Isabel de Fátima Alvim Braga
Este é um texto longo, complexo e profundo. Em alguns momentos, pode ser doloroso. Assim como as relações que valem a pena, ele precisa de tempo e foco para que haja entendimento. Não foi escrito para agradar, nem para alcançar milhares de visualizações. Porque nem sempre a quantidade é o que importa. É um texto para leitores especiais — aqueles dispostos a permanecer até o fim, mas só do que valia a pena mesmo.
O amor é intransitivo. Ele não depende de complemento. Ele existe. O resto é o que fazemos com ele — ou com aceitar a sua ausência.
As crenças sobre o amor e os valores do que se deveria fazer por merecer
Fizeram mulheres acreditarem que para serem amadas precisavam pertencer a um determinado subtipo ou a um determinado padrão de comportamento. E se esqueceu que o amor per se já é o pertencimento. Criou-se um teatro onde o ego esconde as nossas almas e impede o reconhecimento. O reconhecimento, aqui, não é aprovação. É a percepção direta de algo que já existe, sem a necessidade de encaixe em uma moldura prévia. Quando se exige que a outra pessoa corresponda a um modelo — de beleza, de status, de comportamento, de performance —, o que se encontra não é a pessoa, mas a projeção. E a projeção, por definição, não reconhece. Ela apenas confirma o que já se decidiu ver.
Fizeram homens acreditarem que seriam amados pelo que ofereciam: carros, jantares, corpos a serem exibidos. Validados pela magreza das mulheres que a eles pertenciam – ainda que procurassem pela carne nas telas que assistiam escondido. Homem, sob essa ótica, jamais teria seu valor estimado pelo conteúdo interior e sim pelo que pudesse oferecer. E seria tão vendido como mercadoria quanto as mulheres do Onlyfans.
Isso é o que dá ver tanta televisão.
O que define o amor – e o que não define mais
O amor não admite complemento textual. Não admite motivação. Não admite condicional. Ele é. E assim, segue sendo intransitivo.
O amor é aquilo que sobra quando não se tem mais nada. Seja você ateu ou um adepto da leitura da Bíblia que entende que a sensação de amor do paraíso é a mesma paz que se descreve nas experiências de quase morte, ou alguém que entenda que o amor é o que resta quando se tira todos os conflitos de interesse: o conceito não muda.
A pessoa ao seu lado permaneceria em escolha sem o dinheiro, a fama ou o fato de que ela é cobiçada e todos olham? A pergunta não é retórica. Ela desmonta a maioria das justificativas que usamos para nomear de amor o que é conveniência, hábito ou medo da solidão. Quando se retira o que o outro oferece de validação externa, o que permanece? Se a resposta for o vazio, o que havia não era amor. Era um arranjo.
Porque o amor não depende do conhecimento. Da transição. Da exigência do outro para a foto instagramável ou demonstração pública. Ele existe porque ele existe. O amor verdadeiro de casal é algo raro. E até amor pelos filhos – aquele que se dizia incondicional – se tornou mais raro quando se tornou monetizável.
Numa tentativa desesperada de sentir algo, a gente inventa. Como dizia Cazuza: “o seu amor é uma mentira que a minha vaidade quer”. Rita Lee dizia que “Amor é novela. Sexo é cinema”. Não inventamos amores. Fingimos que eles existem onde não estavam. Ninguém inventa algo que é diagnóstico de exclusão e só existe quando não há mais nada fora do jogo. Inventamos justificativas para casamentos que não deveriam nunca ter acontecido no mundo da lógica.
A taxa de divórcio não aumentou só porque as pessoas se divorciam por qualquer coisa. Divórcio por qualquer coisa besta significa que nunca houve amor. Não obstante, o problema maior é se casar por qualquer coisa e para preencher o vazio de nunca ter sido amado. Casar para não ficar sozinho, para ter filhos “na hora certa”, para agradar a família, para ter um parceiro de viagem ou de contas — tudo isso pode gerar uma relação funcional. Mas funcionalidade não é reconhecimento. E reconhecimento não se constrói com contratos sociais.
Esse texto não prega a hipocrisia sexual. Não nega o desejo ou o poder sedutor da beleza, do valor do sucesso ou do cavalherismo. Mas alerta para o risco do dia seguinte. Numa tentativa desesperada de procurar o amor onde não há, encontramos a mentira e o teatro. Se houve um tempo em que havia bailes e interações, eles foram substituídos por noitadas e sexo rápido sem prazer real advindo da conexão (e nem precisava ser amor verdadeiro), porque o amor não surge do convívio como muitos querem nos fazer acreditar para justificar seus relacionamentos.
O amor é um reconhecimento. O amor não se constrói. Ele existe. O que se constrói é o relacionamento e o que se faz com o amor ou a ausência dele. Confundir as duas coisas é o que permite que pessoas passem anos juntas sem nunca terem se visto de verdade.
O amor verdadeiro resiste ao tempo. Resiste à barriga que surge com o tempo. Resiste à existência de um lábio vaginal maior que o outro e à pele que fica flácida, mas que a indústria da plástica insiste em modificar. Porque, pela própria definição, o amor é aquilo que sobra quando o padrão estético não existe. E foi na tentativa de negar que o amor é o que resiste à ausência que criamos uma indústria da estética. Mulheres separadas –seja aos 30, aos 40, aos 50 – passaram acreditar que se fizerem modificações corporais serão finalmente amadas. Foram enganadas.
Esqueceram – ou nunca souberam – que o amor, aquele mágico, não deveria depender disso. A indústria da estética vende a promessa de que o corpo corrigido vai atrair o reconhecimento que o corpo real não conseguiu. O que ela não diz é que o reconhecimento que depende de correção não é reconhecimento. É adesão a um padrão. E padrões mudam. O que sobra, quando o padrão se cansa, é a mesma pessoa que estava lá antes da cirurgia — só que agora com a ilusão de que o problema era o corpo. O problema não está na vaidade ou em procedimentos eventuais: está na crença que eles são a condição necessária para que sejamos escolhidas ou amadas.
Algumas pessoas passam a vida procurando o amor onde não há. Outras procuram, encontram e negam. Porque se não bastasse viver numa sociedade movida a fotos e likes, colocamos o amor no campo da vergonha: “Gostei do cara. Estou ferrada”. É a frase que dizemos. Homens que fazem troça do casamento e chamam de prisão com a patroa. Às vezes, é mesmo uma prisão com alguém que nunca se amou. Às vezes, é uma prisão à validação dos amigos que impede que a verdade seja dita.
E continuamos: jogamos e fingimos não sentir. Porque esquecemos de diferenciar que o amor que pode existir até na ausência de reciprocidade — e admitir sentir sem se rebaixar e manter a dignidade sem se arrastar — não anula o amor próprio. Ou não deveria. Porque parece que precisamos o tempo inteiro da confirmação do outro de que o sentimento é recíproco.
E, enquanto coachs falam de reciprocidade, esquecem que deveria ser na atitude e não no sentir. Porque o sentir é livre e é nisso que existe a intransitividade. A gente joga. E disfarça. E finge não se importar. E às vezes é nisso que a relação morre e não floresce. Porque fizeram a gente acreditar que uma entrega afetiva verdadeira era humilhante. Mas abrir as pernas na noitada para ser depósito de esperma de um cara aleatório é vendida como a verdadeira liberdade, numa tentativa frustrada de se validar e torcer para ser escolhida, se submetendo a qualquer desejo na cama para provar uma liberalidade e fingir que está tudo bem.
Amor e prazer sexual – Anorgamia, disfunção erétil e a aversão pós-gozo (Ou ausência dele)
O prazer real, aquele da conexão e do aprendizado do corpo do outro, aquele que se repete com feedback de quem se interessa de verdade pelo prazer alheio, se perdeu. E, enquanto as mulheres reclamam da ausência de orgasmo quase impossível, porque o sistema GABA está profundamente ativado, as roupas disfarçam o incômodo.
E por que o sistema GABA está tão ativado e leva à anorgasmia? O GABA é o principal neurotransmissor inibitório do cérebro. Ele reduz a atividade neuronal, acalma circuitos e, em excesso ou sob influência do álcool, pode anestesiar sinais importantes. O álcool muitas vezes é a condição necessária para estar ali, porque permite a anestesia de algumas verdades. Juntos, o álcool e a ativação do sistema GABA podem desativar ou amortecer a amígdala — a estrutura cerebral que processa ameaças e emoções aversivas — e a ínsula, que está ligada à consciência interoceptiva e à aversão.
Em termos simples: o sistema que deveria avisar “isso não está certo, você está se enganando” fica silenciado pelo sistema inibitório GABA. A verdade aversiva e o incômodo da situação não chegam com força. O circuito que avisa da verdade é anestesiado, e a pessoa não antecipa a consequência de se tornar o que não quer ser.
Muitas vezes o que se chama de amor é apenas a história que se conta para não ter que lidar com o ranço. A ínsula registra o desalinhamento entre o que se sente e o que se justifica. Quando a aversão se mantém depois de alguns minutos de convivência real e a pessoa decide que “é só preconceito”, “é só trauma” ou “amor se constrói”, ela está mentindo para si mesma. Esse tipo de mentira tem custo. Ela força o cérebro a sustentar duas narrativas ao mesmo tempo e treina a ínsula a tratar o próprio sinal como ruído. O amor que existe — aquele que não depende de complemento nem de narrativa — não precisa desse esforço. Ele simplesmente reconhece. Quem quiser entender melhor o mecanismo cerebral que está por trás dessa mentira interna pode ler o Artigo “Mentir pra si mesmo é a pior mentira: o valor do ranço e da aversão”.
Nesse artigo, é mostrado como a ínsula detecta quando o que o corpo sente não combina com a história que a pessoa está contando para si mesma. O primeiro sinal de aversão pode ser enviesado e rápido. O sinal que permanece depois de alguns minutos de contato real costuma carregar informação sobre desalinhamento real. Ignorar esse sinal força o cérebro a manter duas narrativas ao mesmo tempo, gera custo no córtex pré-frontal, deixa a amígdala em alerta residual e dessintoniza o próprio detector de incongruência. Mentir para a criança (forçando beijo ou contato contra a aversão) ou para si mesmo na vida adulta treina a ínsula a tratar o próprio registro como ruído. Álcool e medicamentos que aumentam o GABA baixam temporariamente o volume do sinal, mas não resolvem o desalinhamento e podem criar dependência do silenciamento. O ranço não é o inimigo. É informação.
Em primatologia e neurociência, sistemas inibitórios também ajudam a regular comportamentos sociais para não ser expulso do grupo — mas, quando usados para anestesiar o próprio discernimento, o preço é alto. O corpo continua funcionando. O desejo pode até estar presente. Mas o circuito que distinguiria conexão de descarga está offline. O orgasmo, quando ocorre, é fisiológico. O que falta é a participação da consciência que reconhece o outro.

Os homens (quase) nunca dormiram com as prostitutas. O sexo termina e se vai para casa. A aversão pós-gozo coletiva vem disso. Há mecanismos cerebrais que transformam o afeto em algo monetizável e, ao fazê-lo, alteram as relações. Quando o afeto é trocado por dinheiro ou por validação imediata, o circuito de vínculo e reconhecimento se enfraquece.
O que sobra é descarga e descarte. A monetização do afeto não é apenas uma prática de mercado. É uma alteração de circuito. O cérebro aprende que o outro é fonte de dopamina pontual, não de presença contínua. E o que se aprende se repete. Por isso a aversão depois. Não é moralismo. É o sistema de recompensa registrando que o que acabou de acontecer não construiu vínculo. Construiu e enfatizou apenas a ausência dele. Ninguém quer dormir com um negociador monetário. São negócios.
Sobre o que define um relacionamento
Existe um abismo entre amar uma pessoa e amar ter um relacionamento. E amar o que o relacionamento proporciona. E mesmo a narrativa social que ele permite pode ser o objetivo.
Quando o amor é tratado como reconhecimento que existe independentemente do que o outro pode prover, ele se distingue da lógica em que o homem com dinheiro se torna uma meta — tema do artigo “Homem com dinheiro como uma meta: a nova prostituição disfarçada de hipergamia”. Nesse padrão, o acesso afetivo ou sexual passa a funcionar como troca por provisão material. Neurologicamente, a amígdala e o sistema de dopamina detectam os sinais de recurso e liberam interesse antes que o córtex pré-frontal avalie a pessoa; a ínsula registra o desalinhamento, mas o sinal pode ser silenciado. O resultado é um apego calibrado no fluxo, não na história compartilhada: basta aparecer alguém com mais para que a dopamina caia e o interesse se desloque.
Dentro do casamento, o sexo pode virar moeda de barganha. Para os filhos, a consequência é direta. A criança observa onde o tempo e a atenção dos pais realmente estão. Se a prioridade interna é o recurso, ela entra como consequência secundária e aprende que permanência e cuidado são condicionais ao que se pode extrair. Diferente disso, o amor que resiste ao tempo é aquele em que tempo e atenção consistentes fortalecem oxitocina e memória compartilhada, reduzindo a necessidade de negociar afeto o tempo todo.
Quando o homem começa a acreditar que só conquistou pelo dinheiro, ele entra no modo de compra e consumo. E comportamento de consumo leva ao descarte. Zygmunt Bauman falava de “amores líquidos”: relações fluidas, descartáveis, baseadas em conveniência e baixa permanência. Amores líquidos não são amores. São arranjos temporários.
Se existiu um tempo em que as mulheres se preocupavam com o fato de o homem “só querer comer” e ele seguia querendo, agora a preocupação de muitos se tornou se ele vai querer de novo. Houve tempos dos haréns, dos acúmulos e alternância entre múltiplas parceiras. O que vivemos agora não é a vontade do acúmulo: é o descarte.
E o descarte sempre vem com uma desculpa. Peso. Voz. Comportamento. Uma dica do amigo redpill sobre tamanho de mão ou formato de tatuagem.
Minha mãe contava a história de um amigo dela que namorou por 10 anos, casou à contragosto e não ficou nem um ano casado, reclamando que ela deixava a cinza do cinzeiro e outras banalidades. Algo que obviamente ele já sabia e usou como desculpa.
Porque quem não quer, sempre arruma desculpa para sair sem admitir que se manteve num relacionamento por inércia até que a entropia levasse à explosão, temperada com uma desculpa para a saída que quase sempre inclui um comportamento que sempte esteve ali e não teve nada de novo. Ninguém mudou: só o disfarce usado para mentir pra si mesmo não serviu mais: nem quando a pele caiu inteira do rosto ou a memória se perdeu por causa da caneta emagrecedora e a normalização social da bulimia medicamentosa que esse uso representa (Para saber mais leia o artigo: Canetas emagrecedoras: a palestra era sobre gordura. A pergunta era sobre a bainha.).
A paixão – L`amour? Toujours!
Apaixonar-se, muitas vezes, é criar uma narrativa sobre o outro que justifique o que se sente. Os circuitos da paixão — envolvendo dopamina, noradrenalina e áreas de recompensa — intensificam a atenção e a idealização. Amar para alguns é “amar apesar dos defeitos”. Soa como concessão para realização do negócio. E o perigo é gostar mais do negócio e da ideia de relacionamento do que do indivíduo com quem o dividide.
Amar incluindo os defeitos e entendendo a história pregressa é o que está contido na intransitividade deste texto. Incluir não é tolerar. É reconhecer que a pessoa existe inteira, com o que é difícil e com o que é possível e que parte da personalidade amada foi muitas vezes construída com um história que incluia a dor e arrependimentos.
A concessão exige um esforço constante de adaptação. O reconhecimento, não. Ele simplesmente vê e abre a gaiola de portas abertas em que se entrou sem que se admitisse que a prisão era o medo da rejeição. A porta da gaiola sempre esteve aberta: o medo de sair dela é que aprisiona..
A tadalafila explodiu em uso justamente porque mesmo homens com mentalidade de caçador esqueceram de sentir e aproveitar. Virou consumo e descarte. Sabe quando a pessoa não está com vontade de comer algo, mas o anfitrião insiste que ela prove o bolo de chocolate do buffet? Pode ser que você até goste de bolo de chocolate quentinho, mas não aquele cheio de corantes artificiais e gelado que todo mundo finge curtir.
Segundo análises recentes, as vendas de tadalafila no Brasil saltaram de cerca de 3 milhões de unidades em 2015 para mais de 64 milhões em 2024. O que era pensado para o fim de semana virou assinatura mensal. A disfunção erétil coletiva também é sintoma de prazer: as ereções espontâneas foram trocadas pelas fotos dos pratos de comida no Instagram e pela habituação a estímulos cada vez mais intensos usados para compensar o vazio e a falta de intensidade da conexão afetiva (Pra mais detalhes sobre esse tema, leia o artigo Disfunção erétil: a farmácia vendeu o fim de semana. O país comprou o mês inteiro.).
A graça do sexo, que muitos homens viam em a mulher querer dar e ser essa a conquista, virou um sintoma médico. E a sociedade da pílula mágica comprou a história. Como dizia o blog “Elas por Elas” da Martha Medeiros no início dos anos 2000: “Sexo não é crime e nem castigo e nem prêmio por merecimento“.
No divã, os relatos de ambos os sexos mostram que virou moeda de troca dentro do casamento: se você se comportar, ganha um ossinho. Sexo mecânico, pouco interativo e sem feedback. Foi isso que se ganhou. Este texto não prega sexo só depois do casamento. Até porque há muito casamento no papel em que essa dinâmica de troca condicional parece ser a regra.
Para sair com alguém, alguns homens mandam pix para procedimentos estéticos que sequer os agradam. A boca crua do prazer foi preenchida. Os nervos dos mamilos cortados para cirurgias. O feedback facial reduzido por botox. O clitóris hipertrofiado pelo anabolizante em forma de castanha de caju que a cirurgia plástica tenta reduzir às custas de alguns cortes. Corte não reduz sensibilidade pela lesão às pequenas terminações nervosas?
O falso amor como moeda de consumo: a síndrome da escolhida
Porque deixou de ser sobre o sentir e passou a ser sobre consumir. Ou mostrar que consumiu, ainda que sem vontade. O corpo se torna superfície de consumo. E o consumo, por definição, não reconhece. Ele apenas utiliza.
O sexo sem a conexão — conexão, o mínimo; ninguém aqui falou em casamento — é só mais uma descarga masturbatória que não difere tanto da pornografia.
A nova pornografia feminina, analisada em textos recentes, mostra um fetiche: dominar a mente e ser a única que domina o homem que descarta todas as demais. Aquele que todas querem. É a fantasia de ser a que quebra o ciclo como em Lendas da Paixão (Para saber mais, leia o artigo: A nova pornografia feminina: o alfa, o rei e o bilionário). Nem toda mulher casada quebra esse ciclo ainda que pareça escolhida por olhos superficiais. Mas algumas mulheres conseguem furar a bolha egóica e serão lembradas para sempre. São as pessoas que derrubam nossos muros e nos veem vulneráveis que se tornam inesquecíveis. Mas ainda tem quem tente ganhar isso aumentando o tamanho da bunda.
As mulheres, no fundo, querem se sentir especiais ainda que preguem um liberalismo que a mente já entendeu como incoerência. Os homens fogem para as pornografias hardcore do gangbang da mulher que aguenta. Porque dentro daquele teatro de macho alfa da noitada — que muitas vezes não existiria sem o álcool — pode haver um homem que quer a mulher que aguenta: em parte para se vulnerabilizar com alguém que não sairia fora ao ver o primeiro defeito; em parte porque gostaria de não ter que fingir o suporte; em parte porque no fundo se sente dominado pelo sistema e podado, com a sensação de que se não performar de uma determinada maneira perde o jogo.
A prisão pela manipulação e culpa
E, muitas vezes, inibido pelo desejo e pelo medo do falso drama e da falsa dor que se utiliza para aprisionar as mentes pouco treinadas de homens que, educados para não machucar as mulheres (O que é obviamente correto em termos educacionais) descalibraram os cérebros pra não perceber o quanto estão sendo manipulados pela culpa. O cérebro masculino lê “Não posso fazer mal” como “Preciso ceder a tudo porque é mulher”. Como se simplesmente não ceder a todos os caprichos femininos fossem o mesmo que socar os seus rostos. E o cérebro, ao confudir isso, joga para a tela a fantasia. Resumir a pornografia como um todo a essa análise seria demasidamente superficial, mas não tira a verdade desse parágrafo.
A manipulação por culpa e vergonha opera exatamente no oposto do reconhecimento que o amor exige. Quando alguém diz “eu fiz tudo por você” (Spoiler: isso nunca é verdade), “você tem mais que eu” ou “eu não sou ninguém sem você” ou “você me deve XYZ pelo nosso tempo juntos (Ou qualquer outra desculpa que cole)”, o cérebro do outro ativa o alarme da ínsula e do córtex cingulado anterior. O desconforto ocupa o córtex pré-frontal e a pessoa passa a escolher o que reduz a culpa no momento, não o que reconhece.
O amor intransitivo — aquele que existe porque existe, sem precisar de confirmação constante nem de dívida — não sobrevive bem nesse circuito que a gaiola ensina. Ele exige que o alarme de erro moral não seja o critério principal da permanência. Quem permanece porque teme causar mal ou porque se sente em débito não está reconhecendo; está gerenciando desconforto. A diferença aparece na ínsula: no reconhecimento, o desalinhamento é menor porque a ação e o sentimento estão mais próximos; na culpa induzida, o desalinhamento é o próprio motor da relação. Por isso, afirmamos no artigo “O inferno de um relacionamento abusivo pode ser o céu para quem não sente culpa de nada“: sem o alarme, a avaliação racional permanece disponível e a permanência deixa de ser negociada como reparação.
Relaçõe abusivas
Na relação abusiva, o cérebro aprende que a segurança é a oscilação, que o alívio chega de forma imprevisível e que a submissão reduz o alarme mais rápido do que a avaliação. A dopamina da antecipação, a queda de cortisol na reconciliação, a oxitocina do vínculo condicionado e o alarme de culpa na ínsula e no cingulado anterior redefinem o que parece possível. O pássaro (Aquele do artigo: “O pássaro preso e a chave da gaiola”) permanece com a porta aberta porque sair passou a significar aumento de desconforto, enquanto ficar ainda contém a promessa do próximo alívio.
O reconhecimento, porém, não opera nesse circuito. Ele não exige que o outro oscile para provar que existe, nem que a pessoa se submeta para reduzir um alarme de dívida. Quando o alarme de culpa e a predição de recompensa intermitente ocupam o córtex pré-frontal, o que resta é gerenciar desconforto, não reconhecer. O amor que não depende de complementação ou de teatro sobrevive melhor onde esses alarmes não são o critério principal da permanência. A diferença aparece na equação: na gaiola, ficar é alívio; no reconhecimento, ficar não precisa ser negociado como reparação nem como aposta no próximo momento bom.
A fantasia do alfa que só ela controla é, no fundo, a mesma lógica de consumo: o outro como território a ser conquistado e mantido sob exclusividade. O reconhecimento não precisa dessa exclusividade performática. Daí, vem tanto pedido de casamento filmado e mostrado para gente que sequer conhece o casal.
Alguns homens chegam aos 30 sem saber o que é o amor. Ou o verdadeiro sexo. Chega a hora de casar. E já que é só isso que conhecem, escolhem a socialmente aceitável. E compensam uma parte da frustração que não conseguem nomear com uma despedida de solteiro de parar o centro.
Muitas vezes, a permanência em determinados relacionamentos que evoluem para o papel é apenas uma não escolha.
Não houve deliberação. Houve calendário. Houve o próximo passo que já estava disponível: namoro, noivado, casamento, filho, conta conjunta. O relacionamento virou default. O cérebro trata default como normal. Exige menos esforço do córtex pré-frontal. Ativa menos o córtex cingulado anterior. Não confronta. Não compara. Segue.
O amor é espontâneo, não uma escolha. A escolha recai sobre o relacionamento se manter ou não, com ou sem o amor. Dizer que amor é escolha é a justificativa para se tratar a inércia como o caminho natural e não como a escolha que ela representa.
A ínsula anterior, porém, continua registrando. Ela sinaliza o desalinhamento entre o que a pessoa sente (ou deixou de sentir) e o que ela executa. Não é julgamento moral. É sinal de incoerência. O sinal não some porque a pessoa decidiu “deixar a vida levar”. Ele se acumula. Cada aniversário, cada foto de casal, cada decisão conjunta que não foi escolhida, cada dia em que o corpo está no relacionamento e a atenção está em outro lugar, a ínsula marca a diferença. A aversao acumulada.
A amígdala cerebral (A do circuito do medo) entra quando a pessoa considera sair. A mudança de status (sair do casal, do papel, do grupo familiar) é lida como ameaça. Não necessariamente ameaça física. Ameaça de perda de coerência social, de pertencimento, de narrativa já pronta. Manter o status regula o medo imediato. O custo aparece depois: insônia, irritabilidade, sensação de vida no automático, dor que não tem nome claro porque não houve um evento único. Houve inércia.
O pertencimento cobra o pacote. Em muitos relacionamentos o pacote inclui a performance de felicidade, a conta conjunta, a presença nas datas, a narrativa “estamos juntos”. Sair do pacote ativa a dor social. A pessoa permanece não porque escolheu, mas porque o custo de desfazer o pacote parece maior do que o custo de continuar. A ínsula registra os dois custos. O córtex pré-frontal, quando o estresse se torna crônico, recebe menos fluxo. A regulação emocional piora. A birra interna aumenta. A capacidade de deliberar diminui. O ciclo se fecha.
Não é que o relacionamento “tenha dado errado”. É que ele nunca foi escolha ativa. Foi continuidade. O cérebro não distingue, no registro de longo prazo, entre “escolhi ficar” e “não escolhi sair”. O que ele registra é a incoerência persistente entre o estado interno e a conduta externa. Essa incoerência não se resolve com mais tempo no mesmo lugar. Ela se resolve com realinhamento: ou a pessoa escolhe ficar (com o custo consciente de ficar) ou escolhe sair (com o custo consciente de sair). O que não resolve é continuar no modo default e esperar que a ínsula deixe de sinalizar. (Para saber mais, leia Maria foi com as outras: a dor de não escolher: Quando a liberdade formal encontra o alívio de não decidir)

O amor é raro – e o bom sexo também
Algumas pessoas nunca saberão o que é o sentimento de amor. O amor é raro. É para poucos. E exige uma lealdade diante das falhas e defeitos que a maioria das pessoas não toleraria, porque exige uma quebra do ego imensurável. E as mesmas pessoas que não seriam capazes desse abrir mão do ego chamam os casais realmente felizes e raros de sortudos.
Rita Lee diria que sexo é escolha e amor é sorte. Eu não poderia discordar mais ao olhar para uma sociedade em que sexo virou obrigação para validação e amor virou uma história contada que poucos conhecem. A sorte, nesse contexto, é apenas o nome que se dá ao que não se compreende. O que parece sorte é, na maioria das vezes, a decisão de permanecer quando seria mais fácil sair. E permanecer exige exatamente o que a maioria não está disposta a fazer: abrir mão da narrativa de que o ego precisa ser protegido acima de tudo.
A matemática do amor: a teoria dos jogos
A teoria dos jogos, especialmente o trabalho de John Nash que lhe rendeu o prêmio Nobel, mostrou que é possível um equilíbrio em que mais de um jogador ganha ao mesmo tempo. O equilíbrio de Nash não exige um perdedor. Ele exige apenas que nenhum dos participantes consiga melhorar a própria posição mudando sozinho de estratégia, enquanto o outro mantém a sua.
Há um equívoco profundo em tratar o amor e a relação como um jogo de soma zero, no qual alguém precisa perder para o outro ganhar.
Quando se aplica isso à afetividade, a lógica do “quem entrega menos ganha” ou do “quem mostra vulnerabilidade perde” é uma distorção. Relacionamento tratado como competição trai a própria conta. Alguém pode sair por cima momentaneamente, mas os dois saem com menos. Cooperar, nesse sentido, não é se submeter. É reconhecer que o payoff conjunto — o que se ganha quando os dois jogam de forma alinhada — pode ser maior do que a soma das estratégias individuais de proteção. Esconder a vulnerabilidade para não ser rejeitado, ou ir embora para não descer da cúpula, são duas estratégias de defesa que se alimentam. Nenhuma entrega informação. O ciclo se repete.
A caça ao veado ilustra isso de forma simples: dois caçadores podem escolher caçar sozinhos um coelho pequeno e garantido, ou cooperar para caçar um veado maior, que só é possível se ambos se comprometerem. O medo de que o outro deserte leva os dois a escolher o coelho. O resultado é menor para os dois. No amor, o equivalente é fingir que não se importa para não ser o primeiro a mostrar. O payoff real — a conexão, o reconhecimento, o que sobra quando se tira o teatro — exige que alguém aceite o risco de jogar de forma cooperativa. Não porque o outro mereça, mas porque o equilíbrio que não depende de plateia é o único que não deixa arrependimento.
A informação imperfeita destrói o próprio payoff. Fingir que não se gosta é competir dentro da relação para ficar por cima. Competir gera resistência. A sociedade que trata conexão como corrente ensinou o contrário: mulher fingindo que não quer filho (Às vezes, não quer o filho do homem supostamente ao lado), homem fingindo que não quer ficar (E, talvez não queira ficar com o que está ali se jogando e forçando), os dois caçando coelho e chamando isso de liberdade. A regra de ouro não espera a jogada do outro.
Fazer a própria parte, sem apego à resposta imediata, tira a agonia do não dito. Não é direito forçar quem não está pronto. Também não é obrigação continuar com quem some para não encarar a verdade. Exigir um posicionamento que a própria pessoa nunca deu é conta errada. Falar, sem exigir a volta, acerta a própria.
Quem acredita que a vida é o jogo de quem oferece menos sempre tem um perdedor. Quem não deixa fluir pode sair por cima. Por cima de quê, se a casa ficou vazia? O medo de tudo que poderia ter sido dito e não foi é tão liquido quanto a verdade que se instaura no enfrentamento do medo: assim como a dopamina é liberada pela possibilidade de recompensa, o circuito do medo é atividado pela possibilidade de dano. Quem enfrenta os medos perpassa esse circuito. Alguns chamam de coragem. Outros de racionalização. Como o Lobo no livro da Chapeuzinho Amarelo (Mais uma das lições da minha mãe: ). Porque como diria Bauman, existe um alívio enorme em ver aquilo que mais temíamos se concretizar e sentir a mudança de sentimento e ver o medo se esvaindo na direção da consequencia daquela escolha. Uma escolha que dava medo.
O fim que deixou de ser o meio
Na hora em que a vida material chega ao fim, ninguém entra na competição de quem ganhou a noite ou entrou em mais buracos. O que pesa é a relação, a despedida que não houve, o beijo que não se deu, o sentimento oculto com medo do fora. Não é o “não” que aprisiona.
É o que poderia ter sido e não foi. Parar a própria parte do jogo, independentemente do movimento do outro, é o único equilíbrio que não depende de plateia. A mente fica em paz porque a frase saiu. Nenhum dinheiro paga isso. E nenhum tabuleiro em que os dois saem perdendo merece a volta pro jogo.
E, enquanto as pessoas não começarem a sair do tabuleiro, o sistema se manterá. E chamarão quem fez as escolhas e reconheceu que não era um jogo de dados com resultados aleatórios de sortudo. Sorte no jogo: azar no amor?
Isabel de Fátima Alvim Braga
O amor é intransitivo. Ele não depende de complemento. Ele existe. O resto é o que fazemos com ele — ou com a sua ausência. Quem chegou até aqui já fez a parte que a maioria não faz: permaneceu interessado no que alguém tinha a dizer e tentando entender o que alguém pensava sobre o amor. O restante não depende de milhares de visualizações. Depende apenas de quem decide continuar lendo — e, talvez, reconhecendo.
Referêcias
Livros
- Bauman, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
- Bauman, Zygmunt. Medo líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
- Nash, John. “Equilibrium Points in N-Person Games”. Proceedings of the National Academy of Sciences, 1950.
- Skyrms, Brian. The Stag Hunt and the Evolution of Social Structure. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.
- Axelrod, Robert. The Evolution of Cooperation. New York: Basic Books, 1984.
- Frank, Robert. Passions Within Reason: The Strategic Role of the Emotions. New York: W. W. Norton, 1988.
- Maynard Smith, John. Evolution and the Theory of Games. Cambridge: Cambridge University Press, 1982.
- Hamilton, W. D. “The Genetical Evolution of Social Behaviour”. Journal of Theoretical Biology, 1964.
- Trivers, Robert. “The Evolution of Reciprocal Altruism”. Quarterly Review of Biology, 1971.
- Bittencourt, Chico. Chapeuzinho Amarelo. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979. (ilustrações de Ziraldo)
Artigos e textos citados
- Revista Pàhnorama. “Disfunção erétil: a farmácia vendeu o fim de semana. O país comprou o mês inteiro”. 19 set. 2026.
- Revista Pàhnorama. “A nova pornografia feminina: o alfa, o rei e o bilionário”. 21 set. 2026.
- Medeiros, Martha. Blog (início dos anos 2000). Citação sobre sexo e medicamento.
Músicas e outras referências culturais
- Cazuza. “Exagerado”.
- Rita Lee. Declarações e letras (referência a “Amor é novela. Sexo é bioma” e “sexo é escolha, amor é sorte”).
- Buarque, Chico. Construção (álbum e canção). Rio de Janeiro: Philips, 1971.
- Buarque, Chico. Outras canções e obras relacionadas a afetividade e relações (conforme uso no texto).
