Por Ana Paula Tergilene e Isabel Braga
Este texto restringe-se a informações publicadas por empresas do grupo, pelo BNDES, pelo Cade, pelo TCU, pelo Congresso Nacional, por cortes e por reportagens nominadas nas referências finais. Onde as fontes divergem, as duas versões aparecem. Não há série anual contínua de desembolsos do BNDES à JBS divulgada de forma oficial ano a ano para os 20 anos; o que existe são totais de recortes diferentes, picos citados e fatos datados.[1][2][3][4]
1. O que é o conglomerado J&F
A J&F (antes J&F Investimentos S.A., depois J&F S.A.) é holding da família Batista, com origem em 1953, fundada por José Batista Sobrinho e Flora Mendonça Batista, sediada em São Paulo.[5][6]
Em fevereiro de 2026 a companhia anunciou reestruturação: deixou o nome “Investimentos”, passou a apresentar-se como conglomerado industrial e informou cinco unidades de negócio — Energia (Âmbar), Higiene e Cosméticos (Flora), Celulose (Eldorado Brasil), Mineração (LHG Mining) e Alimentos (JBS). A Âmbar já havia sido incorporada; as demais 100% controladas teriam plano de incorporação, com exceção da JBS.[6][7][8]
A JBS, segundo o anúncio da reestruturação, permaneceria negócio separado. A J&F S.A. ainda detinha cerca de 50% das ações após a listagem da JBS N.V. em Nova York, em 2025.[7][8][9]
O Conselho de Administração anunciado em 2026 teria sete membros: José Batista Sobrinho, Wesley Batista e Joesley Batista (este como presidente do conselho), mais quatro independentes — Francisco Sérgio Turra, Gelson Luiz Merísio, Orlando Octávio de Freitas Júnior e Henrique de Campos Meirelles.[6][7]
Receita e pessoal variam conforme a fonte e a data, e não devem ser somados como se fossem o mesmo balanço: Wikipédia (entrada consultada em 2026) registra faturamento de R$ 429,1 bilhões e lucro de R$ 16,4 bilhões em 2024, com 306 mil empregados em 2025.[5] A CNN, em maio de 2025, citou faturamento de R$ 434 bilhões em 2024.[10] A Bloomberg, em fevereiro de 2026, citou receita de R$ 490 bilhões nos 12 meses até o terceiro trimestre de 2025.[7] O site da J&F e o LinkedIn da J&F S.A. citaram R$ 490 bilhões (2025) / R$ 500 bilhões (2025) e cerca de 297 mil colaboradores.[6][11]
Empresas que as fontes ligam ao grupo
Unidades industriais da J&F S.A., conforme o site da companhia e o anúncio de 2026: JBS, Eldorado Brasil, Âmbar Energia, Flora, LHG Mining.[6][11][12]
Portfólio do Grupo J&F citado pela própria empresa, além das cinco unidades: PicPay, Banco Original, Fluxus, Canal Rural e MGÁS (também grafado MGAS), mais o Instituto J&F.[6][13]
A LHG Mining foi estabelecida em 2022 com a aquisição do Sistema Centro-Oeste da Vale (Mineração Corumbaense Reunida; minas de Urucum e Morraria Santa Cruz, em Corumbá, MS). A Wikipédia registra produção de 2021 daquele sistema: 2,7 milhões de toneladas de minério de ferro e 200 mil de manganês.[5]
A Eldorado foi criada pelo grupo (inauguração citada pela J&F para 2012). Em setembro de 2017 a J&F concluiu a primeira etapa de venda à Paper Excellence (49,41% das ações; R$ 3,9 bilhões na primeira fase; negócio anunciado à época em R$ 15 bilhões incluindo dívidas). Em 15 de maio de 2025 a J&F firmou acordo para recomprar essa fatia por US$ 2,64 bilhões (equivalente a R$ 15 bilhões na data da transação, segundo documento de dívida da J&F).[13][14][15][16]
O Banco Original é citado como sucessor da aquisição do Banco Matone (2011).[13] O Canal Rural foi comprado em fevereiro de 2013; o Cade aprovou a operação em março de 2013 sem restrição; valor publicado: R$ 40 milhões.[5]
José Batista Júnior vendeu sua participação na J&F aos irmãos em 2013 e passou a atuar pela JBJ Investimentos. O Cade barrou, em 2017, a aquisição do Mataboi por Júnior, citando o vínculo familiar com os controladores da JBS; depois ele assumiu o ativo rebatizado Prima Foods, segundo reportagem da AgFeed.[17]
2. Fusões e aquisições documentadas — e o Cade
A lista abaixo reúne operações que aparecem em linhas do tempo da própria JBS/J&F, em reportagens nominadas ou em atos do Cade. Não é o universo completo de atos no Cade (há dezenas de operações menores).
| Data | Operação | O que a fonte diz |
| 2005 | Swift Armour (Argentina) | Início da internacionalização, segundo a J&F. Valor US$ 200 milhões em compilação acadêmica.[13][18] |
| 2006–07 | Outras plantas na Argentina | Pontevedra, Venado Tuerto, CEPA, Col Car — valores em compilação 2005–2011.[18] |
| mar/2007 | IPO da JBS na Bovespa | Captação de R$ 1,6 bilhão, segundo MarketWatch.[19] |
| jul/2007 | Swift Foods (EUA/Austrália) | Enterprise value ≈ US$ 1,4 bi; G1: US$ 1,458 bi no fechamento (US$ 225 mi à HM Capital + US$ 1,233 bi de passivos).[19][20][21] |
| 2008 | Smithfield Beef e Tasman | Estadão: Smithfield US$ 565 mi; Tasman US$ 150 mi. National Beef não se concluiu por restrição antitruste dos EUA.[22][4] |
| 16–17/09/2009 | Bertin (Brasil) e Pilgrim’s Pride (EUA) | Estadão: receita combinada US$ 28,7 bi. Compilação: Bertin R$ 5,2 bi. Pilgrim’s avaliada em US$ 2,8 bi no relato da época (64% com US$ 768 mi + dívida US$ 1,6 bi).[23][18] |
| 2013 | Seara Brasil (ex-Marfrig) | Cade aprovou sem restrições (DOU, 12/09/2013). Assunção de R$ 5,85 bi em dívidas.[24][13] |
| 2013 | Canal Rural | Cade aprovou sem restrição em março de 2013; R$ 40 milhões.[5] |
| 2013+ | Zenda, Tyson aves BR/MX, Gold’n Plump, Tulip, Vivera, Huon | Linha do tempo oficial da JBS.[25][13] |
| 2017 | Mataboi / Júnior Batista | Cade barrou pelo vínculo familiar com a JBS.[17] |
| 2022 | Sistema Centro-Oeste da Vale → LHG | Corumbá (MS).[5][13] |
| jun/2025 | Dupla listagem JBS N.V. | Concluída em 6/6/2025; JBS S.A. vira subsidiária da estrutura holandesa; BDRs JBSS32.[16][9] |
| mai–jun/2025 | Recompra de 49,41% da Eldorado | Cade aprovou sem restrições: consolidação de controle compartilhado para unitário.[26][14] |
| dez/2025 | Âmbar compra UTE Norte Fluminense (EDF) | Superintendência-Geral do Cade aprovou sem restrições (DOU 29/12/2025).[27] |
| fev/2026 | Seara: duas granjas da Céu Azul (SP) | SG/Cade aprovou sem restrições.[28] |
| mai/2026 | Âmbar: Roraima Energia + térmicas em Boa Vista | Cade aprovou sem restrições.[29] |
| ago/2026 | Oferta pelos ~18% restantes da Pilgrim’s Pride | Proposta não vinculante: 2,086 ações Classe A da JBS por ação da PPC; ≈ US$ 28,49. JBS já tinha ~82%.[30] |
Tabela 1. Operações com fonte identificada. Não é inventário completo do Cade.
3. BNDES — o que cada fonte mede (não é uma série oficial de 20 anos)
Não foi localizado, nas fontes consultadas, um arquivo público do BNDES com o desembolso anual à JBS/J&F em cada um dos últimos 20 anos somado numa única metodologia. Por isso não se inventa aqui uma série contínua em reais de 2006 a 2026. O que há são recortes.
Totais publicados — contas diferentes
[A] Aos Fatos (explicador sobre operações desde 2002): o BNDES “emprestou e investiu ao menos R$ 7,8 bilhões” à JBS ao longo de 14 anos; quase 2.000 operações; programas Finame, Exim e investimentos diretos (ações e debêntures). O pico citado: contratos que ultrapassaram R$ 4 bilhões só em 2009–2010, “mais da metade do montante” do período analisado.[1]
[B] Poder360 (14/08/2024), sobre equity: de 2007 a 2011 o banco “investiu R$ 8,1 bilhões na compra de ações”. De 2007 a 2023 teria recebido R$ 14,73 bilhões (R$ 4,143 bilhões em dividendos + R$ 10,080 bilhões com venda de papéis). Ainda detinha R$ 17,2 bilhões em ações naquela reportagem. Com dividendos então anunciados, o texto soma retorno acumulado de R$ 23,9 bilhões e “295%” sobre os R$ 8,1 bilhões. Esse percentual inclui valorização de estoque, não apenas caixa devolvido ao Tesouro.[2]
[C] Nota do BNDES (17/03/2025) sobre o acordo da dupla listagem: desde 2007 investiu “aproximadamente R$ 8,1 bilhões”; já havia recebido R$ 4,9 bilhões em dividendos; “ganho estimado” da BNDESPar em 31/12/2024: R$ 22,7 bilhões; TIR de 11,35% contra 7,25% do Ibovespa no período comparado pelo banco.[3]
[D] VEJA (29/01/2020), falando da auditoria contratada pelo BNDES: oito operações entre o banco e a J&F, “totalizando, em valores atualizados, 20,1 bilhões de reais, entre os anos de 2005 a 2018”.[31] Esse número é estoque atualizado de operações auditadas, não um fluxo novo de 2018.
[E] Folha (14/03/2018) relatou avaliação do TCU de que o BNDES “perdeu R$ 5,082 bilhões” em operações de injeção para compra de frigoríficos. É a tese do tribunal naquela data; não é o mesmo critério dos itens [B] e [C], que apontam ganho posterior da carteira.[4]
[F] Resposta do BNDES ao RIC nº 679/2025 (Câmara): “não há registro de nenhuma operação de crédito” do BNDES para a JBS S.A. (CNPJ 02.916.265/0001-60) de jan/2023 a dez/2024, nas modalidades direta e indireta. A BNDESPar, então titular de 20,81% das ordinárias, recebeu dividendos de R$ 461.661.101,00 em 2023 e R$ 923.322.202,00 em 2024.[32]
Fatos datados (substituto da série anual que o banco não publicou neste recorte)
2005 — Diretoria do BNDES aprovou, em 19/07/2005, financiamento ligado à aquisição de 75% da Swift Armour Argentina (contrato 05.2.0710.1). O TCU depois apontou dano pela dispensa retroativa de juros de 4% a.a. Valor original do débito no acórdão: R$ 29.253.755,35 (ocorrência em 22/10/2010); atualizado até 31/01/2023: R$ 60.580.184,00. Em 14/12/2023 a JBS pagou R$ 94.204.231,48 ao banco referente a esse débito.[33]
2007 — BNDES adquire ações da JBS e passa a deter 12,9%, segundo a reconstrução da Folha; recursos associados à compra da Swift Foods.[4]
2008 — Folha: recursos do BNDES para Smithfield Beef, Five Rivers e tentativa da National Beef; participação reportada de 19,4% (13% direto + 6,4% via fundo).[4]
2009 — Folha: novo suporte para fusão com Bertin e compra da Pilgrim’s; ações do banco na Bertin viraram ações da JBS.[4]
2011 — Folha: participação elevada a 33,4% (30,4% direto + 3% via fundo), a pedido da JBS; vendas parciais em 2012 e 2015; à época da matéria de 2018 o banco detinha 21,3%.[4]
Abril de 2024 — VEJA relatou que o TCU reconheceu a legalidade dos investimentos da BNDESPar na JBS para Pilgrim’s e Bertin.[34]
Março de 2025 — BNDESPar assinou acordo com a J&F no contexto da dupla listagem: pagamento de até R$ 500 milhões pela J&F caso não haja valorização das ações a ser verificada no segundo semestre de 2026; o banco se abstém de votar na assembleia da listagem; a participação acionária não se altera por esse acordo.[3]
Abril–maio de 2025 — BNDESPar vendeu 58.307.700 ações da JBS S.A. na B3 e reduziu a fatia de 20,81% para 18,18%. Valor não foi divulgado pelo banco; o Valor estimou cerca de R$ 2,5 bilhões.[35] Demonstrações da BNDESPar registram ainda alienação de 2.365 mil ações da JBS N.V. em setembro de 2025, caindo para 17,14% do capital.[36]
Poder de voto após a estrutura de duas classes: as ações Classe A valem 1 voto e as Classe B (da controladora) valem 10. Filings e notas da BNDESPar indicam cerca de 5,3% a 5,36% do poder de voto, mesmo com fatia de capital na casa de 17%–25% das Classe A, conforme o denominador usado.[37][36][9]
Dezembro de 2025 — BNDES aprovou R$ 1,05 bilhão para ferrovia de 86,7 km da Eldorado (Três Lagoas–Aparecida do Taboado/MS): R$ 1 bilhão em debêntures de infraestrutura + R$ 50 milhões Finem. Não é crédito à JBS S.A.; é apoio logístico à controlada de celulose.[38][39]
4. Setores estratégicos do BNDES (incluindo papel e celulose e TIC)
A página de Temas Estratégicos do BNDES (atualização citada de 29/12/2025) lista, na Estratégia 2026–2030, temas norteadores: desenvolvimento social; transformação ecológica; nova industrialização; inovação e digitalização. Entre os temas de negócio: infraestrutura resiliente; desenvolvimento produtivo (nova industrialização, bioeconomia, transformação digital, cadeias estratégicas); agropecuária sustentável; conservação; e, no suporte, tecnologia da informação e uso de dados e inteligência artificial.[40]
As seis missões da Nova Indústria Brasil, no documento de agenda de inovação/digitalização/IA do BNDES, são: (1) cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais; (2) complexo industrial da saúde; (3) infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade; (4) transformação digital da indústria; (5) bioeconomia, descarbonização e transição energética; (6) tecnologias de soberania e defesa, inclusive aeroespacial. Num recorte de carteira reproduzido nesse PDF, a missão 4 (digitalização) concentrou 39,6% e a missão 5 (bioeconomia/energia) 18,1%.[41]
Papel e celulose aparece como setor à parte nas Perspectivas de Investimento do BNDES: no cenário-base, investimentos mapeados de R$ 9,1 bi (2024), R$ 7,3 bi (2025), R$ 11,3 bi (2026), R$ 19,3 bi (2027) e R$ 23,3 bi (2028), total 2024–2028 de R$ 70,2 bilhões. Alimentos, na mesma tabela: total 2024–2028 de R$ 59,7 bilhões no cenário-base.[42] Esses números são perspectiva setorial do país, não destinação à J&F.
A Estratégia de Investimentos em Renda Variável da BNDESPar, atualizada em outubro de 2025 segundo o mesmo PDF de inovação, passou a incluir TIC — “desenvolvimento de produtos, componentes estratégicos, soluções ou infraestrutura em tecnologias da informação e comunicações (TICs)”.[41]
Editais e chamadas localizados (não se afirma que a J&F os tenha vencido): chamada BNDES/Finep de 2025 para minerais estratégicos da transição energética (exemplo publicado em 2026: R$ 77,5 milhões à Viridis Mineração, que não é empresa J&F); Mais Inovação Brasil — Bioeconomia (Finep/FNDCT, orçamento de subvenção de R$ 250 milhões no regulamento citado); Brasil Soberano, com portaria que inclui setores sob tarifaço americano e cadeias com déficit (saúde, TI, químico, fertilizantes, siderurgia, entre outros).[43][44][45]
Relação factual com o grupo, sem inferir intenção: a J&F atua em alimentos, celulose, energia, mineração e serviços financeiros digitais — setores que coincidem com rubricas da política industrial acima. Coincidência setorial não é prova de que cada ativo tenha nascido de um edital específico.[6][40][41]
5. Finep — o que foi encontrado
Nas buscas feitas para esta reportagem não apareceu contrato Finep de bilhões com a JBS ou com a J&F comparável aos totais do BNDES. Essa ausência é o resultado da busca, não a prova de que jamais tenha existido um convênio menor não indexado nas matérias consultadas.
O que as fontes trazem, e só isso:
O Estadão (07–08/04/2026) informou que Joesley Batista assinou contrato para participar do funding privado da Avibrás (indústria de defesa em recuperação judicial desde 2022), num pacote de R$ 300 milhões coordenado pelo Fundo Brasil Crédito. O plano de reestruturação da Avibrás previa outros R$ 300 milhões de fonte pública “por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do BNDES ou do PAC”. A reportagem diz que a produção seria retomada mesmo sem esses recursos públicos ainda em mãos. Não publica o valor aportado por Joesley nem um contrato Finep assinado.[46]
A Finep aparece como coautora de chamadas gerais (bioeconomia; minerais críticos com o BNDES). Nenhum dos resultados parciais consultados lista JBS, J&F, Eldorado, Âmbar ou Flora como proponente aprovado nesses PDFs.[44][43]
6. Processos e acordos que as fontes nomeiam
2017 — Acordo de leniência J&F–MPF: R$ 10,3 bilhões em 25 anos (R$ 8 bilhões a Funcef, Petros, BNDES, União, FGTS e Caixa; R$ 2,3 bilhões em projetos sociais), corrigido pelo IPCA. Operações citadas no entorno: Greenfield, Sépsis, Cui Bono, Bullish e Carne Fraca.[47][48]
2020 — J&F pledou guilty nos EUA a conspiração para violar o FCPA; multa de US$ 256 milhões (metade compensável com o que já havia sido acordado no Brasil, segundo a AP). JBS/SEC: US$ 26,8 milhões por irregularidades contábeis na Pilgrim’s Pride. O advogado da família disse em corte que a empresa deu dinheiro e presentes a cinco oficiais brasileiros (2005–2017) para obter financiamento de bancos estatais usado também na expansão nos EUA.[49]
2023 — 5ª Câmara do MPF chegou a reajustar a multa de R$ 10,3 bilhões para R$ 3,5 bilhões e o prazo de 25 para 8 anos, segundo a CNN; o Conselho Institucional do MPF depois restaurou o patamar original, segundo o Estadão. Dias Toffoli suspendeu pagamentos em 2023.[50][51]
Novembro de 2025 — Juiz federal Antonio Claudio Macedo da Silva (10ª Vara Federal Criminal do DF) anulou a cláusula penal de R$ 10 bilhões por vício de consentimento e mandou recalcular a multa, com dedução do pago ao DOJ e base limitada ao território brasileiro.[51][52]
2026 — Estadão relatou que J&F e JBS entraram no radar das CPIs do INSS e do Crime Organizado por pagamentos que o Coaf classificou como atípicos (R$ 55,6 milhões a empresas ligadas a Danilo Trento no recorte citado; R$ 11,3 milhões da JBS à Consult Inteligência Tributária). A J&F, na mesma reportagem, afirma que os pagamentos são por serviços ou produtos comprovados.[53]
7. Nota sobre o paradoxo de Abilene
O paradoxo de Abilene foi descrito por Jerry B. Harvey em 1974: um grupo toma uma decisão coletiva que nenhum integrante desejava, porque cada um supõe que os demais desejam. Não há, nas fontes desta reportagem, documento do BNDES, do Cade ou da J&F que use esse conceito. A menção aqui é só a definição do termo — não é fato sobre o grupo.
8. O dossiê de Angra — o que o nexo J&F / Âmbar / Eletronuclear autoriza perguntar ao BNDES
Em 15 de outubro de 2025 a Eletrobras (depois Axia) anunciou a venda de toda a sua participação na Eletronuclear à Âmbar Energia, da J&F, por R$ 535 milhões, com assunção de garantias e de R$ 2,4 bilhões em debêntures ligadas a acordo com a União.
A Âmbar fica com 68% do capital total e 35,3% do votante; o controle votante permanece com a União, via ENBPar (64,7%). O Cade aprovou sem restrição em 1º de dezembro de 2025. No mesmo dia da venda, o MME despachou estudo de Angra 3 a ser feito pela Eletronuclear com o BNDES — o próprio banco já havia estimado, no ano anterior, cerca de R$ 23 bilhões para retomar a obra e R$ 21 bilhões para desistir.[54][55][56][57]
O banco via as contas. Não sentava na mesa que decide. Enquanto a JBS era empresa brasileira na Bolsa de São Paulo, o BNDES — pela BNDESPar — não tinha lugar no Conselho de Administração, o órgão que escolhe diretoria e aprova compra de empresa.
Tinha só um lugar no Conselho Fiscal: um colegiado menor, de mandato anual, cuja função legal é ler balanço, emitir parecer e avisar a assembleia se achar irregularidade. Não manda na fábrica, no frigorífico nem na usina.[63][64]
Em abril de 2024 e de novo em abril de 2025 a assembleia da JBS elegeu, por indicação da BNDESPar, um titular e um suplente desse conselho fiscal. Na segunda vez a eleição foi a dos acionistas minoritários — o caminho que a lei abre a quem não controla a empresa, mas quer fiscalizar as contas.[63][65][66]
Isso define a responsabilidade do banco naquele recorte: fiscalizar o número publicado, não operar o negócio. O conselheiro fiscal indicado pelo sócio estatal não assina estratégia, não veta fusão e não responde pela caldeira de Angra. Responde, no limite da lei das S.A., por ter ou não lido as demonstrações e por ter ou não alertado os demais acionistas.
Em 6 de junho de 2025 a JBS muda de casca e vira companhia holandesa (JBS N.V.). Na carteira do próprio BNDES, em junho daquele ano, a linha da nova holding já aparece assim: sem acordo de acionistas, sem cadeira no conselho de administração, sem cadeira no conselho fiscal.[67][68]
O banco continua sócio. O voto da fatia passa a ser decidido pela Diretoria da BNDESPar, em reunião interna — não por alguém sentado no board da JBS.[69]Na Eletronuclear o desenho é outro e as atas públicas não mostram o mesmo assento fiscal: o banco entra como quem estuda e financia Angra 3, não como conselheiro da usina.[70][71]
Esse sócio privado entra num ativo sobre o qual já havia dossiê público de vazamento e de comunicação, anterior à compra. Em 16 de setembro de 2022, água com baixo teor radioativo saiu de Angra 1 por válvula corroída, foi à laje, ao pluvial e à Baía de Itaorna; volume estimado em cerca de 90 litros; a Justiça Federal mediu atraso de 21 dias no aviso; o Ibama aplicou multa da ordem de R$ 2,1 milhões.
A Eletronuclear admitiu, em 2023, falha de comunicação. Em fevereiro de 2025 a empresa descreveu outra ocorrência, em Angra 2: passagem de água pelo primeiro selo da tampa do reator, inferior a 1 litro por dia, coletada no tanque de projeto; segundo a nota, o segundo selo estaria íntegro, sem CLO aberta, usina a 100%. São dois eventos distintos; a assessoria usa a mesma palavra para os dois.[58][59][60]
Em 2026 o MPF abriu inquérito sobre ausência de Relatórios de Monitoramento Radiológico Ambiental publicados desde 2018 e sobre sigilo de eventos/INES; a Eletronuclear contestou a premissa e disse que os relatórios seguem à ANSN e ao Ibama.[61]
O TCU, no Acórdão 671/2026-Plenário (TC 008.118/2025-6), apontou falhas de contratação na estatal — R$ 5,3 bilhões por inviabilidade de competição, entre outros achados —, o que não prova defeito no selo de Angra 2, mas documenta o ambiente de governança no qual o sócio entra.[62]Nada disso, nas fontes consultadas, atribui ao BNDES a operação das usinas nem a multa do Ibama.
O que as fontes autorizam perguntar — e só perguntar — à área socioambiental / ASG do banco é o seguinte:
A política ASG do BNDES se manifesta sobre esses vazamentos depois que a Âmbar, do mesmo grupo em que o banco ainda é acionista relevante da JBS e financiador recente da logística da Eldorado, virou sócia da Eletronuclear?
Há diligência socioambiental específica do banco sobre Angra 1 e Angra 2 após a compra da fatia da Eletrobras?
Qualquer comentário institucional sobre a reportagem “J&F, Friboi e o Estado” inclui ou exclui esse dossiê?
Até o fechamento deste item, não foi localizada nota pública do BNDES que responda às três perguntas com nome e cargo do responsável. A ausência de nota não prova omissão deliberada; prova só que a pergunta, neste momento, permanece em aberto. O editorial permanece aguardando esclarecimento do Banco e se compromete a corrigir qualquer dado que porventura se mostre equivocado, bem como publicará a resposta oficial do mesmo. [3][38][54]
O que este texto não afirma
Não afirma um total único “do BNDES à J&F em 20 anos”, porque [A], [B], [C] e [D] medem coisas diferentes.[1][2][3][31] Não atribui à Finep financiamento que não foi encontrado.[44][46] Não trata aprovação do Cade como julgamento de mérito político. Não usa as autoras como fonte primária de número algum.
Referências
As URLs e datas são as das peças consultadas. Numeração única; cada trecho do texto aponta para cá.
[1] Aos Fatos. “Como o BNDES investiu R$ 7,8 bilhões na JBS”. https://www.aosfatos.org/noticias/como-o-bndes-investiu-r78-bi-na-jbs/
[2] Poder360, 14/08/2024. “BNDES já teve 295% de retorno sobre investimento na JBS”. https://www.poder360.com.br/poder-economia/bndes-ja-teve-295-de-retorno-sobre-investimento-na-jbs/
[3] Agência BNDES de Notícias, 17/03/2025. “BNDES fecha acordo com J&F sobre dupla listagem da JBS”. https://agenciadenoticias.bndes.gov.br/cultura/BNDES-fecha-acordo-com-JF-sobre-dupla-listagem-da-JBS/
[4] Folha de S.Paulo, 14/03/2018. “BNDES perdeu R$ 5 bi com ações da JBS, diz tribunal”. https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/03/bndes-perdeu-r-5-bi-com-acoes-da-jbs-diz-tribunal.shtml
[5] Wikipédia. “J&F Investimentos”. https://pt.wikipedia.org/wiki/J%26F_Investimentos
[6] J&F S.A. “J&F faz reestruturação…” / “Quem Somos”. https://jfsa.com.br/
[7] Bloomberg, 03/02/2026. “Brazil’s Batista Family Revamps Company in Bid to Tap Debt Markets”.
[8] O Globo, 04/02/2026. “J&F, holding da família de Joesley e Wesley Batista, vai incorporar outras empresas do grupo”.
[9] JBS N.V. formulários 20-F / estrutura acionária (LuxCo ~50,20% do capital e 85,68% dos votos; BNDESPar sem Classe B).
[10] CNN Brasil, 17/05/2025. “Acordo por Eldorado impulsiona J&F como maior grupo empresarial do Brasil”.
[11] LinkedIn J&F S.A. (texto institucional: cinco setores; receita líquida de R$ 500 bilhões em 2025).
[12] J&F. Página “Negócios” / “Business”. https://jfinvest.com.br/negocios/
[13] J&F. “Quem Somos” — linha do tempo (Matone/Original 2011; Eldorado 2012; Seara e Canal Rural 2013; Âmbar 2015; PicPay; LHG 2022; Fluxus 2023; MGAS 2024).
[14] Folha, 14/05/2025. “J&F e Paper Excellence fecham acordo para encerrar guerra pela Eldorado Celulose”.
[15] CNN Brasil, 17/05/2025. Compra da totalidade citada em R$ 15 bilhões+.
[16] Escritura/notas J&F (ADC 31/12/2025): aquisição Prime Victory / 49,41% Eldorado por US$ 2,64 bi em 15/05/2025; dupla listagem em 06/06/2025.
[17] AgFeed, 24/04/2026. JBJ, Mataboi e decisão do Cade em 2017.
[18] Compilação acadêmica “Fusões e Aquisições do Grupo JBS no período 2005–2011” (valores e datas de Swift Armour, plantas argentinas, Swift Foods, Bertin, Pilgrim’s).
[19] MarketWatch, 29/05/2007. “Brazil’s JBS buys Swift Foods for $1.4 bln”. IPO de R$ 1,6 bi em março de 2007.
[20] Reuters, 2007. Caixa de US$ 225 mi + assunção de dívida ≈ US$ 1,16 bi.
[21] G1, 11/07/2007. “Friboi conclui compra da Swift por US$ 1,458 bilhão”.
[22] Estadão. “Do açougue aos bilhões, conheça a trajetória da JBS” (Smithfield US$ 565 mi; Tasman US$ 150 mi; Bullish / R$ 8,1 bi).
[23] Estadão, 17/09/2009. “JBS compra a Pilgrim’s Pride, se une ao Bertin e vira a nº 1 em carnes”.
[24] InfoMoney / Reuters, 12/09/2013. “Cade aprova compra da Seara Brasil pela JBS, diz DOU”.
[25] JBS Brasil. “Sobre a JBS” — linha do tempo (Rigamonti, Seara, Zenda, Tyson, Gold’n Plump, Tulip).
[26] O Globo, 03/06/2025. “Cade aprova, sem restrições, compra de 100% da Eldorado pela J&F”.
[27] Broadcast / Investalk, 29/12/2025. SG/Cade aprova Norte Fluminense (EDF) para a Âmbar.
[28] IstoÉ Dinheiro / Estadão Conteúdo, 27/02/2026. Cade aprova granjas Céu Azul pela Seara.
[29] Agência iNFRA, 12–13/05/2026. “Cade aprova venda da Roraima Energia para Âmbar”.
[30] Reuters, 18/08/2026. “JBS makes new bid for full control, delisting of Pilgrim’s Pride”.
[31] VEJA, 29/01/2020. “Como o BNDES torrou R$ 42 milhões para não encontrar nada” (oito operações; R$ 20,1 bi atualizados, 2005–2018).
[32] Câmara dos Deputados. Resposta ao RIC nº 679/2025 (crédito 2023–2024 inexistente; dividendos BNDESPar).
[33] TCU. Ata/acórdão sobre contrato 05.2.0710.1 (Swift Armour); pagamento de R$ 94.204.231,48 em 14/12/2023.
[34] VEJA, 11/04/2024. “A decisão do TCU que causa alívio no BNDES e na JBS”.
[35] Valor Economic / Valor International, 21/05/2025. “BNDESPar sells R$2.5bn in JBS shares on B3”.
[36] Demonstrações BNDES / BNDESPar 2025 (participação 17,14%; alienações de 58.308 mil e 2.365 mil ações).
[37] SEC Schedule 13G BNDESPar (201.676.700 Classe A; 24,77% das Classe A; 5,36% do poder de voto, base jul/2025).
[38] O Globo, 24/12/2025. “BNDES investe R$ 1,05 bilhão em ferrovia para escoar produção de celulose da Eldorado”.
[39] BNamericas, 29/12/2025; Transporte Moderno, 09/01/2026. Composição R$ 1 bi debêntures + R$ 50 mi Finem.
[40] BNDES. “Temas Estratégicos” / Planejamento Estratégico 2026–2030. http://www.bndes.gov.br/ (atualização 29/12/2025).
[41] BNDES. PDF “ELP 2026-2030 — agenda inovação, digitalização e IA” (missões da NIB; TIC na política da BNDESPar, out/2025).
[42] BNDES. Estudos Especiais — Perspectivas de investimento 2024–2028 (tabela papel e celulose; alimentos).
[43] Folha PE, 08/09/2026. “BNDES libera R$ 77,5 mi para Viridis em chamada para minerais críticos com Finep”.
[44] Finep. Resultado parcial “Mais Inovação Brasil — Bioeconomia”, 31/07/2025 (orçamento de subvenção R$ 250 milhões).
[45] Agência BNDES, 29/05/2026. “Governo define condições para empresas acessarem crédito do Brasil Soberano”.
[46] Estadão, 07–08/04/2026. “Joesley Batista decide financiar a Avibrás…” (Finep/BNDES/PAC como fonte pública prevista, não comprovada como desembolsada).
[47] Agência Brasil, 24/08/2017. Homologação da leniência; R$ 10,3 bilhões.
[48] Estadão, 2017. Destinação dos R$ 8 bi + R$ 2,3 bi.
[49] Associated Press, 14/10/2020. “Brazil meatpacker fined for bribes that fueled US expansion”.
[50] CNN Brasil, 09/08/2023. Recálculo da 5ª Câmara para R$ 3,5 bilhões.
[51] Estadão / JOTA / Migalhas, 03–04/11/2025. Sentença que anula cláusula penal; histórico Toffoli e Conselho Institucional do MPF.
[52] Processo 1025786-77.2022.4.01.3400 (10ª Vara Federal Criminal/DF).
[53] Estadão, 23/03/2026. “Por que J&F e JBS entraram no radar das CPIs do INSS e do Crime Organizado?”
[54] Agência Brasil, 15/10/2025. Eletrobras vende participação na Eletronuclear à Âmbar/J&F.[55] CNN / Valor, 15–16/10/2025. R$ 535 mi + R$ 2,4 bi; 68% / 35,3%.
[56] Correio da Manhã, 03/12/2025. Cade aprova sem restrição (DOU 01/12/2025).
[57] UOL, 15/10/2025. Despacho do MME: estudo Angra 3 Eletronuclear + BNDES.
[58] CanalEnergia, 16/05/2023. Eletronuclear admite falha de comunicação; ~90 litros; multa Ibama.
[59] Eletronuclear, nota de 21/02/2025. Passagem < 1 litro/dia no primeiro selo de Angra 2.
[60] Revista Pàhnorama, 29/08/2026. “O litro, o silêncio e o sócio”.
[61] VEJA, 02/08/2026. Inquérito do MPF sobre relatórios e INES.
[62] TCU, Acórdão 671/2026-Plenário, TC 008.118/2025-6.
[63] JBS S.A. Ata da Assembleia Geral Ordinária e Extraordinária realizada em 26 de abril de 2024. Sede, Marginal Direita do Tietê, 10h. Eleição do Conselho Fiscal; indicação BNDESPAR de Patrícia da Silva Barros / Marcos Alberto Pereira Motta.
[64] JBS S.A. Minutes of the Annual and Extraordinary Shareholders’ Meeting held on April 26, 2024. Form 6-K / MarketScreener. Mesmo teor em inglês.
[65] JBS S.A. Ata da Assembleia Geral Ordinária e Extraordinária realizada em 29 de abril de 2025. Eleição em separado dos minoritários; indicação BNDESPAR de Ana Paula França Vieira Zettel / Marcos Alberto Pereira Motta.
[66] JBS S.A. Minutes of the Annual and Extraordinary Shareholders’ Meeting held on April 29, 2025. Mesmo teor em inglês.
[67] JBS N.V. Dual listing / listagem na NYSE em 6 de junho de 2025 (fatos relevantes e 20-F da companhia).
[68] BNDES. Sistema BNDES – Participações acionárias – junho/2025. Linha JBS N.V.: acordo de acionistas não; Conselho de Administração não; Conselho Fiscal não. Participação então de 18,18% do capital via BDRs.
[69] JBS / SEC (20-F e prospectos). Estatuto da BNDESPar: o voto da participada é decidido pela Diretoria Executiva da BNDESPar, não por assento no board da investida.
[70] Agência Brasil, 15/10/2025. Eletrobras vende participação na Eletronuclear à Âmbar/J&F; controle votante permanece com a União via ENBPar.
[71] UOL, 15/10/2025. Despacho do MME: estudo de modelagem de Angra 3 a cargo da Eletronuclear e do BNDES. Folha, 30/08/2026: standstill de empréstimo BNDES à Eletronuclear até o fim de 2027.
