Jeane Francisco
O Brasil enfrenta um alerta importante de saúde pública. O acidente vascular cerebral (AVC) provocou 50.424 mortes e 182.253 internações nos primeiros sete meses de 2026, segundo os dados do DATASUS citados pela Rede Brasil AVC. Os números equivalem a uma média de aproximadamente 238 mortes e 860 internações por dia, um cenário que evidencia a dimensão da doença e a importância do diagnóstico e do atendimento rápidos.
O problema não se restringe à população idosa. Embora o risco de AVC aumente com a idade, os registros de internações entre adultos jovens também apresentam crescimento, reforçando a necessidade de ampliar a conscientização sobre os sintomas, os fatores de risco e as possibilidades de prevenção.
O alerta ganha destaque em 29 de outubro, data do Dia Mundial do AVC. A campanha internacional, promovida pela World Stroke Organization e reforçada no Brasil pela Rede Brasil AVC, chama a atenção para uma questão decisiva: reconhecer os sinais e buscar atendimento de emergência sem demora pode fazer diferença na sobrevivência e na recuperação do paciente.
Internações por AVC cresceram 23,6% em cinco anos
Os dados apresentados pela Rede Brasil AVC mostram que as internações por acidente vascular cerebral passaram de 236.930, em 2020, para 292.930, em 2025, um aumento de 23,6%.
Entre pessoas de 15 a 49 anos, o crescimento também preocupa. No mesmo intervalo, os registros passaram de 34.896 para 40.788 internações, uma elevação de 16,9%.
Outro levantamento citado no material, considerando a faixa etária de 14 a 50 anos, aponta crescimento praticamente contínuo entre 2021 e 2024. Foram 36.841 internações em 2021, 39.724 em 2022, 41.646 em 2023 e 42.269 em 2024.
Os recortes etários apresentados são diferentes e, por isso, devem ser interpretados separadamente. Em conjunto, porém, os números reforçam a importância de não associar o AVC exclusivamente ao envelhecimento.
Segundo a neurologista Sheila Martins, presidente da Rede Brasil AVC, muitas pessoas jovens não se consideram vulneráveis à doença e podem demorar a identificar os sintomas ou procurar atendimento.
O que é um AVC e quais são os principais tipos?
O acidente vascular cerebral acontece quando o fluxo sanguíneo em uma região do cérebro é interrompido ou quando um vaso sanguíneo se rompe. A falta de oxigênio e nutrientes pode provocar lesões nas células cerebrais e comprometer funções motoras, cognitivas, visuais e da fala.
Existem dois tipos principais.
AVC isquêmico: corresponde a cerca de 85% dos casos. Ocorre quando uma artéria é obstruída, impedindo a circulação de sangue para determinada região cerebral. A obstrução pode estar relacionada a um coágulo ou a uma placa de gordura.
AVC hemorrágico: representa aproximadamente 15% dos casos. Acontece quando um vaso sanguíneo se rompe, provocando sangramento no tecido cerebral ou na superfície do cérebro. Esse tipo apresenta maior risco de morte.
Os dois exigem atendimento médico imediato. Como os tratamentos dependem do tipo de AVC e das condições do paciente, não é possível determinar a conduta adequada sem avaliação médica e exames.
Como reconhecer os sinais de AVC
Um dos principais desafios é identificar os sintomas rapidamente. Alterações súbitas podem ser confundidas com indisposição, enxaqueca ou outros problemas, especialmente quando acontecem em pessoas jovens.
Entre os sinais de alerta estão:
- Fraqueza ou formigamento na face, no braço ou na perna, principalmente de um lado do corpo.
- Boca torta ou assimetria facial ao sorrir.
- Dificuldade para falar, fala enrolada ou dificuldade para compreender o que é dito.
- Alterações repentinas da visão em um ou nos dois olhos.
- Perda de equilíbrio, tontura, dificuldade de coordenação ou alteração na maneira de caminhar.
- Dor de cabeça súbita e intensa, sem causa aparente.
A Rede Brasil AVC destaca a estratégia “VÁ De SAMU” como recurso para ajudar a reconhecer os sinais:
VÁ, de visão alterada: observe se houve mudança súbita na visão.
D, de desequilíbrio: perceba se a pessoa apresenta perda repentina de equilíbrio ou coordenação.
S, de sorria: peça que a pessoa sorria e observe se um lado da boca está caído.
A, de abrace: peça que levante os dois braços e verifique se um deles apresenta fraqueza.
M, de mensagem ou música: peça que fale uma frase e observe se há dificuldade ou alteração na fala.
U, de urgente: diante de qualquer sinal suspeito, ligue imediatamente para o SAMU, pelo número 192.
Não espere todos os sintomas aparecerem. Também não aguarde uma melhora espontânea. A suspeita de AVC é uma emergência médica, mesmo quando os sinais desaparecem depois de alguns minutos.
Por que o AVC também preocupa entre os jovens?
O crescimento das internações entre adultos jovens chama a atenção para fatores de risco que podem estar presentes antes mesmo do aparecimento de sintomas.
Entre eles estão hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, doenças cardíacas não diagnosticadas e histórico familiar. O uso de anticoncepcionais associado ao tabagismo também é apontado no material da Rede Brasil AVC como uma combinação que merece atenção.
Hábitos como sedentarismo, alimentação inadequada, consumo excessivo de álcool, uso de drogas ilícitas e sono insuficiente podem contribuir para o aumento do risco cardiovascular.
Outro obstáculo é o atraso no diagnóstico. Como o AVC costuma ser associado a pessoas mais velhas, sintomas em pacientes jovens podem ser confundidos com outras condições, retardando o atendimento.
As consequências podem se estender por muitos anos. Além das limitações físicas, o AVC pode afetar memória, linguagem, autonomia, vida social, estudos e atividade profissional. Para quem está em idade produtiva, as sequelas também podem alterar a rotina e a renda de toda a família.
Prevenção começa com o controle dos fatores de risco
Segundo a Rede Brasil AVC, entre 80% e 90% dos casos estão associados a fatores de risco potencialmente modificáveis. Isso não significa que todos os episódios possam ser evitados, mas indica que a prevenção tem papel importante na redução do risco.
Entre as medidas recomendadas estão:
- Acompanhar e controlar a pressão arterial.
- Monitorar diabetes e colesterol.
- Investigar e tratar alterações do ritmo cardíaco, como a fibrilação atrial.
- Não fumar.
- Praticar atividade física regularmente, conforme as condições individuais.
- Manter uma alimentação equilibrada.
- Evitar a obesidade e o consumo excessivo de álcool.
- Realizar acompanhamento médico e seguir os tratamentos prescritos.
A prevenção não substitui o reconhecimento dos sintomas. Mesmo pessoas que cuidam da saúde podem sofrer um AVC e precisam de atendimento imediato diante de sinais suspeitos.
Tratamento do AVC no SUS: ampliar o acesso é parte do desafio
Além da prevenção, o acesso ao tratamento representa um ponto central no enfrentamento da doença. De acordo com o material divulgado pela Rede Brasil AVC, o SUS registrou R$ 216,1 milhões em gastos com internações e tratamento hospitalar relacionados ao AVC nos primeiros sete meses de 2026.
O texto também destaca avanços anunciados em setembro, incluindo uma lei voltada à ampliação da oferta de medicamentos trombolíticos na rede de urgência e emergência e a criação, pelo Ministério da Saúde, de um comitê para acompanhar a implementação das linhas de cuidado de doenças cerebrovasculares e cardiovasculares tempo-dependentes.
Os trombolíticos podem ser utilizados em pacientes selecionados com AVC isquêmico para dissolver o coágulo que bloqueia a circulação. A indicação depende de avaliação clínica, exames, tempo transcorrido desde o início dos sintomas e critérios médicos. Esses medicamentos não são apropriados para todos os pacientes, especialmente porque o AVC hemorrágico exige outra abordagem.
A Rede Brasil AVC afirma trabalhar há 18 anos em parceria com o Ministério da Saúde para fortalecer a assistência, a prevenção, a reabilitação e a organização do atendimento na rede pública. Entre as iniciativas citadas está a elaboração de um diagnóstico da estrutura disponível no país, com identificação de lacunas assistenciais e planejamento para ampliar o atendimento.
O desafio é garantir que o paciente seja reconhecido, encaminhado e tratado com rapidez, independentemente do município em que vive. A disponibilidade de serviços especializados, equipes capacitadas e fluxos de emergência bem organizados influencia as possibilidades de recuperação.
Informação rápida pode salvar vidas
Os números apresentados para 2026 dimensionam o impacto do AVC no Brasil, mas a resposta à doença não depende apenas de medicamentos e hospitais. Informação, prevenção e reconhecimento dos sinais também são partes fundamentais desse cuidado.
Diante de uma suspeita, a orientação é objetiva: ligue para o SAMU, pelo 192, e informe os sintomas e o horário em que começaram, se conhecido. Não ofereça medicamentos por conta própria e não espere para ver se a pessoa melhora.
No AVC, tempo é cérebro. Quanto mais rápido o paciente recebe avaliação e tratamento adequados, maiores podem ser as possibilidades de reduzir danos e sequelas.
Serviço: Dia Mundial do AVC, 29 de outubro. Em caso de suspeita de acidente vascular cerebral, ligue para o SAMU, no número 192.
Fonte dos dados e das informações institucionais: material divulgado pela Rede Brasil AVC, com números atribuídos ao DATASUS e ao Ministério da Saúde.
