Isabel de Fátima Alvim Braga

Três horas não entram no dossiê
O Rio de Janeiro não é só a Zona Sul. Pelo Censo de 2022, na grande concentração urbana da cidade — o município mais a mancha contínua em volta — 14,8 em cada 100 pessoas moram em favela ou comunidade urbana. São 1,74 milhão num total de 11,76 milhões. No estado inteiro há 1.724 favelas e 2,14 milhões de moradores nesses territórios. Só na metrópole são 1.303 comunidades; 813 ficam no município. A Rocinha tem 72 mil moradores. Rio das Pedras tem 55 mil. Estão entre as maiores do Brasil. [1][2]
Muita gente que mora nesses morros passa o dia cuidando do filho de outra família na Zona Sul. Volta tarde. O próprio filho fica sozinho. Isso não é destino. É transporte.
O governo fala em segurança. O mercado imobiliário fala em preço do metro quadrado. O trabalhador fala em três horas no ônibus. São três relógios. Só o terceiro não entra no papel que o Rio mandou ao Comitê Olímpico.
O que aconteceu com o preço da casa
Em 2008 o Estado começou a instalar as UPPs — Unidades de Polícia Pacificadora — nos morros. No mesmo período o Brasil ganhou a Copa e o Rio ganhou os Jogos de 2016. Crédito fácil, commodity cara e polícia na porta andaram juntos. Por isso ninguém pode dizer que “foi só a UPP” que inflou o preço. Dá para dizer o que os números mostram.
Dois economistas, Claudio Frischtak e Benjamin Mandel, olharam 3,3 milhões de imóveis e 18 UPPs. Desde 2008 o preço médio na cidade subiu 15%. A distância entre o imóvel mais caro e o mais barato caiu 45%. Botafogo e Humaitá subiram 10,9%. O Leme, 21,2%. Grajaú e Andaraí, 17%. As UPPs do Pavão-Pavãozinho e do Cantagalo puxaram Copacabana e Ipanema 5,2%. Jacarepaguá, onde está a Cidade de Deus, caiu 5,2%. Os próprios autores avisaram: em área muito pobre, polícia sozinha não vira valorização. [5]
O sindicato do mercado, o Secovi-Rio, mediu o pulo curto. De 2009 a 2010, um apartamento de dois quartos em Copacabana foi de 300 mil para 603 mil reais — mais que o dobro. Em Botafogo, um de quatro quartos foi de 595 mil para 1,2 milhão. Em Ipanema o de quatro quartos subiu 159%. O aluguel de um quarto no mesmo bairro saiu de 687 para 1.783 reais. [4]
Na Tijuca o metro quadrado andava perto de 2 mil reais em 2008. Em 2012 a conta publicada era de alta perto de 280%. Na cidade inteira, entre 2008 e janeiro de 2015, falou-se em 360% de alta nominal — acima da média do país. Na Zona Sul, de 2011 a 2015, o preço nominal mais ou menos dobrou. [3][6]
Depois a festa acabou. Veio a recessão de 2015 e 2016. Os Jogos passaram. Várias UPPs esvaziaram. Tiro e milícia voltaram a pedaço do mapa. Entre 2015 e 2020 a Zona Sul perdeu cerca de 25% em preço nominal. Se descontar a inflação, o Rio foi a capital que mais caiu: 44% em valor real. O pico do metro quadrado ficou perto de 20 mil reais em 2014. Depois a média da cidade foi para baixo de 11 mil. Em agosto de 2026 o FipeZap ainda marca Leblon a 28.751 reais o metro e Ipanema a 26.612. A média da cidade: 11.216. A ponta cara nunca andou de BRT. [6][7][8]
Leitura simples: a UPP vendeu um seguro. Quem comprava o prédio do asfalto pagava para não ouvir o tiro do morro do lado. Quando a unidade saiu, o seguro barateou. Quem comprou no pico de 2013 e 2014 perdeu. Quem já morava no Cantagalo viu o aluguel do vizinho explodir e o ônibus continuar o mesmo.
| Quando | O que o preço fez | De onde sai |
| 2008 | Começa a UPP; Tijuca perto de R$ 2 mil o m² | [3] |
| 2008–2010 | Copacabana e Botafogo disparam (Secovi) | [4] |
| 2008–2012 | Cidade +15% com UPP; desigualdade do preço cai | [5] |
| 2011–2015 | Zona Sul cerca de +100% nominal | [6] |
| ~2014 | Pico perto de R$ 20 mil o m² | [7] |
| 2015–2020 | Zona Sul cerca de −25% nominal | [6] |
| depois da recessão | Queda real de 44% — a maior entre capitais | [7] |
| agosto 2026 | Média R$ 11.216; Leblon R$ 28.751; Ipanema R$ 26.612 | [8] |
O que o Rio prometeu ao Comitê Olímpico
O dossiê de candidatura — o Bid Book — tinha um capítulo só de transporte. A frase era bonita: levar atleta com segurança e deixar um legado para o carioca. No mapa, um anel de “alta capacidade”: três corredores de BRT, melhoria do trem da Central e extensão do metrô. Os quatro núcleos dos Jogos — Copacabana, Barra, Maracanã e Deodoro — deveriam se ligar. A linha Barra–Zona Sul que estava no papel como ônibus virou, depois, a Linha 4 do metrô. O BRT Transbrasil aparecia no desenho e não ficou pronto para 2016. [9][10]
BRT é a sigla em inglês de ônibus rápido em corredor exclusivo. Não é metrô. É ônibus articulado, faixa só para ele, estação no canteiro. Custa menos que furar túnel. Também leva menos gente.
No ano dos Jogos a Folha fechou a conta do coletivo em 17,5 bilhões de reais. O município pôs cerca de 5 bilhões nos três corredores — uns 117 quilômetros. A Transoeste (Barra–Campo Grande–Santa Cruz) saiu por cerca de 1 a 1,1 bilhão. A Transcarioca (Barra–Galeão), 1,7 bilhão. A Transolímpica (Recreio–Deodoro), 2,2 bilhões. A Linha 4 do metrô: 8,5 a 9,8 bilhões na época. Só o pedaço escavado com a máquina alemã apelidada de tatuzão foi orçado em 3,6 bilhões. [11][12][13]
A Transoeste prometeu cortar Santa Cruz–Barra de duas horas para uma. A Transolímpica foi desenhada para 70 mil passageiros por dia. Depois da festa, andava na metade. [9][11]
Por que esse ônibus era de cidade média
Existe um manual internacional, o do ITDP, que dá nota a BRT. Ele desconta ponto se o corredor leva menos de mil passageiros por hora num sentido — aí sai mais barato uma faixa comum. Também desconta se no rush o ônibus passa de cinco pessoas em pé por metro quadrado. [14]
O Rio metropolitano move milhões por dia. O desenho que chegou foi de uma faixa só, ultrapassagem apenas na estação, estação do mesmo tamanho em ponto vazio e em ponto lotado. Na Transoeste a pista foi feita de asfalto comum, não de concreto. Ônibus articulado é pesado. Asfalto cede. Sete meses depois da inauguração, em 2012, já havia buraco. O consórcio que opera o sistema disse, anos depois, que os buracos da Transcarioca aumentavam o tempo de viagem em até 40%. O motorista caía para menos de 20 quilômetros por hora. A velocidade de projeto era 40 a 50. A frota, que chegou a uns 440 ônibus em 2018, caiu para cerca de 195 na pandemia. Vinte e duas estações da Transoeste fecharam em 2018. O intervalo que deveria ser de 6 a 10 minutos foi a 20 ou 30 de madrugada. [16][17]
O verão do Rio não ajuda o asfalto frágil. Pelo Alerta Rio, a máxima média de janeiro anda perto de 35 °C. Chove mais de 1.200 milímetros no ano na cidade baixa; no Alto da Boa Vista passa de 2.400. Água na calha, cratera, ônibus quebrado, criança atrasada. [15]
Isso não é “o BRT envelheceu”. É o BRT ter sido barato o bastante para caber na foto do Comitê.
Por que o metrô é tão caro de furar
Quem compara o preço do quilômetro de BRT com o do metrô sem olhar o chão do Rio está comparando banana com gnaisse. Gnaisse é a pedra do Pão de Açúcar. Entre a Barra e São Conrado a Linha 4 foi aberta nessa rocha, com explosivo. Na Zona Sul o solo é outro: areia encharcada, água alta, prédio em cima. Não dá para abrir vala no Leblon. Foi preciso uma tuneladora de 2.700 toneladas e 11,5 metros de diâmetro. Cobertura baixa. Risco de rachar imóvel caro. Em 2010 um deslizamento já tinha avisado que o morro não é folheto. [18]
Dez anos depois da inauguração a Linha 4 ainda rodava com metade da capacidade prevista. A estação da Gávea ficou pelo caminho. O Estado pagou o túnel — e ainda deve o túnel. [19]
A dívida que sobrou no BNDES
Em agosto de 2026 o governo do Estado e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social — o BNDES, banco público federal — foram a público com números. A dívida do Rio com a União estava na casa de 210 a 213 bilhões de reais e, no programa de renegociação chamado Propag, cairia para cerca de 160 a 168,5 bilhões. Com bancos, o Estado devia uns 26 bilhões. Só com o BNDES: 8 bilhões. Desse total, 6,1 bilhões são da Linha 4 do metrô. 1,9 bilhão é de empréstimo ligado aos trens da antiga Supervia. O Estado pagava cerca de 600 milhões por ano de juros e amortização dessa fatia; o acordo falava em 360 milhões. [20][21][22]
O legado de trilho que o dossiê vendeu ainda está no balanço do banco. O BRT que o dossiê vendeu está no buraco da pista.
Quem manda no intervalo do ônibus
Máfia aqui não é palavra de comício. É o jeito do contrato. A prefeitura entrega a pista. Um consórcio de empresa de ônibus entrega a frota e a manutenção. Se a pista é asfalto e o ônibus é pesado, quebra o chassi e quebra a conta. Dezoito empresas do sistema faliram. O contrato pedia repor o coletivo. Não reuseram. [17]
Na Zona Oeste, quando a estação fecha, entra a van. Van que “completa” linha não é detalhe de mercado. É território. Há duas décadas CPI e jornal descrevem cartel de ônibus, frota sonegada e milícia no transporte alternativo. Fechar estação “por segurança” em 2018 foi o Estado admitindo que o corredor olímpico atravessa o mesmo mapa que o dossiê disse ter acalmado.
Quem decide de quantos em quantos minutos o ônibus passa decide o dia da mulher que desce o morro às cinco da manhã. Quem manda na van decide se o menino entra na escola ou vira recado na rua.
O que seria solução
Solução não é outro dossiê para comitê estrangeiro. É medir o tempo de porta da casa até a porta do trabalho — e o tempo de volta até a porta da criança. Recalçar de concreto a pista que nasceu asfalto. Devolver ônibus e intervalo no horário de pico. Reabrir estação com gente e luz, não com lona. Onde o ônibus já vai com cinco corpos por metro quadrado, o modal certo é trilho. É caro furar.
O Estado já deve 6,1 bilhões dessa conta ao BNDES e paga o juro do túnel pela metade da capacidade. Van deixa de ser milícia quando vira serviço licitado, com tarifa e fiscal, não quando a prefeitura finge que o corredor basta. Polícia que só serve para o metro quadrado do prédio vizinho subir de preço e não serve para a babá chegar cedo é polícia de anúncio.
O único indicador que importa: a mulher da comunidade chega em casa antes de o filho virar recado. Tudo que não cabe nesse relógio é politicagem.
Conclusão: Ou o carioca acerta o transporte ou a favela continuará sem conseguir criar os próprios filhos.
Isabel de Fátima Alvim Braga
Médica. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada — e não tem medo do cancelamento e nem de ladrão de galinha que se finge de rei do tráfico angariando criança para ser aviãozinho porque a mãe não conseguiu chegar em casa.
Referências
1. IBGE, Censo 2022. Favelas e comunidades urbanas; concentração urbana do Rio de Janeiro: 14,8% (1.735.608 de 11.760.550).
2. Ceperj, Panorama das Favelas do Estado do Rio de Janeiro: 1.724 favelas, 2.142.466 pessoas; 813 no município.
3. Silva, tese USP (valorização 2008–2015; Tijuca e FipeZap).
4. Secovi-Rio / Folha de S.Paulo, 15 de março de 2011.
5. Frischtak e Mandel; O Globo, 11 de fevereiro de 2012.
6. Costa, Caos Planejado, 2022 (ITBI-Rio e FipeZap).
7. Estadão, série FipeZap com inflação descontada; pico perto de R$ 20 mil/m² e queda real de 44%.
8. FipeZap, agosto de 2026.
9. Monteiro e Cosentino / Mobilize, Rio 2016: projeto, orçamento e (des)legados.
10. Dossiê de Candidatura Rio 2016, capítulo de Transporte.
11. Folha de S.Paulo, Negócios Olímpicos: R$ 17,5 bilhões.
12. G1, 22 de julho de 2021 (custos dos três corredores).
13. Grandes Construções e verbete do Metrô do Rio (Linha 4 e tatuzão).
14. ITDP, The BRT Standard (2016).
15. Alerta Rio e INMET, médias e recordes de chuva e temperatura.
16. O Globo e Extra: aumento de até 40% no tempo da Transcarioca.
17. O Globo, linha do tempo do BRT (2012–2021): frota, estações, asfalto.
18. Tunnels & Tunnelling e Clube de Engenharia (geologia da Linha 4).
19. O Globo, 20 de julho de 2026: Linha 4 dez anos depois.
20. Agência Brasil, 18 e 19 de agosto de 2026: R$ 26 bilhões com bancos; dívida com a União e Propag.
21. CBN, 22 de junho de 2026: adesão ao Propag.
22. O Globo, G1 e CNN, 21 de agosto de 2026: BNDES, R$ 8 bilhões (R$ 6,1 bilhões da Linha 4 e R$ 1,9 bilhão da Supervia).