Isabel de Fátima Alvim Braga
Durante o pico da pandemia de Covid-19, o Brasil comprou milhões de ampolas de fentanila e outros medicamentos do chamado “kit intubação”. Ao mesmo tempo, cerca de 80% dos pacientes que precisaram de ventilação mecânica invasiva morreram.
A pergunta que o título coloca não é retórica: quem ganhou com a estratégia de intubação precoce e com a explosão de compras de sedativos, bloqueadores e respiradores?Este texto reúne dados públicos de licitações, estudos sobre mortalidade e relatos de superfaturamento para mostrar que a intubação precoce não foi apenas uma decisão clínica. Ela moveu grandes volumes de dinheiro público.
Introdução
Durante o pico da pandemia de Covid-19, o Brasil comprou milhões de ampolas de fentanila e outros medicamentos do chamado “kit intubação”. Ao mesmo tempo, cerca de 80% dos pacientes que precisaram de ventilação mecânica invasiva morreram. A pergunta que o título coloca não é retórica: quem ganhou com a estratégia de intubação precoce e com a explosão de compras de sedativos, bloqueadores e respiradores?
Este texto reúne dados públicos de licitações, estudos sobre mortalidade e relatos de superfaturamento para mostrar que a intubação precoce não foi apenas uma decisão clínica. Ela moveu grandes volumes de dinheiro público.
As compras de fentanila e do kit intubação
O Ministério da Saúde realizou a maior compra individual identificada de fentanila no período: o Pregão Eletrônico 124/2020 (Ata 132/2020) adquiriu 3 milhões de ampolas de 10 ml do Laboratório Teuto. Além dessa compra, o governo distribuiu milhões de unidades de kits completos (fentanila + midazolam + propofol + bloqueadores neuromusculares).
Em abril de 2021, o Ministério anunciou a distribuição de 2,3 milhões de medicamentos do kit intubação (parte doada por empresas como Petrobras, Vale, Itaú, Klabin e outras). No total, desde o início da pandemia, mais de 8,6 milhões de unidades de medicamentos para intubação foram enviadas aos estados.
Comparação com outros anos: antes da pandemia, as compras federais de fentanila eram ordinárias e de volume muito menor (uso hospitalar de rotina). Em 2020-2021 o volume explodiu. Depois de 2022, as compras voltaram a patamares bem mais baixos. Não há, nos registros públicos consolidados, volumes sequer próximos de 3 milhões de ampolas em anos não pandêmicos.
Tabela 1 – Principais volumes de kit intubação / fentanila (2020-2021)
| Item / Pregão | Quantidade | Observação |
| PE 124/2020 – Fentanila | 3.000.000 ampolas | Laboratório Teuto |
| Distribuição kit intubação | > 8,6 milhões unidades | Inclui doações e compras |
| Aquisição Opas (2021) | 4,5 milhões kits |
A intubação precoce e a mortalidade
No início da pandemia, protocolos vindos da China e alguns guidelines internacionais recomendavam intubar o paciente cedo, assim que a saturação caísse. A ideia era “proteger o pulmão” e reduzir o risco de contaminação da equipe. Na prática, isso gerou uma demanda explosiva por kits de intubação e por respiradores.
Um estudo coordenado por Fernando Bozza (Fiocruz) mostrou que 78,8% a 80% dos pacientes intubados por Covid-19 no Brasil em 2020 morreram. A taxa ficou bem acima da observada em outros países. Entre as causas apontadas estavam a falta de protocolo nacional unificado, a falta de treinamento adequado das equipes e o tempo perdido discutindo “tratamento precoce” com cloroquina e ivermectina em vez de disseminar técnicas de ventilação não invasiva, posição prona e critérios mais seletivos de intubação.
Estudos posteriores (revisões e meta-análises) mostraram que o momento da intubação (precoce versus tardia) não reduzia de forma clara a mortalidade. Em muitos casos, estratégias não invasivas podiam ser usadas com segurança, desde que não atrasassem a intubação quando ela realmente fosse necessária. A recomendação inicial de “intubar cedo” foi, em parte, revista.
À quem interessa?
Três grupos se beneficiaram diretamente da estratégia e do volume de compras:
- Indústria farmacêutica: vendas massivas de fentanila, midazolam, propofol, cisatracúrio e outros. A compra de 3 milhões de ampolas de fentanila é o exemplo mais visível.
- Fabricantes e intermediários de respiradores: a demanda explodiu. Casos de superfaturamento e não entrega se multiplicaram (Veigamed em Santa Catarina – lucro de 100% e R$ 33 milhões a devolver; Hempcare/Consórcio do Nordeste – equipamentos vendidos a 3.150% acima do custo estimado e nunca entregues; operações da Polícia Federal em São Paulo investigando sobrepreço de R$ 63 milhões).
- Gestores e narrativa institucional: a pressão por “fazer algo” e usar o kit disponível coexistiu com a ausência de protocolo nacional claro de manejo de via aérea. O foco no kit intubação também desviou atenção (e recursos) de outras medidas.
O lucro com respiradores
Em 2019, o Brasil vendia cerca de 1.350 respiradores por ano. Em 2020 a demanda saltou para dezenas de milhares. O Ministério da Saúde contratou fabricantes nacionais (Magnamed, Intermed, KTK) para mais de 14 mil unidades. Preços unitários variaram de dezenas a centenas de milhares de reais.
Casos emblemáticos de lucro e superfaturamento:
- Veigamed (Santa Catarina): vendeu 200 respiradores por R$ 33 milhões. Relatório do Coaf e investigações apontaram lucro de 100%. Justiça condenou a empresa e o ex-secretário a devolver o valor (equipamentos nunca entregues).
- Hempcare / Consórcio do Nordeste: contrato de R$ 48,7 milhões por 300 ventiladores. Custo de produção estimado em torno de R$ 2 mil a R$ 5 mil; preço de venda de R$ 162,5 mil por unidade (mais de 3.000% de margem). Equipamentos não entregues ou inadequados.
- Outras investigações (São Paulo, Araraquara etc.): sobrepreços, pagamentos antecipados e não entregas. O preço médio pago por respirador, segundo auditorias, chegou a R$ 87 mil, com variações de R$ 28 mil a R$ 367 mil.
Conclusão
A intubação precoce e o kit intubação não foram apenas uma resposta clínica. Eles geraram um mercado de centenas de milhões de reais em medicamentos e equipamentos. A indústria farmacêutica e os fabricantes/intermediários de respiradores foram os principais beneficiários diretos. A alta mortalidade entre intubados (cerca de 80% no Brasil em 2020) e a posterior revisão dos protocolos mostram que a estratégia inicial teve custo elevado – em dinheiro e em vidas.
A pergunta “a quem interessa a intubação precoce?” tem resposta concreta nos números das compras e nos casos de superfaturamento. O volume de fentanila e de kits explodiu em 2020-2021 e caiu depois. O mesmo ocorreu com a corrida pelos respiradores. O que não caiu na mesma proporção foi o número de mortes entre os que foram intubados.
Referências
1. Ranzani OT et al. / Bozza F. Characterisation of the first 250,000 hospital admissions for COVID-19 in Brazil. The Lancet Respiratory Medicine / estudos citados pela BBC News Brasil (2021): 80% dos intubados morreram no Brasil em 2020.
2. Ministério da Saúde. Orientações sobre intubação orotraqueal em pacientes com Covid-19. Protocolos e diretrizes CONITEC (2021).
3. Pregão Eletrônico 124/2020 e Ata 132/2020 – Ministério da Saúde (compra de 3 milhões de ampolas de fentanila – Laboratório Teuto). Registros públicos ComprasNet / PNCP.
4. Notícias oficiais e reportagens (abril-maio 2021): distribuição de 2,3 milhões de kits intubação; aquisição de 4,5 milhões via Opas
5. Revista Piauí. “Dinheiro público no ventilador” (2020) – caso Hempcare / Consórcio do Nordeste.
6. Relatórios Coaf e decisões judiciais – caso Veigamed (Santa Catarina): lucro de 100% e condenação a devolver R$ 33 milhões.
7. Polícia Federal – operações sobre superfaturamento de ventiladores em São Paulo (sobrepreço estimado de R$ 63 milhões).
8. Estudos e revisões sobre momento da intubação (precoce vs. tardia) em Covid-19 – meta-análises disponíveis em bases como PubMed e congressos brasileiros (2021-2024).
9. BBC News Brasil. “Coronavírus: Chefes de UTIs ligam ‘kit Covid’ a maior risco de morte no Brasil” (2021).
10. Dados de demanda pré-pandemia de respiradores (cerca de 1.350 unidades/ano em 2019) e contratos do Ministério da Saúde com Magnamed, Intermed e KTK – reportagens FAPESP, UOL Economia e Agência Brasil (2020).
