilhões. Previsão original de produção: 2014. Em 2026 o presidente da INB ainda pede licença de instalação e fala em 2030. [13] O Ibama negou prévia em 2019; novo pedido; EIA de dezembro de 2023; pareceres pedindo informação. A CNEN aprovou a instalação do beneficiamento de urânio em 2024. O aval nuclear não fura o ambiental. A Funai, até 2023, entendia consulta indígena dispensável a mais de 20 km. Enquanto isso o Brasil importa fosfato e parte do urânio que a jazida teria. [14]
Monopólio constitucional do urânio. A Folha, em agosto de 2026: dez áreas reservadas à INB travam 1.168 processos minerários de outros minérios no mesmo polígono — Caldas, Lagoa Real, Santa Quitéria, Rio Cristalino, Gandarela, Amorinópolis, Rio Preto, Figueira, Espinharas, Cajá. O Brasil tem das maiores reservas de urânio do mundo e explora comercialmente uma mina. [15]
6. TCU, compras e o mesmo padrão da Eletronuclear
Acórdão 671/2026, TC 008.118/2025-6: INB no mesmo mapa que Eletronuclear, Nuclep e ENBPar. Inexigibilidade da INB: 22,5% dos valores. Auditoria interna: falhas em convocação de licitantes. Sinais de alerta de fornecedor com capital incompatível no cruzamento do LabContas (o bolo de R$ 1,3 bi citado pelo ministro foi destacado na Eletronuclear; o método vale para as quatro). Nuclep: dispensa como modalidade de maior materialidade, R$ 1,4 bilhão, e certame fora do PNCP. [2]
Enriquecimento e peça de ultracentrífuga são, de fato, mercado estreito. Torta II sem comprador depois de seis adiamentos é o outro extremo: objeto que ninguém quer no pregão. Os dois extremos alimentam a mesma tentação — contratar direto ou desistir. Nenhum dos dois substitui descrição de objeto no sistema.
7. Motor e risco — não é Chernobyl; é cadeia
Chernobyl e Fukushima são acidentes de reator. A INB não fende o núcleo em potência de gigawatt. O risco da INB é de mina, de química de flúor, de rejeito de vida longa (tório-232, meia-vida de 14 bilhões de anos; urânio-238, 4,5 bilhões) e de salvaguarda de grama. UF6 + água = HF: queimadura e pulmão, não nuvem de grafite. 8 g a 4,25% não montam arma. 5 milhões de litros de licor numa bacia mal compactada contaminam solo e narrativa por uma geração. Torta II num galpão de Itu desde 1975 é o Simpsons sem o humor: o rejeito que a cidade cresceu em volta.
A comparação útil com Angra não é o INES 7. É o verbo. Caetité 2000 e 2009: o órgão ambiental soube por denúncia ou depois. Resende 2023: o inspetor de salvaguardas contou o que o operador não tinha fechado. Caldas 2023-2025: emergência de barragem e LO de descomissionamento atrasada décadas depois da lavra. A mesma empresa que publica gráfico CONAMA “abaixo do limite” é sucessora da que a CPI paulistana disse que contaminou Interlagos.
8. Quem controla e o que a J&F não comprou (ainda)
A INB é estatal federal sob a ENBPar, o mesmo holding que controla a Eletronuclear no voto. A Âmbar/J&F comprou a fatia da Eletrobras na Eletronuclear, não a INB. O urânio da União não foi a leilão com o assento da usina. Isso importa: o sócio privado de Angra não é, no recorte de 2026, dono da mina nem da centrífuga. O muro que falta entre Âmbar e Avibras é um problema da Eletronuclear. O passivo da Torta II é um problema da INB e da União. Misturar os dois CNPJs num único plot de “os Batista ficaram com o urânio” é erro de organograma.
O que o organograma autoriza perguntar: se a receita de Angra 1 e 2 — já sangrada pela 3 — depende do yellowcake da INB, o atraso de Santa Quitéria e a única mina em Caetité são risco de suprimento, não só de jornalismo ambiental. A 22ª recarga de Angra 2, anunciada pela INB em agosto de 2026, sai de Resende. As ampolas que sumiram eram testemunho da 15ª.
9. Torta I, Torta II, mesotório — e o que a gente chama de Torta III
Monazita é areia preta de praia antiga — Rio, Espírito Santo, Bahia — com fosfato, terras raras (o cério, o lantânio, o neodímio do ímã e do laser), uns 5 a 6% de tório e 0,2 a 0,3% de urânio. No século XX o Brasil a atacava com soda para vender terra rara e guardar o tório. O tório não some: a meia-vida do Th-232 é da ordem da idade da Terra. Quem mexe, herda.
“Torta” aqui não é sobremesa. É o bolo que fica no pano do filtro quando se espreme a mistura química. A Nuclemon fazia isso em série. Não existe no edital da INB um produto à venda chamado Torta III. Existem três massas, e a terceira tem outro nome de laboratório. [16]
Passo 1. Moer a monazita, jogar soda cáustica, agitar, filtrar. O que não dissolve fica no pano: primeira torta, ainda misturada, com urânio e tório presos.
Passo 2. As terras raras saem dissolvidas, como cloreto — era o produto que se vendia. O que precipita de novo, agora concentrando urânio e tório, é a Torta II. Célio Bermann, professor da USP, leu o número na Câmara: cerca de 40% de óxido de tório, menos de 2% de óxido de urânio, ferro, fósforo, titânio. “Todos carregam dose.” É o tambor que a INB tenta vender desde 2013.
Passo 3. O líquido que sobrou ainda tem rádio. Novo tratamento: nasce o sulfato de bário e rádio, a torta de mesotório, rica em rádio-228. Rádio-228 decai e passa por um gás (radônio-220). Por isso o depósito pede vedação, não só “longe da criança”. Operário e texto antigo às vezes chamam essa terceira massa de Torta III. O papel da AIEA e o depósito de Caldas usam dois nomes: Torta II (tório) e mesotório (rádio-228). Tambor de 200 litros, bombona plástica de 100, ou silo de concreto. [17]
Números do passivo, não do folder. Oferta pública 2024: 15.424 toneladas métricas de Torta II nas três pontas — Caldas (a maior fatia, mais de 11 mil t), Itu/Botuxim (3,5 mil t) e São Paulo/Interlagos (cerca de 590 t no galpão). Folha, março de 2025: em Caldas, 19.600 tambores metálicos de 285 L e 19.175 bombonas plásticas de 100 L; tratar no país sairia uns R$ 1,2 bilhão que a INB não tem. GGN, ecoando Tania Malheiros: de 16,1 mil tambores enferrujados, a remediação (por reentamboramento — tambor velho dentro de tambor novo) tinha batido 60%; sobravam 6.440 na fila. Nuclear Engineering International, 2022: retomar o overpack de 16.100 metálicos sob olho da CNEN. [18] Venda 2024-2026: seis adiamentos, zero proposta. A “baixa atividade” não achou dono.
10. Miguel Yunes, o brejo e a água que vai ao Pinheiros
A ANTPEN publicou o que o mapa da Zona Sul esconde. Terreno de 54 mil m² na esquina das avenidas Interlagos e Miguel Yunes. Galpão com 1.150 toneladas de rejeito em tambor e contêiner — 590 toneladas de Torta II. Ao lado, obra de apartamento, condomínio, templo. A INB admite, no texto que a associação reproduz, que o lixo contamina um bolsão de água sob o galpão. Walter Mortágua, pela empresa, chama de baixa concentração e “contido”. Quando chove forte, a água bate na parede do depósito. Há brejo e calha no chão; o excesso segue por um córrego e deságua 500 metros depois no Rio Pinheiros. A remediação que a INB pedia à CNEN incluía tirar cerca de 80 m³ de solo contaminado. [19] Isso não é o ribeirão Água Branca de Resende no gráfico CONAMA. É água de subsolo metropolitano, a um passeio do Pinheiros, com placa de radiação no terreno onde o padre e o síndico chegaram depois do tambor.
Itu não é Interlagos, mas é o outro silo da mesma Torta II. Sítio São Bento / Botuxim, depósito clandestino da ditadura a partir de 1975, sete piscinas de concreto de 20 cm, licenciamento corretivo da CNEN décadas depois. A cidade tentou barrar a transferência do que restava em Interlagos. A INB e a CNEN dizem que manancial próximo não mostra o rejeito. O físico Paulo Massoni alerta para blindagem antiga. [4]
11. O processo da Bahia: o que estava nos autos — o ácido no chão
ACP 0010140-28.2015.5.05.0641, Vara do Trabalho de Guanambi. MPT + Sindicato dos Mineradores de Brumado. Investigação longa a partir de denúncia de trabalhador, sindicato e organização. A inicial não é um slogan. Cita tubo de ácido sulfúrico do beneficiamento com corrosão avançada e múltiplos pontos de vazamento, ácido escorrendo para o solo; risco de queimadura, vapor, lençol. Cita poeira com potencial de contaminação em área interna, ventilação ruim, químico tóxico. Cita o uniforme que saía da cerca e ia para a máquina de lavar da família. Cita vazamento de material radioativo, EPI, falta de periódico, barreira de contenção. O parquet pediu 159 obrigações de fazer e não fazer e multa cominatória de R$ 30 mil por infração. A juíza Nara Duarte Barroso Chaves, em dezembro de 2025, condenou a INB a R$ 15 milhões de dano extrapatrimonial coletivo para o FAT, mandou examinar ex-empregado e terceirizado da URA e deixou pensão se a doença se provar ligada à planta. [11] Não é “tonel de Torta II pingando no Brooklin”. É o circuito químico da mina que ainda opera: o ácido do yellowcake no chão da Bahia. A condenação de R$ 100 mil por discriminar terceirizado no treino — área interditada em 2011 por risco radioativo — é o capítulo anterior do mesmo fórum. [12]
12. Tania Malheiros e a ANTPEN — quem escreveu antes do acórdão
Tania Malheiros (taniamalheiros.com.br; blog taniamalheiros-jornalista.blogspot.com) cobre o setor desde 1986. Livros: Histórias Secretas do Brasil Nuclear; Brasil, a Bomba Oculta (prefácio de Janio de Freitas); Bomba atômica! Pra quê? (2018); Cobaias da Radiação (2023, prefácios de Cristina Serra e André Trigueiro) — a história da Orquima/USAM/Nuclemon e de quem a marcha deixou para trás. Em 1990 ela denunciou vazamento e contaminação no Estadão e no Jornal da Tarde. A matéria virou processo da fiscal Fernanda Giannasi e do Sindicato dos Químicos. No blog, ampolas de Resende, cabo furtado em Angra, urânio em Caldas. No GGN, a ordem de vinte poços para monitorar água subterrânea de Caldas com U, Th, Ra-226, Ra-228 e Pb-210; impacto no Córrego Consulta e na Bacia de Águas Claras; resíduo que deveria ter ficado nas bacias D3 e D4 e foi arrastado pelo fluxo. [20]
A ANTPEN — Associação Nacional dos Trabalhadores da Produção de Energia Nuclear — é o arquivo vivo da USAM. Site antpen.com.br: Interlagos e Miguel Yunes; fotos de poeira no chão de produção em 1993; “a INB-Nuclemon sabia”; lista de mortos; a ação que o TST manteve em 2026. Sem as duas — a jornalista e a associação — o parágrafo da sucessoriedade caberia no folder da INB Memória. [5]
13. O que a leitura autoriza
Autoriza dizer que a INB é o ciclo e a herdeira da Nuclemon. Autoriza dizer que Caetité vazou licor e solvente e pagou multa por não avisar. Autoriza dizer que Caldas é passivo de descomissionamento com barragem em alerta e LO só em 2025. Autoriza dizer que Itu não achou comprador para 3,5 mil toneladas de Torta II. Autoriza dizer que duas ampolas de 8 g a 4,25% sumiram da lista e que isso não é bomba — é falha de salvaguarda. Autoriza dizer que a Justiça do Trabalho de Guanambi cravou R$ 15 milhões e que o TST manteve a ação dos sobreviventes de Santo Amaro. Autoriza dizer que o TCU viu 22,5% de inexigibilidade.
Não autoriza dizer que a INB é Chernobyl baiano. Não autoriza dizer que as ampolas foram para o Irã. Não autoriza dizer que a J&F comprou a mina.
A frase que cabia em 2000, em 2009 e em julho de 2023:
Houve desvio de inventário / houve transbordo. O volume é este. O órgão é avisado hoje. A amostragem sai nesta semana.
A campanha precisava de uma palavra — segura — onde o papel tinha um tanque sem manta, um uniforme em casa e duas ampolas a menos na prateleira. Itaorna precisa do número. Caetité e Santo Amaro também.
Isabel de Fátima Alvim Braga – Rio de Janeiro, 27 de agosto de 2026 – Este artigo interpreta documentos públicos. Não é laudo radiológico.
Fontes numeradas
1. CNEN. Nota sobre ampolas P10 de UF6 extraviadas na INB/Resende. 17 ago. 2023. G1 Sul do Rio, 16-17 ago. 2023. Eletronuclear, esclarecimento 2025 (arquivo MPF; 8 g a 4,25%).
2. TCU. Acórdão 671/2026-Plenário. TC 008.118/2025-6. INB: inexigibilidade 22,5%; Eletronuclear R$ 5,3 bi; Nuclep R$ 1,4 bi em dispensa.
3. INB. História institucional. Wikipédia/INB: Nuclebrás 1974; INB 1988; incorporação Nuclemon, Nuclei e Urânio do Brasil em 1994.
4. G1 Sorocaba. Venda do lixo atômico de Itu fracassa após 6 adiamentos. 8 abr. 2026. 3,5 mil t de Torta II; tentativa chinesa 2013, R$ 65 mi.
5. ANTPEN; CPI Câmara Municipal de SP; Fórum, 31 jan. 2026 (TST mantém ação); EcoVirada; relatório DRT/Nuclemon (59 trabalhadores acima do limite em 1987).
6. Relatório missão DhESCA Caetité, 2011. 5 milhões de litros (2000); multa CRA; LI suspensa; MPF por denúncia.
7. Estadão. Ibama multa INB em R$ 1 milhão. 22 nov. 2009. Solvente + urânio; 15 m³ + 33 m³.
8. Parecer técnico-científico UFC / Diário do Nordeste (tabela de acidentes): Caetité 2009-2010; Resende UF6 2023; Caldas emergência 1; ampolas 2023.
9. Processo / estudo UDC Caldas (LO Ibama 1.709/2025, 9 jan. 2025); Al 29,53 mg/L jun. 2023; risco Soberbo/Rio Verde.
10. INB. Monitoramento ambiental Resende, resultados 2025 (CONAMA 357).
11. Agência Sertão. VT Guanambi condena INB a R$ 15 mi. 16 jan. 2026. ACP 0010140-28.2015.5.05.0641.
12. CSJT. INB condenada a R$ 100 mil por discriminar terceirizados. Interdição 2011.
13. INB. Projeto Santa Quitéria / Consórcio Galvani. World Nuclear News, 24 fev. 2026. Diário do Nordeste, 12 maio 2026.
14. Brazil Journal. Em Santa Quitéria o urânio continua debaixo da terra. 25 jun. 2026.
15. Folha. Impasse sobre urânio trava 1.168 processos minerários. 26 ago. 2026.
16. Célio Bermann. Audiência pública na Câmara sobre rejeito da Nuclemon / Torta II e mesotório. Escriba Câmara. Composição da Torta II (~40% ThO2).
17. INIS/AIEA, registro do depósito UTM Caldas: Torta II (Th) e mesotório (Ra-228). Radioprotection 2009: cake II + mesothorium.
18. G1 MG, 19 jun. 2024 (15 mil t à venda). Folha Mercado, 6 mar. 2025 (19.600 tambores + 19.175 bombonas; R$ 1,2 bi). GGN/Tania Malheiros, 8 abr. 2023 (6.440 tambores). NEI, 19 out. 2022 (overpack).
19. ANTPEN. Lixo atômico polui água do subsolo de Interlagos. Esquina Av. Interlagos × Miguel Yunes; 54 mil m²; 1.150 t / 590 t Torta II; bolsão; Pinheiros a 500 m; 80 m³ de solo. https://www.antpen.com.br/
20. Tania Malheiros. taniamalheiros.com.br e blog. Cobaias da Radiação (2023). Brasil 247, 21 abr. 2023. Sindicato dos Químicos-SP, 25 abr. 2023. GGN, águas de Caldas, 17 out. 2023. Folha Mercado, 1º out. 2025 (terras raras / Nuclemon). Audiência Senado 2012, Alair Veras (Orquima–Nuclemon-INB)