Isabel de Fátima Alvim Braga

Quem usa o BRT mede o serviço em minuto. Quem assina o empenho mede em lote. Os dois números convivem na mesma cidade e quase nunca se encontram no mesmo parágrafo. Abaixo estão os contratos de transporte da Prefeitura do Rio, na terceira gestão de Eduardo Paes, que a imprensa e o Tribunal de Contas do Município já numeraram. No fim, a pergunta: se esses valores fossem para esporte na favela, o que caberia no papel? A resposta usa faixa de preço de mercado e o que a própria prefeitura já gasta em programa de esporte. Não inventa medalha. [1]
Como a conta do ônibus foi montada
Em 2010 a cidade concedeu o BRT a consórcios de ônibus — Transcarioca, Santa Cruz, Internorte. Em 2022 interveio, criou a Mobi-Rio e passou a operar. Em seguida comprou frota nova. Parte relevante da compra foi à Guanabara Diesel, do grupo da família Barata, que já vendia ônibus e peça no município. Em 2023 saiu edital para devolver a operação à iniciativa privada. Em 2025 a Secretaria Municipal de Transportes intimou os consórcios de 2010 a pagar R$ 201,1 milhões. [2][3][4]
Não é um contrato isolado. É uma sequência de decisões sobre o mesmo corredor.
A frota
Em novembro de 2022 a prefeitura comprou da Guanabara Diesel 300 articulados por R$ 867 milhões, com entrega até março de 2024. A Marco Polo ficou com 190 veículos por R$ 419 milhões. A leva completa: 561 coletivos por R$ 1,360 bilhão, para Transoeste, Transcarioca, Transolímpico, o então futuro Transbrasil e 72 padron na Cesário de Melo. [2]
A Guanabara Diesel é a maior revendedora Mercedes-Benz do país. O grupo opera as principais empresas de ônibus da cidade. O G1 registrou que ela foi a única a apresentar proposta em quase todos os pregões daquela compra. Na mesma época havia um contrato de R$ 1,6 milhão com a mesma empresa para repor peça do BRT. [2]
Em maio de 2022, outro pregão: 100 articulados, R$ 241,8 milhões, novamente a Guanabara como única proponente. [5] Em novembro de 2020 o juiz Marcelo Bretas havia condenado Jacob Barata a 28 anos e 8 meses. A sentença não cancela, sozinha, o pregão de 2022. O que o registro público mostra é concentração de fornecedor. [2]
Em 24 de agosto de 2023 a prefeitura assinou com a Caixa financiamento de R$ 645.931.000,00, no Pró-Transporte, para 270 articulados. O anúncio político do mesmo período falava em quase R$ 2 bilhões (Banco do Brasil + Caixa) para 700 veículos, Transoeste, terminal e garagem. [3]
A relicitação e a cobrança
Em 31 de março de 2023 o edital de concessão do BRT saiu em três lotes. Soma dos contratos: R$ 6,59 bilhões. Outorga mínima: R$ 407.338.599,00. O objeto era transferir operação, manutenção, frota, garagem, terminal e estação — depois de a cidade ter comprado o ônibus. [6]
Em 14 de janeiro de 2025 a SMTR intimou os três consórcios de 2010 a ressarcir R$ 201,1 milhões (caducidade, recuperação de instalação, CCO do Terminal Alvorada). Reconheceu R$ 4,2 milhões a favor deles pela obra do CCO e descontou. O saldo é o que foi cobrado. [4]
O contrato menor
Em dezembro de 2024 a CET-Rio fechou R$ 5,2 milhões, por dois anos, com o consórcio Bike Edu, para gestão de educação de trânsito (Bike Educa). Orçamento de referência: R$ 6,3 milhões. Sócios: LM Cursos e New4T Participações, de Alexandre Fleck dos Reis, ex-genro de Jacob Barata Filho. O pregão foi em 25 de setembro; o consórcio foi formalizado em 1º de novembro. [7]
O mergulhão de Campo Grande
O anel viário é o projeto mais caro iniciado na terceira gestão: R$ 781,9 milhões, R$ 702,7 milhões do BNDES. Nove contratos. A OECI S.A. (ex-Odebrecht) ficou com os dois mais caros, R$ 597 milhões. O mergulhão da Cesário de Melo foi entregue em julho de 2024. [8]
Em abril de 2025 a 2ª Câmara do TCM determinou que o município cobre da OECI R$ 1,8 milhão ou desconte da fatura. Os auditores foram ao canteiro. Na retirada de 6,5 mil metros cúbicos de terra, o tribunal calculou teto de R$ 33,09 por metro cúbico; o município chegou a pagar R$ 157,93. Só nesse item: R$ 793,7 mil. A fatura tratou o serviço como rocha. A vistoria descreveu argila e areia. No preço de referência, rocha custa cerca de 37 vezes o trabalho em argila. [8][9]
Mais três apontamentos: a mesma escavadeira em duas faturas, preços diferentes; recape de via já existente, R$ 677 mil a mais; bota-fora com caminhão de 12 toneladas lançado a 20–27 toneladas por viagem — R$ 209 mil. Duplicidade: R$ 132 mil. Em três itens a Secretaria de Conservação justificou; o TCM considerou insuficiente. No concreto, a prefeitura admitiu e descontou. [9]
O que o BNDES já escreveu sobre o corredor
O município contratou o banco para estruturar concessão sobre trilhos em cima da Transcarioca e da Transoeste. Estimativa da prefeitura: R$ 6 bilhões para 86 km (ida e volta) da Transcarioca, com economia de R$ 4,5 bilhões se reusar o corredor; R$ 8,7 bilhões para 125 km da Transoeste. Consultoria homologada em 26 de abril de 2023. [10] É o reconhecimento, em linguagem de projeto, de que o BRT desenhado para cidade média não resolveu o Rio. [1]
Quanto isso daria em esporte na comunidade
A pergunta não é retórica. Tem unidade de medida. Plataformas de orçamento de obra no município anunciam quadra poliesportiva na faixa de R$ 50 mil a R$ 150 mil, conforme piso, alambrado e iluminação. Não é edital da prefeitura. É o intervalo que o mercado local publica. Usamos os dois extremos para ninguém acusar de escolher o número cômodo. [15]
R$ 867 milhões — o bloco da Guanabara — caberiam, nessa faixa, entre cerca de 5.800 e 17.300 quadras. R$ 1,360 bilhão da leva inteira de 561 ônibus: entre 9.000 e 27.200 quadras. R$ 201,1 milhões cobrados dos consórcios: entre 1.300 e 4.000 quadras. Os R$ 1,8 milhão que o TCM mandou devolver à OECI: entre 12 e 36 quadras. Só o item da terra cobrada como rocha (R$ 793,7 mil): entre 5 e 16 quadras. [2][4][8][15]
Quadra sem professor é concreto. A prefeitura já tem um programa que se apresenta como a resposta: o Rio em Forma, mais de 50 modalidades, 1,2 mil núcleos, 280 mil cariocas atendidos, segundo divulgação da Secretaria de Esportes. [16] O dinheiro que alimenta esse desenho não é simbólico. Instituto Sessub e ICA — as duas ONGs centrais do Rio em Forma e de outros projetos da pasta — receberam, desde 2021, R$ 233,8 milhões e R$ 264,3 milhões. Soma: R$ 498,1 milhões em cerca de cinco anos, da ordem de R$ 100 milhões por ano. [13]
Nessa régua, o bloco de R$ 867 milhões equivale a uns oito anos e meio do ritmo Sessub+ICA. A leva de R$ 1,36 bilhão, a uns 13 anos e meio. Os R$ 201 milhões da cobrança aos consórcios, a uns dois anos. O anel viário de R$ 781,9 milhões, a uns oito anos. Os aditivos de publicidade de R$ 126 milhões num ano, a um ano e três meses do mesmo ritmo. [11][13]
Há um porém que o leigo merece na mesma página. Esse R$ 498 milhões já foi, no discurso, esporte na comunidade. Reportagem de 2026 descreveu folha de apoiador político nessas ONGs; o ICA aparece em apuração da Polícia Federal sobre emenda. Em 2025 o UOL mostrou uniforme de custo R$ 40 cobrado a R$ 130 em projeto esportivo municipal. [13][17] Transferir o empenho do BRT para a mesma tubulação não ilumina, sozinho, a laje do morro. Ilumina a pergunta: esporte na favela é quadra e professor — ou é mais um contrato com o mesmo método?
A conta honesta tem dois andares. Primeiro: R$ 867 milhões dariam milhares de quadras se o real saísse do papel a R$ 50–150 mil. Segundo: a cidade já gasta da ordem de R$ 100 milhões por ano em ONGs de esporte e ainda assim a laje continua sem luz. O problema não é só o tamanho do cheque do ônibus. É o destino.
O restante do caixa, em uma linha
Publicidade: três agências, aditivo de R$ 42 milhões cada após a reeleição de 2024 — R$ 126 milhões em doze meses. A vereadora Teresa Bergher somou os contratos a R$ 399,4 milhões em dois anos. O vereador Pedro Duarte contabilizou R$ 193 milhões já pagos. O orçamento de 2025 previa cerca de R$ 28 milhões na rubrica. [11][12] Ciclovia Tim Maia e contratos Delta são da primeira gestão; existem, não se misturam ao mergulhão de 2024. [14]
O que falta no dossiê
Não está aqui o inteiro teor do TCE-RJ sobre o edital do Sistema Rio (2025–2026). Houve nota sobre restrição à concorrência; sem o número do acórdão, a frase não entra no lead. Não está cada linha do portal da transparência. O TCM falou em indício de superfaturamento no mergulhão e mandou cobrar R$ 1,8 milhão. Indício, no tribunal, virou débito. [8]
Três horas no corredor não entram no dossiê da obra. [1] O empenho entra. A quadra que caberia no mesmo empenho também deveria entrar. Quase nunca entra.
Isabel de Fátima Alvim Braga
Fontes
[1] Revista Pàhnorama, 16/09/2026. “Três horas não entram no dossiê.”
[2] G1 Rio, 21/11/2022 (atualizado 27/12/2023). 300 articulados, R$ 867 mi; 561 veículos, R$ 1,360 bi; licitante único; peça R$ 1,6 mi.
[3] Diário do Transporte, 28/08/2023. Caixa R$ 645.931.000,00; pacote de quase R$ 2 bi.
[4] O Globo, 15/01/2025. Cobrança de R$ 201,1 milhões aos consórcios.
[5] G1 Rio, 27/05/2022. 100 articulados, R$ 241,8 mi, única proposta.
[6] Mobilidade Rio / prefeitura, 31/03/2023. Edital BRT, R$ 6,59 bi, outorga R$ 407,3 mi.
[7] Tempo Real RJ, 06/12/2024. Bike Edu, R$ 5,2 mi.
[8] Extra / O Globo, 26/04/2025. TCM: R$ 1,8 mi; anel R$ 781,9 mi.
[9] Relatório TCM na imprensa, abr/2025. Rocha vs argila; bota-fora; duplicidade.
[10] BNDES, projeto Mobilidade Rio — trilhos na Transcarioca e Transoeste.
[11] Tempo Real RJ, 16/10/2024. Publicidade R$ 126 mi / R$ 399,4 mi.
[12] Ururau, 03/05/2026. Contratos SEGOVI 010046-48/2022.
[13] Ururau, 27/08/2026. Sessub R$ 233,8 mi e ICA R$ 264,3 mi desde 2021.
[14] G1, 25/04/2016; UOL, 01/11/2012.
[15] Cronoshare, construção de quadras no município do Rio: faixa publicada de R$ 50 mil a R$ 150 mil para poliesportiva.
[16] Secretaria Municipal de Esportes / divulgação Rio em Forma: 1,2 mil núcleos, 280 mil atendidos, 50+ modalidades.
[17] UOL, 20/11/2025. Uniforme de R$ 40 cobrado a R$ 130 em projeto esportivo municipal.