Isabel de Fátima Alvim Braga

O mesmo comprimido que tira a dor de cabeça também, em laboratório, deixa alegria, medo, empatia e risco um pouco mais opacos. Isso não é especulação de internet: saiu de ensaios placebo-controlados em universidades como Ohio State e University of British Columbia (UBC). A pergunta que esses laboratórios não fizeram — e que a obstetrícia quase não cruza — é se o mecanismo que embota o adulto poderia, em teoria, tocar circuitos que o feto ainda está construindo.
O que os estudos de embotamento de fato mediram
Não é “o paracetamol mata a alma”. É um efeito agudo, pequeno a moderado, após 1 grama em jovens saudáveis.
Na Ohio State, Durso, Luttrell e Way (2015) deram paracetamol ou placebo e mostraram fotos do banco IAPS — de imagens agradáveis a imagens muito desagradáveis. Quem tomou o fármaco avaliou o negativo como menos negativo e o positivo como menos positivo. Também relatou menos arousal emocional. Uma tarefa de controle (quanto de azul havia na foto) não mudou: o fármaco não deixou as pessoas “mais imprecisas para julgar tudo”; mudou a avaliação afetiva.
O mesmo grupo e colaboradores mostraram outros recortes do mesmo fenômeno:
DeWall e colegas (2010): menos “dor social” (sentimentos feridos no dia a dia) após uso repetido.
Mischkowski, Crocker e Way (2016): menos empatia pela dor física e social de outra pessoa; o próprio desconforto com estalos sonoros também caiu, e isso mediou a queda de empatia.
Mischkowski e colegas (2019): menos prazer pessoal e menos empatia positiva ao ler que outra pessoa estava bem.
Keaveney, Peters e Way (2020), três experimentos, 545 pessoas: mais risco na tarefa do balão e menor percepção de risco em atividades carregadas de medo.
Randles e colegas (2016), UBC: no EEG, a onda Pe (consciência de ter errado) diminuiu; a detecção automática precoce (ERN) não.
Uma replicação eletrofisiológica maior (Clayson e colegas, 2021) não reproduziu alteração confiável nos potenciais evocados de emoção e feedback. O efeito existe em vários desenhos comportamentais; no cérebro medido por EEG, é frágil.
Nada disso foi medido em gestantes. Nada disso é um diagnóstico de autismo.
Como o “volume” baixa — o mecanismo em linguagem comum
Pense no cérebro como uma mesa de som. Dor física, rejeição, medo e empatia não usam canais totalmente separados. A ínsula anterior e o córtex cingulado anterior (ACC) entram no mix de “isso dói / isso importa”. O paracetamol não apaga o fato; ele abaixa o termostato emocional.

Figura 2. Caminho simplificado: paracetamol → formação de AM404 no sistema nervoso → mais anandamida na sinapse → menor alarme nas áreas da dor e da avaliação afetiva. Esquema didático; o metabolismo real inclui outras vias (serotonina, COX, TRPV1).
O caminho químico, sem invenção:
1. Parte do paracetamol vira p-aminofenol no fígado.
2. No sistema nervoso, a enzima FAAH junta esse metabólito ao ácido araquidônico e forma AM404.
3. O AM404 impede a recaptação da anandamida, um endocanabinoide. Sobra mais sinal canabinoide na sinapse. O AM404 também toca TRPV1 e, de forma fraca, receptores CB1/CB2, e pode inibir COX-2 na microglia.
4. A analgesia central do paracetamol ainda usa vias serotonérgicas descendentes.
Resultado no adulto: menos alarme afetivo nas mesmas regiões que acendem na dor física. Por isso o comprimido pode, ao mesmo tempo, aliviar a cefaleia e deixar o risco e a empatia um pouco mais opacos. O tamanho do efeito nos artigos de psicologia é típico de laboratório (diferenças modestas em escalas), não uma anestesia emocional.
A hipótese que os laboratórios de empatia não testaram
O cérebro do concepto não é uma versão em miniatura do adulto. No segundo e terceiro trimestres — e no período perinatal — o sistema endocanabinoide (ECS) ajuda a regular proliferação, migração de neurônios, formação de sinapses e a calibração de circuitos que depois sustentam sociabilidade e afetividade. O paracetamol atravessa a placenta.
É legítimo dizer: o mesmo fármaco que no adulto deixa a avaliação afetiva mais opaca atua, via AM404, num sistema (ECS) que no feto constrói os circuitos da sociabilidade. Isso dá plausibilidade biológica para estudar janelas, dose e sexo.
O que existe nesse elo:
Formação de AM404 no sistema nervoso após paracetamol (trabalhos clássicos de Högestätt e detecção em liquor humano).
O ECS é necessário para o desenvolvimento cerebral — isso é neurociência do desenvolvimento, independente do paracetamol.
Em ratos, exposição gestacional ao paracetamol alterou comportamentos do tipo neurodesenvolvimento e a resposta a um agonista canabinoide.
O que não existe:
- Ensaio em humanos medindo ACC/ínsula ou empatia no filho após uso pontual da mãe.
- Prova de que o embotamento agudo do adulto se “imprime” no feto.
- Consistência de direção: alguns modelos de transtorno do espectro autista descrevem tom endocanabinoide baixo, enquanto o AM404 no adulto aumenta anandamida no curto prazo. Compensação crônica é hipótese, não dado. E o feedback positivo ou negativo entra aí.
O hiato não é conspiração
O hiato real não é “cientistas esconderam o risco”. É que psicofarmacologia afetiva e epidemiologia perinatal quase não se cruzam, e o elo mecanístico (ECS fetal) ainda está em rato e em teoria.
Os artigos de Ohio State e UBC estudam decisão e emoção em adultos. Não medem placenta, trimestre nem autismo. Quem olhou gestação usou outro método: registros de milhões de nascimentos e, o mais importante, comparação de irmãos (mesma mãe, um filho exposto e outro não). Nesses desenhos, a associação com autismo, TDAH e deficiência intelectual some ou fica nula — como na coorte sueca de Ahlqvist e colegas (JAMA, 2024) e na revisão de 43 estudos de Khalil e colegas (The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health, janeiro de 2026; nos irmãos, razão de chances de autismo 0,98).
Uma revisão de 2025 com metodologia Navigation Guide concluiu associação e pediu cautela no uso. Foi a linha citada em alertas nos Estados Unidos. Críticas recorrentes: inclui estudos observacionais sem controle familiar adequado. O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), a Society for Maternal-Fetal Medicine (SMFM), a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), o UK Teratology Information Service (UKTIS) e a Anvisa mantiveram o paracetamol como primeira linha quando há dor ou febre.
Dois vieses explicam muita “associação” antiga: a febre e a infecção que motivam o comprimido já são riscos para o neurodesenvolvimento; e autismo corre em famílias. Controlar os irmãos corta os dois.
O que isso autoriza — e o que não autoriza
Autoriza: pesquisar janela crítica, dose acumulada, sexo do feto e marcadores de ECS. Autoriza o raciocínio mecanístico acima, rotulado como hipótese.
Não autoriza: transformar o ensaio de fotos da Ohio State em alerta de que o concepto nascerá “embotado” e desesperar mães. Não autoriza deixar febre alta sem tratamento por medo de um efeito adulto de laboratório. Mas também levanta a suspeita de quem usa paracetamol de maneira reiterada para qualquer sintoma festacional.
Na dúvida? Primum non nocere.
Por Isabel Braga
Referências
Embotamento afetivo e decisão em adultos
1. Durso GRO, Luttrell A, Way BM. Over-the-counter relief from pains and pleasures alike: acetaminophen blunts evaluation sensitivity to both negative and positive stimuli. Psychological Science. 2015;26(6):750-758.
2. DeWall CN, MacDonald G, Webster GD, et al. Acetaminophen reduces social pain: behavioral and neural evidence. Psychological Science. 2010;21(7):931-937.
3. Mischkowski D, Crocker J, Way BM. From painkiller to empathy killer: acetaminophen (paracetamol) reduces empathy for pain. Social Cognitive and Affective Neuroscience. 2016;11(9):1345-1353.
4. Mischkowski D, Crocker J, Way BM. A social analgesic? Acetaminophen (paracetamol) reduces positive empathy. Frontiers in Psychology. 2019;10:538.
5. Keaveney A, Peters E, Way B. Effects of acetaminophen on risk taking. Social Cognitive and Affective Neuroscience. 2020;15(7):725-732.
6. Randles D, Heine SJ, Santos N, Handy TC. Acetaminophen attenuates error evaluation in cortex. Social Cognitive and Affective Neuroscience. 2016;11(6):899-906.
7. Pickering G, Macian N, Dubray C, Pereira B. Paracetamol sharpens reflection and spatial memory: a double-blind randomized controlled study in healthy volunteers. Drug Design, Development and Therapy. 2016;10:2999-3009.
8. Pearson R, et al. Acetaminophen enhances the reflective learning process. Social Cognitive and Affective Neuroscience. 2018;13(10):1029-1036.
9. Clayson PE, et al. Electrocortical effects of acetaminophen during emotional picture viewing, cognitive control, and negative feedback. Cognitive, Affective, & Behavioral Neuroscience. 2021.
10. Pickering G, et al. The brain signature of paracetamol in healthy volunteers: a double-blind randomized trial. PLoS One. 2015.
Mecanismo (AM404 e sistema endocanabinoide)
11. Högestätt ED, Jönsson BA, Ermund A, et al. Conversion of acetaminophen to the bioactive N-acylphenolamine AM404 via fatty acid amide hydrolase-dependent arachidonic acid conjugation in the nervous system. Journal of Biological Chemistry. 2005;280(36):31405-31412.
12. Sharma CV, Long JH, Shah S, et al. First evidence of the conversion of paracetamol to AM404 in human cerebrospinal fluid. Journal of Pain Research. 2017;10:2703-2709.
13. Bührer C, Endesfelder S, Scheuer T, Schmitz T. Paracetamol (acetaminophen) and the developing brain. International Journal of Molecular Sciences. 2021;22(20):11156.
14. Bauer AZ, Swan SH, Kriebel D, et al. Paracetamol use during pregnancy — a call for precautionary action. Nature Reviews Endocrinology. 2021;17:757-766.
Exposição gestacional em animais
15. Gestational paracetamol exposure induces core behaviors of neurodevelopmental disorders in infant rats and modifies response to a cannabinoid agonist in females. Neurotoxicology and Teratology. 2023.
Gravidez, autismo e posição clínica
16. Ahlqvist VH, Sjöqvist H, Dalman C, et al. Acetaminophen use during pregnancy and children’s risk of autism, ADHD, and intellectual disability. JAMA. 2024.
17. Khalil A, et al. Systematic review and meta-analysis of prenatal paracetamol and neurodevelopmental outcomes. The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health. 16 de janeiro de 2026.
18. Maternal paracetamol (acetaminophen) use during pregnancy and risk of autism spectrum disorder and attention deficit/hyperactivity disorder in offspring: umbrella review of systematic reviews. BMJ. 2025;391:e088141.
19. Prada D, Baccarelli AA, et al. Evaluation of the evidence on acetaminophen use and neurodevelopmental disorders using the Navigation Guide methodology. Environmental Health. 2025.
20. American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Affirms safety and benefits of acetaminophen during pregnancy. Comunicado, setembro de 2025; Practice Advisory sobre desfechos do neurodesenvolvimento.
21. Society for Maternal-Fetal Medicine (SMFM). Acetaminophen remains first-line for pain and fever in pregnancy. 2026.
22. UK Teratology Information Service (UKTIS); European Network of Teratology Information Services (ENTIS). Position statements on paracetamol in pregnancy and autism spectrum disorder. 2025.
23. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Nota à população: paracetamol e autismo. 23 de setembro de 2025.
24. European Medicines Agency (EMA); Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA). Comunicados mantendo o paracetamol como opção na gravidez. Setembro de 2025.
Nota. Não há estudo clínico humano que tenha medido embotamento afetivo no feto. Este texto é revisão narrativa para leigos e profissionais; não substitui consulta obstétrica.