
Imagine que você abre a loja do videogame e pergunta: quanto custa este jogo?
A tela responde 299 reais. Aí você lembra do passe de temporada, dos cristais, da energia que recarrega em oito horas, do pacote “começa agora com 80% off” e daquela skin que não era necessária, mas ficou bonita no personagem. No fim do ano o extrato do cartão tem um número. O jogo, na tela, continua custando 299.
Os aplicativos do governo federal funcionam um pouco assim. Não porque alguém esteja trapaceando com o preço. Porque o ícone na loja e o sistema que faz o ícone existir não são a mesma mercadoria — e o orçamento público nunca vendeu os dois no mesmo balcão.
O que a loja mostra
O cidadão baixa o Meu INSS, a Carteira de Trabalho Digital, o Gov.br. Não paga nada na loja. Em 2025 o Meu INSS teve, em média, 134 milhões de acessos por mês. A Carteira Digital, na fala institucional da Dataprev, anda na casa das dezenas de milhões de visitas mensais. São números de jogo que deu certo: muita gente entra todo dia.
Isso é o “download grátis com microtransação zero para o jogador”. O Estado já pagou a partida antes de você apertar o ícone.
O que o extrato mostra — e o que ele recusa a mostrar
Não existe, no Portal da Transparência, uma linha chamada “aplicativos”. Existe contrato de sustentação, ponto de função, nuvem, licença, parcela mensal de estatal. Cada uma dessas palavras é um tipo diferente de cristal. Alguns cristais grandes, só para ter escala. Nenhum deles é “o gasto com aplicativos”. Todos podem estar, um pouquinho, dentro de um aplicativo — do mesmo jeito que o servidor da produtora está dentro da partida no celular.
| Peça pública | Ordem de Grandeza |
| Receita Federal + Serpro (TR de nuvem / produção) | R$ 918,7 milhões |
| Saúde + Serpro | cerca de R$ 120 milhões |
| Nuvem de Governo (investimento Serpro + Dataprev) | mais de R$ 1 bilhão |
| Demanda Microsoft no catálogo MGI 2025 | R$ 367 milhões (homologado no ano: R$ 937 mi) |
| Demanda Google no mesmo catálogo | R$ 153 milhões |
| Pacote de supercomputação e IA (anúncio, ago/2026) | R$ 2,3 bilhões — ainda em formação |
| MEC + Dataprev (nuvem, até 2030) | cerca de R$ 249 milhões |
Fontes: termos de referência e contratos públicos, catálogos SGD/MGI, anúncio oficial de agosto de 2026 e PNCP. Valores arredondados; peças em momentos diferentes do ciclo orçamentário — não somar como se fossem o mesmo ano e o mesmo objeto.
Quando a busca no PNCP encontra a palavra aplicativo, o que volta costuma ser fofo e pequeno: um instituto que contrata site + portal + “módulo app”. Isso é a skin. Não é o Meu INSS.
O caso Meu INSS, montado com o que existe
A Dataprev não vende “o aplicativo Meu INSS” como produto de prateleira. Ela fatura o INSS como cliente.
| Ano | Receita Dataprev com o INSS |
| 2023 | R$ 454 milhões |
| 2024 | R$ 370 milhões |
| 2025 | R$ 527 milhões |
Em 2025 isso foi cerca de 19% do que a Dataprev faturou. Contratos 19/2020 e 34/2024: “serviços estratégicos, comuns e exclusivos de solução de TI”. Lá dentro cabem folha, CNIS, Central 135, concessão — e o aplicativo.
A própria empresa diz que, no governo, o que mais pesa ainda é sustentação: manter o que já existe vivo, não lançar a versão 2.0 na loja. Nas demonstrações, “desenvolvimento de sistemas” é miúdo perto de “processamento de dados”. Até setembro de 2025, algo como R$ 10 milhões de desenvolvimento contra quase R$ 2 bilhões de processamento. O código novo do botão que você aperta é a dancinha do personagem. O processamento é o mundo inteiro rodando enquanto você dança.
Em fevereiro de 2026 o Meu INSS e o 135 pausaram juntos: a Dataprev desligava o último mainframe. O ícone só voltou quando o chão de fábrica voltou. Isso, sozinho, já conta a história melhor do que qualquer planilha.
Se alguém pegasse os R$ 527 milhões de 2025 e dividisse pelos 134 milhões de acessos vezes doze meses, chegaria a uns R$ 0,33 por toque. É um número doce. Também é um número injusto: atribui ao aplicativo a folha, o cadastro, a 135, o CNIS. O valor “certo” do ícone é menor. Ninguém publicou a célula do rateio. Sem essa célula, R$ 0,33 é fofo e incompleto — como dizer que o jogo custa 299 quando você já comprou três passes.
A Carteira Digital mora no Ministério do Trabalho, outro cliente da mesma empresa: da ordem de R$ 120 milhões em 2025 (R$ 168 milhões em 2024). De novo: ministério, não app.
Por que mensurar resultado é tão difícil quanto saber se o jogo “valeu a pena”
No videogame o resultado também foge. Horas jogadas não dizem se você foi feliz. Downloads não dizem se o item era necessário. Gasto no cartão não diz se o passe trouxe conteúdo ou só um contorno dourado.
No governo a lista de dificuldades é parecida, só que com carimbo.
- O nome da coisa muda. SaaS é custeio. Software novo com cessão patrimonial pode ser capital. O mesmo sistema troca de prateleira no SIAFI e some do filtro “aplicativo”.
- A moeda é interna. Ponto de função, UST, hora técnica, ciclo de SaaS. Sem a tabela de câmbio daquele órgão, o número de um ministério não conversa com o do outro. É cristal: 99 unidades, e você só descobre o real na hora de converter.
- O pacote é obrigatório. O app é a casca. Login Gov.br, nuvem, loja na conta única, certificado, Design System, Central 135 — cada um numa nota diferente.
- A vigência não é o caixa. Contrato de 60 meses, empenho de um ano, apostila de ICTI, aditivo. “Quanto custou em 2025?” depende de qual fatia você corta.
- As bases se sobrepõem. ComprasNet, PNCP, Transparência. Estudos chegam a um piso de R$ 23 bilhões em TIC com produto estrangeiro no setor público entre 2014 e 2025 — e avisam, no mesmo parágrafo, que não descontaram sobreposição.
- O que a tela celebra é partida, não custo. Serviços digitalizados, milhões de downloads, meta de pessoas no app. Isso é gente jogando. Gente jogando é lindo. Não é o custo total de propriedade.
O jogo e o governo, lado a lado
| No jogo | No governo |
| Preço de capa (R$ 299) | Contrato com a palavra “aplicativo” (às vezes R$ 14 mil/ano) |
| Passe de temporada | Sustentação Dataprev ou Serpro (centenas de milhões por cliente) |
| Cristais e energia | Ponto de função, UST, ciclo SaaS |
| Servidor da produtora | Nuvem + o mainframe que virou nuvem |
| Loja da plataforma | Conta única nas stores + Gov.br |
| DLC com nome de personagem | Módulo novo dentro do contrato-mãe |
| “Já gastei quanto neste jogo?” | “Quanto custa o Meu INSS?” |
Nos dois casos a pergunta é justa. Nos dois casos a resposta honesta é: depende do que você põe dentro da palavra.
Um jogo de R$ 299 em que a pessoa entra todo dia durante cinco anos pode ter sido barato por hora. Um aplicativo com 134 milhões de toques por mês pode ser, por acesso, mais barato que um pão. Isso não transforma o contrato de R$ 527 milhões em troco. São duas contas verdadeiras que não se cancelam.
O que dá para afirmar sem inventar vilão
Dá para dizer que o Executivo federal gasta bilhões por ano em tecnologia, concentrados em estatais de sistema e em catálogos de software de prateleira.
Dá para dizer que os aplicativos que o cidadão vê são, na maior parte das vezes, a porta da frente de um prédio que já existia.
Dá para dizer que medir o app isolado é tão escorregadio quanto medir “quanto me custou aquele jogo, de verdade”. Não por falta de portal. Por excesso de peças com nomes diferentes.
Dá para dizer, com carinho e sem drama, que o Meu INSS é ao mesmo tempo um dos produtos digitais mais usados do país e um dos piores candidatos a virar uma linha só na planilha.
Não dá para dizer “o aplicativo X custou Y reais” e dormir em paz — a menos que Y venha com asterisco do tamanho do próprio Y.
O asterisco, no fim
Se o videogame publicasse o custo do servidor, do passe, da equipe e da loja num único item chamado “o jogo”, a loja ficaria ilegível. O governo faz o inverso: publica quase tudo, em cinco sistemas, com cinco nomes, e espera que a gente some.
Somar é possível. Fechar a conta num ícone, não.
O resultado mais fácil de medir é o que a tela já mostra: gente usando. O resultado mais honesto de custear ainda espera uma célula que ninguém é obrigado, hoje, a preencher — o rateio do contrato grande por produto. Até lá, o Meu INSS continua grátis na loja, caro no extrato da estatal, e inexplicável numa frase só.
Como o jogo favorito. A gente sabe que valeu a pena entrar. A gente não sabe, exatamente, quanto a partida inteira pesou no cartão.
Nota
Este texto reúne números já publicados em termos de referência, relatórios de gestão, demonstrações financeiras, catálogos da Secretaria de Governo Digital, PNCP e notas oficiais. É uma reconstrução, não um balanço. Onde o governo não separa o aplicativo do restante do contrato, o texto também não separa. Nada aqui atribui desperdício, irregularidade ou intenção a órgão, empresa ou pessoa.