O avanço da Mpox voltou a colocar a saúde pública do Rio de Janeiro em evidência. O estado já contabiliza 211 casos confirmados da doença em 2026, número superior aos 119 registros de todo o ano de 2025. Na capital fluminense, a situação também exige atenção: são 167 confirmações até 29 de outubro, contra 94 durante todo o ano passado.
Os números revelam uma mudança importante no cenário epidemiológico fluminense. Embora não haja registro de mortes no estado nos períodos comparados, o crescimento das confirmações, a concentração de diagnósticos na capital e as informações sobre pacientes hospitalizados reforçam a necessidade de acompanhamento permanente das autoridades sanitárias.
Segundo levantamento publicado pelo portal iG em 2 de novembro, com dados do Centro de Informações Estratégicas e Resposta de Vigilância em Saúde do Rio de Janeiro (CIEVS-RJ), outros 119 casos suspeitos permaneciam sob investigação no estado. A mesma publicação informou que dez pessoas estavam internadas na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Manguinhos, para tratamento da infecção.
No cenário nacional, o Brasil havia alcançado 665 casos confirmados até o encerramento de outubro, de acordo com os dados do Ministério da Saúde citados pela reportagem. São Paulo liderava os registros, com 268 confirmações, enquanto o Rio de Janeiro ocupava a segunda posição, com 211.
Os dados levantam questões importantes: por que os diagnósticos aumentaram no Rio? Quais regiões concentram a circulação do vírus? A rede pública dispõe de estrutura suficiente para atender os pacientes? E como está a disponibilidade de vacinas para os grupos prioritários?
Rio de Janeiro supera em menos de um ano o total de confirmações de 2025
O balanço divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro mostra que a Mpox continua circulando no território fluminense e que os registros de 2026 já ultrapassaram os do ano anterior.
Em 2025, o estado contabilizou 492 notificações e 117 casos confirmados, sem mortes. Em 2024, foram 1.057 notificações e 328 confirmações, também sem óbitos.
Já em 2026, até 1º de novembro, foram 211 confirmações. O resultado representa aproximadamente 77,3% a mais que o total de 2025, mesmo antes do encerramento do ano.
A evolução histórica estadual é a seguinte:
| Ano | Notificações | Casos confirmados | Óbitos |
|---|---|---|---|
| 2024 | 1.057 | 328 | 0 |
| 2025 | 492 | 117 | 0 |
| 2026, até 1º/11 | Não consolidado neste recorte | 211 | 0 |
Os dados de 2024 e 2025 foram divulgados pela própria Secretaria Estadual de Saúde. O número de 2026 foi informado em levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, com base nos dados estaduais.
A comparação demonstra que o número de confirmações cresceu, mas não permite, isoladamente, concluir qual é a causa desse aumento. Para isso, são necessários dados sobre testagem, distribuição territorial, perfil dos pacientes e investigação das cadeias de transmissão.
Capital fluminense concentra 167 casos confirmados
A cidade do Rio de Janeiro concentra uma parcela expressiva das confirmações estaduais.
De acordo com o painel epidemiológico municipal, atualizado até 29 de outubro, foram registrados 167 casos confirmados em 2026. Em todo o ano de 2025, haviam sido 94.
Um dos períodos que mais chamam a atenção é setembro e outubro. Segundo dados do Observatório Epidemiológico da Prefeitura do Rio, foram 45 confirmações em setembro e outras 29 em outubro, totalizando 74 casos nos dois meses.
No mesmo intervalo de 2025, haviam sido registrados dez casos.
| Período | Casos confirmados |
|---|---|
| Setembro de 2026 | 45 |
| Outubro de 2026 | 29 |
| Setembro e outubro de 2026 | 74 |
| Mesmo período de 2025 | 10 |
O resultado representa um volume 7,4 vezes superior ao registrado nos mesmos meses do ano anterior.
Setembro também foi apontado como o mês com maior número de diagnósticos da doença na capital desde o início de 2025.
A concentração dos registros na cidade torna importante a divulgação de informações territorializadas, incluindo distribuição por bairros, faixa etária, sexo, evolução clínica e situação dos pacientes.
Brasil registra 665 casos de Mpox em 2026
O avanço da doença não se restringe ao território fluminense.
Segundo balanço divulgado em 2 de novembro pelo portal iG, com informações atribuídas ao Ministério da Saúde, o Brasil contabilizou 665 casos confirmados até o final de outubro.
A distribuição dos estados com maior número de registros era:
| Estado | Casos confirmados em 2026 |
|---|---|
| São Paulo | 268 |
| Rio de Janeiro | 211 |
| Demais estados somados | 186 |
| Brasil | 665 |
São Paulo e Rio de Janeiro, juntos, respondiam por aproximadamente 72% das confirmações nacionais desse levantamento.
O dado coloca o Sudeste no centro da atenção epidemiológica, embora seja necessário observar também a situação das demais regiões.
A comparação nacional precisa considerar a data de atualização das bases. O Portal de Dados Abertos do SUS disponibiliza arquivos do e-SUS Sinan para consulta e download, mas informa que os arquivos específicos de Mpox tinham atualização até 10 de setembro de 2026. Portanto, o balanço nacional de outubro deve ser identificado como levantamento divulgado pela imprensa com base nos dados ministeriais, e não como uma extração independente dessa versão do arquivo.
Dez pacientes internados na Fiocruz: o que se sabe?
Outro dado que merece atenção é a informação sobre internações.
Reportagem publicada pelo iG em 2 de novembro informou que dez pessoas estavam internadas na Fundação Oswaldo Cruz, em Manguinhos, para tratamento de Mpox.
O jornal O Dia também publicou, em 30 de outubro, informação sobre dez pacientes internados no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, unidade da Fiocruz.
A informação indica pressão sobre serviços especializados, mas não permite afirmar que todos os pacientes apresentavam quadros graves ou que necessitavam de terapia intensiva. Também não deve ser confundida com o total de internações de todo o estado.
A divulgação de dados oficiais sobre hospitalizações, gravidade dos casos, evolução clínica e ocupação de leitos ajudaria a dimensionar melhor o impacto da doença na rede de saúde.
Falta de vacina na capital também entra no debate
A disponibilidade de imunizantes é outro ponto importante da investigação.
Em reportagem publicada em 30 de outubro, O Dia informou que a cidade do Rio de Janeiro estava sem doses da vacina contra a Mpox naquele momento.
A publicação também relatou que o médico sanitarista e deputado federal Daniel Soranz cobrou do Ministério da Saúde a ampliação da cobertura vacinal para pessoas com maior risco de desenvolver formas graves da doença.
Segundo a reportagem, o Ministério da Saúde foi questionado sobre o estoque de vacinas no Rio, mas não havia respondido até o fechamento da publicação.
É importante esclarecer que a vacina contra a Mpox não integra uma campanha universal para toda a população. O SUS trabalha com critérios específicos de elegibilidade e priorização, definidos pelo Ministério da Saúde.
Entre os grupos contemplados estão pessoas vivendo com HIV/Aids com imunossupressão importante, profissionais de laboratório que trabalham diretamente com Orthopoxvirus e pessoas que tiveram contato de médio ou alto risco com casos suspeitos ou confirmados, após avaliação da vigilância epidemiológica.
A situação do estoque no município precisa ser esclarecida oficialmente, incluindo a quantidade de doses recebidas, distribuídas, aplicadas e disponíveis para os grupos elegíveis.
O que é Mpox e como ocorre a transmissão?
A Mpox é uma doença infecciosa causada pelo vírus MPXV, pertencente ao gênero Orthopoxvirus e à família Poxviridae.
A Organização Mundial da Saúde adotou a denominação Mpox para substituir o termo monkeypox, anteriormente traduzido como varíola dos macacos. A mudança buscou reduzir o estigma associado à nomenclatura antiga.
A transmissão entre pessoas ocorre principalmente pelo contato direto com lesões na pele ou nas mucosas de indivíduos infectados.
Também pode acontecer por meio de:
- Contato com fluidos corporais e secreções das lesões;
- Contato íntimo ou sexual com pessoas infectadas;
- Contato próximo e prolongado com secreções respiratórias;
- Compartilhamento de roupas, toalhas, lençóis e outros objetos contaminados;
- Contato com animais infectados.
A transmissão pode ocorrer desde o início dos sintomas até que todas as lesões estejam completamente cicatrizadas e uma nova camada de pele tenha se formado.
Sintomas da Mpox: sinais que merecem atenção
Os sintomas podem variar de pessoa para pessoa. Entre as manifestações mais frequentes estão:
- Lesões ou erupções na pele;
- Febre;
- Dor de cabeça;
- Dores musculares;
- Dor nas costas;
- Calafrios;
- Fraqueza;
- Aumento dos linfonodos, popularmente conhecidos como ínguas.
As lesões podem surgir no rosto, nas mãos, nos pés, na boca, na região genital e na região anal. Em alguns pacientes, podem aparecer poucas lesões, sem febre ou outros sintomas sistêmicos.
O período de incubação costuma variar de três a 16 dias, podendo chegar a 21 dias.
A doença geralmente evolui para recuperação entre duas e quatro semanas, mas pode provocar complicações, especialmente em pessoas com comprometimento importante do sistema imunológico.
A confirmação diagnóstica é feita principalmente por exame molecular, como o PCR, utilizando material coletado das lesões.
Quem apresenta maior risco de complicações?
Embora a maioria dos casos apresente evolução leve ou moderada, determinados grupos precisam de atenção especial.
Entre eles estão:
- Pessoas vivendo com HIV/Aids com imunossupressão importante;
- Gestantes;
- Crianças;
- Idosos;
- Pessoas transplantadas;
- Pacientes em tratamento oncológico ou com outras condições que comprometam a imunidade.
O acompanhamento médico é fundamental para identificar precocemente possíveis complicações e orientar o tratamento adequado.
Existe tratamento para Mpox?
Atualmente, não há medicamento específico amplamente aprovado e disponível no Brasil para tratar todos os casos de Mpox.
O atendimento é baseado no controle dos sintomas, no alívio da dor, nos cuidados com as lesões, na hidratação e na prevenção ou tratamento de complicações.
A maioria dos pacientes apresenta recuperação espontânea, mas pessoas com maior vulnerabilidade precisam de avaliação individualizada.
O isolamento e as medidas de prevenção devem ser mantidos conforme orientação dos profissionais de saúde, até que todas as lesões estejam cicatrizadas.
Como prevenir a doença?
As principais recomendações do Ministério da Saúde incluem:
- Evitar contato direto com lesões de pessoas com suspeita ou confirmação de Mpox.
- Não compartilhar toalhas, roupas, lençóis e objetos pessoais.
- Higienizar frequentemente as mãos com água e sabão ou álcool em gel.
- Procurar atendimento de saúde diante de lesões suspeitas, principalmente quando acompanhadas de febre ou ínguas.
- Evitar contato físico próximo até receber orientação médica.
- Seguir as recomendações de isolamento quando houver confirmação da doença.
Pessoas que tiveram contato próximo com casos suspeitos ou confirmados devem procurar orientação dos serviços de saúde para avaliação do risco e das medidas necessárias.
O que dizem as autoridades e o que ainda precisa ser esclarecido?
O crescimento das confirmações no Rio exige transparência e atualização permanente das informações epidemiológicas.
A Secretaria Estadual de Saúde informou à imprensa que acompanha a evolução do cenário. Entretanto, segundo a Folha de S.Paulo, a pasta não respondeu aos questionamentos sobre as hipóteses que poderiam explicar o aumento dos registros.
Também permanecem questões relevantes sobre a disponibilidade de vacinas, a distribuição dos casos por município, a capacidade de atendimento e a situação dos pacientes internados.
A Revista Pàhnorama considera fundamental que as autoridades disponibilizem dados claros, atualizados e acessíveis à população.
A informação epidemiológica não deve ficar restrita aos profissionais de saúde ou aos órgãos governamentais. O acesso público aos números permite que a sociedade compreenda a situação, adote medidas preventivas e acompanhe a atuação do poder público.
Onde consultar os dados oficiais sobre Mpox?
Para acompanhar a evolução da doença, consultar boletins e acessar informações atualizadas, os leitores podem utilizar os seguintes canais:
1. Ministério da Saúde
Página oficial sobre a Mpox, com informações sobre transmissão, sintomas, diagnóstico, tratamento, vacinação e orientações preventivas.
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/m/mpox
2. Portal de Dados Abertos do SUS
Disponibiliza arquivos do e-SUS Sinan com dados de Mpox por ano, permitindo consultas e análises epidemiológicas.
https://dadosabertos.saude.gov.br/dataset/mpox
3. EpiRio, Observatório Epidemiológico da Prefeitura do Rio de Janeiro
Painel municipal com dados de casos notificados, confirmados, suspeitos e descartados de Mpox.
Página de painéis e arquivos epidemiológicos:
https://epirio.svs.rio.br/paineis/mpox
4. Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro
Canal oficial para acompanhar comunicados, orientações e balanços epidemiológicos estaduais.
Balanço estadual de 25 de fevereiro de 2026:
https://www.rj.gov.br/saude/node/3878
5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
Nota Técnica nº 10/2026 sobre Mpox e vigilância sanitária.
A população precisa de informação, prevenção e transparência
Os números de 2026 mostram que a Mpox continua circulando no Brasil e merece atenção especial no Rio de Janeiro. O estado já ultrapassou o total de confirmações de 2025, enquanto a capital concentra uma parcela expressiva dos registros.
Não se trata de provocar pânico, mas de reconhecer a importância da vigilância epidemiológica, da prevenção e da assistência adequada.
A população tem direito de saber quantos casos estão sendo registrados, onde estão concentrados, quantas pessoas precisam de internação e quais medidas estão sendo adotadas para conter a transmissão.
Em saúde pública, informação confiável também é uma forma de proteção.
A Revista Pàhnorama seguirá acompanhando os dados oficiais e cobrando transparência das autoridades responsáveis pela vigilância e pelo atendimento à população.
