Isabel de Fátima Alvim Braga

Capa. Três chaminés: o comprimido do vaso, o retângulo da novidade, a cartela do humor. O cesto é o mesmo. Podem me agradecer depois — ou devolver as duas caixas e a senha.

A tadalafila não inventou o desejo. Mas talvez tenha permitido a recorrência do sexo sem vontade.

O mecanismo cabe num parágrafo. ICOS e Eli Lilly lançaram o Cialis em 2003. O nervo solta óxido nítrico. Sobe o GMPc. O vaso abre. Uma enzima — PDE5 — come esse sinal. O comprimido segura a enzima. Sem estímulo, em regra, não há espetáculo. Não aumenta órgão. Não é anabolizante. Não é pré-treino com evidência na bula. É vaso. É relógio: até umas 36 horas. Junta com nitrato (isossorbida e a família do peito) e a pressão pode ir ao chão. Isso está na bula. Não é opinião.

A Anvisa contou o resto. Em 2015, 3.248.316 unidades. Em 2024, 64.725.760. Quase vinte vezes. Cerca de dois mil por cento. O G1 falou em ordem de 75 milhões em 2025. O genérico entrou no pelotão dos mais vendidos do país (IQVIA/PróGenéricos: quinto genérico em 2024, mais de 61 milhões de unidades no recorte da associação). A IQVIA, no acumulado de 12 meses até janeiro de 2026, pôs a tadalafila da Eurofarma acima de US$ 1 bilhão em preço-lista no Brasil — R$ 5,53 bilhões no mesmo recorte — 27,3 milhões de unidades de uma marca só, da 91ª para a 11ª prateleira. O truque não foi só o 20 mg da noite. Foi o 5 mg de todo dia. Compra pontual vira assinatura. Farmácia ama assinatura. Ninguém parece querer resolver o problema.

Receita existe no papel e some no balcão. Influenciador vendeu “pump”. Alguém vendeu bala de goma. A Anvisa derrubou a gummy. Não derrubou o balcão. O Brasil lidera busca de tadalafila no Google, escreveu a Piauí. Saúde masculina seria pressão, açúcar, cigarro, sono, o antidepressivo que derruba o desejo e o médico que pergunta. Saúde masculina não é 64 milhões de caixas e zero conversa sobre por que o rapaz de vinte anos acha que precisa de vaso químico para sair sexta e tolerar uma pessoa que o corpo – ou o conjunto corpo ou mente – nunca quis. Sem estímulo, não há espetáculo.

O vaso que a década deixou

A tadalafila trabalha no fim da fila. O começo, no homem, é o endotélio: a parede que solta o óxido nítrico. Sem esse sinal, o GMPc nem começa. O comprimido só segura a enzima. Se a parede está inflamada, o remédio vira muleta.

Em 2020 a Lancet descreveu endotelite na Covid: vírus e inflamação na célula que forra o vaso (Varga e cols.). Depois veio a briga — se o SARS-CoV-2 entra de fato no endotélio ou se a tempestade de fora basta. O que não é briga: disfunção endotelial na doença grave e, em parte de quem ficou com sintoma longo, é fato clínico.

Em laboratório, a proteína S (sobretudo S1) foi capaz, em vários modelos, de alterar fenótipo endotelial — citocina, permeabilidade, estresse oxidativo — mesmo sem partícula inteira. Outros grupos acharam o contrário: vírus vivo, não a S isolada. Hipótese com fumaça. Não é atestado de que cada exposição à S, em qualquer dose, cozinha o vaso do brasileiro. É o que se publicou: o endotélio não saiu indemne da década. Mas aí de quem questionar a vacina de RNA para Covid que força a produção dessa proteína por trilhões de células.

No mesmo organismo, a inflamação desvia o triptofano. A enzima IDO (indolamina-2,3-dioxigenase) empurra o aminoácido para a via da quinurenina. Sobra menos matéria-prima para serotonina. Na Covid aguda isso aparece em sangue: triptofano cai, quinurenina sobe. Em 2023, Wong e cols. (Cell) acharam serotonina baixa no long Covid e amarraram interferons, menos absorção intestinal de triptofano, plaquetas e MAO. No rato deles, tirar a IDO1 não impediu a queda — então IDO não é o único ladrão. Continua sendo o desvio clássico da inflamação. Serotonina baixa não é “falta de tesão de farmácia”. É humor, intestino, nervo vago, memória. Ereção também conversa com vaso e com cabeça. Quem mistura as duas contas no mesmo homem não está inventando uma novela. Está empilhando vias que o papel descreveu em separado.

O que este artigo não pode dizer: que a explosão de 3 milhões para 64 milhões de caixas é a fatura da proteína S. A curva brasileira já subia antes de 2020 — genérico, 5 mg diário, balcão sem receita, rede.

A pandemia entra como camada possível depois: mais endotélio cansado, mais inflamação, mais desvio de triptofano, mais muleta farmacêutica em cima de um vaso que já pedia número. Ausência de estudo que feche essa conta no IQVIA não é evidência de que a conta não existe. É o mesmo buraco de sempre. Pouco cruzamento entre infectologia, endotélio e a prateleira. Muito interesse no 5 mg. Pouco interesse em medir o óxido nítrico de quem saiu da infecção e entrou no genérico.

A tadalafila não trata a endotelite. Dilata o que ainda dilata. Se a parede virou cicatriz, o fim de semana químico não devolve o lining. Devolve a recorrência.

A outra caixa na mesma prateleira

Enquanto a tadalafila virava assinatura, o antidepressivo virava ar. Covitel 2023: 12% dos brasileiros com diagnóstico de depressão, 26,8% de ansiedade. PNS/IBGE: 10,2% dos adultos com diagnóstico médico de depressão. Numa base de 2,5 milhões de beneficiários de farmácia (Funcional Health Tech, CNN, 2025), o uso de antidepressivo em adultos de 29 a 58 anos subiu 12,4% num ano; naquela amostra, só o antibiótico vendia mais. Não é “todo mundo”. É o bastante para o balcão ter duas caixas no mesmo saco.

A depressão já rouba desejo. Isso vem no quadro, não na calúnia ao remédio. O ISRS — sertralina, fluoxetina, escitalopram e a família — sobe a serotonina que segura o humor e, em muita gente, empurra para baixo a dopamina do querer. Bula e consultório conhecem o resto: menos vontade, menos lubrificação, orgasmo que não chega, ejaculação que atrasa, ereção que falha. Relatos na casa de 40% a mais da metade, conforme o recorte. Tem quem tome e não sinta nada disso. Tem quem sinta e precise do comprimido mesmo assim. Parar sozinho não é este artigo. Empilhar no escuro é. Há ainda o relato — ainda sem incidência fechada — de disfunção que permanece depois de cessar o ISRS (PSSD). Hipótese em estudo. Não é slogan.

Aí a farmácia fecha o circuito. Um remédio amortece o querer. O outro tenta abrir o vaso de quem ainda quer parecer que quer. Dois mercados. Um corpo. Ninguém no balcão pergunta se a noite morreu na serotonina, no endotélio, no Pix ou no ego. Vende as duas caixas. A tadalafila não devolve libido que o ISRS tirou. Dilata o que ainda dilata. Quem trata o efeito da primeira caixa com a segunda e chama isso de desempenho não está curando o humor. Está medicando o recado que o corpo já tinha dado. Enquanto isso, muitas mulheres discursam publicamente sobre um desempenho e um tamanho que nunca desejaram em busca de um like e inconscientemente uma validação social de super mulher.

A explosão da tela — e o catálogo que endureceu

Paralela à caixa, a outra indústria. A pornografia comercial não nasceu neste século. O que nasceu foi a escala: celular, tubo gratuito, recomendação que aprende o clique seguinte. O volume global de tráfego e de minutos não cabe num único número honesto — as plataformas não abrem o livro-caixa. O que se vê no catálogo é o endurecimento das etiquetas. O que ontem era nicho virou prateleira da página inicial: facial, bukkake, “abuse”, rough, RTC e outras siglas que o algoritmo trata como SKU. Este artigo não descreve cenas. Nomeia o mercado. Nomear não é reproduzir. Não é concordar. Mas talvez seja o que falta: o encarar.

A lógica é a do primata no item seguinte: a mesma cena emudece o erro de previsão. O catálogo oferece o degrau. Degrau não é destino de todo usuário. É o produto. Estudos de uso compulsivo, de reatividade a pista e de “compulsive sexual behavior”. Fecham menos ainda a frase “por isso vale reproduzir o catálogo em alguém que não pediu”.

Há homens que se sentem tolhidos no direito de ser homens (Tendo isso base na realidade ou não) — no discurso, no trabalho, no flerte, na piada que virou processo. O sentimento pode ser real. Não é salvo-conduto. Sentir-se cerceado não autoriza executar de forma anômala o roteiro do vídeo: não autoriza “abuse” na cama de quem não combinou, não autoriza tratar o corpo do lado como objeto de catálogo, não autoriza confundir fúria com virilidade. O direito de ser homem nunca incluiu o direito de ignorar o não. Quem transforma ressentimento em manual do extremo saiu da queixa e entrou no Código Penal. Este texto não o acompanha.

A vitrine no grupo

Ainda bem que muitos grupos de WhatsApp masculinos diminuíram a mania de mandar aos outros as fotos das mulheres com quem tinham acabado de se deitar. Convém nomear o que aquilo era: uma punheta coletiva com testemunha. Não era o corpo. Era o recado ao macho do lado — olha o que eu tive. Prazer virou vitrine, não sensação. A Lei 13.772/2018 já tratava a divulgação de cena íntima sem consentimento como crime. O grupo fingia que era recado de vestiário.

Em 2018 o meio-campista Daniel Corrêa, então no São Paulo, foi assassinado em Curitiba. Amigo disse à polícia — e a imprensa reproduziu — que o jogador tinha o hábito de enviar ao grupo as fotos das mulheres com quem dormia; na mesma noite havia mandado imagem da cama. O homicídio tem processo e versão do autor do crime; este artigo não transforma a morte em causa única da foto. Transforma o hábito em prova: a noite já era conteúdo. O primata não gozava para si. Gozava para o chat. Fazer isso é idiotice. Morrer não lava a idiotice. Expor quem não autorizou é crime. Os três fatos cabem no mesmo parágrafo sem virar santinho.

Na sociedade em que todo mundo clica na tela e no Instagram alheio, e em que o prazer foi vendido como nunca tão livre, a vida sexual das pessoas nunca foi tão ruim. Se o encontro era só meio para conquistar um troféu — o sim, o corpo, a foto, o status — e o troféu já foi conquistado, por que continuar no dia seguinte? Não continuar não é mistério clínico. É a lógica da conquista que se esgota sozinha.

Desempenho não se mede pelo número de parceiros. Aprendizado só acontece com correção: a mesma pessoa, o mesmo corpo, o recado de ontem, o ajuste de hoje. Quem usa a noitada como validação — ou tenta agradar só para ver se alguém fica — não vai aprender. Vai somar. Soma não corrige. Tadalafila não corrige soma. Tela não corrige soma. Antidepressivo que anestesia da realidade não corrige soma. Correção pede repetição com alguém que possa dizer que doeu, que faltou, que chega. A vitrine não diz isso. A vitrine aplaude.

A explosão de DST no país também conversa com isso — não como causa única (camisinha que saiu de moda, PrEP usada como licença, parceiro que não se testa), mas como mecanismo que o consultório vê e a epidemiologia ainda mede mal. Muitos homens sustentam ereção e chegam ao fim com a mão e com a tela: pressão, ângulo, ritmo, imagem que a noitada não copia. No encontro comum, o vaso falha ou o orgasmo não vem.

A urologia descreve o atraso e a anorgasmia situacional; a frase de corredor é “só consigo do meu jeito”. Quem não termina no corpo do lado troca de corpo. Troca de corpo sem barreira é a conta que a maternidade e o ambulatório de sífilis já conhecem. Tadalafila abre o vaso. Não devolve a sensação que a mão ensinou. Tela não é parceiro. Parceiro não é tela. Quem trata a diferença com mais gente, e não com menos punho e menos retângulo, espalha bactéria e chama isso de desempenho. Em linguagem reta: muitos não ejaculam no sexo a dois. Terminam sozinhos. A noitada vira tentativa com a desculpa que o álcool atrapalhou. Atrapalha desempenho, mas talvez seja a única razão pela qual muitos aguentaram estar ali. A tentativa vira outro corpo.

A dopamina do primata e a mulher de quadrinho

O macaco não assina a bula. O circuito é o mesmo que o seu.

No mesencéfalo, a área tegmental ventral solta dopamina no núcleo accumbens. Por décadas o livro de divulgação chamou isso de molécula do prazer. O laboratório, depois, foi mais frio. Kent Berridge separou gostar de querer. O gostar — o “ah” do pico — vive mais em opioide e em canabinoide. A dopamina é o querer: a seta, a busca, o “de novo”: o mecanismo que faz com que o primata suba em uma nova árvore em busca de alimento quando não encontrou morangos no primeiro arbusto. A busca. A caça. E nem sempre é sobre comida.

Wolfram Schultz mostrou o truque do primata: a célula não dispara tanto no prêmio. Dispara no erro de previsão. Se veio quando se esperava, o sinal some. Se veio uma novidade, o sinal volta. Habituação não é moral. É neurônio que parou de se surpreender. A indústria do caça-níquel agradece.

O olho do primata é o atalho. Estímulo visual, novo, intenso, imprevisível, empurra o mesmo erro. A tela empilhou isso num retângulo que não recusa e não pede água. A indústria descobriu o que o experimentador do macaco já sabia.

Daí a figura que as redes chamam de “a mulher que aguenta”. Não é, em primeiro lugar, um combinado coletivo de crime. Crime contra a vontade não tem defesa neste texto nem no próximo. Ponto. A figura, no mercado, funciona mais como super-heroína de quadrinho: corpo que não cansa, não pede espera, absorve o impacto como capa de HQ absorve tiro. Fantasia de invulnerabilidade a serviço do erro de previsão — e, às vezes, a serviço de quem quer se ver inquebrável. Confundir essa capa com um pacto social de violência é preguiça. Confundir essa capa com desejo combinado é a mesma preguiça do outro lado. Adulto consente em fantasia. O corpo real pede, para, não é de tinta. Sem a frase “você quer isso agora?”, o que resta não é heroína. É alguém que não pôde sair do quadro. E foi assim que os recordes de parceiros de gang bang da Sasha Grey fizeram tanto sucesso.

Existe uma enorme diferença entre a mulher que transa porque deseja e a que transa porque tem de transar. O mesmo vale no outro sentido: quem não faz algo no primeiro encontro por desconforto não é o mesmo que quem não faz por teatro de castidade. Consentimento e desejo pressupõem verdades. Sem elas, o “sim” é recado ao outro, não ao corpo. A tadalafila não distingue as duas noites. A tela também não. Só distingue quem ainda consegue dizer qual das duas foi.

O botão que não existe

Os mesmos homens que foram à farmácia aprenderam, em revista e em corredor, que o clitóris é um botão. Não é. É uma estrutura de vários centímetros — glande, corpo, ramos (crura), bulbos — descrita de forma moderna por O’Connell e cols., com inervação que não cabe no desenho da capa. Quem trata a anatomia como interruptor trata o outro corpo como máquina. Máquina pede peça. Peça pede tadalafila. Área pede tempo. Tempo não fatura 64 milhões de caixas.

Complexo do clitóris, esquema didático — não é pornografia. Glande, corpo, ramos, bulbos. Podem me agradecer depois. Ou abrir o atlas que a capa da revista nunca mostrou.

O dinheiro que era meio

Em A Sociedade da Birra a conta do dinheiro é outra. A amígdala se apega ao que custou esforço; o valor emocional do que se ganha trabalhando reduz a pressa de gastar. O que se guarda é liberdade de escolha, não enfeite. Valor deveria incluir função, não só preço. Inflação disfarçada encolhe a caixa e deixa o vento.

Na noite, a modelagem inverteu. Conexão deixou de ser o valor que inicia o encontro. Entrou a hipergamia que passa da fisiologia — ser provida, ser protegida — e flerta com o Pix pro Botox como fim. Ninguém aqui é contra o homem que paga a conta. Conta é meio. Quando o meio vira objetivo do vínculo, o cérebro deixa de ver pessoa e passa a ver transação. Transação tem nota. Nota tem desempenho. Desempenho tem comprimido. Nessa modelagem, muita gente broxa. Não por falta de enzima. Por excesso de mercado onde deveria haver escolha.

O redpill — isto não é defesa nem acusação ao movimento — nasce como resistência a essa troca. Ele falha na generalização: transforma recorte em lei da espécie deum fenômeno que de fato existe. O discurso da liberdade, no outro polo, propaganda um resultado de satisfação que a maioria das mulheres não vai alcançar e depois chama de falha pessoal o que é falha de anúncio. Os dois vendem manual. Nenhum dos dois mede a noite seguinte.

O novo padrão e o ego na sala

Se a pesquisa de forma — Singh e o que veio depois — acha de novo a cintura que desenha curva (razão cintura-quadril na casa de 0,7, não a tábua da passarela), por que a festa do banqueiro enche de modelo? Porque muita dessas noites nunca foi sobre deleite.

Foi sobre manutenção de ego: o político, o fundo, o homem cuja fala erótica inclui a plateia. Cento e vinte mulheres para vinte homens não é desejo sexual escalafobético. É o reflexo. Ela está ali para ser vista pelos outros homens. O corpo vira mobília do status. Isso já é um padrão de prostituição — não só o ponto da rua, o ponto da sala: presença paga em espécie, em acesso, em Pix, em “estar”. Jantar é meio. Quando o meio vira o espetáculo e o espetáculo vira a prova de que se pode ter o que os outros não têm, o cérebro saiu do vínculo e entrou no leilão.

O desejo masculino por corpos nunca foi uniforme. A mesma imprensa que vende a modelo na capa noticia, há décadas, jogador de futebol em escândalo com amante e com travesti cujo corpo não copia a festa do banco. Quem gosta, gosta. A intransitividade é esta: A não implica B. Carteira não ordena o gosto. Formato não ordena o gosto. Luma de Oliveira deu aula disso quando o Brasil ainda fingia que só existia um desenho e ela desfilou de coleira. Rafa Kalimann mostra que homem que quer, corre atrás. E a Paola Oliveira está aí, corpo real, desejo real, audiência real, homem que volta da lua-de-mel e vai atrás de quem quer. O que o primata escolhe no escuro não é a planilha do evento.

Tadalafila nenhuma resolve intransitividade. Resolve, quando resolve, o vaso. Não resolve o homem que precisa de vinte testemunhas para se excitar. Não resolve a mulher que entrou na sala como prova e saiu como nota fiscal. Não resolve o vazio de quem acordou e descobriu que o pico era ego, não pessoa.

A aversão que o cérebro já conhece

Talvez seja hora de admitir a falta de vontade e o desinteresse sob a aversão que vem depois do pico — a queda da noite que o cérebro sabe, ainda que sem discurso, que vai acontecer. Nos anos 2000 a dissonância dela era: será que ele vai ligar só para isso? A dissonância de agora é: será que ele nem vai tentar de novo? O que ficou difícil de confessar é mais simples e mais ofensivo ao ego: ele não estava tão a fim. Era mais um pico de dopamina com o próprio valor na balança. Quando o pico cai, o vazio não é mistério clínico. É previsão cumprida.

Este texto não prega hipocrisia. Não pede voto de castidade. Não condena. Mas nomeia a realidade. e questiona por que, de repente, todo mundo parece precisar de um remédio que muito avô nunca precisou. A insegurança do homem em relação ao próprio desempenho ensina o homem a achar que a droga é para sempre.

Gerações cada vez mais jovens entram no uso crônico. O álcool leva a fama de vilão da decisão. Às vezes, o vilão é o ambiente em que o álcool é condição para aguentar a pessoa do lado. Quem só consegue a noite com o copo e o comprimido talvez não devesse aquela noite. Não é moral. É economia de dano.

Homem que se sente tolhido pode dizer isso. Não pode usar a frase para justificar o roteiro anômalo da tela. Mulher que cobra Pix como fim pode ser descrita como mercado. Não como desculpa para ódio de categoria. Consentimento não se compra na farmácia, no site nem no aplicativo de banco.

A farmácia vende o vaso. A tela vende a novidade. O Pix vende a entrada. O antidepressivo vende o humor e, em silêncio, leva o querer. Ausência de receita no balcão não é evidência de inocência. É o vazio de sempre: já regulado para quem vende, ninguém mediu para quem engole — e para quem acorda sem vontade e chama isso de doença, quando era só o primata honesto, enfim, sem propaganda.

Isabel de Fátima Alvim Braga

Médica. Autora de A Sociedade da Birra.

Referências

1. Anvisa / g1 / Folha (2025): vendas de tadalafila no Brasil — 3.248.316 unidades (2015) e 64.725.760 (2024); correção posterior de séries 2020-2023.

2. g1 / Deutsche Welle (2026): ordem de 75 milhões de unidades em 2025; segundo medicamento mais vendido no recorte televisivo citado.

3. IQVIA / PróGenéricos / Alanac (2024-2025): genérico entre os mais vendidos; quinto genérico em 2024 (>61 milhões no recorte da associação).

4. IQVIA / Abradilan / Panorama Farmacêutico (acumulado 12 meses até jan/2026): tadalafila Eurofarma > US$ 1 bi em preço-lista; R$ 5,53 bi; 27,3 milhões de unidades; 91ª → 11ª posição.

5. piauí (2026): Brasil na liderança de buscas por tadalafila no Google.

6. Anvisa (2025): interdição de gummies à base de tadalafila.

7. Varga Z et al. Endothelial cell infection and endotheliitis in COVID-19. Lancet. 2020.

8. Revisões 2023-2024 sobre proteína S / S1 e endotélio (Trends Microbiol.; Cardiovasc Res.) — efeito em modelos; controvérsia vírus vivo vs S isolada.

9. Wong AC et al. Serotonin reduction in post-acute sequelae of viral infection. Cell. 2023. IDO1 não necessária no modelo murino com poly(I:C).

10. Literatura Covid aguda: razão quinurenina/triptofano e ativação de IDO.

11. Covitel 2023: 12% diagnóstico de depressão; 26,8% ansiedade.

12. PNS/IBGE: 10,2% dos adultos com diagnóstico médico de depressão.

13. Funcional Health Tech / CNN Brasil (2025): +12,4% no uso de antidepressivos (29-58 anos) numa base de 2,5 milhões; segundo grupo após antibióticos na amostra.

14. G1 (2023), Folha (2026), Veja Saúde, O Globo: ISRS e desejo — lubrificação, anorgasmia, retardo ejaculatório, ereção; faixas de 40% a mais da metade conforme recorte; depressão também reduz desejo.

15. Relatos de PSSD (disfunção sexual pós-ISRS): existência descrita; incidência não fechada.

16. Berridge KC. Wanting vs liking; incentive salience.

17. Schultz W. Dopamine reward prediction error.

18. O’Connell HE et al. Anatomical relationship of the clitoris (e trabalhos seguintes sobre o complexo clitoriano).

19. Singh D e literatura de WHR (~0,7) vs silhueta de passarela.

20. Braga I. A Sociedade da Birra. Capítulo “O verdadeiro valor do dinheiro”: amígdala e aversão à perda; dinheiro guardado como liberdade de escolha; valor e função.

21. Mercado de PDE5: Lilly/Cialis 2003; genéricos após perda de exclusividade; relatórios globais de mercado (faixas discrepantes entre casas; o número duro deste texto é o da Anvisa no Brasil).

22. UOL / imprensa (2018): Daniel Corrêa Freitas — hábito de enviar ao grupo de WhatsApp fotos de mulheres com quem se relacionava; assassinato em Curitiba; depoimento de amigo à polícia. O homicídio tem autos próprios.

23. Lei 13.772/2018: divulgação de cena íntima sem consentimento.

24. Urologia clínica: disfunção erétil e ejaculação tardia situacionais associadas a masturbação de alta intensidade/tela — evidência mista, queixa frequente em consultório. A curva nacional de sífilis e outras DST tem causas múltiplas (Pàhnorama: mapa HIV/PrEP/sífilis). Este parágrafo não atribui a epidemia a um único hábito.

Compartilhar.

Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

Deixe Uma Resposta

Português do Brasil
Exit mobile version