Isabel de Fátima Alvim Braga

O Rio de Janeiro tem uma usina que vaza. Isso está documentado. Não é slogan: é o dossiê que publicamos na Pàhnorama — “Os vazamentos da usina nuclear: o litro, o silêncio e o sócio” (29 de agosto de 2026 – Link da matéria https://revistapahnorama.com.br/2026/08/29/o-litro-o-silencio-e-o-socio-vazamentos-eletronuclear/ ).
Em setembro de 2022, água com baixo teor radioativo saiu de Angra 1 por válvula corroída, foi à laje, ao pluvial e à Baía de Itaorna. Volume estimado: cerca de 90 litros. A Justiça Federal mediu 21 dias de atraso no aviso. O Ibama multou. A Eletronuclear admitiu falha de comunicação. Em fevereiro de 2025, a empresa descreveu outra ocorrência, em Angra 2: passagem pelo primeiro selo da tampa, inferior a um litro por dia, recolhida no tanque de projeto; segundo a nota, o segundo selo íntegro, sem Condição Limite de Operação aberta, usina a 100%. O TCU, no mesmo ambiente de governança, pesou bilhões em inexigibilidade. Nenhuma dessas frases autoriza evacuar Paraty. Todas autorizam uma pergunta adulta: o que se faz com o litoral quando o papel e o mar não coincidem.
Condenar a cidade maravilhosa e a baía em que o campeão olímpico sempre velejou é um erro crasso. A Marina da Glória e os círculos de 2016 estão na Guanabara. Itaorna está na Baía da Ilha Grande. São águas diferentes. São o mesmo Estado. E as águas de São Paulo estão ali do lado, onde acontece a semana de vela de Ilhabela. Quem ama a vela, o peixe, o hotel de Abraão e o Leblon de fim de tarde mora no mesmo mapa. Pensar solução — e não só o ataque e o silenciamento orwelliano — faz mais sentido do que fingir que o átomo escolhe partido.
Não existe afinidade política que sobreviva à informação de vazamento nuclear no Caribe brasileiro: todo mundo é atingido. A milícia que cobra gás na boca do morro e a milícia que janta no Leblon descobrem, no isótopo, a única igualdade que o litoral ainda não privatizou. Olhar para a solução é olhar para o que o Estado deveria ser antes que a milícia política partidária se unisse para tirar da corrida quem ainda tinha chance honesta de competir com quem já estava à mesa.
A corrente que levaria o resto não é a polar. A Corrente do Brasil nasce da bifurcação da Equatorial Sul e corre para sudoeste, quente, colada à plataforma. Na Baía da Ilha Grande o primeiro destino é local: circulação residual no canal, água de plataforma que entra e sai, mistura com a língua mais doce que vem de Sepetiba. Daí o transporte de prateleira segue o litoral da Costa Verde — Paraty, o norte paulista, Santos, Cananéia.
Muito mais ao sul, por volta de 36°–38°S, essa água quente encontra a Corrente das Malvinas, braço frio que sobe do Circumpolar Antártico. Só ali, na Confluência Brasil–Malvinas, o resíduo que sobrou na coluna mistura-se de fato com água de origem polar.
Quem fala “corrente polar em Angra” pula três escalas. Quem fala “não vai a lugar nenhum” ignora a prateleira.
A solução interessa a todos. Por isso este texto não pede o fungo de Pripyat no concreto de Itaorna. Pede o mecanismo — e o calor que o Rio já tem.
O que Fukushima ensinou — e o que Chernobyl misturou
Depois de 2011, o Japão não descobriu um ser que “bebia raios”. Descobriu o que o micélio já faz com o potássio: trata o césio-137 como primo químico. Cogumelo silvestre e líquen puxam o íon do solo e da serapilheira e o guardam no tecido. Treze anos depois ainda havia lote acima de 100 Bq/kg. Em dezenas de municípios de Fukushima o envio de cogumelo selvagem seguia restrito. Isso emociona porque é íntimo: o prato da floresta virou inventário. Não emociona porque limpe o território. Concentra. Quem colhe e descarta como rejeito tira uma fração. Quem come, leva a dose.
No líquen Parmotrema tinctorum, dois e seis anos após o acidente, o césio estava nas partes marrons do córtex inferior — substâncias tipo melanina. A química diz que esses grupos quelam o Cs⁺: prendem o íon na armadilha do pigmento. Não é fotossíntese de gama. É pinça molecular.
Chernobyl acrescentou outra cena, mais cinematográfica e menos fechada. Nas paredes do reator 4 cresceram fungos pretos. Cladosporium sphaerospermum, Exophiala (Wangiella) dermatitidis, Cryptococcus neoformans. Hifas às vezes andam na direção da fonte — radiotropismo. Linhagens com melanina, em laboratório, cresceram melhor sob dose do que as albinas, com pouco nutriente (Dadachova, Casadevall, 2007). A imprensa traduziu: comem radiação. O paper traduz: a melanina muda quando a radiação passa.
Melanina, sem poesia barata
Melanina fúngica de Chernobyl é sobretudo DHN — 1,8-di-hidroxinaftaleno — feita na via do poliétideo, gene tipo PKS1. Não é o pigmento da pele humana (eumelanina de tirosina), embora os dois sejam polímeros escuros de anéis aromáticos.
Três funções que a literatura sustenta. Primeiro, escudo físico: camadas na parede, da ordem de 100 nm empilhadas, atenuam parte da dose. Estimativas de blindagem da melanina fúngica andam na casa de “metade do chumbo, o dobro do carbono” — ordem de grandeza, não engenharia de sarcófago. Segundo, escudo químico: a molécula doa elétron e segura radical; a célula morre menos por estresse oxidativo. Terceiro, transdução eletrônica: radiação ionizante altera o estado da melanina e aumenta a capacidade de transferir elétron em reações modelo. Daí a hipótese da radiossíntese: antena no lugar da clorofila.
O que não está demonstrado: fixação de carbono puxada por gama; ATP contabilizado vindo do fóton do reator; usina biológica que zera inventário. Papers posteriores mostram pigmento que muda e crescimento que nem sempre sobe. A cultura pode estar só gastando menos energia em reparo porque a parede preta já absorveu o golpe.
Por isso a frase honesta é estreita e basta: a melanina não come o núcleo. Ela segura o íon e espalha a energia para o fungo não morrer tão depressa. O núcleo do césio continua decaindo dentro do chapéu. Meia-vida de 30 anos. Relógio, não milagre.
O Rio não é Pripyat. O pigmento, sim.
Cladosporium sphaerospermum é cosmopolita — banheiro, folha, salina, inclusive trópico. A cepa do sarcófago foi selecionada por décadas de dose. A do azulejo carioca não. E essa espécie clássica estanca perto de 35–37 °C. No granito quente de verão, outros pretos ganham.
O que o calor do Estado do Rio já cultiva, com a mesma classe de melanina: Cladosporium de parede e serapilheira; Aspergillus niger, esporo melanizado, ubíquo, resistente a UV e X; Hortaea werneckii, levedura preta de costa e sal — o litoral faz sentido; Exophiala dermatitidis, o mesmo gênero dos papers de 2007, termotolerante, D10 de gama na casa de milhares de gray — e patógeno; Fonsecaea pedrosoi, DHN, solo e planta, cromoblastomicose do trabalhador rural brasileiro.
Não se planta Fonsecaea em Itaorna “para limpar Angra”. A melanina que protege o fungo da gama é a que o protege do sistema imune da perna. Solução não é soltar doença.
Se o Estado quisesse pesquisa — não liturgia —, o protocolo caberia numa página: isolar o preto já do sítio; medir melanina e sobrevivência à dose; excluir patógeno; tratar biomassa como rejeito, não como adubo. O tapete de mofo, no melhor caso, é filme que atenua e prendedor de césio, como o líquen de Fukushima. No pior, é o prato da floresta virando inventário, como o cogumelo que o Japão ainda restringe.
O que a vela ensina ao átomo
Martine Grael e Kahena Kunze ganharam o ouro de 2016 na Guanabara. Torben velejou aquela água a vida inteira. Ninguém vela no pluvial de Itaorna. Todos velejam no mesmo país que atrasou 21 dias para dizer que 90 litros tinham ido ao mar. A vergonha não é a baía. A vergonha é o silêncio que trata o litoral como se fosse propriedade de uma mesa.
Olhar o fungo preto no granito quente não é rendição ao reator. É recusar o único programa que o Estado ofereceu até aqui: atacar quem pergunta e chamar isso de segurança. A corrente vai para o sul. A melanina já está na parede. O restante é decisão — e decisão, neste litoral, ainda não tem partido que a contenha.
Isabel de Fátima Alvim Braga
Médica. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada — e não tem medo do cancelamento e nem de ladrão de galinha que se finge de miliciano mafioso enquanto morre de medo de radiação
Fontes principais: Revista Pàhnorama, “O litro, o silêncio e o sócio” (29/08/2026); Eletronuclear, nota de 21/02/2025; TCU, Acórdão 671/2026-Plenário; Dohi et al., PLOS ONE 2022 (líquen e Cs em Fukushima); Dadachova et al., PLoS ONE 2007; Averesch et al. e revisões sobre radiossíntese não fechada; Corrente do Brasil / Confluência Brasil–Malvinas (literatura oceanográfica padrão).