Isabel de Fátima Alvim Braga

Figura. Corte da Miguel Yunes: galpão 115 com bolsão local; rede Sabesp à parte; pluma regional de solvente; pinos GTAC 343 e 550. Não é o mesmo líquido.

Alguém olhou a rua onde mora e perguntou, no fundo: tem lixo nuclear embaixo do prédio?

A resposta curta para uma rua de Interlagos é esta. Tem depósito de resíduo radioativo na mesma avenida. Não está embaixo do condomínio. Está num galpão da União, das Indústrias Nucleares do Brasil, no número 115. Os prédios novos ficam mais adiante na mesma via.

A região ainda carrega outro passivo: água subterrânea com solvente industrial, o recorte que a CETESB chama de área contaminada crítica de Jurubatuba. Isso é química velha de fábrica, não bomba atômica.

O dicionário da sujeira — sem infantilizar

O cadastro municipal e o cadastro estadual não falam a mesma língua do galpão 115. Abaixo, o que cada nome quer dizer quando aparece na ficha. Não é “tudo veneno”. Cada um entra no corpo por um caminho.

Torta II (tório + urânio residual). Sobra do tratamento químico da monazita. Radioatividade de baixa atividade específica. O perigo real, no papel, é pó no pulmão, ingestão ou água de poço ao longo de anos — não o raio no sofá a um quarteirão de distância, atrás de parede.

Solventes clorados (PCE, TCE, DCE, cloreto de vinila). Líquidos que a indústria usava para desengraxar peça. Tetracloroetileno e tricloroetileno descem no solo, viram pluma no aquífero e, ao se degradar, podem virar cloreto de vinila — mais volátil e mais tóxico. A CETESB classificou o polígono de Jurubatuba como área contaminada crítica exatamente por isso. Quem fura poço e bebe corre risco. Quem toma água da rede tratada está em outro cano.

TPH e combustíveis líquidos. Hidrocarbonetos de petróleo: gasolina, diesel, óleo. Cheiro de posto. No GTAC da cidade inteira é um dos contaminantes mais comuns. Inflamável no subsolo; restrição típica: água subterrânea e, às vezes, índice de explosividade.

PAH (hidrocarbonetos policíclicos aromáticos). Família do piche e da fumaça de queima incompleta. Alguns são cancerígenos por contato crônico e por via oral. Aparece em solo de oficina, pátio e aterro.

Metais. Chumbo, cromo, cádmio, níquel e afins, conforme o laudo de cada lote. Não evaporam. Ficam no solo e podem ir para o poço. No 550 da Miguel Yunes o GTAC lista metal e manda remover solo e resíduo.

Gases de aterro. Metano e mistura de decomposição. Risco de explosão em espaço confinado e de asfixia. No 343 da Miguel Yunes o GTAC lista gases + metais, isola a área e veta construção. Não é radiação.

Dioxinas e furanos. Aparecem em outro sítio público do mesmo relatório municipal (Av. do Estado, 300, Bom Retiro), não no 115. São cinza de queima suja. Entram aqui só para o leitor não achar que “área contaminada” é uma substância só.

Restrição de água subterrânea. A frase que mais se repete no GTAC. Quer dizer: não use o poço daquele lote. Não quer dizer, sozinha, que a torneira da Sabesp esteja suja.

O Relatório GTAC de janeiro de 2022 fecha com 660 áreas no município — 33 públicas. A série da Prefeitura, consolidada depois, mostra o cadastro municipal subindo de 676 (setembro de 2022) para 748 (dezembro de 2024). A restrição campeã não é “nuclear”. É poço.

A rua, não o filme

A Avenida Miguel Yunes corta a zona sul entre Interlagos e o que o mapa ainda chama de Campo Grande. Não é um endereço só. É um corredor. No 115, o Estado federal guarda o que sobrou do desmonte da antiga usina de Interlagos — Nuclemon, USAM.

O Ibama registrou o sítio como Unidade em Descomissionamento de São Paulo (UDSP), Licença de Operação nº 1170/2013, processo 02001.003133/2003-12: depósito de areia monazítica e do descomissionamento da Usina Santo Amaro. Renovação da LO para descomissionamento foi solicitada; o Senado, em 2022, já perguntou se o papel estava em dia.

Mais adiante, no 343, o Relatório de Áreas Contaminadas e Reabilitadas do GTAC da Prefeitura — edição de janeiro de 2022,— descreve um sítio público em Zona Especial de Proteção Ambiental: classificação “em processo de monitoramento para reabilitação”, contaminantes gases e metais, restrição de água subterrânea, de solo e de construção de qualquer edificação, intervenção de isolamento da área e monitoramento ambiental.

No 550, o mesmo relatório marca outro polígono: classificado como contaminado, zona ZEIS-1, metais, remoção de solo e de resíduo. Três números na mesma placa. Três regimes. O 115 não é o 343 e não é o 550. O GTAC municipal não é a CNEN. A ficha paulistana fala de metal e gás de aterro e de fábrica; a ficha federal fala de Torta II. O morador, porém, não compra o número do processo. Compra a rua.

O que tem no galpão 115

O que tem dentro, em linguagem de cozinha: a indústria brasileira, das décadas de 1950 a 1990, processava areia de monazita — areia pesada de praia, comum no Espírito Santo — para tirar terras raras. Sobrou um concentrado chamado Torta II: terra e lama com tório e um pouco de urânio. A INB descreve o material como resíduo de baixo nível de radioatividade. Não é o césio-137 de Goiânia. Não é combustível de usina. É perigoso se alguém comer, inalar poeira ou beber água contaminada por muito tempo — não se “explodir o bairro”.

O G1, em 2025, publicou o número que o Estado usa para o conjunto da família: 11.334 toneladas de Torta II foram para Caldas (MG) nos anos 1990; em 2021 a INB cogitou mandar mais 1.179 toneladas de Interlagos; a transferência não ocorreu depois de reação em Minas. Parte da mesma família está em Botuxim, Itu — 3.500 toneladas em sete silos, segundo resposta do Ibama ao Senado. Itu já fez barulho para não receber o que ainda está em Interlagos. Em 2024–2026 a INB tentou vender o estoque de Caldas, Interlagos e Itu; o chamamento público foi adiado e depois cancelado por falta de proposta. O lixo de São Paulo não tem para onde ir enquanto o país não tiver repositório nacional definitivo. Por isso o galpão continua.

A pergunta que sobra, e que não é de construtora: por que um país sem destinação para lixo radioativo continua a produzi-lo — e a deixá-lo no meio da cidade?

Três filas de papel. Misturar é erro

Fila 1 — o galpão nuclear. Quem pede é a INB. Quem licencia o nuclear é a CNEN. Quem deu licença ambiental federal de operação foi o Ibama (LO 1170/2013). O depósito já existia desde os anos 1990. A licença ambiental veio depois. Renovação protocolada. Em 2026, não foi encontrado de forma fácil um PDF dizendo “renovada e válida até tal data”. Esse é o buraco mais sério do lado do Estado: o lixo está lá; o papel pode estar no limbo.

Fila 2 — o lote que vira prédio. Quem pede alvará é a incorporadora na Prefeitura. Se o lote estiver em área suspeita, a CETESB pode exigir investigação de solo e água daquele lote. Não é o Ibama nuclear que libera apartamento.

Fila 3 — o corredor de ônibus. A Prefeitura contratou estudo ambiental do Corredor Miguel Yunes. Desapropria casa e loja. O lote 115, por ser nuclear e federal, não entra na desapropriação do mesmo jeito. Pergunta útil: o EIA do corredor cita o galpão? Se não cita, o estudo fingiu que o vizinho mais sensível da rua não existe. Em 2005 quem apertou a INB para “limpar e liberar” o terreno foi a Subprefeitura de Santo Amaro, porque queria alargar a avenida — obra pública, não condomínio.

A água: dois líquidos, um cano da cidade

O primeiro líquido é o bolsão debaixo do galpão. A própria INB, em matérias antigas reproduzidas por grupos como a ANTPEN, admitiu uma poça no subsolo sob o depósito. Isso é localizado. Não é “Interlagos inteiro bebe tório”.

O segundo é o aquífero Jurubatuba. A página oficial da CETESB lista as substâncias de maior relevância no polígono: tetracloroetileno, tricloroetileno, cis-1,2-dicloroetileno e cloreto de vinila — no solo, no vapor do solo e na água subterrânea. A Companhia já encaminhou, em 2005, laudos de poços da região a DAEE e secretarias de saúde. Shopping, fábrica e o próprio recorte Interlagos–João Dias–Sabará–Nações Unidas entram no mesmo mapa mental. Não é o tambor de Torta II que inventou o solvente.

Prédio novo em São Paulo, na prática, toma água da Sabesp — rede tratada. Rede não é poço do condomínio. Pergunta de uma frase ao síndico: “Tem poço neste terreno?” Se a resposta for não, o susto da torneira radioativa perde força. Sobra o debate de vapor de solvente em subsolo e o debate de informação na compra.

O que a ANTPEN diz e o que o Estado diz

A ANTPEN publica, há anos, que o depósito de Interlagos polui água do subsolo e que o licenciamento atrasou. Usa matérias de jornal e depoimentos da própria INB sobre o bolsão. A INB e a CNEN repetem: material de baixa atividade, galpão controlado, monitoramento, sem evidência de contaminação espalhada da água de beber da cidade.

Os dois podem estar parcialmente certos ao mesmo tempo. Pode haver problema debaixo do galpão e não haver problema na caixa-d’água do prédio da frente. Pode haver solvente na região e não ser culpa do tório. Quem junta tudo num único susto está vendendo medo. Quem diz “não tem nada, pode encostar e não contar” está vendendo apartamento.

Saúde

Não apareceu, no que é público, um estudo de câncer do entorno do 115 publicado e revisado. Ausência de estudo não prova que está seguro. Prova que ninguém mediu direito em público. Ausência de evidência não é evidência de ausência.

O que a física ajuda: a radiação de um tambor fechado cai muito com a distância. A um quilômetro, atrás de parede, o risco de “raio no sofá” é o de fundo da cidade. O risco que existe no papel é ingestão, inalação, água de poço ou acidente no pátio.

Como conferir você mesmo – antes de chamar de fakenews

Quinze minutos. GeoSampa: busque Miguel Yunes 115, 343, 550 e o número do prédio; ligue lote e área contaminada; anote o SQL. Mapa da CETESB / SIGAM: os mesmos pontos. Página da CETESB da área crítica de Jurubatuba. Cartório: matrícula. Pedido LAI.

INB / Ibama (Fala.BR): “Peço o status da Licença de Operação nº 1170/2013 da UDSP, Av. Miguel Yunes, 115, São Paulo, e do pedido de renovação. Peço o inventário atual de Torta II no sítio, a data da última campanha de poços de monitoramento e a previsão de retirada do material.”

CETESB (e-SIC SP): “Peço informar se o sítio da INB na Av. Miguel Yunes, 115, e os imóveis 343 e 550 da mesma avenida, constantes do Relatório GTAC, constam do cadastro estadual, com número de processo e classificação.”

SVMA / GTAC (SEI): “Consulta prévia de área contaminada dos SQLs dos imóveis Av. Miguel Yunes 115, 343 e 550, e do lote residencial consultado.” Contato público do grupo: svmagtac@prefeitura.sp.gov.br.

Síndico: “A água do prédio é só Sabesp? Existe poço no terreno? O memorial cita o depósito da INB no 115?”

Em uma frase cada

PerguntaResposta curta
Tem resíduo nuclear no 115?Sim. Torta II, INB / União.
O prédio da frente está em cima do galpão?Não. É vizinho de rua.
A torneira está radioativa?Não há prova pública. O mais documentado é solvente em poço.
O GTAC pinta a mesma avenida?Sim: 343 e 550 — metais e gases, não Torta II.
O Estado já tirou o lixo do 115?Não. Falta repositório no país.
Fundo, ministro ou construtora são donos do lixo?Não. O lixo é da INB.

Nota

Este texto resume consulta a fontes públicas listadas abaixo. Não substitui laudo, matrícula nem parecer jurídico. Classificações de área contaminada mudam; confira o mapa vivo da CETESB, o GeoSampa e o Relatório GTAC na data da sua consulta.

Não precisa entrar em pânico de filme. Também não precisa aceitar “é só marketing de localização”. Faça as três coisas baratas: print do mapa, pergunta da água e LAI da licença da INB. O galpão veio dos anos 1990; os prédios vieram depois; a licença ambiental do depósito chegou atrasada; o repositório nacional nunca chegou. Essa é a história, em português de gente.

Referências

1. Prefeitura de São Paulo / SVMA / GTAC. Relatório de Áreas Contaminadas e Reabilitadas no Município de São Paulo. Edições consultadas: jan/2017, abr e out/2016, jan–abr–out/2018, jan–abr–jul/2021, jan/2022. Totais impressos na edição de jan/2022: 660 áreas, 33 públicas. Fichas Av. Miguel Yunes 343 (gases, metais; isolamento; restrição de água, solo e edificação) e 550 (metais; ZEIS-1; remoção de solo/resíduo).

2. Prefeitura de São Paulo / SVMA. Página institucional de Áreas Contaminadas e atribuições do GTAC; Decreto Municipal nº 51.436/2010 e Lei Municipal nº 15.098/2010; contato svmagtac@prefeitura.sp.gov.br. https://prefeitura.sp.gov.br/web/meio_ambiente/w/servicos/areas_contaminadas/3386

3. SMUL/GEOINFO – Prefeitura de São Paulo. Série de áreas contaminadas e reabilitadas por unidade territorial, 2006–2024 (MSP: 676 em set/2022; 748 em dez/2024).

4. CETESB. Área Contaminada Crítica do Jurubatuba. Substâncias de maior relevância: tetracloroetileno, tricloroetileno, cis-1,2-dicloroetileno e cloreto de vinila, em solo, vapor de solo e água subterrânea. https://www.cetesb.sp.gov.br/cetesb/qualidade_ambiental/areas_contaminadas/areas_contaminadas_criticas/jurubatuba

5. CETESB. Relação de Áreas Contaminadas e Reabilitadas no Estado de São Paulo (cadastro SIGAM / consulta pública). https://cetesb.sp.gov.br/areas-contaminadas/relacao-de-areas-contaminadas/

6. CETESB. Manual de Gerenciamento de Áreas Contaminadas. 3. ed. rev. ampl. São Paulo: CETESB, 2025.

7. CETESB. Divulgação de resultados de análises de águas da região de Jurubatuba (poços industriais; tetracloroeteno acima do padrão da Portaria MS 518/2004). Outubro de 2005.

8. Ibama / Senado Federal. Informação nº 5/2022/Cenef/CGTef/Dilic-IBAMA, em resposta ao RI nº 38/2022-CMA/SF. UDSP — Av. Miguel Yunes nº 115, Jurubatuba/Santo Amaro, São Paulo. LO nº 1170/2013; processo 02001.003133/2003-12; renovação de LO para descomissionamento solicitada. Botuxim/Itu: 3.500 t de Torta II em sete silos (processo 02001.003142/2003-03).

9. INB. Nota sobre Torta II: subproduto do processamento químico de monazita na Usina Santo Amaro (USAM), décadas de 1950 a 1990; resíduo de baixo nível de radioatividade. https://www.inb.gov.br

10. G1 Sul de Minas. “Resíduo radioativo levado de SP para MG é impasse para desmontar mina”. 23 nov. 2025. 11.334 t de Torta II em Caldas; 1.179 t de Interlagos cogitadas em 2021 e não transferidas.

11. G1 Sorocaba e Jundiaí. “Venda do ‘lixo atômico’ de Itu fracassa após 6 adiamentos”. 8 abr. 2026. Chamamento público da INB (Caldas, Interlagos e Itu) cancelado por falta de proposta; reação de Itu contra receber material de Interlagos em 2021.

12. GeoSampa – Prefeitura de São Paulo. Mapa de lotes e camada de áreas contaminadas. https://geosampa.prefeitura.sp.gov.br

Isabel de Fátima Alvim Braga

Médica. Revista Pahnorama.

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Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

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