Isabel de Fátima Alvim Braga

Há um Rio que se vê de asa, outro que se vê de lancha, outro que se paga na cancela. Existe um quarto, mais quieto e mais alto: o Campo dos Afonsos. Lá a criança não decola. Ela assiste. O Museu Aeroespacial — o MUSAL — é o hangar onde o País guardou o que voou. Av. Marechal Fontenelle, 2.000, Zona Oeste. Berço da aviação militar brasileira. Cerca de oitenta aeronaves. Uma réplica do 14-Bis, o avião que o folclore nacional trata como certidão. Terça a domingo, das nove às quatro, portão às quinze e meia. Segunda, fechado. Entrada do dia comum, gratuita. Escola marca visita. Quarta, das oito às nove, o portão abre só para quem a lei municipal mandou acolher primeiro.

No chão, a criança sobe no que já não voa. Encosta a mão no alumínio quente. Lê a placa que o adulto resume em duas frases. Isso basta num sábado qualquer. O que ela conta no jantar, porém, não é o hangar. É o dia em que o céu do museu deixa de ser teto e vira palco.

O domingo em que o Estado voa

Três vezes no calendário de 2026 o Afonsos virou plateia. Em maio, o Musal Airshow — o maior show aéreo gratuito do Estado. Cento e trinta e oito mil pessoas no sábado, cento e oitenta e cinco mil no domingo. Trezentos e vinte e três mil pescoços. Ingresso de graça e, ainda assim, obrigatório: tira-se antes, no máximo cinco por CPF, um quilo de alimento na porta. Sem o papel, a grama não aceita.

O que a criança assiste tem nome. Esquadrilha da Fumaça, a que deixa o céu escrito. Caça F-5M em passagem baixa o bastante para o peito acompanhar. Esquadrilhas CEU, Apolo no T-25 Universal, ACRO. Homem em paramotor. Autogiro. O RV-7 de um comandante que o programa trata pelo nome. Helicóptero. E o instante que nenhuma oficina substitui: o paraquedista que se solta do Bandeirante ou do Amazonas e demora a virar ponto no azul. No chão, no mesmo fim de semana, deixa-se entrar no ventre do C-130 Hércules e do C-115 Buffalo — o avião de carga como casa, a criança no porão da história.

Em julho, o aniversário de Santos Dumont — cento e cinquenta e três anos — e o do próprio museu. De novo 9h às 17h. De novo o céu e o hangar. Paraquedismo, aeromodelismo, oficina, o 14-Bis parado enquanto o primo dele passa em cima. Em setembro, um domingo só, a Primavera dos Museus no Afonsos: F-5, CEU, Falcões saindo do C-95 e do C-105, helicóptero da Receita e da Polícia Civil, o Amazonas taxiando na pista como quem cumprimenta. Contação de história no Sesc. Espaço Azul de nove, onze, treze e quinze horas.

O Rio tem muitos céus. Este é o de graça.

A Pedra Bonita vende o voo. O Jacarepaguá vende o salto. O heliponto vende os dez minutos. O Afonsos, nos dias certos, oferece o contrário: a criança não sobe. Ela aprende a olhar. Há uma pedagogia nisso que o ingresso pago não entrega. Ver o homem cair de paraquedas e abrir o pano. Ver a formação escrever no azul e desfazer. Entrar no Hércules e entender, sem discurso, que o País já teve um porão de metal capaz de atravessar oceano.

Não é propaganda de força. É o único espetáculo aéreo da cidade em que o preço de entrada é um quilo de arroz e a paciência de ter tirado o ingresso na véspera. O resto do ano o hangar continua lá, com o 14-Bis e o silêncio. Os domingos de fumaça são poucos. Por isso pesam.

Procure as datas do ano que vem. Já passou da hora de as crianças reconhecerem o valor da disciplina. Porque no lugar do Rio de Janeiro onde homem ainda pode agir como homem, não há flanelinha na porta e nem furto de celular em evento.

Isabel de Fátima Alvim Braga

Referências

[1] MUSAL / FAB. Av. Marechal Fontenelle, 2000, Campo dos Afonsos. Terça a domingo, 9h–16h.

[2] FAQ MUSAL. Entrada gratuita no dia comum; visitas escolares; Espaço Azul; horário de quarta para PCD.

[3] Revista Sociedade Militar, 14/09/2026. Airshow: 138.085 + 184.783 visitantes; Hércules e Buffalo; 400 famílias no Espaço Azul.

[4] O Dia, 16/05/2026. Musal Airshow 16–17/05/2026. EDA, F-5M, CEU, Apolo, ACRO, paraquedistas.

[5] Diário do Rio, 7 e 27/07/2026. Santos Dumont 153 anos, 25–26/07/2026.

[6] Aerojota / Facebook MUSAL. Primavera dos Museus no MUSAL, 20/09/2026.

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Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

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