Conversas que envolveram um executivo demitido da Globo expõem, além de questões éticas, a objetificação feminina e a falsa ideia de que aparência, roupas ou liberdade são convites sexuais.
A divulgação de conversas entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e Frederic Kachar, então diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, trouxe à tona questionamentos sobre a ética nas relações entre empresários e dirigentes de veículos de comunicação. O episódio resultou na demissão do executivo, anunciada em 15 de outubro. Entretanto, entre as mensagens reveladas, outro aspecto merece atenção e repúdio: a maneira como mulheres foram reduzidas a seus corpos, sua aparência e sua suposta disponibilidade sexual.
As atrizes Deborah Secco e Monique Alfradique e a apresentadora Sabrina Sato aparecem em diálogos nos quais suas vidas pessoais e seus corpos são objeto de comentários. O conteúdo revela algo que ultrapassa a indiscrição de uma conversa privada. Expõe uma mentalidade machista que ainda considera legítimo transformar mulheres em objetos de avaliação e desejo masculino, independentemente de sua vontade.
O episódio ganha contornos ainda mais preocupantes quando se observa quem participa dessas conversas. Não se trata de desconhecimento sobre a exposição pública ou sobre a responsabilidade das palavras. São homens que ocuparam posições de influência e poder, inseridos em ambientes empresariais e de comunicação nos quais o respeito à imagem e à dignidade das pessoas deveria ser um princípio elementar.
Quando a liberdade feminina é confundida com disponibilidade sexual
Em mensagens referentes ao Baile da Vogue de 2024, Kachar descreveu Sabrina Sato como alguém que estaria “pra jogo” e utilizou a palavra “soltinha”. A expressão, longe de ser inocente, revela como a presença de uma mulher em um evento festivo pode ser interpretada a partir de expectativas masculinas sobre sua sexualidade.
Estar em uma festa, dançar, sorrir, vestir uma roupa ousada ou demonstrar alegria não significa colocar-se à disposição de ninguém. Tampouco estar solteira, manter um relacionamento ou decidir sobre a própria vida afetiva autoriza terceiros a criar narrativas sobre suas intenções e desejos.
A ideia de que uma mulher estaria sexualmente disponível em razão de sua aparência ou comportamento é uma manifestação do machismo cotidiano. Uma interpretação que transforma liberdade em provocação e atribui ao olhar masculino o poder de determinar o significado das escolhas femininas.
O problema não está no desejo, na atração ou na possibilidade de alguém considerar outra pessoa bonita. Está na convicção de que esse interesse autoriza comentários invasivos, especulações sobre intimidade e julgamentos que desconsideram a autonomia da mulher.
O corpo feminino não está em julgamento
Outros trechos das conversas apresentam avaliações depreciativas sobre a aparência de Deborah Secco, incluindo referências sexualizadas ao seu corpo e críticas à fantasia utilizada no evento.O conteúdo evidencia uma contradição frequente no comportamento machista: ao mesmo tempo que a mulher é sexualizada, também é julgada quando sua aparência não corresponde às expectativas de quem a observa.
Como se a maneira de vestir devesse obedecer ao desejo de terceiros, se a função de uma fantasia carnavalesca fosse agradar aos homens e se o corpo feminino precisasse atender a padrões de beleza e sensualidade determinados por espectadores que se colocam na posição de avaliadores.
Uma mulher pode estar inteiramente vestida, usar uma roupa curta ou escolher a nudez em um contexto artístico, profissional ou pessoal. Nenhuma dessas circunstâncias concede a alguém o direito de tocá-la, desrespeitá-la, constrangê-la ou tratá-la como objeto sexual, ferindo sua dignidade.
O corpo feminino não é patrimônio público. A visibilidade de uma artista não anula sua dignidade. Da mesma forma, a exposição voluntária da própria imagem não equivale à autorização para que outras pessoas construam insinuações sobre sua sexualidade. É preciso distinguir admiração de objetificação, atração de desrespeito e liberdade de expressão de uma suposta licença para humilhar.
O machismo que se manifesta nas conversas privadas
Um dos aspectos mais reveladores desse episódio é a naturalidade com que os comentários foram compartilhados. As mensagens apresentam avaliações sobre mulheres como parte de uma conversa aparentemente corriqueira, sem preocupação perceptível com o caráter ofensivo da linguagem utilizada.
Essa postura machista é tão banalizada que comentarios como esse são feitos pelo Whatsapp numa falsa sensação de privacidade onde é possivel falar abertamente, porem sabemos que esse comportamento não é exclusivo de ambos é social, generalizado. Eles são apenas representantes dessa cultura machista e misógina, tida como velada, mas sentida a todo momento pelas mulheres. Velado é o que não se sente na pele.
É justamente nessa normalização que o machismo encontra espaço para se perpetuar. Eles falaram pelo aplicativo, mas em geral essa postura é na família, no bar, no trabalho, onde hajam mulheres que se expressam livremente e homens com essa mentalidade contaminada pela ideia de que a mulher é propriedade do homem.
Isso surge historicamente com a propriedade privada, afinal era importante garantir a herança aos herdeiros legítimos. E a “melhor forma” para isso, claro era: o controle dos corpos das esposa e a imposição da monogamia para elas. Isso não sou eu quem digo é Friederich Engels.
Durante gerações, comentários sobre o corpo feminino foram tratados como brincadeiras masculinas, demonstrações de virilidade ou assuntos próprios de conversas entre homens. Muitas vezes, a crítica a esse comportamento é recebida com acusações de exagero ou falta de senso de humor. Até porque ser homem na sociedade machista que temos, também é falar de forma desrespeitosa sobre as mulheres.
Essa construção da masculinidade prejudica aos homens também, pois quem não a segue também recebe adjetivos pejorativos e alguns relacionados ao feminino como se ser parecido com uma mulher fosse algo negativo. Veja: “mulherzinha”, “afeminado”, “florzinha” e por ai desça a ladeira. Dai a importancia de construir uma masculinidade saudável, mas isso é outro post.
O importante é atentar: A objetificação feminina não começa necessariamente em um ato explícito de violência. Também se manifesta na linguagem, na desqualificação, na insinuação sexual e na crença de que as mulheres existem para atender às expectativas dos homens.
Quando esse comportamento é naturalizado, reforça-se uma cultura na qual a liberdade feminina permanece condicionada à aprovação masculina.
Poder, prestígio e responsabilidade
O envolvimento de um executivo de um importante grupo de comunicação acrescenta outra dimensão ao debate.
Veículos de imprensa têm responsabilidade pública na construção de narrativas, no enfrentamento de preconceitos e na promoção de princípios éticos. Quando alguém em posição de liderança participa de conversas que objetificam mulheres, surge uma questão que ultrapassa sua conduta individual: quais comportamentos são tolerados nos espaços de poder? Além disso, como essa consuta influencia nas escolhas de pautas, abordagens e conteúdos de forma geral que serão produzidos e ajudarão a formar a opinião pública? Onde está a ética nisso tudo?
A nota divulgada pelo Grupo Globo sobre o desligamento de Frederic Kachar destacou a relação inadequada do executivo com um anunciante e reafirmou a independência editorial de seus veículos.
A dimensão jornalística do caso merece investigação e debate próprios. Mas a questão de gênero não pode ser relegada a uma curiosidade secundária diante das demais revelações.
Não basta discutir ética apenas quando estão em jogo interesses comerciais ou a credibilidade de uma empresa. O respeito à dignidade das mulheres também precisa fazer parte dessa discussão.
O prestígio profissional não concede imunidade moral. Pelo contrário, quanto maior a influência de alguém, maior a necessidade de refletir sobre os comportamentos que suas atitudes ajudam a legitimar.
Nenhuma mulher deve satisfação ao olhar masculino
O caso envolvendo Vorcaro e Kachar é uma oportunidade para questionar uma lógica que permanece presente em diferentes ambientes sociais.
Mulheres são julgadas quando usam roupas curtas e quando se cobrem. Quando demonstram sensualidade e quando rejeitam expectativas de beleza. Quando estão solteiras, quando se relacionam e quando escolhem não se relacionar. Quando falam abertamente sobre sexo ou não.
Em todas essas situações, parece persistir uma exigência silenciosa: a de que suas escolhas precisam ser explicadas ou aprovadas por alguém. Essa lógica precisa ser rejeitada.
Deborah Secco, Sabrina Sato e qualquer outra mulher não precisam justificar suas roupas, suas fantasias, seus relacionamentos ou sua maneira de existir para merecer respeito. Suas trajetórias profissionais e suas escolhas pessoais não estão submetidas ao julgamento masculino.
Repudiar comentários machistas e misóginos não significa negar a sexualidade humana. Significa reconhecer que o desejo de uma pessoa não lhe confere autoridade sobre a outra.
Também significa compreender que liberdade feminina não é sinônimo de disponibilidade sexual e que a dignidade de uma mulher não depende do quanto seu comportamento corresponde às expectativas sociais.
O verdadeiro escândalo, portanto, não está somente nas mensagens que vieram a público. Está na mentalidade que elas revelam e na possibilidade de comportamentos semelhantes continuarem sendo reproduzidos, silenciosamente, em diferentes espaços.
Nenhuma mulher precisa estar vestida de determinada maneira para ser respeitada. E nenhuma precisa esconder seu corpo para deixar de ser tratada como objeto.
O respeito não pode depender da roupa, da fama, da idade ou do estado civil. É um direito que não admite negociação.
