Isabel de Fátima Alvim Braga
ORION: o nome já é a metáfora
No começo de outubro de 2026 um reel do perfil Codinome Proibido voltou a circular uma pergunta: o complexo Orion, em construção ao lado do Sirius, em Campinas, é avanço científico ou coisa escondida? O que o vídeo descreve como inédito é verdade. O resto, o tom de segredo, não aparece nas fontes públicas.
No céu do Brasil, as Três Marias são o cinturão de Órion: Alnitak, Alnilam e Mintaka, três estrelas alinhadas. A reta que elas formam aponta para Sirius, a estrela mais brilhante da noite, no Cão Maior.
O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) batizou o laboratório de Orion porque três linhas de luz vão sair do acelerador Sirius e entrar na área de contenção. Não é um lugar onde ficam as Três Marias. É um apelido de engenharia.
O anel não caça partícula nova
O prédio redondo, de telhado de metal, é a maior infraestrutura científica já construída no país. Por dentro não é um colisor do tipo LHC, em que se esmagam prótons para procurar partícula desconhecida. O Sirius é uma fonte de luz síncrotron de quarta geração. Ele acelera elétrons até perto da velocidade da luz para fabricar um tipo especial de luz e apontá-la para amostras.
O caminho tem três máquinas. No Linac, uma placa metálica aquecida solta elétrons e campos de radiofrequência os empurram até cerca de 150 MeV. No Booster, um anel de 496 metros, a energia sobe para 3 GeV. Daí o feixe entra no anel de armazenamento, de 518 metros, e fica circulando por horas em ultra-alto vácuo, guiado por eletroímãs. Sempre que o ímã curva a trajetória, o elétron perde energia na forma de radiação. Essa radiação é a luz síncrotron, concentrada na tangente da curva, sobretudo em raios X. A emitância de projeto, 0,25 nm rad, coloca o Sirius entre as fontes mais brilhantes dessa faixa de energia.
Ao redor do anel ficam as linhas de luz: estações que filtram, focalizam e entregam o feixe a uma amostra. O desenho prevê até 38. As que já operam servem proteína, solo, bateria, fármaco, material. A luz não contamina a amostra. Ela atravessa ou espalha, e o detector lê absorção, fase ou difração. O resultado é imagem e química da escala do micrômetro ao nanômetro, muitas vezes em três dimensões e ao longo do tempo. Em maio de 2026 foram inauguradas quatro linhas novas da segunda fase, entre elas Tatu, Sapucaia e Quati, fora do pacote do Orion.
Por que a ligação é única
Laboratório de contenção máxima existe há décadas. Síncrotron também. O que ninguém tinha construído é os dois no mesmo prédio, com o feixe de luz entrando na sala onde o vírus continua vivo.
Biossegurança, aqui, não é “laboratório mais limpo”. É o conjunto de regras que impede o micróbio de sair. O número sobe conforme o perigo do agente e a facilidade com que ele viaja pelo ar. No Brasil a sigla é NB. Fora, BSL. É a mesma escala.
O NB1 é a bancada de aula. Trabalha com micróbio que não adoece gente saudável, como uma bactéria usada para estudar genética. Basta jaleco, pia e o hábito de não comer na bancada.
O NB2 é o laboratório clínico comum. Cabe vírus e bactéria que adoecem, mas que em geral não saem voando: estafilococo, HIV em amostra de sangue, alguns vírus de hepatite. Entram luvas, capela em alguns procedimentos e autoclave para matar o que sobrou. Um hospital grande já tem sala assim.
O NB3 é o degrau da pandemia. Serve para agente que causa doença grave e pode infectar pela respiração: tuberculose, o coronavírus da covid, febre amarela em certas manipulações. A sala fica com pressão menor que o corredor, para o ar entrar e não sair. O ar que sai passa por filtro fino. O pesquisador usa roupa de proteção e, às vezes, respirador. O Brasil tem laboratórios desse nível. Na covid, eram poucos para a demanda, e o ministério financiou mais.
O NB4 é o último degrau. Cabe agente que causa doença grave ou fatal, viaja fácil em aerossol e não tem vacina nem tratamento à altura. É o caso do Ebola, do Marburg e, no Brasil, do Sabiá. A proteção deixa de ser só a sala e passa a ser o corpo do pesquisador: macacão inteiro, pressurizado, com ar vindo de fora por mangueira. Se o vírus furar a luva, o ar de dentro do macacão empurra para fora, em vez de puxar o ar da sala para dentro. Na saída, a pessoa toma um banho químico ainda vestida, cerca de sete minutos, e só então tira o traje. O ar, a água e o lixo da sala são filtrados ou cozidos antes de ir embora. Instalações assim existem nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia. Na América Latina, nenhuma operava até o Orion.
O inédito não é, portanto, “ter um laboratório perigoso”. É a janela. Num NB4 comum, a amostra não sai viva. Para radiografar no Sirius, hoje, ou se mata o vírus antes e se perde o que ele fazia na célula viva, ou se fica sem essa luz. No desenho do Orion, três linhas (Sibipiruna, Timbó e Hibisco) entregam o raio X dentro da contenção. A amostra permanece do lado de dentro. A luz entra por uma passagem blindada e o detector lê do outro lado. Na pandemia, o Diamond, no Reino Unido, chegou a levar amostra de NB3 até uma linha. Isso não é um prédio desenhado, desde a fundação, com três linhas dedicadas a um NB4.
Por isso o CNPEM e a FAPESP repetem a frase. Não porque o anel ou o macacão sejam inéditos. Porque a combinação, feixe de síncrotron dentro da contenção máxima, não tinha sido feita em lugar nenhum.

Hoje, para radiografar um vírus do grupo 4, ou se inativa a amostra e se leva para fora, e se perde o processo vivo, ou se usa um laboratório que não tem essa luz. No desenho do Orion a amostra fica no NB4 e o raio X entra por janela blindada. O diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, Harry Westfahl Jr., descreveu o objetivo assim: dados estruturais do sistema infectado, da organela ao organismo, para ver a cadeia de eventos de um patógeno de classe 4.
Na pandemia, o Diamond Light Source, no Reino Unido, chegou a levar amostra de NB3 até uma linha. Antonio José Roque da Silva, diretor-geral do CNPEM, disse em setembro de 2026 que isso não é a mesma coisa que um prédio integrado com três linhas dedicadas. As soluções de transferência sem romper a contenção já foram apresentadas fora do Brasil. A obra segue.
As três linhas ainda estão em montagem. Todas levam nome de planta brasileira, e cada uma olha o vírus numa escala diferente: a célula, o órgão e o animal inteiro. A diferença prática é a “dureza” do raio X, medida em keV. Número baixo atravessa pouco e enxerga detalhe miúdo. Número alto atravessa mais e serve para um corpo maior.
A Sibipiruna usa o raio X mais macio, de 0,30 a 0,75 keV. É uma radiografia de célula congelada. A amostra já foi infectada, tirada do experimento e resfriada na hora, para o vírus parar no meio do que estava fazendo. A imagem chega à organela, a peça de dentro da célula, com resolução de nanômetro. É o zoom do que acontece depois que um patógeno de nível 3 ou 4 entra: onde ele se instala, o que deforma, o que mata. Não é animal vivo. É a célula já colhida, preservada no gelo.
A Timbó fica no meio, cerca de 5 a 20 keV. O alvo sobe de tamanho: tecido, fatia de órgão, miniórgão cultivado em laboratório. A técnica é uma tomografia em 3D que não depende só da sombra do raio. Usa também a maneira como a luz desvia ao atravessar a amostra, o chamado contraste de fase. Dá para ver a arquitetura do tecido infectado, vaso, lesão, borda entre o são e o doente, sem precisar fatiar tudo no microscópio.
O Hibisco usa o raio X mais duro, de 16 a 45 keV, o que atravessa um camundongo ou outro animal pequeno ainda vivo. É a tomografia do corpo inteiro, repetida ao longo dos dias. Serve para ver a doença avançar e para testar se um remédio segurou o estrago, sem sacrificar o animal a cada medida. A dose é baixa para o padrão dessa luz. Não é o exame de um hospital: a resolução chega a ser da ordem de cem vezes mais fina que a de um tomógrafo clínico.
Juntas, as três fecham a escada que o diretor do Sirius descreveu. A Sibipiruna mostra a organela. A Timbó mostra o órgão. O Hibisco mostra o bicho. E, no desenho do Orion, isso acontece sem tirar o material vivo da sala de contenção.zes maior que a de um tomógrafo de hospital, com dose baixa. Vale para o contraste de fase da luz síncrotron, não para um exame clínico.
O prédio
O Orion fica no campus do CNPEM, em Campinas, organização social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. É o primeiro NB4 do Brasil e da América Latina. O complexo tem da ordem de 20 mil a 28 mil metros quadrados, conforme a fonte, e não é só contenção máxima. Inclui NB2, NB3, pesquisa básica, microscopia, biotério e um centro de treinamento que imita o NB4 sem patógeno de verdade. O orçamento fica na casa de R$ 1 bilhão, vindo do FNDCT e do Novo PAC, com apoio do Ministério da Saúde.
A ideia nasceu na pandemia. O país tinha poucos NB3 para o coronavírus. Gente do ministério retomou uma conversa antiga: o Brasil precisava de um nível 4, capaz de lidar com o Sabiá e com vírus como Ebola, Junín, Machupo e Guanarito, e perguntou se dava para ligar isso ao Sirius. O CNPEM disse que sim, com obstáculos que ninguém tinha resolvido.
As fundações começaram em 21 de agosto de 2025: cerca de mil estacas com mais de 20 metros. A previsão mais recente de obra civil é 2027. Operação regular só depois de comissionamento e certificação internacional. A Agência FAPESP chegou a falar em início em 2028. A parte NB4 é a menor do prédio. A maior parte do espaço é NB2 e NB3, onde se cultiva célula, se prepara animal e se desenvolve vacina.
Os protocolos divulgados são os de qualquer NB4: macacão pressurizado com ar externo, banho químico na saída de cerca de sete minutos, pressão negativa, filtragem do ar, descontaminação de material e tratamento de resíduo. Em janeiro de 2026 o g1 visitou o centro de treinamento, que simula o procedimento sem risco real.
O que saiu fora do Brasil
A matéria independente mais citada é da Nature, de 21 de agosto de 2024, assinada por Meghie Rodrigues: “First biolab in South America for studying world’s deadliest viruses is set to open”. O texto descreve o canteiro ao lado do anel e o entusiasmo de pesquisadores que hoje mandam amostra para fora. Também registra as duas ressalvas que acompanham qualquer NB4: o custo de manter a instalação e a reação do público a abrigar organismos letais em Campinas.
Em junho de 2025, o CNPEM assinou memorando com a ERINHA, a rede europeia de laboratórios de alta contenção. Em abril de 2026 entrou como parceiro associado do INTERCEPTOR, projeto dessa rede para ligar infraestruturas de pesquisa em patógenos. O diretor-geral disse ter consultado mais de dez NB4 nos Estados Unidos, no Canadá, na Europa e na Ásia. No início alguns acharam o plano ambicioso demais. A visita ao Sirius mudou o tom.
Reuters e BBC não têm matéria recente específica sobre o Orion. Não há, nessas fontes, relato de acidente, operação secreta ou programa militar. O debate que existe é o de manutenção, regulação e vizinhança.
O Sabiá
O vírus que o projeto cita como razão de existir é o Sabiá, hoje Mammarenavirus brazilense, agente da febre hemorrágica brasileira. É o único patógeno descoberto no Brasil no grupo de risco 4, o mesmo patamar do Ebola. Vírus de RNA envelopado, parente do Junín, do Machupo, do Chapare e do Guanarito.
O nome vem do Jardim Sabiá, em Cotia, na Grande São Paulo. Em 1990 uma engenheira agrônoma de 25 anos se infectou e morreu. A autópsia mostrou necrose do fígado. O quadro começa parecido com gripe, dengue ou febre amarela: febre, náusea, vômito. Pode ir para sangramento, falência renal, comprometimento neurológico e falência de órgãos. Não há vacina. A ribavirina foi usada num acidente de laboratório e o pesquisador sobreviveu. Não é tratamento estabelecido.
Os casos confirmados cabem numa mão.
- 1990, Cotia: a agrônoma, morte.
- O técnico de 39 anos que processou a amostra dela se infectou e se recuperou.
- 1994, Yale: um frasco estourou na centrífuga de um laboratório de nível 3 e liberou aerossol. O virologista foi tratado com ribavirina e sobreviveu.
- 1999, Espírito Santo do Pinhal: operador de máquina de café, morte.
- Em 2026, estudo da USP no PLOS Neglected Tropical Diseases atribuiu ao Sabiá duas mortes de 2019 e 2020 no interior paulista, em Assis e Sorocaba, que tinham ficado sem diagnóstico. O teste era calibrado no genoma de 1990. O vírus mudou o bastante para escapar. A mesma análise estima circulação no Brasil há cerca de 142 anos.
A transmissão natural presumida é inalação de urina, fezes ou saliva de roedor silvestre. A espécie do reservatório não foi identificada. Contágio entre pessoas não está demonstrado. O risco alto é o de laboratório: o vírus forma aerossol com facilidade. Por isso a manipulação do vírus vivo exige NB4. Até o Orion existir, amostra ativa ia para fora. Em 2025 uma pesquisadora do CNPEM treinou no NB4 da Universidade do Texas e manipulou o Sabiá lá.
O que se questiona
Eis o fato central: NB4 ligado a síncrotron não existe em outro lugar, e o CNPEM e a FAPESP repetem isso. O projeto não é oculto. Há página oficial, visita de ministra, reportagem do g1 dentro do centro de treinamento e nota da Nature. Comentários sobre clone, China, eleição ou liberação intencional de doença não aparecem nesses documentos.
O risco de acidente em NB4 é debatido no mundo inteiro. É um argumento de regulação e de vizinhança, não uma prova de plano escondido. O prédio ainda não opera. Quando operar, o uso será restrito a gente treinada, no modelo aberto do Sirius, não no modelo de visita livre.
E, num país onde antrax supostamente é estudado em qualquer local sem contenção, usina nuclear tem vazamento, orientador de doutorado deixa aluno colar placa de petri com urânio em autoclave e fica sem redundância por mais de 2 anos e uma pesquisadora sai para um passeio com vírus de dentro da Unicamp, fica a pergunta: isso é seguro? O sabiá ainda sabe assobiar?
Afinal, muitos cientistas afirmam que é seguro. E uma parte deles apoiava o Fauci e dizia que a vacina de RNA era segura. Em ambos os casos, a população não foi informada sobre os riscos e nem consultada.
Referências
LNLS, linhas Hibisco, Sibipiruna e Timbó
CNPEM, Brasil terá NB4 conectado a síncrotron
Agência FAPESP, Orion será o primeiro NB4 ligado a síncrotron
Nature, 21 ago. 2024, Meghie Rodrigues
g1 Campinas, 4 jan. 2026, protocolos do Orion
g1 Campinas, 21 set. 2025, o que se sabe sobre o Sabiá
Ministério da Saúde, histórico de arenavírus
Medical Xpress, maio 2026, circulação do Sabiá
CNPEM, parceria ERINHA e INTERCEPTOR, abr. 2026
Entrevista de Antonio José Roque da Silva, 15 set. 2026
A figura de abertura é ilustração editorial, não fotografia do campus nem micrografia do vírus.
