Por Isabel Braga e Ana Paula Tergilene
Este texto não denuncia envelope no bolso de repórter. Quase nunca é assim. O dinheiro público que chega à imprensa entra no CNPJ da empresa, da holding, da editora, da produtora ou do instituto. O jornalista pessoa física raramente é favorecido de emenda. Confundir as duas coisas destrói a apuração.
Em Chatô, o Rei do Brasil, Fernando Morais descreve um jornalismo em que o dinheiro e a influência eram a mesma pessoa. Assis Chateaubriand não “recebia Secom”: ele sentava com presidente, banqueiro e industrial, trocava anúncio por manchete, concessão de rádio por silêncio, empréstimo por capa. O poder era vertical — um homem, uma cadeia, um telefonema. O jornalista-rei não precisava de CNPJ transparente; precisava de medo.
O momento atual inverte a geometria e disfarça o método. Ninguém é Chatô. A influência se pulverizou em holding, agência, plataforma e portal militante. O dinheiro ficou mais visível e, por isso, mais hipócrita: entra no CNPJ como inserção da Presidência, desoneração de INSS, horário eleitoral “gratuito” e, no andar de baixo, um piso de R$ 3.600 pra jornalista – que nem sempre recebe esse valor e ainda tem imposto descontado. Chatô comprava o Estado com o jornal. Hoje o Estado aluga o espaço — e o Google fica no meio. A diferença não é ética. É de escala e de assinatura: o rei tinha nome; a conta agora tem quatorze dígitos e nenhum juiz.
Há seis torneiras. Secom. Tesouro. Ministério. Estatal. Emenda. E a que este texto acrescenta com todos os números: o imposto que a União deixou de cobrar — desoneração da folha (INSS) e a renúncia fiscal estocada na ficha do Portal da Transparência. Sem essa quinta torneira, a conta da Globo parece “só” R$ 267 milhões de publicidade.
Com ela, a ficha da holding mostra R$ 4.335.172.405,47 de valores renunciados. Os dois números são verdadeiros. Medem coisas diferentes. O jornalista que soma os dois e chama de “caixa dois da Secom” erra. O que finge que os R$ 4,3 bilhões não existem também erra.
Duas portas laterais entram na mesma lógica da quinta torneira e não são Secom: o horário eleitoral e partidário gratuito, que explica a maior parte daqueles R$ 4,3 bilhões; e a Lei Rouanet, que também é imposto que deixou de ir ao Tesouro. Cada uma tem consulta própria. Nenhuma é salário de jornalista.
A torneira escondida: o que é renúncia e o que é desoneração do INSS
Renúncia fiscal, no Portal da Transparência, é o conjunto IRBI — incentivos, renúncias, benefícios e imunidades — que a Receita declara por CNPJ.
IRBI é o nome que o Portal da Transparência dá ao bolo de imposto que a União deixou de cobrar de pessoa jurídica.
São quatro coisas diferentes, juntas na mesma ficha:
- Incentivo — a lei autoriza abater ou reduzir (Rouanet, audiovisual, pesquisa).
- Renúncia — o Tesouro calcula o que não entrou (horário eleitoral, desoneração da folha).
- Benefício — tratamento fiscal mais brando (alíquota menor, regime especial).
- Imunidade — a Constituição já impede cobrar (livro, templo, partido). Não é favor. É vedação.
A Receita reúne isso na Portaria RFB 319/2023. No Portal, a empresa tem uma linha: “valores renunciados”. É estoque — anos somados, tipos misturados. Por isso a Globo pode aparecer com R$ 4,3 bilhões na ficha e, no mesmo período, com R$ 267 milhões de Secom. Um é IRBI. O outro é anúncio. Clicar em Detalhar a renúncia separa a lei (art. 99 da Lei 9.504, desoneração, Rouanet). Sem o clique, IRBI vira “caixa dois da Presidência”. Não é.
Nessa ficha, entra de tudo: imposto de renda da empresa, contribuição sobre o lucro, imposto de produto industrializado, PIS e Cofins da importação, programa de eventos da pandemia, fundo da Amazônia e a compensação do horário eleitoral — aquele espaço “gratuito” na TV que o governo paga abrindo mão de tributo. O número grande no alto da página é estoque: anos somados, leis misturadas. Por isso um CNPJ velho, como o da Globo, acumula bilhões, e um portal que nasceu ontem aparece com zero. Não é cheque de 2026. É o histórico do que a lei autorizou a não recolher. Sem clicar em “detalhar”, o jornalista lê o total e inventa a origem.
Desoneração da folha é outra peça. Lei 12.546/2011 (Governo Dilma). Em vez de a empresa pagar 20% de contribuição patronal sobre a folha ao INSS, paga um percentual sobre a receita bruta. Comunicação é um dos 17 setores. O Congresso prorrogou; o governo Lula tentou reonerar; o benefício cai aos poucos até 2027 (Lei 14.973). Quem paga a diferença é o resto da sociedade: a Previdência deixa de receber. Não é anúncio. Não é emenda. É folha mais barata e uma previdência que já era a anunciada como deficitária.
Haddad, em novembro de 2024, disse que a desoneração dos 17 setores custou R$ 12,26 bilhões de janeiro a outubro daquele ano e que “muito dinheiro foi dado à imprensa”. A frase do ministro é política. O número da Receita é o que interessa: a desoneração inteira, de todos os setores, não só mídia.
A ficha da Globo: R$ 4.335.172.405,47
Abriu-se o portaldatransparencia.gov.br/pessoa-juridica/27865757000102. CNPJ 27.865.757/0001-02. Nome: Globo Comunicação e Participações S/A. Fantasia: TV/Rede/Globo.com/Canais Globo/Globoplay/Eletromidia. CNAE: televisão aberta. O que a ficha mostra hoje:
- Recursos recebidos da União: R$ 20.770.703,93.
- Emendas parlamentares: 1 emenda, R$ 7.829,80 pagos.
- Renúncias fiscais: R$ 4.335.172.405,47.
Os R$ 20,8 milhões de “recursos recebidos” não são a Secom de R$ 267 milhões. A Secom paga via agência; o favorecido no Siafi muitas vezes é a agência, não a emissora. Por isso a ficha da holding parece “pequena” em recurso e gigante em renúncia. Quem olha só um campo mente pela metade.
De onde saem os R$ 4,3 bilhões? O detalhamento do benefício 1 nesse CNPJ é explícito: compensação fiscal pela cessão de horário gratuito de propaganda partidária e eleitoral — Leis 9.096/1995 (art. 50-E) e 9.504/1997 (art. 99). Tributo: IRPJ. Forma: dedução no LALUR1. Anos publicados nesse recorte:
- 2023 — R$ 336.290.280,01.
- 2022 — R$ 866.673.367,02.
- 2020 — R$ 448.716.395,42.
- 2018 — R$ 775.549.539,27.
- 2017 — R$ 557.543.758,40.
- 2016 — R$ 831.367.915,80.
- 2015 — R$ 467.659.613,30.
Some só esses anos dessa rubrica e já passa de R$ 4 bilhões. O Estadão, em agosto de 2026, calculou que o horário gratuito de rádio e TV custa cerca de R$ 996 milhões em renúncia num ciclo. A Globo, por ter a maior audiência, abocanha a maior fatia da compensação. Isso não é “o governo depositou 4 bilhões na conta da Marinho”. É o Fisco aceitando que a emissora abata no IRPJ o que a lei trata como preço do tempo que a Constituição manda ceder de graça na eleição. Pode-se discutir se o valor de face está inchado. Não se pode dizer que o Portal inventou o campo ou que há ilegalidade.
Editora Globo S/A é outro CNPJ: 04.067.191/0001-60. Recursos recebidos R$ 82.800.808,25. Renúncia R$ 3.286.853,24. Duas emendas, R$ 13.573,39. Jornal e revista não são a TV. Somar Editora + holding sem avisar é erro de editoria.
Como a lei calcula o “gratuito”
O horário se chama gratuito porque partido, federação e candidato não compram o segundo na TV e no rádio, mas o contribuinte ainda assim paga por ele. A Lei 9.504/1997, art. 36, § 2º, proíbe propaganda eleitoral paga no rádio e na televisão. Quem produz o filme é a campanha. Quem cede o tempo é a emissora. Quem cobre o tempo, no fim, é o Fisco.
O art. 99 dá à emissora o direito à compensação. A conta, no § 1º, II (Lei 12.350/2010), é esta: pega-se o preço da tabela pública de publicidade da emissora; multiplica-se 100% do tempo das inserções ou 25% do tempo dos blocos; aplica-se 0,8 sobre o resultado. Esse valor pode ser deduzido do lucro líquido na apuração do IRPJ — e também na base do lucro presumido. O § 2º-A tenta frear tabela inflada: entra a variação entre o preço efetivamente praticado no mercado local e 80% da tabela pública. A Lei 9.096/1995, art. 50-E, faz o mesmo para a propaganda partidária fora do ano eleitoral. Plebiscito e referendo entram pelo art. 99, § 1º.
Regras de 2026. Propaganda gratuita no rádio e na TV começou em 28 de agosto e vai até 1º de outubro no primeiro turno (eleição em 4 de outubro). Inserções: 70 minutos diários, segunda a domingo, entre 5h e meia-noite. Blocos: segunda a sábado, duas faixas no rádio e duas na TV. Fonte: Agência Senado, 31/08/2026; Resolução TSE 23.755/2026. Isso não passa pela Secom. Não é campanha de vacina. É obrigação legal de radiodifusão. Record, SBT e Band têm a mesma porta. A matéria que ainda falta é abrir o campo “detalhar renúncia” nos quatro CNPJs e pôr lado a lado.
Desoneração do INSS na mídia — janeiro a agosto de 2024
Fonte primária: Receita Federal, baixada pelo Poder360 em 19 de novembro de 2024. Setor de mídia, jornalismo e editoração deixou de pagar ao INSS pelo menos R$ 484,8 milhões em oito meses. As 41 empresas com desoneração de R$ 2 milhões ou mais somaram R$ 349,8 milhões. A Globo ficou com 35,74% do setor.
- Grupo Globo — R$ 173,3 milhões.
- Globo Comunicação e Participações — cerca de R$ 150 milhões.
- Editora Globo — R$ 19,3 milhões. Rádio Excelsior (CBN) — R$ 2,4 milhões.
- Rádio Globo — R$ 200 mil.
- Rádio Globo Eldorado — R$ 100 mil.
- TV Record — R$ 39,7 milhões (Dieese/Fenaj)
- Rádio e TV Record quase R$ 30 milhões no recorte estadual).
- Grupo UOL–Folha — R$ 39,3 milhões.
- SBT — R$ 19,4 milhões (TVSBT Canal 4 SP: R$ 17,5 milhões no Dieese).
- Grupo Estado (Estadão) — R$ 16 milhões.
Em 2025 o benefício já encolhia. Poder360: nos dois primeiros meses, a mídia teve R$ 145 milhões de desoneração; a Globo, R$ 33,6 milhões (23% do pedaço). Oeste reproduziu que o setor de mídia teria acumulado R$ 12,3 bilhões de desoneração de folha no estoque longo da política — atrás só de adubo e fertilizante (R$ 14,9 bilhões). Esse R$ 12,3 bilhões é série histórica de setor, não a ficha 2024 da Globo e não se mistura co. Não misturar com os R$ 4,3 bilhões de IRPJ do horário eleitoral.
A torneira medida pelo sindicato
Desoneração da folha não é anúncio. Não é emenda. Não é o imposto de renda que a emissora abate porque cedeu horário na eleição. É o INSS patronal que a União deixou de cobrar da empresa de comunicação — rádio, TV, editora — em troca, no papel, de emprego. O governo troca contribuição previdenciária por folha. A pergunta da matéria é se a folha que sobrou foi de jornalista.
Dieese informou, a pedido da Fenaj, novembro de 2024, recorte janeiro a agosto: o setor de comunicação somou R$ 462.131.652,31 de desoneração. Rio de Janeiro, R$ 174 milhões — o endereço da holding da Globo, coincidentemente. São Paulo, R$ 97 milhões. (Fonte: fenaj.org.br, 18 de dezembro de 2024, e o PDF Desoneração Comunicação 2024. ) Não é thread. É planilha.
O mesmo PDF nomeia o CNPJ:
Globo Comunicação e Participações S/A
Rio: R$ 150.042.801,12.
Editora Globo S/ARio: R$ 19.262.263,18.
Record, São Paulo: R$ 29.973.241,04.
SBT Canal 4 de São Paulo: R$ 17.581.453,97.
Estadão: R$ 12.743.354,82.
Folha da Manhã: R$ 6.926.389,95.
RBS/Zero Hora: R$ 6.750.300,08.
Record Rio, TV Omega, Correio Braziliense, TV Bahia, rádio paranaense, Sempre Editora, Empiricus: cada um na casa dos R$ 3 milhões a R$ 5 milhões. A holding da Globo, sozinha, leva quase um terço do setor. Editora Globo é outro CNPJ. Somar os dois sem avisar é o mesmo erro da ficha de renúncia.
No mesmo recorte, Caged: o mercado formal de jornalista no setor ficou negativo em 95 vagas — mais desligamento do que admissão com carteira. De janeiro de 2023 a agosto de 2024 o saldo foi menos 962 postos. Só 2023: menos 867. Desde 2013 o emprego formal da categoria encolheu mais de 20% — perto de 13 mil vagas. Em 2026 o Dieese atualizou: de 60.899 vínculos em 2013 para 50.330 em 2025, menos 10.569, cerca de 17,4%. A administração pública passou a ser o maior empregador da profissão (26% dos vínculos). O jornal de papel e a emissora enxugaram. O gabinete contratou.
Por ocupação, no período 2023–agosto/2024, o que cresceu foi assessor de imprensa (+44), designer (+34), produtor de texto (+28), repórter de rádio e TV (+66). O que sumiu: editor (–390), revisor (–114), “jornalista” genérico (–105), editor de jornal (–90). São Paulo levou 68% do saldo negativo. A desoneração não escolhe a função. A tesoura da redação escolhe.
A Fenaj usa o cruzamento para uma frase só: o benefício não gerou emprego de jornalista. Pede contrapartida — contratação e condição de trabalho — se o desconto continuar. É o único sindicato da categoria medindo o lado de cá da planilha. Cabe na matéria porque fecha o círculo que o Portal da Transparência não fecha: a ficha da holding mostra o imposto que não entrou; o Caged mostra a carteira que não foi assinada.
Três números da Globo, três bases. Os R$ 150 milhões de desoneração em oito meses de 2024 são INSS da folha da holding. Os R$ 4,335 bilhões da ficha de renúncia são estoque de anos, em grande parte compensação do horário eleitoral no imposto de renda da empresa. Os R$ 267 milhões (ou R$ 229 milhões no recorte de TV da Veja) são Secom via agência. Quem soma os três e chama de “caixa da Marinho” inventa um quarto número. Quem finge que os R$ 150 milhões não existem, ou que geraram 150 vagas de editor, também inventa.
O jornalista pessoa física não aparece nessa linha. O âncora não é favorecido da desoneração. Favorecido é o CNPJ que declara folha no CNAE de comunicação. O salário médio da categoria, Dieese/Fenaj 2025, é R$ 8.607,84 — R$ 19 mil no Distrito Federal, R$ 3.731 na mediana da Bahia. Admissão média: R$ 4.231,86. Comparar o salário do repórter com o desconto da holding não prova envelope. Prova assimetria. A empresa deixou de recolher. A redação deixou de repor editor.
Comunicação, não só jornal. Caged de jornalista, não de todos os empregados da TV. Fenaj é fonte interessada — é sindicato. Dieese é o braço que conta. Caged é o ministério. Os três batem no sinal: o alívio foi para a folha da empresa; a carteira da categoria não acompanhou. Isso não denuncia o âncora. Mede a contrapartida que a lei prometeu e a planilha não entregou.
Publicidade da Secom, janeiro de 2023 a junho de 2026
Recorte limpo: só Secretaria de Comunicação da Presidência. Total R$ 954,5 milhões. Ano: R$ 175,9 milhões (2023), R$ 234,9 milhões (2024), R$ 365,7 milhões (2025), R$ 178 milhões até 15/06/2026. Fonte: dados da Secom reproduzidos por Grande Ponto, Pleno.News e 96 FM, 28/06/2026.
- Grupo Globo — R$ 267,1 milhões (25,6%).
- Grupo Record — R$ 122,6 milhões.
- Meta / Facebook — R$ 85,9 milhões.
- Google Brasil — R$ 80,9 milhões.
- SBT / SBT News — R$ 68,7 milhões.
- Bandeirantes — R$ 49,8 milhões.
- Kwai — R$ 26,3 milhões.
- TikTok — R$ 13,6 milhões.
- RedeTV! — R$ 11,3 milhões.
- Folha / UOL — R$ 9,4 milhões.
- X (Twitter) — R$ 6,9 milhões.
- Amazon / Prime — R$ 6,1 milhões.
- CNN Brasil / Itatiaia — R$ 6,1 milhões.
- Metrópoles — R$ 4,4 milhões.
- LinkedIn — R$ 4,1 milhões.
- EBC — R$ 4,0 milhões.
- JCDecaux — R$ 3,7 milhões.
Três rankings de TV e um semestre de Secom. Quatro réguas. Quem usa uma como se fosse a outra mente — a favor ou contra a emissora.
Primeira régua: só Secom, primeiro semestre de 2026.
Não é ministério. Não é Petrobras. Não é o imposto que a União deixou de cobrar. É a Secretaria de Comunicação da Presidência comprando espaço. Globo R$ 33 milhões; Google R$ 23 milhões; Meta R$ 18,6 milhões; Record R$ 13,4 milhões; SBT R$ 5,9 milhões; Kwai R$ 4,6 milhões; UOL/Folha R$ 1,1 milhão; Metrópoles R$ 1,1 milhão. Neste semestre Google e Meta passaram a Record. O topo deixou de ser só emissora. Passou a ser emissora + plataforma. Portal e ONG não estão nessa fila.
Segunda régua: Veja, só televisão, mandato Lula até meados de 2026.
Globo R$ 228,9 milhões (+173,8% sobre Bolsonaro); Record R$ 111,8 milhões (+19,5%); SBT R$ 65,7 milhões (–19%); Band R$ 38,2 milhões (+29,1%); RedeTV R$ 9,7 milhões (–12,8%); CNN Brasil R$ 3,5 milhões (+187%); EBC R$ 3,3 milhões (+44,9%). A mesma reportagem: quase R$ 500 milhões em publicidade de TV desde 2023, 46% a mais que os quatro anos de Bolsonaro. Fontes: Veja, 3 de junho de 2026 e 13 de novembro de 2024. Aqui não entra Google.
Terceira régua: Poder360, Secom + ministérios na TV, três primeiros anos de Lula.
Globo R$ 461,5 milhões corrigidos (49,4% da fatia), o dobro do mesmo pedaço em Bolsonaro. 2023: R$ 175,5 milhões dos R$ 345,1 milhões de TV. 2024: R$ 169,8 milhões de R$ 351,9 milhões. 2025 parcial: R$ 116,3 milhões de R$ 236,9 milhões. Fonte: Poder360, 31 de dezembro de 2025. Ministério entra. Estatal grande (Petrobras, Banco do Brasil, Caixa) não entra por inteiro. Por isso o total real da União é maior do que este quadro.
Quarta régua: Sicom, TV aberta até fevereiro de 2026.
R$ 984,8 milhões no mandato. Globo R$ 517,6 milhões; Record R$ 228,9 milhões; SBT R$ 143,1 milhões; Band R$ 69,9 milhões; RedeTV R$ 16,9 milhões. Globo + Record + SBT = 90% desse recorte. A série saiu na imprensa em junho de 2026. “Globo recebeu R$ 33 milhões” é Secom, seis meses. “Globo recebeu R$ 229 milhões” é Veja, só TV, mandato. “Globo recebeu R$ 461 milhões” é Poder360, Secom + pastas, três anos. “Globo recebeu R$ 518 milhões” é Sicom, TV aberta, até fevereiro. Os quatro são verdadeiros. Medem coisas diferentes.
A Instrução Normativa 4/2024, alterada pela 7/2024, passou a exigir CNPJ, editor responsável e carimbo de publicidade para o site entrar no cadastro de veículos da Secom. Na letra, blog sem dono ficou de fora. No ranking, Globo, Record, Google e Meta continuam no topo. A regra limpou a porta. Não mudou quem recebe.
A ficha do UOL: R$ 72.393.862,25
Abriu-se o portaldatransparencia.gov.br/pessoa-juridica/01109184000195. CNPJ 01.109.184/0001-95. Nome: Universo Online S/A. Fantasia: em branco na ficha. Atividade: portais, provedores de conteúdo e outros serviços de informação na internet. Sede: Avenida Brigadeiro Faria Lima, 1.384, 6º andar, São Paulo. Aberta em 13 de março de 1996. O que a ficha mostra hoje:
- Recursos recebidos da União: R$ 537.624,17.
- Cartão de pagamento do governo: R$ 1.398,00.
- Emendas parlamentares na matriz: a página não lista o UOL como favorecido de emenda.
- Renúncias fiscais: R$ 72.393.862,25.
Os R$ 538 mil de “recursos recebidos” não são os R$ 18,23 milhões de anúncio federal que a Folha atribuiu ao UOL desde 2023, nem os R$ 9,4 milhões do grupo Folha/UOL no ranking só da Secom, de janeiro de 2023 a junho de 2026. A Secom paga via agência; o favorecido no sistema muitas vezes é a agência, não o portal. Por isso a ficha da matriz parece “pequena” em recurso e maior em renúncia. Quem olha só um campo mente pela metade.
De onde saem os R$ 72,4 milhões? É estoque — anos somados, tipos misturados. Não é a mesma rubrica da Globo. O UOL não é televisão aberta. Não cede horário gratuito de propaganda eleitoral. Não tem, neste CNPJ, a compensação das Leis 9.096 e 9.504 no imposto de renda da empresa. Portal comercial também não tem imunidade de IR: não é livro, templo nem partido. A Constituição não proíbe cobrar. O que a ficha registra é o imposto que a União deixou de cobrar por incentivo, desconto ou regime especial — o detalhe (patrocínio cultural, programa de alimentação do trabalhador, pesquisa) só sai no clique “Detalhar a renúncia”. Sem o clique, R$ 72 milhões vira “caixa da Secom”. Não é.
A desoneração da folha é outra coluna. De janeiro a agosto de 2024, o grupo UOL–Folha deixou de recolher cerca de R$ 39,3 milhões de INSS. Isso é folha, não o total de R$ 72,4 milhões da ficha — e pode estar em mais de um CNPJ do grupo. Somar os dois sem avisar é o mesmo erro de somar Editora Globo com a holding da TV.
A Folha da Manhã, o jornal de papel e as demais empresas do grupo são outros CNPJs. Participação do Grupo Folha no UOL é indireta e minoritária, como o próprio jornal escreveu. Os R$ 18 milhões de anúncio e os R$ 72 milhões de renúncia são verdadeiros. Medem coisas diferentes.
A ficha da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC): R$ 452.953.440,52 de recurso — e R$ 47.463.878,11 de renúncia
Abriu-se o portaldatransparencia.gov.br/pessoa-juridica/09168704000142. CNPJ 09.168.704/0001-42. Nome: Empresa Brasil de Comunicação S.A. – EBC. Fantasia: EBC TV Brasil. Natureza: empresa pública. Atividade: televisão aberta (rádio na secundária). Aberta em 5 de novembro de 2007. Sede: SCS Quadra 8, Edifício Venâncio 2000, Brasília. Acionista: União. Vinculada à Secretaria de Comunicação da Presidência. Código do órgão: 20415. O que a ficha mostra hoje:
- Recursos recebidos da União: R$ 452.953.440,52
- Renúncias fiscais: R$ 47.463.878,11
- Emenda parlamentar como favorecido: a página-resumo lista recurso e renúncia; a aba “por favorecido” precisa do clique. Não cravar zero sem esse clique.
Aqui o erro de leitura mais comum que os jornalistas fazem é o inverso do UOL e da Globo. Na Globo, R$ 20,8 milhões na ficha de recurso e R$ 4,3 bilhões de renúncia: a Secom de R$ 267 milhões não está nessa linha, porque paga via agência. No UOL, R$ 538 mil na ficha e R$ 72,4 milhões de renúncia: os R$ 18 milhões de anúncio também não estão nessa linha.
Na EBC, os R$ 453 milhões de “recursos recebidos” não são inserção da Secom na grade da TV Brasil. São, em grande parte, Tesouro: subvenção, pessoal, custeio da empresa que a União criou para rádio e TV públicos. A Carta Anual 2025 e o orçamento de 2026 falam de R$ 900 milhões a R$ 1,16 bilhão (com reserva). Isso é folha e operação. Não é spot de vacina.
A fatia que é anúncio da Secom, a Veja mediu à parte: EBC R$ 3,32 milhões em publicidade de TV no governo Lula até maio de 2026 — +44,9% em relação a Bolsonaro. Compare: Globo R$ 229 milhões no mesmo recorte de TV; Record R$ 112 milhões. A EBC, nesse ranking, é oitava. Sobre ls R$ 453 milhões da ficha com os R$ 3,3 milhões de Secom: um é o salário da estatal. O outro é inserção.
Tem isenção de imposto de renda?
Trata-se de empresa pública de TV aberta. Não é imunidade de livro. Os R$ 47,5 milhões de renúncia são estoque — incentivo, desconto, regime. Sem “Detalhar a renúncia”, não se separa o imposto da empresa de outra linha. A EBC pode ter a compensação do horário eleitoral: é TV e rádio abertos. Se tiver, é a mesma lógica da Globo — tempo cedido de graça na eleição, abatido no imposto — em escala menor. Não se pode misturar com os R$ 453 milhões advindos do Tesouro.
O que a EBC ainda é, e o UOL não é
A lei que criou a empresa (11.652/2008, artigo 8º, inciso VII) mandou: aviso, edital, balanço que o órgão federal é obrigado a publicar no jornal de papel passa pela EBC, salvo o que vai no Diário Oficial. A contratação é, em regra, direta — sem concorrência de agência. A EBC se apresenta como agência de propaganda, fica com 20% em cima do preço do jornal e manda o texto para o veículo que o órgão escolheu. Portal: publicidadelegal.ebc.com.br.
Isso não é pauta da Agência Brasil. É cartório. Os tetos dos contratos mostram a rede, não um cheque único: Instituto Nacional de Câncer, contrato 192/2025, R$ 1,07 milhão até 2030 (o aditivo do contrato velho já previa R$ 1,13 milhão num ano); fundo da educação, contrato 24/2025, R$ 834 mil até 2030; Ministério da Educação, estudo de 2025, R$ 644 mil estimados — 65 publicações, uma inserção na Folha a R$ 10.065,60; Conselho Nacional de Justiça, R$ 27,9 mil ao ano (66 avisos no Correio Braziliense a R$ 422,40); Senado, R$ 159,7 mil no Correio; DNIT, Polícia Federal, CNPq, universidades, institutos federais: a mesma minuta. Não some os tetos e chame de faturamento. O órgão só gasta o aviso que publicar. O desenho é o ponto: a casa que apura o ministério vende o edital do ministério para o jornal comercial.
Conflito
Não é envelope. É organograma. O presidente da estatal é nomeado pelo Executivo. A regra interna da própria EBC veta favores na programação e merchandising. O organograma não veta a Secom mandar. Em 2026, o tribunal eleitoral recusou o “vale-tudo”: matéria da Agência Brasil pode ser lida como propaganda institucional no período eleitoral. A empresa tirou texto do ar — ordem da Advocacia-Geral e da Secom — e depois recolocou pedaço.
O que a EBC compra para si
Pregão de vigilância, viagem, cabo de rede, computador, van. Isso é limpeza da casa. Não é Secom. Sem os dois lados — o que a União deposita para a estatal existir e o que os órgãos pagam para a estatal publicar o edital —, a ficha mente pela metade.
Quatro colunas, um CNPJ: Tesouro (os R$ 453 milhões da ficha), anúncio da Presidência (os R$ 3,3 milhões de TV), pedágio do edital (os contratos de publicidade legal), renúncia (os R$ 47,5 milhões, origem só no detalhe). Não se pode comparar com a UOL. Uma é portal privado que vende espaço. A outra é estatal de rádio e TV, paga para existir — e, por lei, o cartório que todo órgão federal usa quando precisa de um aviso no jornal.
A EBC não tem um “contrato de marketing” no sentido da Nacional ou da Calia. Tem três negócios de propaganda no mesmo CNPJ — e o dinheiro da União entra nas três portas.
Primeiro negócio: a Secom compra a “ideia de redação“
Contrato 05/2024. Processo 00170.004343/2023-96. União, por intermédio da Secretaria de Comunicação da Presidência × EBC. Objeto: produção, coprodução, aquisição, licenciamento, veiculação, exibição, distribuição e transmissão de conteúdo para TV, vídeo, portal, agência, rádio, internet e redes — “informar aos cidadãos as ações e políticas públicas do Poder Executivo”. Vigência de 12 meses, prorrogável até dez anos. Valor: R$ 60.000.043,32. Inclui reembolso de viagem. Lei 14.133. Não é spot de vacina na grade. É a Presidência alugando a fábrica de conteúdo da estatal que ela já paga para existir.
A Carta Anual 2025 mostra o que entrou de fato como receita própria: contrato Secom R$ 41,18 milhões em 2025 (R$ 28,38 milhões em 2024; R$ 5,68 milhões em 2023). Em dois anos o faturamento com a Secom multiplicou por sete. Contrato MEC: R$ 15,49 milhões em 2025 (R$ 19,40 milhões em 2024). Demais contratos de comunicação: R$ 6,98 milhões. Soma dos “serviços de comunicação”: R$ 63,66 milhões. Isso é a EBC vendendo reportagem, programa e transmissão ao mesmo governo que nomeia o presidente.
Segundo negócio: a EBC é agência de classificados
Lei 11.652, artigo 8º, VII. Certificada no CENP. 20% de “desconto padrão de agência” em cima do preço do jornal. O órgão federal não pode ir direto à Folha: passa pelo portal publicidadelegal.ebc.com.br. Receita realizada desse serviço: R$ 6,99 milhões em 2025; R$ 5,70 milhões em 2024; R$ 5,16 milhões em 2023.
Os tetos dos contratos são maiores que o que se gasta:
- INCA: R$ 1,07 milhão / R$ 1,13 milhão
- Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação: R$ 834 mil
- MEC estimou R$ 644 mil (inserção na Folha a R$ 10.065,60)
- CNJ R$ 27,9 mil
- Senado R$ 159,7 mil
- UFGD R$ 165 mil
- CNPq R$ 14,2 mil ao ano.
O dinheiro sai do orçamento do ministério (elemento 339139), entra na EBC, a EBC manda o texto ao jornal comercial e devolve o pagamento à Conta Única do Tesouro via GRU. A fatia de 20% fica no caminho.
União → Órgão → EBC → Folha → Tesouro.
Terceiro negócio: a EBC compra marketing com dinheiro da União
Plano de contratações: licitação de live marketing — “experiências imersivas”, “visibilidade da marca EBC” — R$ 10 milhões no item, R$ 60 milhões no global. Canal internacional: R$ 5 milhões / R$ 60 milhões. Contrato com a Organização dos Estados Ibero-Americanos para cobrir a COP-30: R$ 27,9 milhões, sem licitação, aditivo em cima de R$ 23 milhões. A estatal que apura o governo gasta o orçamento do governo para promover a marca da estatal e para contratar cobertura de evento do governo. Teto legal da própria casa: despesas com publicidade e patrocínio da empresa pública não passam de 0,5% da receita operacional bruta do ano anterior (art. 93 da Lei 13.303). Na grade, publicidade estatal não pode passar de 15% da programação. Em ano eleitoral a Secom manda no teto de empenho.
A Veja, à parte, mediu o spot da Secom na TV Brasil: R$ 3,32 milhões no mandato Lula até maio de 2026. Quarta porta pequena. Não misturar com os R$ 60 milhões do contrato 05/2024. Um é inserção. O outro é produção.
O bis in idem
Não é o termo jurídico do processo penal. É o mesmo real da União circulando quatro vezes no mesmo CNPJ, com nome diferente a cada volta.
- Tesouro + contribuição de radiodifusão pagam a empresa para existir. PLOA 2026: R$ 1,164 bilhão (R$ 913,9 milhões sem a reserva; 83% obrigatório; cerca de R$ 670 milhões em pessoal). Em 2023, Tesouro + contribuição realizados: R$ 579,5 milhões. A contribuição (CFRP) arrecadou R$ 233 milhões para a EBC naquele ano; só R$ 47 milhões viraram receita na hora — o resto espera o orçamento. A ficha do Portal: R$ 452,95 milhões de “recursos recebidos”. Isso é folha.
- A Secom, com outro empenho, paga R$ 60 milhões (R$ 41 milhões realizados em 2025) para a mesma empresa produzir o discurso do Executivo.
- Ministérios e autarquias, com terceiro empenho, pagam a mesma empresa para publicar o edital no jornal privado e deixam 20% no balcão.
- A Secom de novo compra segundos na grade que o item 1 já financiou — R$ 3,3 milhões.
Quatro empenhos. Um acionista. Um presidente nomeado. A receita própria total de 2025 foi R$ 103,8 milhões — serviços de comunicação R$ 63,7 milhões + publicidade legal R$ 7 milhões + financeiro. Ou seja: o “mercado” da EBC é, quase inteiro, o Estado comprando de si mesmo. Diretor da casa disse em público: prestar serviço à Secom “é o mais complicado, porque não sobra lucro”; a publicidade comercial está amarrada; a contribuição entra na casa dos R$ 220 milhões ao ano.
O desenho original era um terço Tesouro, um terço contribuição, um terço negócio. O que se vê é Tesouro grosso, contribuição carimbada que vira Tesouro de novo no orçamento, e “negócio” que é contrato com a Secom e com o MEC.
A crítica que cabe não é “a EBC recebeu envelope”. É arquitetura. A União paga a antena, paga a pauta, paga o classificados e ainda compra o intervalo. O contribuinte financia a reportagem da Agência Brasil sobre o ministério e, na linha de baixo, o 20% do edital do mesmo ministério. No defeso de 2026 o tribunal eleitoral recusou o salvo-conduto: texto da estatal pode ser propaganda institucional. A empresa tirou matéria do ar e recolocou pedaço. De manhã é jornalismo público. De tarde é agência CENP. De noite é canal do governo com contrato de R$ 60 milhões.
Jornal e portal
Folha, abril de 2026, anúncio federal desde 2023: Folha ao menos R$ 3 milhões; Estadão R$ 3,9 milhões; jornal O Globo ao menos R$ 9,4 milhões; Valor R$ 6,4 milhões (R$ 389 mil no governo Bolsonaro). UOL: cerca de R$ 3 milhões com Bolsonaro e R$ 18,23 milhões desde 2023. O portal do grupo Folha fatura mais Secom que o jornal de papel, o Estadão e O Globo jornal somados neste recorte.
Cinco agências ficaram com 78% do empenhado em publicidade em 2024 (Folha, 18/03/2025): Nacional R$ 225 milhões, Calia R$ 180 milhões, Nova R$ 177 milhões, Propeg R$ 111 milhões, DeBrito R$ 62 milhões — R$ 755 milhões de R$ 966 milhões. No último ano de Bolsonaro, cinco agências tinham 86%. A concentração é do mercado de agência. Mudou o destino final: mais Globo, mais big tech, mais portal alinhado.
Portais menores e estatais
Observatório da Oposição — fonte da bancada de oposição; o número vale, a etiqueta também. (Relatório 114, 15/12/2025):
- Brasil 247: R$ 251,8 mil (2023); R$ 697,5 mil (2024); R$ 917,7 mil (2025); total R$ 1,87 milhão +264%.
- Revista Fórum: R$ 83,7 mil, R$ 442,6 mil, R$ 726,3 mil; total R$ 1,25 milhão; +767%.
- DCM (Diário do Centro do Mundo): R$ 34,4 mil, R$ 369,3 mil, R$ 418,9 mil; total R$ 823 mil; +1.116%.
- Opera Mundi: R$ 4,2 mil, R$ 97,4 mil, R$ 258,5 mil.
O 247 em 2025 chegou perto, nesse recorte, do que a Folha inteira levou de Secom em um ano. Isso não prova compra de linha editorial. Sugere que a Secom passou a tratar portal militante como veículo de inserção, com crescimento de três dígitos, enquanto o jornal de papel ficou no andar de baixo.
Lei Rouanet: o que é, o que não é, e se dá para checar
A Lei 8.313/1991, o Pronac, não é cheque do Ministério da Cultura na conta da redação. É isto: a empresa ou a pessoa física que tem Imposto de Renda a pagar pode destinar parte desse imposto a um projeto cultural aprovado pelo MinC. O dinheiro que iria para o Tesouro vai para a conta vinculada do projeto no Banco do Brasil. O Fisco abate. O Tesouro deixa de arrecadar. Por isso se chama incentivo, não subvenção direta — e por isso entra na quinta torneira, não na Secom.
O fluxo, segundo o próprio MinC.
- Admissibilidade: a proposta atende à lei? Se sim, recebe autorização para captar, com valor ainda bloqueado.
- Técnica: depois de captar pelo menos 10% do autorizado, perito da área vinculada emite parecer. CNIC: a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura aprova ou discorda.
- Análise final na secretaria. Cachê tem teto na Instrução Normativa: R$ 25 mil por apresentação para artista solo; R$ 50 mil para grupo, salvo orquestra. Fonte: FAQ em gov.br/cultura.
A escala. Captação recorde em 2025: R$ 3,41 bilhões, +12,1% sobre 2024 (R$ 3,04 bilhões) e +45,1% sobre 2023. Sudeste R$ 2,45 bilhões. 22.522 propostas em 2025. Fonte: MinC via Folha, 06/01/2026. Em 2023, valores autorizados a captar — que não são valores captados — incluíram TV Cultura com R$ 133 milhões na lista dos 20 maiores tetos. Autorizar captação não é receber. Muita proposta morre na conta. Folha Ilustrada, 17/01/2024.
Dá para checar quem recebe? Dá. Não no mesmo campo da Secom no Portal. No Salic. Endereços públicos, sem login: Salic Comparar — aplicacoes.cultura.gov.br/comparar/salicnet/ — busca por nome do projeto, proponente, incentivador, número do Pronac, data, área, UF. Página do MinC “Pesquise projetos e dados”. Painel da Prosas, lançado em 07/04/2025, organiza incentivador por conglomerado; em 2024 os três que mais captaram foram Masp (R$ 46,7 milhões), Osesp (R$ 40,9 milhões) e IDG (R$ 36,9 milhões). Folha Social+, 07/04/2025.
Como um jornalista deveria fazer? Abre o Salic Comparar. Digitar o CNPJ da holding, da editora, do instituto cultural com o nome do grupo, da produtora do apresentador. Ler três colunas que a rede mistura: valor aprovado (teto), valor captado (o que de fato entrou), incentivador (quem doou o IR — Petrobras, banco, mineradora, a própria emissora). Depois abre o mesmo nome como incentivador: a empresa de mídia também pode ser quem doa, não só quem capta.
O que a consulta mostra e o que não mostra. Mostra o proponente — quase sempre pessoa jurídica cultural, não o âncora. Mostra o projeto, o Pronac, a área. Não mostra, sozinha, se o jornalista X embolsou cachê: o cachê está na planilha orçamentária do projeto, nem sempre fácil sem abrir o Pronac item a item. Não prova que a capa foi comprada. Prova que aquele CNPJ captou ou doou IR via cultura. Audiovisual da Rouanet não se confunde com o Fundo Setorial da Ancine.
Deixa-se claro aqui um limite honesto: não há neste arquivo o ranking “os 30 portais que mais captaram Rouanet”. São milhares de Pronacs; o cruzamento pede exportar o Salic e filtrar CNAE de comunicação. Dá para fazer. A base é pública. Aprovado não é captado. Proponente não é incentivador. Rouanet não é Secom. Rouanet não é horário eleitoral.
Emenda parlamentar
Emenda não é anúncio. Não é o imposto que a União deixou de cobrar. Mas é dinheiro público sim. É o deputado ou o senador pegando uma fatia do Orçamento e mandando para um CNPJ que ele escolhe — prefeitura, fundo de saúde, ONG, instituto, fundação de apoio, às vezes uma produtora. Em 2024 o Congresso destinou cerca de R$ 45 bilhões. Em 2025 a conta passou de R$ 50 bilhões. ONG virou o terceiro destino, atrás de prefeitura e fundo municipal de saúde. O Globo: de 2019 a 2025 o repasse a entidade do terceiro setor cresceu cerca de dez vezes e bateu R$ 1,7 bilhão.
O jornal quase nunca é o favorecido. Busque o nome do âncora no Portal da Transparência, consulta de emenda por favorecido. Na maioria das vezes não vem nada. Busque o CNPJ da emissora: na Globo holding, uma emenda de R$ 7.829,80. Na Editora Globo, duas, R$ 13.573,39. Isso não paga redação. O que aparece, quando o dinheiro de congressista chega perto da comunicação, é instituto com sobrenome, ONG de “cidadania e mídia”, produtora, evento, curso, festival. O estagiário da pauta não está nessa linha. O dono do instituto pode estar. Ou não.
O que a CGU mediu — e o que não mediu
Janeiro de 2025. Relatório ao ministro Flávio Dino, ADPF 854. Recorte: empenhos e pagamentos de 2 a 21 de dezembro de 2024. Nesse pedaço, 676 organizações sem fins lucrativos levaram R$ 733.627.769,62 empenhados. Empenho é reserva. Não é o dinheiro na conta. Sete entidades tinham reserva e zero pagamento de 2020 a 2024 — a CGU tirou da conta. Sobrou amostra de 26, as que mais movimentaram. Resultado: 4 (15%) publicavam direito — site acessível, valor, ano, em que gastou. 9 (35%) pela metade — um ano, uma emenda, dado velho. 13 (50%) não publicavam ou publicavam mal. Nenhuma estava no cadastro de inidônea (CEIS/CEPIM). Transparência ruim não é, isoladamente, uma condenação criminal. É o dado que o Supremo pediu. (Fonte: relatório técnico CGU, 2 de janeiro de 2025; G1, UOL/AE, O Tempo, 3 de janeiro de 2025.)
Dino suspendeu repasse a 13. Depois liberou três que regularizaram o site e mandou a CGU auditar o gasto mesmo assim. Em janeiro de 2026 proibiu emenda para ONG que tenha, na diretoria, cônjuge ou parente até terceiro grau do parlamentar que indicou — ou do assessor. Citou reportagem de aluguel pago a parente e de subcontratação em família. Esquerda, direita e Centrão aparecem no circuito. Isso não prova que o portal X “está na folha da emenda”. Prova que o terceiro setor virou cano largo e que o Supremo passou a tapar o parentesco.
O erro de leitura na redação
Três razões para não acusar o repórter… Primeira: sem o CNPJ da entidade, a acusação ao âncora é calúnia barata. Segunda: o instituto paralelo pode estar no dinheiro público sem que a pauta do estagiário tenha sido comprada. Terceira: emenda de comunicação quase nunca diz “fazer jornalismo”. Diz capacitação, cultura, evento, “popularização da ciência”, série documental.
Quem mistura as quatro somas inventa um quinto número. Quem finge que a emenda não existe no terceiro setor também inventa.
O jornalista pessoa física raramente aparece. Quem aparece é o CNPJ. Abra o Portal. Favorecido. Nome da ONG. Aí vem. Sem isso, o thread mente. Com isso, ainda é preciso dizer se o recurso foi pago — não só empenhado — e em que foi gasto. A CGU mostrou que metade da amostra grande nem isso conta no site.
Abra o Portal da Transparência, consulta de emendas por favorecido, e busque o nome de um âncora. Na maioria das vezes não vem nada. Busque o CNPJ da emissora, da editora, da produtora, do instituto com o sobrenome, da ONG de “comunicação e cidadania”. Aí vem…
Três razões. Primeira: acusar o repórter de “estar na folha da Secom” sem o CNPJ é calúnia barata. Segunda: o dono do veículo e o instituto paralelo podem estar no dinheiro público sem que a pauta do estagiário tenha sido comprada. Terceira: um portal que vive de Secom e de estatal pode manter a mesma capa que manteria sem o anúncio. O dado não substitui a leitura da cobertura. Só impede o blá-blá-blá.
O que a redação ganha e o que a emissora recebe
Três andares. Quem mistura âncora com repórter de plantão mente duas vezes.
Andar de baixo. Novo CAGED, março de 2026 (Numerando):
- Mediana do jornalista com carteira no Brasil, R$ 3.600.
- 10% abaixo de R$ 2.173.
- 10% acima de R$ 7.693.
- Média R$ 4.533.
- Piso R$ 3.618,29 para 30 horas (Sindjorce / MTE).
- EBC no Glassdoor: jornalista entre R$ 58 mil e R$ 91 mil ao ano.
Andar do meio. Campanha Fenaj 2025: acordo com a Globo de 4,3% nos salários e 4,17% nas demais verbas — 0,13% de aumento real. Abono de 13% para cobrir fevereiro a abril.
Andar de cima. Colunas de TV estimam contrato de quem aparece na tela. Não é Portal da Transparência. O Tempo, 30/08/2026: Renata Vasconcellos cerca de R$ 400 mil por mês, contrato até 2030. A mesma praça já pôs William Bonner em R$ 900 mil; o iG Lobianco, em 12/2024, falou em R$ 2,5 milhões para Bonner e R$ 1,2 milhão para Renata. A variação entre fontes denuncia que ninguém viu o holerite. Escola de Rádio, 2026: Luís Roberto na Globo, R$ 800 mil; Villani, R$ 250 mil; Cleber Machado na Record, R$ 400 mil. Nada disso é Secom. É contrato privado, pago com anúncio de detergente, de banco e — também, ainda que indiretamente — de governo.
A conta de leigo. R$ 267,1 milhões da Secom para o Grupo Globo em 42 meses dão cerca de R$ 6,4 milhões por mês de anúncio da Presidência. A mediana CAGED (R$ 3.600) cabe 1.767 vezes nesse mês. O piso paulista de 7 horas cabe 848 vezes. Um mês de Secom na Globo pagaria, em tese, o salário anual de 147 jornalistas na mediana — se o dinheiro fosse para folha, o que não é. Publicidade paga inserção. Folha paga gente.
Outra escala. A Globo Comunicação encerrou 2025 com receita líquida de R$ 18,283 bilhões e lucro líquido de R$ 1,491 bilhão (Valor, 25/03/2026). A Secom de 3,5 anos é 1,5% de um único ano de receita. A desoneração de INSS de oito meses de 2024 (R$ 173,3 milhões no grupo) é do tamanho de um mês e pouco de faturamento. Os R$ 4,3 bilhões de renúncia são estoque de anos de horário eleitoral, não fluxo de 2025. Quem diz que “a Globo só vive de governo” erra a receita. Quem diz que o governo é irrelevante erra a concentração: um quarto da Secom num grupo só. A Fenaj fecha: a desoneração da folha no setor conviveu com saldo negativo de 95 vagas de jornalista. O benefício barateou a folha. Não inchou a redação. Isso sem considerar que o próprio imposto de renda do salário do jornalista volta pro Tesouro via Receita Federal, para que o governo decida como o gastar.

O que o dono e o executico ganha — e o que ninguém publica
Não existe lista pública do salário do presidente da Globo, da Folha, do Estadão ou da Record. Empresa privada não deposita na Comissão de Valores Mobiliários o pacote nome a nome. Sem esse papel, coluna e “fonte do mercado” viram holerite. Não são. O que o leigo precisa separar são quatro andares, não dois.
Andar que tem planilha: a EBC
É estatal. A Lei das Estatais manda publicar. No site da empresa há CSV de dirigente e de empregado, mês a mês. Em 2025 o conjunto da direção e do conselho levou cerca de R$ 2,74 milhões de remuneração fixa no ano (dez pessoas) e R$ 186 mil de variável. Isso é o colegiado ou grupo, não o pró-labore de um nome só.
Outra linha, outra briga
Apresentador contratado. Poder360, março de 2026: Datena e Cissa na casa de R$ 100 mil por mês. Um jornalista de carreira na mesma casa, no Glassdoor, aparece entre R$ 58 mil e R$ 91 mil ao ano. Três números. Quem soma os três e chama de “salário da EBC” inventa o quarto.
Andar que tem acordo, não holerite: a Globo
O sindicato homologou a PLR. Empregado comum: até um salário e meio, teto de R$ 50 mil no ano. Gerente, até 25% da remuneração anual; diretor, até 40%; diretor-executivo negocia à parte. Isso diz como se reparte o bônus. Não diz quanto o presidente leva para casa. A empresa faturou R$ 18,3 bilhões e lucrou R$ 1,5 bilhão em 2025. Dá o tamanho do grupo. Não dá o CPF do acionista. Renata Vasconcellos a R$ 400 mil por mês, se a coluna estiver certa, é contrato de tela — detergente, banco e, no meio, anúncio de governo. Não é o salário do Marinho.
Andar opaco: Folha, Estadão, Record, SBT, portal
O expediente da Folha nomeia Luiz Frias, Sérgio Dávila, Judith Brito. O nome não vem com cifra. UOL é sociedade anônima; ainda assim não aparece no ranking de CEO do Ibovespa. Record e SBT entram na planilha do Dieese pela desoneração do INSS — o imposto que a União deixou de cobrar da folha — não pelo contracheque do dono.
Andar de mercado, que não é jornal
Pesquisa de caça-talentos: presidente de empresa que fatura mais de R$ 1 bilhão parte de R$ 80 mil por mês de fixo. No Ibovespa, o CEO médio chega a R$ 15 milhões por ano; banco e mineração passam de R$ 50 milhões. Jornal não está nessa tabela. A Pnad mistura “diretor geral” de padaria com holding e chega a média de R$ 20 mil. Não use isso como Folha.
A conta de leigo que não fecha: a mediana do jornalista com carteira é R$ 3.600. Um mês de Secom na Globo, uns R$ 6,4 milhões, caberia 1.700 medianas — se o anúncio fosse folha, o que não é. Publicidade paga inserção. Folha paga gente. Pacote de CEO, quando existe, paga o comando. Três caixas.
Como olhar sem inventar
Na EBC, baixe o CSV. Na privada, peça o acordo coletivo e o relatório da assembleia; não peça milagre. Não use âncora como proxy de dono. Não use desoneração como salário. Sem o documento, a frase certa é: não está publicado. O resto é thread.
O que isso responde do pedido original
O pedido inicial desse texto era uma lista. Os 30 portais, revistas, sites, ONGs e blogs que mais receberam da União no governo Lula 3 — ou só em 2026. Essa lista não existe. A União não ranqueia “portal”. Ranqueia veículo no cadastro da Secom e, à parte, TV da administração direta. Forçar um top 30 de site com a planilha do Sicom é inventar uma categoria que o governo não usa. Do 19º para baixo o valor vira fração e se mistura com painel de rua e streaming. Os 18 primeiros já bastam para ver a concentração.
2026, só Secom, até 15 de junho.
Globo R$ 33 milhões. Google R$ 23 milhões. Meta R$ 18,6 milhões. Record R$ 13,4 milhões. Neste semestre as plataformas passaram a Record. Folha/UOL e Metrópoles empatam em R$ 1,1 milhão. Não é ONG. Não é blog. Não é “a esquerda comeu o Orçamento”. É emissora e big tech no andar de cima; portal no andar de baixo.
Lula 3, só Secom, janeiro de 2023 a junho de 2026.
Os mesmos quatro. Globo R$ 267,1 milhões. Record R$ 122,6 milhões. Meta R$ 85,9 milhões. Google R$ 80,9 milhões. Folha/UOL é 10º: R$ 9,4 milhões. Metrópoles é 15º: R$ 4,4 milhões. O Brasil 247, no recorte do Observatório da Oposição — fonte da bancada, o número vale, a etiqueta também — soma R$ 1,87 milhão em três anos (R$ 251,8 mil em 2023, R$ 697,5 mil em 2024, R$ 917,7 mil em 2025; +264%). Revista Fórum R$ 1,25 milhão. DCM R$ 823 mil. Opera Mundi, no mesmo quadro, sobe de R$ 4,2 mil para R$ 258,5 mil. O 247 em três anos leva menos que o Metrópoles só de Secom e uma fatia da Globo no semestre.
Três réguas de TV, para não usar uma como se fosse a outra. Veja, só televisão, mandato até meados de 2026: Globo R$ 228,9 milhões; Record R$ 111,8 milhões; EBC R$ 3,3 milhões — quase R$ 500 milhões no conjunto, 46% a mais que Bolsonaro (Veja, 3/6/2026 e 13/11/2024). Poder360, Secom + ministérios na TV, três anos: Globo R$ 461,5 milhões corrigidos, 49,4% da fatia, o dobro do mesmo pedaço em Bolsonaro (Poder360, 31/12/2025). Sicom, TV aberta até fevereiro de 2026: R$ 984,8 milhões no mandato; Globo R$ 517,6 milhões; Record + SBT + Globo = 90%. “Globo R$ 33 milhões” é semestre. “Globo R$ 267 milhões” é Secom do mandato. “Globo R$ 461 milhões” põe ministério. Quem troca a etiqueta mente.
O buraco das estatais
A Secom já disse na Câmara: não centraliza Petrobras, Banco do Brasil, Caixa, BNDES e Correios. Contratos de publicidade — conta de agência, não ranking de site — circulam nesta ordem: Petrobras cerca de R$ 474 milhões, BB cerca de R$ 750 milhões, Caixa cerca de R$ 468 milhões. Isso não diz quanto caiu no 247. Diz que o bolo fora da Presidência é maior que o da Presidência. Poder360 estima: o Sicom pode ser só cerca de 26% da publicidade federal se a proporção histórica das estatais se mantiver. Gazeta do Povo, 13/2/2025: BB e Caixa voltaram a anunciar em 247, DCM, Opera Mundi, CartaCapital e GGN a partir de 2023, depois de anos fora desde o impeachment. Caixa R$ 361,6 milhões em publicidade de janeiro a novembro de 2024; BB R$ 595,2 milhões no ano — o bolo inteiro, não a fatia do portal. Sem Lei de Acesso nas cinco estatais, veículo a veículo, qualquer “top 30” está cego da fatia mais cara.
A Instrução Normativa 4/2024, alterada pela 7/2024, exigiu CNPJ, editor e carimbo de publicidade para o site entrar no cadastro. Blog sem dono ficou na porta.
Escreva o que o pedido pede e o que o governo entrega. Pedido: 30 portais. Entrega: quatro no topo, dois portais no meio da tabela, estatais opacas. Inventar os outros 26 com OOH e streaming é thread. Abrir LAI no BB pode dar uma bela matéria pro futuro.
Como apurar e como não usar
O caminho. CNPJ do veículo e de todas as empresas do grupo. Ficha no Portal: recursos, emendas, renúncia; clicar em Detalhar a renúncia e ler o fundamento legal. Receita / Poder360 / Dieese para o INSS do ano. CSV da Secom em gestaosecom.presidencia.gov.br. LAI nas estatais. Salic Comparar para Rouanet, três colunas (aprovado, captado, incentivador). Empenho não é pagamento. Estoque não é fluxo. Autorizado a captar não é captado.
Não some R$ 4,3 bilhões + R$ 267 milhões + R$ 173 milhões + R$ 3,41 bilhões da Rouanet do país inteiro e chame de um cheque só. Não trate Meta e Google como jornal. Não trate R$ 917 mil do 247 como o mesmo fenômeno dos R$ 267 milhões da Globo. Não some o salário estimado do âncora com o piso do sindicato e chame de “o jornalista”. Não conclua, só com a tabela, que a reportagem X foi comprada. Publicidade oficial é legal. Dependência de um anunciante único — Estado ou banco — é velha. Vale para a Globo com o Planalto e vale para o 247 com o Planalto. A assimetria é de tamanho, não de natureza.
Nota das autoras
Os dados são públicos. Qualquer redação pode refazer o cruzamento. Não reivindicamos exclusividade nem direito autoral sobre a compilação. Quem publicar, publique a fonte primária — Secom, Portal, Receita, Salic, CSV, sindicato — não só este artigo.
No caso específico do Grupo Globo, do UOL e dos jornais que, em alguma fase, condenaram e cancelaram uma de nós mesmo quando tinham as provas em maos e optaram por chamar de fakenews, pedimos o mínimo profissional: se estes números forem usados, que se diga que o levantamento chegou por este trabalho. Não pedimos linha editorial. Pedimos atribuição. O resto, cada jornalista faz o que quiser com a tabela. E com a própria consciência. Ipse venena bibas.
O Supremo não deu verba de propaganda às telefônicas. Deu alívio no imposto. Em 2026, os ministros disseram que Estado não pode cobrar um extra de ICMS sobre telefone e internet para “fundo de pobreza”: comunicação é serviço essencial, como luz e pão. A cobrança extra só cai em 2027; o que já entrou no caixa estadual ninguém devolve. Também barraram a taxa que prefeitura inventava para torre e antena: o município cuida do uso do solo; o funcionamento da rede é da União. Na folha de pagamento, a Corte derrubou a lei que alongava o desconto do INSS, mas deixou de pé o combinado entre governo e Congresso: o setor de comunicação ainda paga menos sobre o salário até 2027 e volta ao 20% em 2028. A isenção de taxas sobre chip de internet das coisas e antena de satélite pequeno até 2030 veio do Congresso, não do tribunal. Nenhuma dessas linhas é anúncio do Palácio. Quem junta o desconto da conta de celular com o milhão da Globo na Secom está misturando imposto com inserção.
A conta da imprensa no Brasil só fecha se cada cifra ficar na torneira certa. Os R$ 267 milhões da Globo na Secom, de janeiro de 2023 a junho de 2026, são inserção paga — 25,6% de R$ 954,5 milhões do Planalto, sem ministério e sem Petrobras. Os R$ 173 milhões de desoneração do INSS, de janeiro a agosto de 2024, são imposto que a holding deixou de recolher sobre a folha. Os R$ 4,3 bilhões na ficha de renúncia do Portal são estoque de benefício, em grande parte compensação do horário eleitoral, não caixa da Presidência. O UOL com R$ 18 milhões no recorte da Folha e o grupo Folha/UOL com R$ 9,4 milhões no ranking só-Secom medem coisas diferentes; somar os dois inventa um terceiro número. No topo de 2026 não está portal nem ONG: está Globo, Google, Meta e Record. Quem mistura as seis torneiras — Secom, ministério, estatal, emenda, desoneração e horário eleitoral — não está apurando. Está fazendo aritmética de rede. O dinheiro entra no CNPJ. Quase nunca no CPF do âncora.

Isabel Braga e Ana Paula Tergilene
Rio de Janeiro, 1º de setembro de 2026
Fontes
Portal da Transparência / Receita / leis
- Ficha Globo Comunicação e Participações S/A: portaldatransparencia.gov.br/pessoa-juridica/27865757000102 (CNPJ 27.865.757/0001-02)
- Detalhe da renúncia, benefício 1 (horário eleitoral/partidário): portaldatransparencia.gov.br/renuncias/beneficio/1/cnpj/27865757000102
- Editora Globo S/A: portaldatransparencia.gov.br/pessoa-juridica/04067191000160 (CNPJ 04.067.191/0001-60)
- Ficha Universo Online S/A: portaldatransparencia.gov.br/pessoa-juridica/01109184000195 (CNPJ 01.109.184/0001-95)
- Ficha EBC: portaldatransparencia.gov.br/pessoa-juridica/09168704000142 (CNPJ 09.168.704/0001-42)
- Portaria RFB 319/2023 (IRBI)
- Lei 9.504/1997, art. 36 § 2º e art. 99
- Lei 9.096/1995, art. 50-E
- Lei 12.350/2010 (fórmula 100% / 25% × 0,8; § 2º-A)
- Leis 12.546/2011 e 14.973 (desoneração; reoneração até 2027/2028)
- Lei 8.313/1991 (Rouanet)
- Lei 11.652/2008, art. 8º VII
- Lei 14.133/2021, art. 74
- Lei 13.303/2016, art. 93
- Lei 12.232/2010, art. 16
- Constituição, art. 163-A; Lei 13.019/2014, art. 69
Secom, Sicom, cadastro
- Grande Ponto, Pleno.News e 96 FM, 28/06/2026 (Secom jan/2023–15/06/2026; R$ 954,5 milhões)
- gestaosecom.presidencia.gov.br
- IN Secom 4/2024 e 7/2024: gov.br/secom
- Painel Sicom, TV aberta até fev/2026 (reproduzido na imprensa, jun/2026)
- Folha, 18/03/2025 (agências Nacional, Calia, Nova, Propeg, DeBrito)
TV e mandato
- Veja, 03/06/2026 e 13/11/2024
- Poder360, 31/12/2025
- Folha, 03/04/2026
Estatais e portais
- Gazeta do Povo, 13/02/2025 (o veículo não entra no ranking desta compilação)
- Observatório da Oposição, Relatório 114, 15/12/2025
- Ordem de grandeza de contratos de agência: Petrobras ~R$ 474 mi; BB ~R$ 750 mi; Caixa ~R$ 468 mi
- Poder360 (Sicom ~26% se a proporção histórica das estatais se mantiver)
- Secom na Câmara: não centraliza Petrobras, BB, Caixa, BNDES e Correios
INSS / desoneração
- Receita Federal, 19/11/2024; Poder360, 25/11/2024
- Dieese/Fenaj, PDF Desoneração Comunicação 2024; fenaj.org.br, 18/12/2024
- Sindjorce, 19/12/2024
- Poder360, 24/05/2025 e 13/11/2024
- Oeste (estoque longo do setor; não misturar com a ficha 2024)
Emprego e salário
- Caged / MTE; Numerando, ref. 03/2026
- Dieese/Fenaj: –95 vagas jan–ago/2024; –962 jan/2023–ago/2024; série 2013–2025 (29/06/2026); remuneração 04/06/2025
- Sindjorce / SJSP, pisos 2025–2027
- Fenaj / Mundo Sindical, campanha 2025
- Glassdoor, EBC e Record
- O Tempo, 30/08/2026; RIC, 13/06/2025; Escola de Rádio, 20/05/2026; iG Lobianco, 22/12/2024 (estimativas de âncora; não são holerite)
- Valor, 25/03/2026 (receita e lucro Globo 2025)
Emendas e OSC
- CGU, Relatório técnico ADPF 854, 02/01/2025 (SEI 00723.000561/2024-39)
- G1, 02–03/01/2025; UOL/AE, 03/01/2025; O Tempo, 03/01/2025; O Globo e Valor, 03/01/2025
- Correio Braziliense, 25/01/2025
- Folha e G1, 15/01/2026; O Globo, 17/01/2026
- Estadão, 13/01/2025
- Portaria conjunta MF/MPO/MGI/SRI-PR 1/2024, art. 40-A; STF ADPF 854, 01/08/2024
EBC
- Contrato Secom 05/2024, processo 00170.004343/2023-96 (gov.br/secom)
- Cartas Anuais 2023 e 2025: acessoainformacao.ebc.com.br
- CNJ 04/2023; INCA 072/2020 + aditivo 059/2024; FNDE 24/2025
- Estadão, 15/11/2025 (OEI / COP-30)
- publicidadelegal.ebc.com.br
- Ouvidoria Cidadã da EBC, 28/11/2025
- Casa de Oswaldo Cruz, 31/05/2023 (ACT Fiocruz–EBC; não é publicidade legal)
Rouanet e horário eleitoral
- gov.br/cultura; Salic Comparar: aplicacoes.cultura.gov.br/comparar/salicnet/
- Folha / MinC, 06/01/2026; Folha Ilustrada, 17/01/2024; Folha Social+, 07/04/2025
- Agência Senado, 31/08/2026; Resolução TSE 23.755/2026
- Estadão / Receita Federal, 27/08/2026
STF / telecom (imposto, não anúncio)
- Adicional de ICMS sobre telecom / serviço essencial (efeitos 2027)
- Taxa municipal sobre torre e antena
- Reoneração da folha até 2027
Livro
- Fernando Morais, Chatô, o Rei do Brasil
Salário de dirigente × redação)
- EBC: Remuneração de dirigentes e de empregados (CSV/PDF mês a mês): acessoainformacao.ebc.com.br/empregados-publicos/remuneracao-de-dirigentes e …/remuneracao-de-empregados ; Carta Anual 2025: acessoainformacao.ebc.com.br (fixo da direção/conselho R$ 2.739.481,72; variável R$ 186.053,26; 10 membros; reajuste 4,83% SEST)
- Poder360, 26/03/2026 (Datena e Cissa ~R$ 100 mil/mês)
- ContraFatos / coluna Lauro Jardim, fev/2026 (Datena ~R$ 1,445 milhão/ano)
- Glassdoor, EBC (jornalista ~R$ 58–91 mil/ano)
- Lei 13.303/2016 e Decreto 8.945/2016 (dever de publicar remuneração de estatal)
- Globo: Acordo coletivo / PLR 2024 homologado no MTE (Sintert): empregado até 1,5 salário, teto R$ 50 mil; gerente até 25%; diretor até 40%; diretor-executivo negociado
Valor, 25/03/2026 (receita líquida R$ 18,283 bi; lucro R$ 1,491 bi em 2025) - O Tempo, 30/08/2026 (Renata Vasconcellos ~R$ 400 mil/mês — coluna, não holerite)
- Folha / UOL Expediente: folha.uol.com.br/institucional/expediente.shtml (cargos; sem cifra)
Mercado (não é jornal) - Page Executive / Veja, 28/04/2025 (CEO de empresa > R$ 1 bi: a partir de R$ 80 mil/mês de fixo)
- Folha / CVM, reproduzido por Oeste, 02/07/2024 (CEO Ibovespa até ~R$ 68 mi/ano; média ~R$ 15 mi)
- Brazil Stock Guide / Elos Ayta / CVM, 13/03/2026 (topo 2024: Itaú ~R$ 81,7 mi)
- Folha, 28/03/2025, Pnad 4º trim/2024 (diretor/gerente geral: média R$ 20.678)
- Redação (para não misturar)
- Numerando / Caged, ref. 03/2026 (mediana do jornalista R$ 3.600; média R$ 4.533)
Secom 2023–jun/2026: Grande Ponto, Pleno.News e 96 FM, 28/06/2026 (Grupo Globo R$ 267,1 mi no recorte)
Quem republicar cite a fonte primária — Portal, Receita, Secom, CGU, Salic, Caged (Etc…) — não só este artigo.
- A empresa no lucro real não paga imposto em cima do que o contador chama de lucro. Paga em cima de um lucro ajustado. Esse ajuste mora no e-LALUR — o livro eletrônico em que a Receita vê o que entrou e o que saiu do resultado até chegar à base do IRPJ. Há dois tipos de “dedução”, e misturá-los é o mesmo erro de somar Secom com horário eleitoral. A primeira é exclusão da base. Tira um valor do lucro contábil porque a lei diz que aquele pedaço não deve ser tributado (ou já foi tributado de outro jeito). O lucro cai; o imposto cai junto. A segunda é abatimento do imposto. O lucro continua o mesmo. O que muda é a conta final: a empresa calcula o IRPJ e, em seguida, desconta um pedaço — patrocínio cultural, audiovisual, certos incentivos de pesquisa. É o dinheiro que deixou de ir para o Tesouro e foi, no papel, para um projeto. No Portal da Transparência isso aparece como renúncia. No livro da empresa, como dedução no e-LALUR. Por isso a ficha de R$ 4,3 bilhões da Globo e a linha de incentivo no e-LALUR podem ser a mesma história vista de dois lados: de um, o Estado registra o que não cobrou; do outro, a holding registra o que abateu. Não é envelope. Não é inserção da Secom. É o IRPJ que a lei autorizou a não recolher — ou a recolher menor — desde que o motivo esteja no livro. Sem o e-LALUR aberto, o jornalista vê só o total da ficha e inventa a origem. ↩︎
