Desde janeiro de 2025, uma médica brasileira trava uma batalha solitária contra o que define como um grave risco sanitário, ambiental e criminal. Em ofícios, e-mails e representações formais, a doutora Isabel de Fátima Alvim Braga, médica registrada no CREMERJ, afirma ter alertado reiteradamente conselhos profissionais, órgãos de controle e autoridades federais sobre o uso de urânio sem contenção radiológica adequada em pesquisas acadêmicas realizadas no âmbito da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) — sem que medidas efetivas tenham sido tomadas.

No centro da denúncia está uma tese de doutorado defendida em 2019, no Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), que identificou altas concentrações de urânio em águas destinadas ao abastecimento público no estado do Rio de Janeiro, com análises realizadas por espectrometria de plasma (ICP-OES). O trabalho teve como orientadora a bióloga e servidora pública Maysa Beatriz Mandetta Clementino.
Segundo a médica denunciante, o problema não se limita aos resultados científicos. O foco é como esses resultados teriam sido obtidos.

O alerta: urânio sem contenção radiológica
Em documento protocolado em 7 de janeiro de 2025, endereçado ao Conselho Regional de Biologia (CRBio-2), Isabel Braga solicita abertura de sindicância contra a orientadora da tese. No texto, a médica afirma que houve “titulação de urânio sem contenção radiológica própria”, o que, se confirmado, configuraria violação de normas sanitárias, ambientais e nucleares.
A denúncia pede ainda:
- comunicação imediata à CAPES, para avaliação de retirada de título e prêmios acadêmicos;
- envio do caso ao Ministério Público Federal;
- comunicação à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN);
- e acionamento da Polícia Federal.
A médica sustenta que qualquer manipulação, concentração ou análise de urânio exige infraestrutura licenciada, protocolos radiológicos, monitoramento ocupacional e autorização específica, o que, segundo ela, não estaria demonstrado no processo acadêmico analisado.
A tese: dados alarmantes, implicações silenciadas
A tese de doutorado analisou poluentes químicos e biológicos em bacias hidrográficas usadas para abastecimento público. Em seu próprio resumo, o trabalho afirma:
“Altas concentrações de urânio foram detectadas em todas as amostras da bacia São João.”
O estudo associa a presença de metais pesados — incluindo urânio — à seleção de microrganismos multirresistentes, fenômeno reconhecido como um dos grandes riscos sanitários globais.
Entretanto, não há no texto apresentado qualquer detalhamento público sobre licenciamento nuclear, contenção radiológica, descarte de resíduos radioativos ou proteção ocupacional, pontos que são obrigatórios quando se trata de material radioativo, ainda que em concentrações ambientais.
Esses trechos constam no documento acadêmico analisado 2019_tese-kayo-fernandes.
E-mails ignorados e a denúncia persistente
Desde janeiro de 2025, Isabel Braga afirma ter enviado diversos e-mails a conselhos profissionais e instituições, alertando para o que classifica como “risco concreto à saúde pública e ao meio ambiente”. Segundo ela, nenhuma resposta técnica conclusiva foi apresentada até o momento.
“Não se trata de divergência acadêmica. Trata-se de possível crime ambiental e nuclear, com impacto direto sobre a água consumida pela população”, escreveu a médica em uma das comunicações encaminhadas às autoridades, segundo relato documentado.
Quando a ciência ultrapassa a legalidade
Especialistas ouvidos pela reportagem — que falaram sob condição de anonimato — afirmam que o urânio é um elemento radioativo regulado por legislação específica, e que a ausência de licenciamento, rastreabilidade e contenção pode configurar infrações administrativas e penais, dependendo do contexto e da forma de manipulação.
No Brasil, nenhuma instituição pode manipular material nuclear fora do marco regulatório da CNEN, mesmo para fins acadêmicos.
Silêncio institucional e perguntas sem resposta
Tentamos contato com os responsáveis por todos os canais informados publicamente — número de telefone disponível nas redes sociais e no site institucional, além de QR Code e links divulgados. No entanto, os links e QR Codes não permitem encaminhamento ou contato efetivo, e as ligações realizadas para o telefone informado não foram atendidas até o fechamento desta matéria.


Até o fechamento desta matéria, não houve posicionamento oficial.
O que está em jogo
O caso expõe uma zona sensível onde ciência, poder institucional e risco público se cruzam. Se confirmadas as denúncias, o episódio pode representar:
- falhas graves de governança científica;
- risco sanitário coletivo;
- violação da legislação nuclear brasileira;
- e precedente perigoso para pesquisas com materiais radioativos no país.
Mais do que um embate individual, o que está em jogo é a credibilidade das instituições científicas, a segurança da água consumida pela população e o respeito às leis que protegem a vida.
A denúncia segue em apuração.
Esta matéria é baseada em documentos formais, comunicações oficiais e tese acadêmica pública. Todas as acusações são atribuídas às fontes citadas e aguardam manifestação dos órgãos competentes.
