Patrick de Carvalho e Edvana Souza
O Oeste de Santa Catarina viveu uma manhã de destruição nesta quarta-feira (4). Um tornado atingiu Xanxerê e provocou danos em diferentes pontos do município. Caminhão e micro-ônibus foram tombados pela força dos ventos, barracões industriais perderam telhados, estruturas metálicas foram retorcidas, concessionárias tiveram vidraças destruídas e centenas de residências sofreram danos.
A gravidade da ocorrência foi confirmada pela Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil de Santa Catarina, após análise de imagens do radar meteorológico de Chapecó. O fenômeno em Xanxerê foi identificado às 10h48, durante a passagem de uma intensa linha de instabilidade pelo Oeste catarinense.

Mas Xanxerê não foi a única cidade atingida por um tornado. A Defesa Civil também confirmou a ocorrência de outro fenômeno em Chapecó, às 10h30. Os dois registros aconteceram com apenas 18 minutos de diferença.
A situação provocou uma mobilização de equipes municipais, bombeiros, Defesa Civil e profissionais responsáveis pela recuperação das estruturas atingidas.
A confirmação do tornado: o que os radares identificaram?
A confirmação do fenômeno não ocorreu apenas pela observação de imagens divulgadas nas redes sociais. A Defesa Civil utilizou uma análise técnica dos dados produzidos pelo radar meteorológico de Chapecó.
No caso de Xanxerê, os equipamentos identificaram dois sinais importantes: detritos levantados pela força dos ventos e uma assinatura de rotação associada à formação de um mesovórtice.
O mesovórtice é uma circulação rotativa de ventos que pode se desenvolver no interior de tempestades intensas. A presença desses sinais, analisados em conjunto, sustentou a identificação do tornado.
Em Chapecó, o procedimento também identificou circulação rotativa e sinais de detritos levantados pela tempestade. As vistorias realizadas posteriormente encontraram telhas e coberturas metálicas arrancadas e retorcidas, além de danos compatíveis com ventos rotacionais.
A Defesa Civil informou que pretende realizar levantamentos com drones para avaliar melhor a extensão das áreas atingidas e a intensidade dos fenômenos.
Um detalhe importante: os registros das estações meteorológicas não representam necessariamente a velocidade máxima dos ventos dentro dos tornados.
Xanxerê: a força do vento tombou veículos na BR-282
Um dos registros mais impressionantes ocorreu nas proximidades da BR-282, nas imediações de um posto da Polícia Rodoviária Federal.
Imagens gravadas por motoristas mostram veículos tombados às margens da rodovia. Um caminhão e um micro-ônibus foram atingidos pela força do vendaval, em uma ocorrência que chamou a atenção pela intensidade dos ventos.

Segundo informações divulgadas pelo Oeste Mais e pela MetSul Meteorologia, a ventania também provocou quedas de árvores, danos em imóveis e destruição de estruturas próximas à rodovia.
O Jornal Razão acrescentou detalhes sobre a dimensão dos prejuízos: uma van e uma carreta foram tombadas, barracões de oficinas mecânicas desabaram e uma estrutura próxima à PRF foi atingida pela queda de um pinheiro.
A cena registrada por motoristas revela a dificuldade de circulação durante a passagem da tempestade. Árvores e galhos caíram sobre ruas e estradas, exigindo trabalhos de desobstrução.
Mais de 250 famílias procuraram lonas para proteger suas casas
O número de residências atingidas revela outra dimensão da ocorrência.
No levantamento regional divulgado às 15h30, mais de 200 residências haviam sido atingidas em Xanxerê. Entretanto, uma atualização publicada pelo Oeste Mais informou que mais de 250 famílias já haviam procurado o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil Municipal para conseguir lonas destinadas à proteção provisória dos telhados.
Os dois números representam levantamentos diferentes: um contabiliza residências afetadas e atendidas até determinado horário; o outro registra famílias que procuraram assistência.
Para atender à população, foram disponibilizados 22 rolos de lona, sendo 17 fornecidos pela Defesa Civil Regional e cinco pela Defesa Civil Municipal.
As equipes continuaram trabalhando no atendimento aos moradores e no levantamento dos prejuízos.
Indústrias, concessionárias e estabelecimentos comerciais também foram atingidos
Os danos não ficaram restritos às residências.
O Jornal Razão registrou imagens de barracões industriais com telhados arrancados e paredes comprometidas. Em algumas estruturas, os escombros atingiram caminhões e máquinas.
Uma unidade da Seara Alimentos também teve parte de sua estrutura superior danificada, com elementos metálicos retorcidos pela força dos ventos.
Concessionárias de veículos sofreram prejuízos. Em um dos estabelecimentos, o forro desabou sobre automóveis expostos no salão, enquanto vidraças foram estilhaçadas. Em outro ponto da cidade, uma estrutura metálica caiu sobre veículos estacionados.
Os relatos publicados pelo veículo também descrevem a destruição de barracões de oficinas mecânicas nas proximidades da BR-282.
O conjunto de imagens e informações mostra que o fenômeno atingiu áreas residenciais, comerciais e industriais, ampliando os impactos econômicos para o município.
Escolas e equipamentos públicos também sofreram danos
A estrutura pública de Xanxerê não passou ilesa pelo temporal.
Segundo informações divulgadas pela Prefeitura e reproduzidas pelo Oeste Mais, algumas escolas municipais tiveram destelhamentos pontuais.
Dois Centros de Educação Infantil Municipal (Cemeis) tiveram seus portões de acesso derrubados pela força do vento.
Um dos espaços com danos mais significativos foi o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), localizado no bairro Santa Cruz.
As atividades foram suspensas para avaliação e realização dos reparos necessários.
A secretária municipal de Assistência Social, Fabiana Mascarello, informou que os alunos deverão ser atendidos em outro endereço a partir da semana seguinte. O novo local seria comunicado posteriormente pela secretaria.
O quartel do Corpo de Bombeiros também registrou danos, de acordo com o levantamento da Defesa Civil Regional.
Os bairros e localidades atingidos em Xanxerê
A ocorrência alcançou diferentes áreas do município.
Entre as localidades rurais e bairros mencionados no levantamento da Defesa Civil Regional estão:
- Linha Serrinha;
- São Paulo;
- Três Pontes;
- Santa Cruz;
- Santos Dias;
- Vista Alegre;
- São Romeiro;
- Bela Vista;
- João Winckler;
- Matinho;
- Sufiatti;
- Nossa Senhora de Fátima;
- Colatto.
As equipes municipais e regionais continuaram realizando vistorias e atendendo às famílias.

Os 14 municípios da Regional Alto Irani registraram estragos
A situação foi ainda mais abrangente. Segundo a Defesa Civil Regional de Xanxerê, os 14 municípios atendidos pela Coordenadoria Regional de Proteção e Defesa Civil do Alto Irani registraram danos provocados pela passagem da linha de instabilidade.
Além de Xanxerê, as ocorrências foram distribuídas da seguinte maneira:
Xaxim: aproximadamente 53 residências tiveram danos parciais. Dois estabelecimentos de ensino, o quartel da Polícia Militar e um barracão no Centro de Eventos também foram atingidos. Houve interrupção no fornecimento de energia elétrica.
Ponte Serrada: cerca de 30 residências foram afetadas pelos fortes ventos. O levantamento dos prejuízos continuava em andamento.
Bom Jesus: seis residências foram destelhadas. Também houve falta de energia elétrica e distribuição de lonas.
Lajeado Grande: cinco residências foram atingidas. Uma delas sofreu danos após ser atingida por uma árvore na Linha Guavirova. Estradas foram interditadas e houve cedimento parcial do asfalto na ligação com Marema.
Marema: cinco residências, um estabelecimento comercial e o prédio da antiga Câmara de Vereadores sofreram destelhamentos. Árvores também caíram na área rural.
Ouro Verde: cinco residências tiveram danos parciais nos telhados. As ocorrências foram identificadas na Linha Formigas, nas ruas Divaldino Devaferi e Emílio Ribeiro e no bairro Jorge Alves de Quadra.
Ipuaçu: três residências foram destelhadas na Aldeia Pinhalzinho. O município também registrou interrupção no fornecimento de energia elétrica.
Passos Maia: três residências sofreram destelhamentos. Um poste caiu na SC-365 e houve falta de energia.
Entre Rios: duas residências foram destelhadas no Centro. Também foram registradas interrupções no fornecimento de energia elétrica.
São Domingos: uma residência foi atingida pela queda de um eucalipto. O prédio da Assistência Social também sofreu destelhamento, e a prefeitura disponibilizou lonas aos moradores.
Abelardo Luz: houve danos em coberturas e quedas de árvores nos bairros São Pedro e Santa Luzia e no Assentamento Nova Aurora. As famílias atingidas receberam lonas. O município informou não haver registros de feridos, desalojados ou desabrigados.
Faxinal dos Guedes: foram relatados danos pontuais, quedas de árvores e interrupções no fornecimento de energia elétrica.
Vargeão: residências e barracões agrícolas foram destelhados em diferentes localidades. Na Linha Ressaca, uma residência sofreu destelhamento quase total, afetando duas famílias, que foram acolhidas por parentes. Na Linha Gramas, eucaliptos caíram sobre a rede elétrica e a rodovia. O fornecimento de energia foi restabelecido por volta das 14h.
Os dados foram divulgados pela Defesa Civil Regional do Alto Irani e publicados pelo Jornal Extra SC e pelo Oeste Mais.
Chapecó: segundo tornado e destruição no aeroporto
Enquanto Xanxerê contabilizava os prejuízos, Chapecó também enfrentava os impactos de um fenômeno semelhante.
O tornado foi identificado por volta das 10h30, antes da ocorrência registrada em Xanxerê.
A cidade teve danos em diferentes bairros, entre eles Quedas do Palmital, Palmital, Palmital dos Fundos, Seminário e Universitário.
As vistorias encontraram telhas e coberturas metálicas arrancadas e retorcidas.
O Aeroporto Serafim Enoss Bertaso também foi atingido. Reportagens do Jornal Razão e da CNN Brasil relataram danos na estrutura do terminal, nos hangares e em áreas de circulação.
Segundo o Jornal Razão, a estrutura metálica da entrada do terminal foi arrancada, vidraças foram destruídas e aeronaves de pequeno porte ficaram sob escombros.
Um avião da Azul que estava na pista para decolar precisou aguardar a passagem do vento e retornou ao pátio. Os passageiros permaneceram na aeronave até que fosse possível desembarcar com segurança.
Dois funcionários do aeroporto sofreram ferimentos leves, segundo o mesmo veículo.
A Prefeitura informou, conforme a publicação, que os voos permaneceriam cancelados até sexta-feira (6), enquanto as estruturas eram avaliadas.
Chapecó registrou ventos superiores a 120 km/h
Os dados meteorológicos ajudam a compreender a dimensão da tempestade.
Em Chapecó, a estação da Defesa Civil registrou rajadas de 93 km/h. Já uma estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), instalada em outro ponto do município, registrou 126 km/h.
O Oeste Mais também publicou dados da empresa PDRadar, responsável pelo monitoramento meteorológico contratado pelo município, indicando uma rajada de 126,4 km/h. Na estação Água Amarela, a velocidade chegou a 106,7 km/h.
Em Palmitos, outra cidade atingida pela instabilidade, foi registrada uma rajada de 127,8 km/h.
Em Xanxerê, a estação da Defesa Civil registrou 80 km/h. Esse dado, entretanto, não deve ser interpretado como a velocidade máxima do tornado, já que a estação pode não ter registrado os ventos mais intensos do fenômeno.
Santa Catarina: o temporal atingiu dezenas de municípios
Os dois tornados fazem parte de um episódio meteorológico mais amplo, que começou no domingo (1º) e atingiu diferentes regiões catarinenses com chuva intensa, granizo e vendavais.
Os números divulgados durante o dia apresentaram crescimento significativo.
Em um primeiro balanço, a Defesa Civil contabilizava 58 municípios atingidos e 1.438 habitações afetadas.
Na atualização publicada pela CNN Brasil às 20h16 de quarta-feira, o número já havia subido para 86 municípios e 6.373 residências afetadas.
A mesma reportagem informou que 47 mil pessoas haviam sido atingidas, 24 ficaram feridas e 86 estabelecimentos de ensino e 20 unidades de saúde sofreram danos.
Mais de 200 bombeiros trabalhavam no atendimento às ocorrências em todo o estado.
A CNN também informou que uma pessoa morreu em Rio Negrinho após o desabamento da cobertura de um posto de combustíveis. Essa ocorrência foi relacionada ao temporal estadual, não aos tornados de Xanxerê e Chapecó.
Quatro municípios decretaram emergência, segundo o balanço da CNN
Entre as cidades que tiveram decretada situação de emergência estavam Anita Garibaldi, Fraiburgo, Paraíso e Zortéa, segundo o levantamento estadual reproduzido pela CNN Brasil e pela Band.
Em Fraiburgo, o temporal acompanhado de granizo provocou quedas de árvores, postes e estruturas metálicas. Foram contabilizadas 891 residências afetadas.
Em Paraíso, 130 habitações foram atingidas, além de 16 vias obstruídas.
Em Anita Garibaldi, o granizo danificou o hospital, escolas e o Centro de Referência de Assistência Social. Duas unidades escolares suspenderam as aulas.
Em Zortéa, houve alagamentos, enxurradas e destelhamentos.
Atenção à atualização dos números: a Agência Brasil publicou, às 19h55, um balanço diferente, com 4.441 casas afetadas, 13 municípios em situação de emergência, 34 pessoas desabrigadas e 24 desalojadas. Como os levantamentos apresentam diferenças, não é correto somar ou tratar esses números como se fossem um único balanço consolidado. A atualização estadual mais abrangente encontrada pela reportagem foi a publicada pela CNN às 20h16.
O alerta foi emitido antes da chegada dos tornados?
Sim. Segundo o meteorologista-chefe da Defesa Civil catarinense, Felipe Theodorovitz, os avisos de tempestades foram emitidos aproximadamente 15 minutos antes das ocorrências de tornado em Chapecó e Xanxerê.
A informação foi divulgada pela CNN Brasil e pela Band.
O alerta permitiu que a população recebesse antecipadamente a orientação para procurar abrigo em locais seguros.
A recomendação da Defesa Civil é permanecer em construções fechadas, preferencialmente em cômodos internos, longe de janelas e portas de vidro.
Também é necessário evitar veículos, árvores, postes e construções frágeis durante a passagem de tempestades severas.
Xanxerê já enfrentou outro tornado em sua história
A cidade também tem um episódio anterior de grande impacto relacionado a esse tipo de fenômeno.

Segundo o Jornal Razão, Xanxerê foi atingida por um tornado em 20 de abril de 2015. Naquela ocasião, mais de duas mil residências foram atingidas, conforme informações atribuídas à Defesa Civil pelo veículo.
A nova ocorrência reacende a preocupação com a vulnerabilidade das construções e a necessidade de preparação da população diante de eventos meteorológicos severos.
O que acontece agora?
A Defesa Civil Regional, as equipes municipais e os órgãos estaduais permanecem mobilizados para atendimento à população, retirada de árvores, desobstrução de vias e avaliação dos danos.
Em Xanxerê, a Prefeitura informou que a quantidade de ocorrências era elevada e que não seria possível atender todos os pontos ainda na quarta-feira.
A administração municipal também pediu a colaboração de moradores que tivessem condições de auxiliar na limpeza de galhos e outros materiais, desde que não houvesse risco à segurança.
O levantamento técnico com drones anunciado pela Defesa Civil deverá contribuir para dimensionar a extensão dos fenômenos e avaliar suas características.
Até o fechamento desta reportagem, não havia classificação oficial divulgada para a intensidade dos tornados de Xanxerê e Chapecó na escala Fujita aprimorada (EF0 a EF5).
A ausência dessa classificação não diminui a gravidade dos danos registrados. Ela significa apenas que a avaliação técnica específica ainda não havia sido divulgada.
Uma região inteira diante dos impactos da força da natureza
O que aconteceu em Xanxerê não foi apenas um episódio de ventania. A confirmação de um tornado, somada à ocorrência de outro fenômeno em Chapecó e aos danos registrados em dezenas de municípios, demonstra a dimensão do sistema de tempestades que atingiu Santa Catarina.
Residências, indústrias, estabelecimentos comerciais, escolas, rodovias e estruturas públicas foram atingidos.
Para centenas de famílias, o desafio imediato é recuperar o que foi danificado e proteger o que restou.
A reconstrução exigirá assistência, avaliação estrutural, recursos e acompanhamento das autoridades.
A Revista Pàhnorama continuará acompanhando os desdobramentos, os levantamentos oficiais e as medidas de assistência às famílias atingidas.
