Isabel de Fátima Alvim Braga  ·  20 de setembro de 2026

O Rio de Janeiro não é só o cartão que cabe no porta-retrato. É o único estado do país onde uma perereca come fruta, entra na flor e sai com pólen nas costas. Xenohyla truncata. Perereca-da-fruta. Amarela quando a luz pega certo. Endêmica das restingas fluminenses — da Marambaia a Búzios, de Mangaratiba a Rio das Ostras. Não tem plano B em Minas. Não tem plano B em São Paulo. O chão dela é este: areia, sal, bromélia, vento. Se este chão acabar, a espécie acaba. Não é ufanismo barato. É mapa.

Ela dorme na axila da Neoregelia cruenta, a bromélia que a orla trata como enfeite de condomínio. De dia some. De noite desce à poça que a chuva fez no chão. Come Anthurium, Erythroxylum, Maytenus, o fruto da Cordia taguahyensis. Em 2023 o trabalho de Nogueira e cols. descreveu o que o Rio tinha e não sabia vender: o primeiro anfíbio do mundo com potencial de polinização. Abelha de sangue frio. A cidade que se gaba de ter inventado a bossa não inventou isso. A restinga inventou. O Estado deixou o lote comer a restinga.

Em maio de 2025 um cientista da Secretaria de Ambiente fotografou um exemplar na APA de Maricá. A foto virou nota. A nota não virou política. Lista vermelha: vulnerável. Área pequena, habitat em queda, população em queda. O sumiço da perereca não é metáfora. É o que acontece quando o investimento em esgoto é alto no papel e baixo na coluna d’água.

O que só o Rio tem — e trata como terreno

Há um ufanismo que merece ser dito sem vergonha. A Mata Atlântica fluminense não é “mais um bioma”. É o corredor mais rasgado e mais rico do país: Tijuca em cima da cidade, Órgãos no fundo, restinga na beira, mangue na boca da lagoa. Quatro ambientes em vinte quilômetros. Quase nenhum estado empilha isso com essa densidade e essa pressa de destruir.

Na restinga — o chão mais humilde e mais raro — o Rio guarda o que o mundo inteiro não tem duplicata. A perereca-da-fruta. A rã da Marambaia (Leptodactylus marambaiae), descrita para a ilha e para quase mais nenhum lugar. O sapinho Rhinella pygmaea. A pererequinha Scinax littoreus, de Ponta Negra. Carlos Frederico Rocha e colegas listaram cinco anuros endêmicos das restingas do leste brasileiro; o mapa deles pinta o litoral fluminense como o miolo, não como detalhe. Isso não é lista de zoológico. É certificado de origem.

No mesmo areial, a planta que a perereca usa de prato e de teto: bromélia, Clusia, Cordia, o capim que o corretor chama de mato. Cada aterro na orla da lagoa não é um jardim a menos. É um quarto a menos. A espécie não atravessa a Avenida das Américas. Não sobe a Pedra da Gávea. Não espera o mangue que a concessionária plantou para a foto da garça. Garça voa. Perereca de restinga não.

Há mais vida neste pedaço do que o anúncio de “jacaré voltou” consegue caber. Jacaré-de-papo-amarelo na lagoa é notícia porque o carioca gosta de réptil famoso. A notícia verdadeira é menor e mais grave: o anfíbio que come fruta, a rã da ilha, o sapinho que só faz o canto neste sal. Quando o Estado celebra a volta da ave e cala a poça da bromélia, está escolhendo o animal que dá capa. A tese de Toledo, sem falar em perereca, descreveu o motivo do sumiço: a água que chega na poça já veio do arroio. O arroio já veio da casa sem rede.

A dissertação que o press release não leu

Em 2022, Graziella de Araújo Toledo defendeu na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fiocruz, a dissertação Análise do investimento em esgotamento sanitário e a relação com a qualidade da água do complexo lagunar de Jacarepaguá, Recorte 2001 a 2018. Quatro lagoas: Tijuca, Jacarepaguá, Camorim, Marapendi. Área de Planejamento 4 — Barra, Recreio, Jacarepaguá, o pedaço que o mercado imobiliário chama de “região nobre” e que o rio chama de fundo da bacia.

Toledo não perguntou se havia dinheiro. Perguntou se o dinheiro mudava a água. A resposta cabe num parágrafo que ela mesma escreveu e que este artigo não vai enfeitar: a quantia aplicada nos dezoito anos foi alta; os métodos de tratamento já estavam defasados e não foram dimensionados para a demanda; os tratamentos propostos “sequer fizeram diferença na qualidade das águas, que ano após ano padecem com mais impactos”. Efluente doméstico e industrial todos os dias. Eutrofização. Assoreamento dos corpos que deságuam no complexo.

Ela não inventou o diagnóstico. Leu o que o Estado já publicava e não lia: séries do INEA e da antiga FEEMA, planos de saneamento, contratos da Cedae, o histórico da expansão urbana da AP-4 desde os anos 1970, a literatura de lagoa costeira eutrofizada. O objeto da dissertação é a relação — investimento versus resultado. Relação que o release de obra odeia, porque o release mede metro de tubo e a dissertação mede oxigênio.

Como se lê uma lagoa sem ser engenheiro

Índice de Qualidade da Água (IQA) é uma nota de 0 a 100 montada com oxigênio, coliforme, pH, fósforo, turbidez, demanda bioquímica. Em português de gente: 90 a 100 é água que dá gosto de ver; 70 a 90 é boa; 50 a 70 é média; 25 a 50 é ruim; abaixo de 25 é péssima — privada a céu aberto com paisagem. Os rios que alimentam as lagoas da Barra passam anos nessa última faixa. Não é “um pouco suja”. É a faixa em que a vida que respira por brânquia e a vida que respira por pele começam a sair.

Lagoa rasa, quente, com pouca troca de mar, recebe o que a cidade não tratou. Alga explode. Oxigênio de noite cai. Peixe morre. Bromélia na margem seca ou vira lixo. A perereca precisa de poça limpa de chuva e de planta em pé. Esgoto contínuo não é só cheiro. É o fim do quarto dela.

Tabela 1. Os rios que deságuam no complexo — nota de 2012 a 2024

INEA, média de treze anos. Mesma escala: 100 é ótimo; 0 é péssimo. Leia a última coluna.

PontoCorpo d’águaIQA médio 2012–2024O que isso quer dizer
AN40Rio do Anil26,6Ruim, beirando péssimo. Treze anos sem sair do fundo.
CC000Rio Cachoeira42,5Ruim. Melhor que o Anil; longe de “médio”.
CM220Rio Camorim57,4Médio. O menos pior da bacia.
GN400Rio Guerenguê23,1Péssimo.
PN480Rio Pavuninha19,8Péssimo.
PV180Arroio Pavuna16,8Péssimo. O pior da tabela.
RT020Rio Retiro24,1Péssimo.
FN090 / FN100Arroio Fundo / Rio Grande22,4 / 21,7Péssimo.

Fonte: INEA, IQA médio consolidado 2012–2024, bacia do Sistema Lagunar de Jacarepaguá. Pavuna e Pavuninha passaram a década e meia no chão. Quem mora na Cidade de Deus e na Gardênia não precisa do índice para saber. O índice só prova que o Estado também sabia.

O que veio depois de 2018 — e o que a água respondeu

Toledo fechou o recorte em 2018. Em 2021 o Estado leiloou a Cedae. A fatia da Zona Sudoeste ficou com a Iguá: Barra, Recreio, Jacarepaguá, Miguel Pereira, Paty do Alferes. Contrato de trinta e cinco anos. R$ 2,7 bilhões previstos. A empresa declara cerca de R$ 1 bilhão já aportado. ETE da Barra reformada — R$ 170 milhões, capacidade 50% maior, reinaugurada em dezembro de 2025. Coletores de tempo seco: R$ 126 milhões no desenho, para interceptar 479 litros por segundo de esgoto que hoje entra nas lagoas pelas galerias de chuva. O primeiro, Canal das Taxas, opera desde julho de 2024 e tira 17 litros por segundo. Dragagem: R$ 250 milhões, 2,3 milhões de metros cúbicos de lodo; um milhão já remanejado, segundo a concessionária. Licença em 2023. Máquina na água em abril de 2024. Fim previsto: 2027.

Isso é muito tubo. Não é, ainda, outra lagoa. Um trabalho do XXVI Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos (2025) calculou o IQA canadense em cinco pontos das lagoas, 2021 a 2024. Camorim, Jacarepaguá e Tijuca subiram um pouco — e continuaram “péssimas”. Marapendi não acompanhou. Os autores escrevem o que Toledo tinha escrito com outras palavras: dragar sem cortar a fonte é limpar a privada com a torneira aberta.

Tabela 2. As quatro lagoas, 2021–2024 — a nota subiu e continuou péssima

Índice canadense (CCME). Número baixo = água ruim. “Péssima” é a classe, não o adjetivo da jornalista.

PontoLagoa2021202220232024Como ler
CM320Camorim8,526,7215,7418,29Subiu. Continua péssima.
JC342Jacarepaguá9,9611,7816,7914,51Oscilou para cima. Péssima.
TJ303Tijuca13,2617,9314,2723,12Melhora após a dragagem. Péssima.
MR361Marapendi16,4417,8913,0919,01Quase no mesmo lugar.
MR369Marapendi35,5625,1431,6528,53Não sobe. O “melhor” ponto ainda é ruim.

Fonte: XXVI SBRH, 2025, com monitoramento INEA. Correlação temporal forte em Camorim, Jacarepaguá e Tijuca; fraca ou negativa em Marapendi. Discreto não é limpo.

Tabela 3. O dinheiro que chegou depois da tese

O quêQuanto dizemPara quêOnde está
Concessão Iguá (35 anos)R$ 2,7 bi no contratoÁgua e esgoto da Zona Sudoeste + 2 municípiosEm curso
Já aportado (2022–26)R$ 1 bi a R$ 1,1 biMais da metade do capex dos primeiros 12 anosNúmero da empresa
ETE BarraR$ 170–172 miTratar mais 50%Reinaugurada em dez/2025
DragagemR$ 250 miTirar 2,3 mi m³ de lodo1 mi m³ saiu; prazo 2027
Coletores de tempo secoR$ 126 miSegurar 479 L/s de esgoto das galeriasTaxas: 17 L/s desde 2024; o resto, 2025–26
Pacto RJ (Estado, outorga Cedae)R$ 22,5 bi no pacote estadualObras em todo o estado — não só a AP-4Paralelo

Fontes: Iguá, O Globo, Casa Civil-RJ, Brazil Journal (2025–2026). Marketing mede real. Dissertação mede IQA. Os dois números precisam aparecer na mesma página.

Quando investir tão mal não adianta

A lição de 2001–2018 não envelheceu em 2026. Gastar sem cortar a carga é teatro. Ampliar estação sem completar a rede na comunidade que deságua no arroio é teatro. Dragagem sem coletor em todos os afluentes é teatro com lodo. Dezessete litros por segundo no Canal das Taxas, contra uma bacia que há meio século engole o resto, não é virada. É início. Início que a dissertação já pedia — “medidas emergenciais”, “tecnologias adequadas” para a AP-4 — e que o release trata como final de filme.

O Rio tem o direito de se orgulhar do que só ele tem. Tem o dever de não tratar isso como paisagem de anúncio. A perereca-da-fruta é tão carioca quanto o granito da Pedra Bonita e bem mais frágil. Enquanto o IQA do Arroio Pavuna continuar na casa dos 17, o ufanismo vira lápide. Investir alto no cano errado, no prazo errado, na carga que não se corta, é o sumiço com nota fiscal.

O complexo lagunar não precisa de mais slogan de revitalização. Precisa do que Graziella Toledo escreveu em 2022 e o INEA continua medindo: tratar o esgoto na escala de quem já mora ali. Não na escala do anúncio. A perereca não lê o release. Lê a poça.

Isabel de Fátima Alvim Braga

Doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente

Referências

1. Toledo GA. Análise do investimento em esgotamento sanitário e a relação com a qualidade da água do complexo lagunar de Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado) — ENSP/Fiocruz, 2022. 171 f. Orientação: S. C. Cohen; coorientação: D. C. Kligerman. https://arca.fiocruz.br/handle/icict/66471

2. Toledo GA. Conclusão: investimentos 2001–2018 altos; tratamento defasado; efluentes diários; eutrofização e assoreamento; tratamentos “sequer fizeram diferença”.

3. INEA. IQA médio 2012–2024. RH-V, bacia do Sistema Lagunar de Jacarepaguá.

4. INEA. Boletim IQA — Bacia do Sistema Lagunar de Jacarepaguá, n. 4, out/2025.

5. XXVI SBRH, 2025. Avaliação preliminar da revitalização; IQACCME 2021–2024 nas lagoas.

6. Agência Brasil, 18 jul 2023. Licença de dragagem; R$ 250 mi; 2,3 mi m³.

7. Casa Civil-RJ, 1 dez 2025. ETE Barra; +50%; R$ 170 mi.

8. O Globo / Iguá, dez 2025. CTS R$ 126 mi; Canal das Taxas 17 L/s desde jul/2024.

9. Brazil Journal, 3 set 2026. Iguá ~R$ 1,1 bi desde 2022.

10. Pinto EK, Cruz AN, Milani ICB. Qualidade da água do Sistema Lagunar de Jacarepaguá, 2018–2022.

11. IUCN Red List. Xenohyla truncata. EOO 7.435 km²; restinga do RJ; tendência de queda.

12. de-Oliveira-Nogueira et al. Food Webs, 2023. Dieta e potencial de polinização (Cordia taguahyensis).

13. Rocha CFD et al. Anuros endêmicos de restinga do leste brasileiro.

14. Diário do Rio, 1 maio 2025. Exemplar na APA Maricá.

15. Izecksohn E. 1959. Descrição de X. truncata.

Compartilhar.

Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

Deixe Uma Resposta

Português do Brasil
Exit mobile version