Por Isabel de Fátima Alvim Braga

Em 1963, aos 21 anos, Stephen Hawking ouviu dos médicos que lhe restavam cerca de dois anos de vida. Tinha esclerose lateral amiotrófica, a ELA. O corpo ia parar. O cérebro, não. Ele morreu em 2018, aos 76 anos: 55 anos a mais do que o prazo. Nesse intervalo escreveu Uma breve história do tempo, teve filhos e passou décadas pedindo mais um pouco de universo.
Não há uma fala pública dele no dia do diagnóstico. O que existe é o prognóstico de então e o que ele disse depois, olhando para aquele momento. Em 2011, ao The Guardian: “Vivi com a perspectiva de uma morte precoce nos últimos 49 anos. Não tenho medo da morte, mas não tenho pressa de morrer. Tenho tanto que quero fazer primeiro.”
Em 2006, já famoso e quase sem movimento, afirmou o essencial: a pessoa deve ter o direito de encerrar a própria vida — “mas acho que seria um grande erro. Por pior que a vida pareça, sempre há algo que você pode fazer e em que pode ter êxito. Enquanto há vida, há esperança.”
Em setembro de 2013, na BBC, o tom mudou, não o núcleo. Defendeu o direito de quem tem doença terminal e dor intensa, e de quem ajuda essa pessoa, sem processo criminal. “Não deixamos animais sofrerem, por que humanos?” Pediu salvaguardas. Lembrou que em 1985, com pneumonia e tubo, a mulher foi consultada sobre desligar o aparelho. Ele não queria morrer naquela hora. A salvaguarda, disse, é garantir que a pessoa realmente quer o fim — e que ninguém a empurra.
Em 2015, de novo à BBC: consideraria o suicídio assistido só se estivesse em grande dor ou sentisse que não tinha mais o que contribuir e era apenas um fardo para os que o cercavam. “Manter alguém vivo contra a vontade é a indignidade máxima.”
Hawking não era um santo contra a eutanásia. Era a favor do direito, com cerca. Doença terminal. Dor intensa. Pedido verdadeiro. Sem pressão. O caso dele não prova que a lei é sempre errada. Prova outra coisa, mais incômoda para quem legisla: prognóstico não é destino. A janela em que alguém pede para morrer pode ser exatamente a janela em que a vida ainda não mostrou o que ia ser.
O pedido real: parar a dor, não apagar quem dói
A paliativista Manuela Conduru afirma que em sua prática clínica nos cuidados terminais o conforto e o controle da dor são essenciais. Segundo ela, “o pedido – na esmagadora maioria dos casos – é matar o sofrimento e não a pessoa. E a literatura afirma que um a boa parte das pessoas recua da decisão quando o sofrimento é reduzido.”.
Quase ninguém pede “apaguem-me” no vazio. Pede para a dor, o sufoco, a humilhação ou o pânico pararem. São dois objetos diferentes. Dor é um estado. Dá para tratar, sedar, acompanhar, às vezes curar. Morte é a extinção de quem sente.
A eutanásia resolve o primeiro destruindo o segundo. É eficaz da mesma forma que silenciar um alarme quebrando o relógio. O alarme some. O problema que o alarme anunciava — doença, solidão, casa sem rampa, fila de psiquiatria — continua no mundo. Só mudou de dono: agora é dos que ficam.
Se o objetivo declarado é parar a dor, o tratamento primeiro é a dor — não o doente. Cuidado paliativo, analgesia, sedação, equipe em casa, psiquiatria de crise existem para isso. Chamar as duas saídas de “cuidado” mistura hospício com homicídio médico. Parar a dor deixa um paciente. Parar o paciente deixa um atestado.

Eutanásia e suicídio: mesma direção, ritual diferente
No fundo, os dois são morte intencional. A diferença é institucional. No suicídio, a pessoa age sozinha; ajudar costuma ser crime; o atestado diz suicídio; o gesto social é impedir. No suicídio assistido, a pessoa toma o fármaco que o médico entrega. Na eutanásia — o modelo da Holanda, da Bélgica e da maior parte dos casos no Canadá — o médico injeta. Há parecer, comissão, horário, jaleco. O atestado muitas vezes não entra na conta de suicídio.
Essa separação estatística importa. Se o país tira a morte assistida da rubrica “suicídio”, o suicídio oficial pode parecer estável ou até cair enquanto as mortes escolhidas sobem. Não se está comparando a mesma coisa. Quem usa só o índice clássico de suicídio para dizer que “a lei não aumentou mortes voluntárias” está olhando o copo sem a água que foi para outro copo.
Há ainda a assimetria do jovem. Uma tentativa de suicídio no pronto-socorro gera contenção, internação, plano de crise. O mesmo desejo, com carimbo de “sofrimento irremediável”, pode gerar agenda. A incoerência não é sutil: o sistema impede o ato numa porta e organiza o ato na outra.
Quem defende a distinção diz: suicídio nasce de um distúrbio tratável; eutanásia nasceria de um juízo lúcido sobre doença sem saída. O problema é a lei. Uma vez aberta ao sofrimento subjetivo — “insuportável para mim” —, a fronteira não se segura sozinha. Depressão dita refratária, autismo com sofrimento, cansaço de viver entram pelo mesmo portão do câncer. E escala.
O que as leis prometiam e o que os números oficiais mostram
O argumento de venda quase sempre foi o mesmo: casos raros, moribundos, dor física, pessoa lúcida que pede várias vezes. O texto da lei, porém, raramente ficou preso a “doença terminal”.
Países Baixos, 2002: a lei nunca exigiu terminalidade. Exigiu sofrimento insuportável e sem perspectiva de melhora. Isso já cabia doença crônica, demência e sofrimento psíquico. De 12 a 15 anos, consentimento dos pais; de 16 a 17, pais envolvidos. Recém-nascidos: Protocolo de Groningen. Em 2024 o governo regulou a faixa de 1 a 12 anos, com critérios restritos e consentimento dos pais.
Bélgica, 2002: a mesma lógica. Em 2014 tirou o limite de idade para menores capazes de discernir, com critérios extras — sofrimento físico constante, morte a curto prazo, pais e psiquiatra infantil.
Canadá, 2016: começou com morte “razoavelmente previsível” (hoje chamada Track 1). Em 2021 o Parlamento criou a Track 2: doença grave e sofrimento intolerável mesmo quando a morte natural não está próxima. Doença mental como único motivo estava marcada para 2023, foi adiada para 2024 e depois para março de 2027. Em junho de 2026 uma comissão conjunta da Câmara e do Senado pediu exclusão indefinida dessa expansão. O governo ainda decide.
Os casos anuais
Os números abaixo vêm das comissões oficiais: Regionale Toetsingscommissies Euthanasie (RTE) nos Países Baixos; Commission fédérale de Contrôle et d’Évaluation de l’Euthanasie na Bélgica; Health Canada no relatório anual de MAID. São casos reportados, não estimativas.

Países Baixos. Em 2003, primeiro ano completo da lei, 1.815 casos. Em 2023, 9.068 (5,4% das mortes). Em 2024, 9.958 (cerca de 5,8%). Em 2025, 10.341 — 5,97% das 173.314 mortes do país, segundo carta da ministra da Saúde com base na RTE. Em 25 anos o número anual saiu da casa de 2 mil para a casa de 10 mil.
Bélgica. Em 2003, 235 casos (0,22% das mortes). Em 2023, 3.423 (3,08%). Em 2024, 3.991 (3,6%). Em 2025, 4.486 (4% das mortes). A comissão federal registrou alta de 16,6% em 2024 e de 12,4% em 2025.
Canadá. Em 2016, 1.018 prestações de MAID. Em 2022, 13.241. Em 2023, 15.343 (4,7% das mortes, no Quinto Relatório). Em 2024, 16.499 — 5,1% das mortes, alta de 6,9% sobre 2023, no Sexto Relatório do Health Canada. Desde 2016: 76.475 prestações. Foi o país com a subida mais íngreme no começo (vários anos acima de 30%). A curva agora desacelera. Não some.

Ler só o número absoluto engana: populações e total de óbitos diferem. A fatia das mortes é o dado que permite comparar. Nos três países ela sobe. No Canadá, em oito anos, chegou a um patamar que a Holanda levou mais de duas décadas para cruzar.
O que mudou dentro da caixa: as causas
Não subiu só o volume. Mudou o elenco. Os relatórios oficiais repetem o mesmo deslocamento: câncer continua em primeiro, mas perde participação; sobem várias doenças juntas (polipatologia), demência e, em menor escala, sofrimento psíquico. Sobem também os casos em que a morte natural não era esperada a curto prazo.
Países Baixos, RTE 2025. Em 85,35% dos 10.341 casos havia doença física comum — câncer, sistema nervoso, pulmão, coração. Demência: 499 casos (427 em 2024). Acúmulo de males da idade: 475. Sofrimento psíquico: 174 em 2025, contra 219 em 2024 (queda de quase 21%). Desses 174, 19 tinham menos de 30 anos (eram 30 em 2024). Nenhum menor por motivo psíquico em 2025. Um menor de 12 a 18 anos por doença física. Sete dossiês julgados sem o devido cuidado. Câncer, que no fim dos anos 1990 chegava a cerca de 90% dos casos, estava na casa dos 54% em 2024, segundo estudo encomendado ao Radboudumc e outros centros.
Bélgica, comissão federal. Em 2024: câncer 54%; polipatologia 26,8% e em alta; neurológicas graves 8,1%; psiquiatria 1,4%; distúrbios cognitivos 1,4%. Em 76,6% a morte era esperada a curto prazo; nos demais, 932 casos, a morte não era iminente (eram 713 em 2023). Em 2025: câncer 49,9%; polipatologia 29,6%; neurológicas 8,2%; psiquiatria 1,6%; cognitivos 1,7%. Casos sem morte a curto prazo: 1.117. Maioria com mais de 70 anos (73,7%); 45% com mais de 80. Menores de 40 anos: 1,4%. Canadá, Sexto Relatório, 2024. Track 1 (morte previsível): 15.767 casos, 95,6%. Track 2 (morte não previsível): 732 casos, 4,4%. Câncer segue a condição mais citada — no relatório de 2023 passava de 60%. Idade mediana em 2024: 77,9 anos. Cerca de 74% a 75% passaram por algum cuidado paliativo. Isso não prova que o paliativo foi completo: uma fração só o teve por pouco tempo. Quase metade citou sentir-se um fardo para família, amigos ou cuidadores, patamar alto já visto em anos anteriores.
| Dado oficial | Países Baixos | Bélgica | Canadá |
| Primeiro ano da lei | 2002 / 1.815 em 2003 | 2002 / 235 em 2003 | 2016 / 1.018 |
| Último ano publicado | 2025: 10.341 (5,97%) | 2025: 4.486 (4%) | 2024: 16.499 (5,1%) |
| Causa líder | Físicas comuns ~85% (2025) | Câncer 49,9% (2025) | Câncer (maioria Track 1) |
| O que mais sobe | Polipatologia, demência | Polipatologia 29,6% | Track 2 ainda minoritária |
| Psiquiátrico isolado | 174 em 2025 (219 em 2024) | ~1,6% em 2025 | Ainda não vigente (previsto 2027) |
| Menores | 1 caso 12–18 em 2025; 1º caso 1–12 no fim de 2025 | 7 desde 2014 (1 em 2024 e 1 em 2025) | Não elegível abaixo de 18 |
Crianças e adolescentes: raro, mas o princípio já está na lei
Na Bélgica, desde 2014, sete menores no total. Um em 2024 e um em 2025. Os critérios para menor são mais duros que para adulto: sofrimento físico, morte a curto prazo, capacidade de discernir, pais e psiquiatra infantil. Não é “adolescente em crise de humor” no papel. É doença grave. O número baixo não apaga o fato: o país foi o primeiro a tirar o limite de idade.
Nos Países Baixos, a RTE registrou em 2025 um adolescente de 12 a 18 anos por doença física. A faixa de 1 a 12 anos, regulada em 2024, teve o primeiro caso no fim de 2025: criança de quase 2 anos, prematura extrema, lesão cerebral grave, paralisia cerebral e deficiência visual. A comissão especial considerou que o médico agiu com o devido cuidado; o Ministério Público também analisa, como em toda morte desse tipo. Quando a regra foi feita, o governo falava em cinco a dez casos por ano. Até aqui, um.
Canadá, Espanha e a maior parte dos países novos não incluem menor de 18. Há debate sobre “menor maduro”. A lei ainda não abriu.
Casos que não cabiam no cartaz da lei
A maioria oficial continua sendo gente idosa com câncer. Isso é verdade e precisa ficar dito. O que a imprensa documentou — e o que as comissões depois confirmaram — é outra fatia: bebê, criança, adolescente, deprimido, autista, veterano a quem se ofereceu a morte quando o pedido era uma rampa. Não são a média. São o teste do limite. Abaixo, só o que tem nome em jornal, idade em relatório ou dossiê da comissão. Nada inventado.
Bebês e crianças pequenas
Antes da lei de 2002, neonatologistas holandeses já encerravam a vida de recém-nascidos com malformação extrema. Entre 1997 e 2004, 22 casos foram comunicados aos promotores; todos com formas muito graves de espinha bífida. Nenhum médico foi processado.
Uma pesquisa nacional da época falava em 15 a 20 casos por ano — ou seja, a maior parte não era reportada. Em 2004–2005 o Protocolo de Groningen descreveu quando isso poderia ocorrer: diagnóstico certo, sofrimento sem perspectiva, segundo médico, consentimento dos dois pais, procedimento segundo padrão médico. Depois do protocolo o número reportado despencou: três casos em 18 anos, segundo revisão publicada em 2025. Quem fala em “centenas de bebês por ano” hoje está repetindo um número que os dados oficiais posteriores não sustentam.
O que voltou à capa em 2026 foi a faixa seguinte. Em 2024 a Holanda regulou crianças de 1 a 12 anos. No fim de 2025 ocorreu o primeiro caso: criança de quase 2 anos, nascida com 26 semanas, lesão cerebral grave, paralisia cerebral e deficiência visual. A ministra Sophie Hermans informou o Parlamento. A comissão especial concluiu que o médico agiu com o devido cuidado. O Ministério Público analisa, como em toda morte desse tipo. Quando a regra foi feita, o governo falava em cinco a dez casos por ano. Até aqui, um.
Crianças e adolescentes com doença física — Bélgica
O relatório da comissão federal belga de 2016–2017, publicado em 2018 e repercutido por Le Soir e pela Library of Congress, registrou três menores: 9, 11 e 17 anos. As doenças, segundo a própria comissão, eram distrofia muscular de Duchenne grave; tumor maligno do olho, encéfalo e sistema nervoso central; e mucoviscidose. A comissão escreveu que sofriam de afecções incuráveis que levariam à morte a curto prazo e aprovou os três dossiês por unanimidade. Wim Distelmans, então na presidência da comissão, disse que “não há idade para o sofrimento”.
Críticos perguntaram se mucoviscidose, cuja sobrevida mediana em países ricos já passa dos 40 anos, era sempre “morte a curto prazo”. A comissão manteve o enquadramento. Desde 2014 o total oficial chegou a sete menores (um em 2024 e um em 2025). Os nomes não são públicos.
Adolescente e jovem com sofrimento psíquico — Holanda
Em 2 de outubro de 2023, na Holanda, Milou Verhoof, de 17 anos, recebeu a injeção no quarto de infância. Sofria de sofrimento psíquico grave (a imprensa citou transtorno de personalidade; um documentário holandês do ano seguinte tornou o caso o mais visto da TV). O psiquiatra Menno Oosterhoff concluiu que o sofrimento era insuportável e sem perspectiva. Os pais estavam no quarto. A RTE julgou o dossiê cuidadoso.
Milou foi a primeira menor do país eutanasiada por sofrimento psíquico. No mesmo ano houve uma segunda menor pela mesma via, segundo a RTE e a reportagem da EenVandaag. Em 2024, 30 pessoas de 15 a 29 anos morreram por eutanásia de causa psíquica — 3,1% das mortes nessa faixa, segundo dados holandeses repercutidos pelo The Atlantic. Em 2025 o total psíquico caiu de 219 para 174; os menores de 30 nessa categoria foram 19; nenhum menor.
Antes de Milou, a imprensa já tinha dois nomes de jovens adultas: Aurelia Brouwers, 29 anos, morta em 2018 após anos de depressão, ansiedade e borderline; e Zoraya ter Beek, também 29, com quadro parecido, morta em maio de 2024.
A Associated Press e um estudo em BJPsych Open descreveram, entre dossiês públicos da RTE, um homem autista na casa dos 20 anos: infeliz desde criança, alvo de bullying, “ansiava por contato social mas não conseguia se conectar”. Decidiu que viver assim por anos seria uma abominação. Oito dos 39 dossiês com autismo ou deficiência intelectual citavam só fatores ligados a isso — isolamento, falta de estratégias, rigidez de pensamento — como causa do sofrimento insuportável. Trinta citavam solidão entre as causas.
Quem pede e desiste — o número que a média esconde
Pedido não é morte. Isso também é dado oficial, e é o contrário do cartaz do “alívio inevitável”.
Estudo de coorte em JAMA Psychiatry (2025) acompanhou 397 pedidos de morte assistida por sofrimento psíquico feitos por 353 holandeses com menos de 24 anos, entre 2012 e o primeiro semestre de 2021. Resultado: 47,3% dos pedidos foram retirados pelo próprio jovem; 44,8% foram recusados; 12 pessoas (3%) morreram por eutanásia; 17 (4,3%) se suicidaram durante o processo; 2 pararam de comer e beber.
Quem morreu — por eutanásia ou por suicídio — tinha vários diagnósticos ao mesmo tempo (mediana de quatro): depressão, autismo, personalidade, transtorno alimentar, trauma. Na porta de entrada da lei, quase metade desiste. Uma fração se mata sozinha enquanto espera. Uma fração mínima atravessa o protocolo. Tratar o pedido do adolescente deprimido como vontade estável é precisamente o que essa coorte não mostra.
No Canadá o Sexto Relatório (2024) registra 692 pessoas que retiraram o pedido de MAID naquele ano (eram 574 em 2023). Outras 4.017 que pediram morreram de outra causa antes da prestação — a maior parte na Track 1. Sessenta e oito desistiram no instante anterior à injeção. Desistir existe. A pergunta é se o sistema oferece tempo e tratamento para essa desistência acontecer, ou só a agenda.
Depressão e família que só soube depois — Bélgica
Godelieva De Troyer, 64 anos, fisicamente saudável, com depressão que o médico considerou incurável, morreu por injeção em Bruxelas em 2012. O filho, Tom Mortier, professor universitário, soube quando o hospital ligou pedindo que retirasse o corpo do necrotério. Recorreu ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Em 2022 o tribunal não anulou a lei belga, mas apontou falhas de procedimento na comissão de revisão e pediu mais salvaguardas.
Tine Nys, 38 anos, morreu em 27 de abril de 2010. Médicos falaram em sofrimento psíquico desde a puberdade, borderline e autismo. As irmãs disseram à justiça e à TV que o gatilho fora o fim de um relacionamento, que ela estava sem tratamento psiquiátrico há 15 anos e que o autismo fora diagnosticado tarde, ainda sem terapia. Relataram a cena: o médico comparou a morte à de um animal de estimação, pediu ao pai que segurasse a agulha porque esquecera esparadrapo e, depois, se os pais queriam ouvir o coração parado no estetoscópio.
Em 2020 o júri de Gent inocentou os três médicos da acusação de envenenamento. A família perdeu também a ação civil. Foi o primeiro processo criminal de eutanásia na Bélgica. Wim Distelmans disse então que alguns médicos tinham deixado de fazer até casos de câncer com medo do tribunal.
Quando o pedido era rampa, casa ou veterano — Canadá
Christine Gauthier, veterana e atleta paralímpica, disse a um comitê da Câmara que pediu ajuda para construir uma rampa de cadeira de rodas e ouviu oferta de MAID — mais de uma vez. O ministro de Assuntos dos Veteranos admitiu no mesmo comitê, em 2022, que um assistente social ofereceu MAID a pelo menos quatro veteranos; um quinto caso surgiu na imprensa. Houve suspensão e encaminhamento à polícia. Depois o ministro tentou dizer que o departamento “nunca oferece MAID”. A contradição ficou no registro parlamentar e no National Post.
A Associated Press descreveu o dossiê da Sra. B, na casa dos 50 anos, com sensibilidade química múltipla, histórico de doença mental e isolamento: pediu para morrer sobretudo porque não conseguia moradia adequada. O comitê de revisão de mortes de Ontário se dividiu. Uns disseram que necessidade social não é critério legal. Outros, que “necessidade social pode ser irremediável” se as alternativas foram exploradas.
Kiano Vafaeian, 26 anos, em Toronto, cego por complicações de diabetes tipo 1, com depressão, em habitação pública. Não era terminal. A mãe, Marsilla, soube que o pedido de MAID fora aprovado e descreveu a cena como distópica. Médicos críticos usaram o caso para dizer o que o relatório anual já insinua em agregado: sofrimento social entra no formulário colado a um diagnóstico físico, porque doença mental isolada ainda não é legal.
Nada disso prova que “todo mundo que pede MAID no Canadá é pobre”. A maioria continua sendo idoso com câncer na Track 1. Prova o outro fato, menor e documentado: quando a lei solta a morte da terminalidade, a porta cabe quem pediu rampa, casa ou um motivo para não se sentir um fardo.
Se é para parar a dor, por que não se para a dor?
Cuidados paliativos existem para aliviar dor, falta de ar, delírio e medo sem ter a morte como meio. Sedação paliativa pode reduzir a consciência até a morte natural. A incoerência começa quando o sistema fala a língua do alívio e oferece primeiro a ferramenta mais barata e mais rápida do catálogo.
Os relatórios canadenses dizem que cerca de três quartos dos que recebem MAID passaram por algum paliativo. Defensores usam isso para dizer que não há substituição. O detalhe é outro. “Passou por paliativo” pode ser dias, não um acompanhamento de verdade. E a lei canadense não exige que o médico esgote alternativas: basta que o paciente considere as condições do alívio “inaceitáveis”. Na Holanda o médico tem de concordar que não há outro caminho razoável. São filosofias opostas.
Um teste simples de política: um país que legaliza a morte sem universalizar o alívio está respondendo à pergunta errada. Se o objetivo é a dor, o investimento primeiro é equipe 24 horas, opioide bem titulado, leito de hospice, casa adaptada, psiquiatra. A morte agendada não tem fila. O paliativo, às vezes, tem.
Para onde vão os corpos
Não há porão. Há burocracia, e um anexo.
Na Holanda a eutanásia é morte não natural. O médico-legista municipal entra no circuito, a comissão regional revisa o dossiê, a família segue com funeral, cremação ou sepultura. Na Bélgica o rito é parecido, com a comissão federal.
O anexo é a doação de órgãos após eutanásia, chamada ODE. É legal na Holanda, na Bélgica, no Canadá e na Espanha. Não é obrigatória. Quem diz que “só aprova MAID quem doa” inventa. O fluxo, porém, existe e cresce. Trabalho apresentado em 2025 com dados da RTE de 2012 a início de 2025 descreveu 166 procedimentos ODE na Holanda — 4,6% de todas as doações post-mortem do período, chegando a cerca de 8,2% em 2023, 9,7% em 2024 e 10% em 2025 até a data do estudo. Desses 166, 79 por sofrimento somático, 73 por sofrimento psíquico e 14 por demência em fase inicial. Dali saíram 39 corações, 114 pulmões, 110 fígados, 31 pâncreas e 304 rins transplantados.
O protocolo é este, em linhas gerais: a morte é marcada; às vezes o paciente é sedado em casa e levado ao hospital; a injeção ocorre perto do centro cirúrgico; espera-se a parada circulatória; abre-se. A ética clássica do doador morto — não se morre para doar — fica tensa quando a hora da morte é escolhida e o corpo ainda está “fresco”.
Texto pronto para colar. Linguagem de revista, sem jargão. As referências vão no fim, no mesmo formato do ensaio.
Para onde vão os corpos — e o que a doação de órgãos tem a ver com isso
Não há porão. Há funeral, cremação — e, em alguns países, centro cirúrgico.
Desde 2012 existe um fluxo com nome: doação de órgãos após eutanásia (em inglês, ODE; no Canadá, doação após MAID). A pessoa já foi aprovada para morrer. Depois pede, ou aceita, doar. A regra clássica ainda é esta, no papel: primeiro a morte, depois o corte. Não se tira órgão de quem está vivo. Espera-se a parada do coração, mais alguns minutos, e só então se abre.
Isso é legal na Holanda, na Bélgica, no Canadá, na Espanha e na Austrália. Não é obrigatório. Quem diz que “só aprova eutanásia quem doa” inventa.
Os números públicos, porém, não são pequenos.
Na Holanda, um estudo com dados da comissão regional (RTE) de 2012 ao início de 2025 encontrou 166 doações após eutanásia em 3.615 doações post-mortem — 4,6% no período. A fatia anual sobe: 8,2% em 2023, 9,7% em 2024 e 10% em 2025 até a data do paper. Destes 166 casos, 79 eram sofrimento físico, 73 sofrimento psíquico e 14 demência em fase inicial. Dali saíram 39 corações, 114 pulmões, 110 fígados, 31 pâncreas e 304 rins transplantados.
Na Espanha, a Organização Nacional de Transplantes contabilizou, de 2021 a 2025, 226 pessoas que doaram depois da eutanásia e 643 transplantes. Em 2024, de 426 eutanásias, 63 doaram — 14,8%, a maior taxa entre os países que fazem isso. No mesmo ano, segundo a mesma comparação: Canadá, 16.499 MAID e 62 doadores (0,38%); Bélgica, 3.991 e 13 doadores (0,32%); Holanda, 9.958 e 32 doadores (0,32%). A Espanha doa mais porque já era campeã mundial de doação, não porque os outros escondem corpo.
No Canadá há diretriz nacional (Canadian Blood Services / CMAJ, 2019, atualizada em 2023): a conversa sobre órgão só depois da decisão de morrer. No Quebeque, a fatia de doadores entre as mortes por MAID foi de 4,9% para 14% entre 2018 e 2022. Um estudo de fígado em seis centros canadenses (2016–2023) achou 56 transplantes com órgão após MAID e resultado parecido com a doação clássica após parada cardíaca.
A OMS já tem uma rubrica para isso: DCD tipo V — “assistência médica para morrer ou eutanásia”.
O debate ético cabe em quatro frases.
Primeira: marcar a hora da morte e, no mesmo fluxo, a hora do enxerto deixa tensa a regra do doador morto. Por isso os cinco minutos de espera.
Segunda: quase metade dos 166 casos holandeses era sofrimento psíquico. Depressão ou autismo, no papel “irremediáveis”, viram doador de vários órgãos. O anuário registra. Não julga.
Terceira: se o sistema oferece a doação a quem pede MAID — em algumas províncias canadenses aborda-se todo mundo; em outras, só se a pessoa começar o assunto —, a salvaguarda “primeiro morrer, depois doar” afina.
Quarta: em 2025–2026 médicos canadenses discutiram, em artigo, matar pela retirada do órgão em quem já está aprovado para MAID — sem a injeção clássica. Chamam de “death by donation”. Não é lei. É paper. A diretriz vigente ainda separa as duas coisas.
Não há evidência pública de tráfico, de eutanásia feita para abastecer lista de espera, nem de governo pagando por órgão. O que os números aguentam é mais seco: o corpo não some; entra em ata. A morte é barata. Se vier um rim, o sistema de transplante ganha doador. Na Holanda recente, uma em cada dez doações post-mortem já sai desse fluxo.
Parar a dor deixa um paciente. Parar o paciente, às vezes, deixa um enxerto.
Dinheiro: o que é fato e o que é lenda
Estudos canadenses publicados (CMAJ, 2017) e o Office of the Parliamentary Budget Officer (2020) estimaram economia líquida de dezenas de milhões até cerca de 149 milhões de dólares canadenses por ano com a MAID. O procedimento é barato. O que se deixa de gastar é o fim de vida caro — internação, oncológico, longa permanência. No orçamento total da saúde isso é fração de 0,1%. Não banca um ministério. Alivia linha a linha o caso individual.
Isso não prova um plano secreto do governo para matar gente e poupar. A lei canadense nasceu de decisão da Suprema Corte (Carter), não de uma planilha. Circulou nas redes um artigo de 2025 que projeta 1,27 trilhão de dólares canadenses até 2047 se a MAID fosse estendida a grupos vulneráveis. Não é plano de Ottawa. Os próprios autores escrevem que o custo ético seria inaceitável; o exercício era mostrar o tamanho da tentação. Tratar esse número como meta oficial é falso.
O que fica, sem folclore: quem paga — Estado ou plano — tem a mesma conta. Um ano de cuidado complexo custa dezenas de milhares. A morte assistida custa a visita, o fármaco e o atestado. Ninguém precisa de uma reunião às escuras para o incentivo existir. Ele está no balanço. Relatos apurados no Canadá de gente a quem se falou em MAID quando o pedido era cadeira de rodas ou home care existem. A ferramenta barata será usada mais que a cara, sobretudo quando a lei deixa o critério na subjetividade do sofrimento.
O que a escalada tem de lógico — e o que os números não resolvem
Há duas encostas, e misturá-las atrapalha.
A empírica: os casos sobem e o perfil muda. Isso está nos anuários. Parte se explica por envelhecimento, mais gente com doença crônica e mais gente que conhece a lei. Pesquisadores belgas (Wels e Hamarat, JAMA Network Open, 2025) argumentam que boa parte da alta belga é demografia, e que não veem prova clássica de “plano inclinado” contra vulneráveis. Críticos respondem: se o critério original era exceção para moribundos e hoje 1 em cada 17 a 20 mortes é assistida em alguns países, o rótulo estatístico não apaga a mudança da norma.
A lógica: se o fundamento é autonomia mais alívio de sofrimento, terminalidade, idade e tipo de doença viram recortes. “Por que o câncer vale e a depressão refratária não?” é a frase que empurra a próxima emenda. Não prova que todo país vai eutanasiar adolescente em crise. Prova que, sem um limite escrito que o Parlamento se recuse a mexer, a pressão para igualar grupos é permanente.
Psiquiatria é o teste mais duro. “Sem perspectiva de melhora” em depressão, trauma ou transtorno de personalidade é prognóstico incerto. Gente que parecia crônica melhora anos depois. O desejo de morrer é, com frequência, sintoma da própria doença. Distinguir pedido racional de suicídio é o ponto que a comissão canadense de 2026 considerou não resolvido.
Oferecer morte médica no mesmo sistema que deveria impedir o suicídio manda um recado: para alguns perfis, a morte é tratamento.
O que Hawking ainda pergunta
Se Hawking tivesse 21 anos hoje, com ELA precoce, em vários desses países ele se encaixaria no critério médico. ELA é exatamente o tipo de doença com alta taxa de morte assistida. Ele viveu 55 anos além do prazo. Ninguém pode saber, de antemão, quem será o próximo Hawking. A lei, porém, age como se soubesse — ou como se isso não importasse.
Ele aceitava o direito e recusava a pressa. Amarrou o direito à doença terminal e à dor intensa. Pediu que ninguém fosse desligado sem querer, como quase aconteceu com ele em 1985. A frase de 2006 continua sendo o melhor freio em uma frase: o direito pode existir; usá-lo cedo demais é um grande erro; enquanto há vida, há esperança.
A pergunta que sobra não é “você é a favor ou contra a morte de quem se acaba em dor sem alívio”. É esta, mais seca: se é para parar a dor, por que a morte fica mais disponível do que o alívio? Por que o atestado de suicídio e o atestado de MAID não somam na mesma conta? Por que “ser um fardo” aparece no formulário ao lado do câncer?
Parar a dor é medicina. Parar quem dói, quando ainda havia o que tentar contra a dor, é outra profissão usando o mesmo avental.
De onde vem o dinheiro — o que é público
A eutanásia tem dois caixas. Um é o do procedimento: fármaco, honorário, comissão, às vezes órgão. Outro é o da causa: associações que fazem lobby, formam médico, financiam pesquisa e empurram a próxima emenda. Os dois se falam. Nenhum dos números abaixo é “plano secreto”.
São balanço auditado, Form 990, anuário de sócio e nota do Ministério da Saúde. O que não aparece — doador pessoa física sem nome, DAF americano, legado anônimo — fica anônimo de propósito. Isso também é dado: a transparência tem teto.
O preço de uma morte
No Canadá o paciente coberto pelo plano público em geral não paga. O Ontário diz isso à letra: fármaco e ato médico entram no OHIP. O que o Estado paga é outra conta. Análise clássica no CMAJ (2017) estimou o custo direto de um caso completo entre cerca de C$ 269 (cenário barato: clínico geral e fármaco de C$ 25) e C$ 752 (especialista e fármaco de C$ 326). O Parliamentary Budget Officer, em 2020, usou C$ 1.324 só de medicamento (kit + reserva). Tabela tarifária da Colúmbia Britânica, abril de 2025: avaliação e prescrição Track 1 até C$ 453; Track 2 até C$ 906; segunda avaliação C$ 352 a C$ 503; explicação do termo de dispensa C$ 174; injeção (“preparação e procedimento”) C$ 327. Soma médica na casa de C$ 1.300. Com fármaco, o jornal The B.C. Catholic chegou a cerca de C$ 2.600 por caso Track 1.
Na Bélgica um médico que atende francês descreveu à imprensa € 50 a consulta e € 150 a injeção; uma noite de hospital cerca de € 2.500; o pacote para quem atravessa a fronteira, € 5.000 a € 6.000. A ADMD francesa estima suicídio assistido na Suíça entre € 10.000 e € 15.000, tudo incluído. A Dignitas publica a tabela: preparação CHF 4.000, dois encontros médicos CHF 1.000, acompanhamento CHF 2.500; total CHF 7.500 sem funeral ou CHF 11.000 com funeral e papelada. Entrada CHF 220 e anuidade mínima CHF 80. A EXIT suíça cobra CHF 45 por ano; depois de três anos de sócio, o acompanhamento é sem taxa extra (o custo interno, segundo o diretor, passa de CHF 7.000). Na Holanda, o Expertisecentrum Euthanasie diz que o paciente não paga: o seguro cobre. Isso importa: onde o ato é “cuidado” do sistema, o preço some do bolso de quem morre e aparece no orçamento de quem fica.
A economia do sistema é o outro lado da mesma planilha. CMAJ 2017 e PBO 2020 projetaram dezenas de milhões até cerca de C$ 149 milhões por ano de economia líquida com a MAID — o que se deixa de gastar em fim de vida caro. Não é tesouro escondido. É aritmética de leito. O artigo que fala em C$ 1,27 trilhão até 2047 é cenário hipotético, não meta de Ottawa.


Não há um caixa mundial único. Há uma federação — a World Federation of Right to Die Societies — com cerca de 60 a 64 associações em mais de 30 países. A federação vive de sócio (US$ 25 o apoiador individual) e de doação pontual; o site fala em cerca de US$ 125 mil arrecadados em campanhas. O músculo está nas filiais nacionais.
Holanda. A NVVE, fundada em 1973, tem mais de 177 mil sócios (2025), cerca de 39 funcionários e 129 a 144 voluntários. Ela escreve, em mais de uma língua, que não recebe subsídio do Estado: a fonte é a contribuição (hoje € 30 ao ano) mais doações e legados. Conta de envelope: 177 mil × € 30 ≈ € 5,3 milhões só de anuidade — sem contar legado.
O NVVE Fonds banca pesquisa (eutanásia na psiquiatria, “auto-eutanásia”, cadeira universitária sobre qualidade do morrer). O Expertisecentrum Euthanasie — a antiga clínica do fim da vida — fez 1.477 eutanásias em 2025 (de 5.000 pedidos; cerca de 30%). O paciente não paga. A fundação amiga Vrienden van Expertisecentrum Euthanasie declarou ao CBF € 664.768 de receita e € 714.043 de despesa em 2024, com reserva de € 2,19 milhões. Em 2020 o Parlamento holandês discutiu € 750 mil pontuais para formação do centro em pedidos psíquicos.
Canadá. Dying with Dignity Canada é a peça visível. Demonstrações auditadas de 31 de dezembro de 2025: receita C$ 3.889.925 (doações C$ 2.976.918; legados C$ 148.467; rendimento de investimento C$ 646.153); despesa C$ 3.839.018, da qual C$ 1.670.314 em salários e C$ 1.013.241 em publicidade. Patrimônio C$ 8,84 milhões. 12.531 doadores; doação média C$ 262. Charity Intelligence: financiamento governamental C$ 0 em 2023 e 2024 (houve ajuda covid em 2020–21).
O ponto de virada foi o legado de C$ 7 milhões do empresário David Jackson, em 2018 — The Walrus chamou de “transformacional”. Relatório de 2019 ainda listava, entre apoiadores institucionais citados pela revista, marcas como TD, Rogers, Google Ads, Telus, Sun Life, RBC e Pfizer (Pfizer fabrica fármacos que entram em alguns protocolos). Fundação Slaight e Cloverleaf pagaram material de planejamento. Isso não prova que um banco “manda matar”. Prova que a causa tem caixa de campanha, reserva de quatro anos de programa e um departamento de anúncio maior do que muita ONG de paliativo.
O governo federal, à parte, pagou a quem treina o médico. Health Canada anunciou C$ 3,3 milhões à Canadian Association of MAID Assessors and Providers (CAMAP) para o currículo nacional de MAID (2021–25). No Parlamento, em dezembro de 2023, o número citado foi C$ 4,97 milhões em cinco anos. Orçamento 2021: C$ 13,2 milhões em cinco anos, C$ 2,6 milhões ao ano contínuos, para “implementar a MAID com salvaguardas”. Universidade de Alberta: C$ 560 mil para revisar como a MAID é feita. O Estado não só legaliza: paga a apostila.
Estados Unidos. Compassion & Choices é o maior cheque do campo. Ano fiscal encerrado em 30 de junho de 2025: receita combinada cerca de US$ 23,3 a 27,6 milhões conforme a linha que se some (contribuições US$ 22,4–23,6 milhões); despesa US$ 26,6 milhões; ativos US$ 34 milhões. Do gasto: educação pública US$ 8,4 milhões; advocacy US$ 4,0 milhões; política e litígio US$ 3,7 milhões; lobbying direto US$ 1,57 milhão.
Doadores de um milhão ou mais no relatório: anônimo, Donald A. Pels Charitable Trust, Mimi Greenberg, Betty Rollin. Abaixo: Vanguard Charitable, Fidelity, Schwab, San Francisco Foundation, DonorsTrust. OpenSecrets registra dezenas de milhares em lobbying federal — fração do que a organização gasta em estado e tribunal. Fonte: contribuição privada e fundo assessorado. Não é verba de Washington para a ONG; é máquina de lei estadual.
França / Bélgica. A ADMD França tem cerca de 80 mil sócios e um fundo de dotação. Contas de 2023 do fundo: produtos € 388.668, subvenção de € 600.000 à associação, balanço € 6,18 milhões. La Croix, em 2025, falou em fundo de € 6,7 milhões.
A associação reportou produtos totais na casa de € 2,42 milhões em 2023, quase € 2 milhões de sócios. L’Incorrect e Valeurs Actuelles, em 2026, escreveram que quase um milhão de euros ao ano iria a lobbying e que o fundo devolve mais de 96% do que gasta à ADMD, com recibo fiscal. Isso é denúncia jornalística e um senador apresentou notícia-crime — não é sentença. O que é fato de ata: o fundo existe, é grande, e a associação vive de sócio + fundo, não de orçamento do Estado francês como linha direta. Na Bélgica a ADMD é a voz da lei; 123 estrangeiros (110 franceses) foram eutanasiados lá em 2025.
O que o financiamento mostra — e o que não mostra
Três padrões se repetem nos papéis públicos. Primeiro: a causa não é pobre. Compassion & Choices move mais de vinte milhões de dólares por ano; a NVVE tem 177 mil sócios; a DWDC tem quase nove milhões em reserva; a ADMD tem fundo de seis milhões. Segundo: a fonte típica é sócio, legado e fundo assessorado — gente que já escolheu o lado —, não um ministério secreto. Terceiro: o Estado entra de outro jeito. Paga o ato (OHIP, seguro holandês), paga o treino (CAMAP), poupa o leito (PBO). A ONG faz a lei ficar palatável. O orçamento faz a lei ficar barata.
Quem procura “o macabro por trás” e espera um único vilão sai frustrado e, pior, desinformado. Pfizer numa lista de 2019 não é prova de que o protocolo existe para vender midazolam. Um banco num recibo de anúncio do Google Ads não é prova de eugenia corporativa. O que os números aguentam é mais seco e suficiente: parar a dor custa equipe e tempo; parar a pessoa custa um kit e uma agenda. Enquanto o paliativo disputa fila, a associação do direito de morrer acumula reserva, anúncio e currículo oficial.
Isabel Braga
Referências
Só fontes primárias ou trabalhos que citam as comissões. Números de 2024–2025 seguem os comunicados e anuários oficiais disponíveis em 2026. Pequenas diferenças de 1 a 20 casos entre um relatório e a revisão do ano seguinte são normais: as comissões corrigem dossiês tardios.
Países Baixos — RTE (Regionale Toetsingscommissies Euthanasie). Jaarverslag 2025 e Kerncijfers 2025: 10.341 notificações; 5,97% das mortes; 174 casos psíquicos; 19 com menos de 30 anos; nenhum menor por motivo psíquico; 499 demência; 475 males da idade. Carta da ministra Sophie Hermans ao Parlamento sobre o anuário de 2025. Anuários anteriores: 9.958 (2024), 9.068 (2023), 8.720 (2022). Série 2003–2025 compilada a partir dos anuários RTE / Staat van Volksgezondheid en Zorg.
Bélgica — Commission fédérale de Contrôle et d’Évaluation de l’Euthanasie. Comunicados de 2024 (3.991 casos; 3,6% das mortes; 1 menor; total de 6 menores desde 2014) e 2025 (4.486 casos; 4% das mortes; 1 menor; total de 7). Causas 2024–2025: câncer, polipatologia, neurológicas, psiquiatria, cognitivos; casos sem morte a curto prazo 932 (2024) e 1.117 (2025). Série 2003–2023 em Wels J, Hamarat N. Incidence and Prevalence of Reported Euthanasia Cases in Belgium, 2002 to 2023. JAMA Netw Open. 2025.
Canadá — Health Canada. Fourth Annual Report on Medical Assistance in Dying (2016–2022: 1.018; 2.838; 4.493; 5.665; 7.611; 10.092; 13.241). Fifth Annual Report, 2023: 15.343 prestações; 4,7% das mortes. Sixth Annual Report, 2024: 16.499 prestações; 5,1% das mortes; Track 1 15.767 (95,6%); Track 2 732 (4,4%); total acumulado 76.475. Idade mediana 77,9. Paliativo em cerca de 74–75% dos casos.
Menores, Holanda 1–12 anos — Carta da ministra Sophie Hermans ao Tweede Kamer, junho de 2026, sobre o primeiro caso na faixa 1–12 (fim de 2025). Reportagens com base nessa carta: NOS / NL Times, 23 jun. 2026; comissão especial concluiu devido cuidado no caso da criança de quase 2 anos (NL Times, 9 set. 2026).
Hawking — The Guardian, 17 set. 2013 (“Professor Stephen Hawking backs right to die…”); BBC News, 17 set. 2013 (“Stephen Hawking speaks out about assisted suicide”); The Guardian, 3 jun. 2015 (“Stephen Hawking: ‘I would consider assisted suicide’”); The Guardian, maio 2011 (entrevista: perspectiva de morte precoce por 49 anos); New York Times, 14 mar. 2018 (“Stephen Hawking, in His Own Words”), que recolhe a declaração de 2006 sobre direito, erro e esperança.
Doação após eutanásia — Bollen et al. e manuais holandeses de ODE; resumo 2012–início de 2025 em Transplantation (abstract 306.3, 2025): 166 ODE na Holanda; fração crescente das doações post-mortem; 73 casos psíquicos entre os 166.
Custos — Trachtenberg AJ, Manns BJ. Cost analysis of medical assistance in dying in Canada. CMAJ. 2017. Office of the Parliamentary Budget Officer. Cost Estimate for Bill C-7, 2020 (~C$ 149 milhões de economia líquida projetada). O artigo de 2025 no Journal of Death and Dying (Jamil e Pearce) que cita C$ 1,273 trilhão é cenário hipotético, não plano governamental; AFP Fact Check e Health Canada trataram a leitura viral como falsa.
Comissão canadense, 2026 — Relatório do comitê conjunto Câmara–Senado, 17 jun. 2026: recomendar exclusão indefinida de pessoas cuja única condição é doença mental. Cobertura: CBC, Globe and Mail, BBC.
Paliativo e critério legal — Health Canada, relatórios anuais (acesso a paliativo). Comparação Canadá vs. Holanda sobre esgotar alternativas: Canadian Medical Association Journal / análises de Bill C-14 (o paciente canadense decide se as condições do alívio lhe são aceitáveis; o médico holandês precisa concordar que não há alternativa razoável).
Casos de imprensa e dossiês — Bélgica, menores 9, 11 e 17 (2016–2017): relatório CFCEE 2018; Le Soir, 17 jul. 2018; Library of Congress Global Legal Monitor, 29 out. 2018. Tine Nys (2010): BBC, 31 jan. 2020 (júri de Gent inocenta três médicos). Godelieva De Troyer (2012) e Tom Mortier: The Times, 4 out. 2022; acórdão TEDH Mortier v. Belgium.
Casos de imprensa — Holanda: Milou Verhoof, 17 anos, 2 out. 2023: EenVandaag; The Atlantic, mar. 2026; The Telegraph, 8 jun. 2024. Aurelia Brouwers (2018) e Zoraya ter Beek (2024): The Telegraph, 8 jun. 2024. Autismo/deficiência intelectual em dossiês RTE: AP, 28 jun. 2023; BJPsych Open, 2023. Pedidos de jovens com menos de 24 anos: JAMA Psychiatry, 2025 (397 pedidos; 47% retirados; 12 MAID; 17 suicídios no processo). Protocolo de Groningen: Verhagen e Sauer, N Engl J Med, 2005 (22 casos reportados); revisão 2025 (3 casos em 18 anos após o protocolo).
Casos de imprensa — Canadá: Christine Gauthier e veteranos (VAC): depoimento em comitê da Câmara, 2022; National Post, 19 dez. 2022. Sra. B e necessidade social: Associated Press, 16–17 out. 2024. Kiano Vafaeian: The Free Press, 22 fev. 2026. Pedidos retirados: Health Canada, Sixth Annual Report, 2024 (692 desistências; 4.017 mortes por outra causa antes da prestação).
Causas e tendência holandesa de longo prazo — pesquisa Radboudumc / UMC Utrecht / Amsterdam UMC para o Ministério da Saúde, reportada pela NOS (2026): de ~1,6% das mortes em 1999 para 5,8% em 2024; câncer de ~90% para ~54% dos casos.
Financiamento — Dying with Dignity Canada: Financial Statements 31 dec. 2025 (receita C$ 3.889.925; patrimônio C$ 8,84 mi); Annual Report 2025; Charity Intelligence Canada (ficha DWDC). Legado David Jackson e lista de apoiadores institucionais: The Walrus, jan. 2024. CAMAP / Health Canada: comunicado 7 jul. 2022 (C$ 3,3 mi); debates 6 dez. 2023 (C$ 4,97 mi em 5 anos; orçamento 2021 C$ 13,2 mi / C$ 2,6 mi ao ano).
Financiamento — NVVE: site oficial (177 mil sócios, sem subsídio estatal, € 30/ano); Jaarverslag 2024; Wikipedia NL (consultada 2026). Vrienden van Expertisecentrum Euthanasie: CBF, receita € 664.768 (2024). Expertisecentrum: jaaroverzicht 2025 (1.477 casos; 5.000 pedidos). Amendement Ellemeet/Renkema, 2020 (€ 750 mil).
Financiamento — Compassion & Choices: Combined financials year ended 30 jun. 2025 (compassionandchoices.org/article/financial-data); Cause IQ / Form 990; lista de doadores do Annual Report. OpenSecrets, ciclo 2024. ADMD França: contas do Fonds de dotation 2023 (PDF ADMD_158); La Croix, 20 out. 2025 (€ 6,7 mi); L’Incorrect e Valeurs Actuelles, 24 jun. 2026 (denúncia de lobbying — não é sentença). WFRtDS: wfrtds.org (60–64 membros; apoiador US$ 25).
Custo do ato — Trachtenberg e Manns, CMAJ 2017; PBO, Cost Estimate Bill C-7, 2020; tabela tarifária Medical Services Commission, Colúmbia Britânica, 30 abr. 2025, reportada por Canadian Catholic News / The B.C. Catholic, 2025; Ontario.ca (fármaco coberto pelo OHIP). Dignitas: dignitas.ch, “Information on the costs” (CHF 7.500 / 11.000). EXIT: portal.exit.ch (CHF 45/ano). Médico belga Yves de Locht: Worldcrunch / relatos ADMD (€ 150 a injeção; pacote fronteira € 5–6 mil).
Organ donation after euthanasia (ODE) — Holanda: abstract 306.3, Transplantation, 2025 (RTE, 2012–início de 2025: 166 ODE; 4,6% das doações post-mortem; 8,2% em 2023, 9,7% em 2024, 10% em 2025; 73 casos psíquicos; 39 corações, 114 pulmões, 110 fígados, 31 pâncreas, 304 rins). Pulmão ODE: PubMed 41997299, 2026 (154 doadores ODE de pulmão, 2012–2024; 104 transplantados; sobrevida 1 ano 84%).
Espanha — Organização Nacional de Trasplantes, números 2021–2025 repercutidos por El Correo, 8 fev. 2026 (226 doadores após eutanásia; 643 transplantes; 14,8% em 2024). Comparação 2024 no mesmo texto: Canadá 62/16.499 (0,38%); Bélgica 13/3.991 (0,32%); Holanda 32/9.958 (0,32%).
Canadá — Downar et al., CMAJ 2019; atualização CMAJ 2023 (Canadian Blood Services). Québec 4,9%→14% (2018–2022): editorial BMJ 2025;388:r318. Fígado após MAID: Journal of Hepatology / MedicalXpress, out. 2025 (56 transplantes DCD tipo 5). “Death by donation”: Winberg et al., repercutido no National Post, 2025–2026 (proposta acadêmica, não lei).
Classificação internacional — WHO / Global Observatory on Donation and Transplantation, relatório 2024: DCD tipo V = “medical assistance in dying or euthanasia”.
Países com ODE legal em 2025, segundo a revisão: Holanda, Bélgica, Canadá, Espanha, Austrália.