O deputado que presidiu a comissão da Covid na Câmara não é réu no caso dos órgãos com HIV. O primo é sócio do laboratório. A irmã estava na fundação que pagou. O contrato de Oxford passou pela mesa dele.

Figura. À esquerda, a mesa que recebe o contrato. À direita, a bancada que assina o laudo. Não são o mesmo ato. São o mesmo Estado.

Houve uma comissão na Câmara que não apagou a luz em 2020. O plenário rareou. Aquela mesa ficou. O coordenador era médico da Baixada, deputado, homem de partido que conhece o horário da fotografia. A relatora anotava. No fim de 2022 o relatório subiu ao protocolo. Não era inquérito. Era acompanhamento. Acompanhar, neste país, cabe no mesmo verbo de aplaudir.

Naquele julho a casa amarela de Manguinhos — a que fabrica o imunizante do Estado — atravessou a cidade e sentou na comissão. Trouxe o acordo britânico: adenovírus, encomenda tecnológica, dose que caberia no orçamento, fábrica que caberia no mapa, lucro que não caberia até o meio do ano seguinte. O coordenador fez a conta em voz alta. Quarenta dólares lá fora. Quinze reais aqui. Vinte e dois bilhões no vão. A frase ficou no site da casa amarela. Em outubro o contrato de setembro entrou pela mesma porta. Em dezembro a Câmara votou o dinheiro. A fotografia era de salvação. A rubrica, de outro.

O cargo não assina o laboratório estrangeiro. O cargo abre a porta. Sobe no palanque quando a fita ainda é esperança. Desce ao corredor quando a fita vira fatura.

O mesmo cargo foi cotado para o ministério. Uma vez no governo que perdeu a conta dos mortos. Outra no governo que herdou a fila. O presidente da Casa levou o nome no bolso. O ministério não veio. Ficou o cartão: médico, comissão, fotografia com a casa amarela.

No meio, a secretaria do Estado. O deputado se licenciou. Vestiu o cargo que compra o exame do morto antes do morto virar rim (Duras palavras. Refletem, infelizmente, a forma como alguns veem pessoas que um dia vivas foram profundamente amadas). A fundação que paga o laboratório da Baixada — não a amarela, a outra — tinha a irmã do lado de dentro. O primo do lado de fora, sócio, assinava. O marido da tia, sócio, também. Campanha na rede. Pregão e dispensa no mesmo ano. Quase vinte milhões no Portal da Transparência. O Tribunal de Contas, ainda sem o vírus no jornal, já tinha escrito que aquela fundação usava a urgência como hábito. Desídia, disse o auditor.

Depois o vírus entrou pelo órgão. Dois doadores. Seis receptores. No papel brasileiro o doador com o vírus não doa. O laboratório devolveu negativo. O Ministério Público diz kit vencido e ordem de poupar reagente. Seis nomes no banco da vara do fundo da Baixada. Uma das seis pessoas morreu no fim do verão seguinte. O Estado escreveu um cheque. Crime não se encerra com cheque.

No papel, o contrato com o laboratório morreu no dia 12 de setembro. A fundação anunciou o rompimento. O empenho não leu o anúncio. Ainda em setembro saíram setecentos, oitocentos mil. O Tribunal somou quatro autorizações depois do enterro: um milhão e duzentos, entre o dia 18 e o primeiro de outubro. No sistema do Estado apareceu, no dia 2 de outubro, a minuta de um aditivo: aumentar o serviço, mais setecentos e oitenta mil, enquanto o procedimento da infecção já corria. A fundação disse depois que o aditivo não se fez. A minuta, fez. O contrato morto tinha pulso.

Quando o pulso ficou feio demais para a fotografia, o Estado chamou outro nome, em caráter de urgência, por onze milhões — quase a cifra do falecido. A função voltou. A bancada mudou de letreiro. O corredor é o mesmo. O órgão, se chegar de novo, passa pelo mesmo tapete.

O coordenador da comissão não está no banco. A polícia chegou a dizer que pensava nele. A denúncia não o trouxe. O cargo mandou nota. Conhece o laboratório há trinta anos. Não escolheu laboratório nenhum. Quer punição exemplar para os responsáveis, independente de quem for.

Independente de quem for: o primo é quem for. O tio por casamento é quem for. A irmã estava no andar que empenha. O cargo nunca é quem for. Não é preciso dizer que a mão do cargo segurou o tubo. Basta dizer que segurou o microfone, que a secretaria segurou a caneta, que a família segurou a firma, que o contrato cortado voltou em empenho e em minuta, e que quando o tubo mentiu o cargo pediu que punissem o tubo.

Fica a pergunta que o relatório da comissão não fez. Se a mesa que recebe a encomenda da vacina e a mesa que empenha o laudo do morto pertencem ao mesmo Estado — e se o contrato que deveria ter acabado ainda assina depois de morto — o que restou da ciência que essa comissão disse estar salvando?

Restou o palanque. Restou a fatura. Restou o órgão com o vírus. Entre o adenovírus britânico e o tubo da Baixada há um corredor de tapete. Quem anda no tapete chama isso de política industrial. Quem espera o rim chama isso pelo nome que a ciência, quando ainda era ciência, dava a um resultado que não confere: erro. O resto é sequestro. Não do homem. Do método. A pergunta não pede processo. Pede laboratório de verdade — o que não volta quando o contrato volta.

Parece um novo jogo de videogame de Ducktales: Huguinho. Zezinho. E Luizinho.

Isabel de Fátima Alvim Braga

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Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

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