Violências nem sempre precisam de gritos para se impor. Elas sobrevivem em segredos, convenções sociais, ameaças veladas e acordos silenciosos que determinam quem pode amar, quem precisa esconder a própria identidade e quem tem o poder de decidir o que será revelado. É nesse território de tensão que se desenvolve “Tom na Fazenda”, espetáculo que chega ao Teatro da Ilha, na Ilha do Governador, para duas apresentações, nos dias 6 e 7 de novembro, às 20h.
Idealizada e protagonizada por Armando Babaioff, com direção de Rodrigo Portella, a montagem brasileira da obra do dramaturgo canadense Michel Marc Bouchard construiu uma trajetória de reconhecimento que ultrapassa fronteiras. Desde a estreia, em março de 2017, o espetáculo soma quase dez anos em cartaz, mais de 220 mil espectadores e mais de 600 apresentações, números que ajudam a dimensionar a permanência de uma obra que não se limita ao entretenimento. Seu impacto está também na capacidade de provocar desconforto, questionar normas sociais e levar o público a confrontar realidades que, muitas vezes, permanecem escondidas atrás das portas de casa.
Uma visita ao luto que se transforma em armadilha
A história acompanha Tom, publicitário interpretado por Armando Babaioff, que viaja até a fazenda da família de seu companheiro falecido para participar do funeral. Ao chegar, descobre que Agatha, mãe do homem que amava, sequer sabia de sua existência. Mais do que isso, ela desconhecia a homossexualidade do próprio filho.
A ausência de verdade não termina aí. Para sustentar a imagem de uma família alinhada às expectativas tradicionais, uma mentira foi construída em torno da vida do falecido. Agatha aguarda a chegada de Helen, suposta namorada do filho, personagem que, na trama, é Sara, interpretada por Camila Nhary.
Nesse ambiente, Tom passa a conviver com Francis, irmão do falecido, vivido por Iano Salomão, cuja presença transforma o luto em uma experiência de confronto e dependência. Denise Del Vecchio interpreta Agatha, figura central de uma estrutura familiar em que a preservação das aparências se torna uma força capaz de aprisionar todos os envolvidos.
O que começa como uma visita para se despedir de alguém amado se converte, assim, em um jogo de manipulação. Quanto mais os personagens se aproximam, mais as contradições aparecem. A fazenda deixa de ser apenas um espaço rural e assume a dimensão de um território simbólico, onde a intimidade se mistura à vigilância, o afeto à violência e a necessidade de pertencimento à obrigação de esconder quem se é.
Homofobia e patriarcado dentro do núcleo familiar
Um dos aspectos mais contundentes de “Tom na Fazenda” é deslocar a discussão sobre a homofobia para o espaço em que, idealmente, as pessoas deveriam encontrar acolhimento: a família.
A obra não trata o preconceito apenas como uma manifestação pública de hostilidade. Ela investiga como a discriminação pode se infiltrar nas relações mais próximas, interferindo na construção da identidade, na liberdade afetiva e na possibilidade de viver sem sustentar uma versão socialmente aceitável de si mesmo.
A mentira que organiza a trama não é um detalhe isolado. Ela funciona como mecanismo de manutenção de uma ordem familiar que não admite determinadas verdades. Nesse contexto, o silêncio deixa de ser neutro e passa a produzir consequências concretas.
A frase do dramaturgo Michel Marc Bouchard, segundo a qual “homossexuais aprendem a mentir antes mesmo de aprender a amar”, sintetiza uma das questões centrais do espetáculo: o preço emocional de crescer em ambientes nos quais a identidade precisa ser escondida para evitar rejeição, humilhação ou violência.
Ao articular homofobia e patriarcado, a montagem convida o público a observar como determinadas expectativas de masculinidade e heterossexualidade podem se transformar em instrumentos de controle. O conflito não está apenas no que os personagens dizem, mas também no que não conseguem dizer, no que fingem não saber e nas consequências de manter uma mentira coletiva.
A instabilidade também ocupa o palco
A direção de Rodrigo Portella traduz essas tensões para a linguagem cênica. A cenografia de Aurora dos Campos utiliza uma grande lona rústica, lama e água para construir um espaço que remete ao ambiente rural e, simultaneamente, desafia a estabilidade física dos atores.
O cenário não funciona apenas como representação da fazenda. A instabilidade do chão exige atenção permanente aos movimentos, aos corpos e às relações entre os intérpretes. O desequilíbrio físico dialoga com o universo emocional da peça, no qual nenhuma relação parece inteiramente segura e cada aproximação pode revelar uma nova ameaça.
A proposta faz do corpo um elemento essencial da narrativa. O ambiente exige que os atores permaneçam em conexão constante, enquanto a matéria do palco reforça a sensação de que os personagens caminham sobre um terreno incapaz de oferecer sustentação definitiva.
O resultado é uma encenação que explora o espaço teatral para ampliar as tensões do texto. A violência não depende exclusivamente de ações explícitas. Ela também se manifesta na atmosfera, nas relações de poder e na sensação persistente de perigo que atravessa a convivência naquela casa.
Do Brasil para os grandes palcos internacionais
A trajetória de “Tom na Fazenda” também representa um capítulo relevante da circulação internacional do teatro brasileiro.

A montagem esteve em países como Canadá, França, Reino Unido, Suíça, Bélgica e Coreia do Sul, além de participar de importantes festivais internacionais. Em 2023, passou pelo Théâtre Paris-Villette, em Paris, onde, segundo o material de divulgação do espetáculo, estabeleceu recorde de público e bilheteria na história do teatro. Foi também a primeira vez que uma produção latino-americana ocupou aquele palco.
Em 2024, a peça iniciou uma turnê europeia de 45 apresentações, passando por 27 cidades da França, Bélgica e Suíça. O percurso incluiu apresentações em instituições e festivais relevantes da cena teatral europeia. Em 2026, a montagem chegou à Coreia do Sul, ampliando sua circulação para a Ásia.
O espetáculo também acumulou premiações, entre elas reconhecimentos da Associação de Críticos de Teatro de Québec, além dos prêmios brasileiros APCA, Shell, Cesgranrio e APTR, em diferentes categorias.
A recepção internacional evidencia a capacidade de uma obra brasileira de dialogar com públicos de diferentes culturas a partir de conflitos que não se restringem a uma geografia específica. A repressão da identidade, a necessidade de aceitação e o peso das convenções familiares são questões que atravessam fronteiras, ainda que assumam formas distintas em cada sociedade.
Para Armando Babaioff, a continuidade do projeto está ligada à relevância de seu tema e à qualidade artística da montagem. O ator e idealizador considera a circulação nacional e internacional uma oportunidade de ampliar o alcance de uma obra que, mesmo após anos de apresentações, permanece necessária.
Um espetáculo que não oferece conforto fácil
O teatro pode ser entretenimento, mas também pode funcionar como espaço de investigação social. “Tom na Fazenda” se insere nesse segundo território ao recusar respostas simples para conflitos que se desenvolvem entre afeto, medo, violência e necessidade de pertencimento.
A peça não depende apenas da revelação de segredos para sustentar sua força dramática. Seu interesse está na forma como os personagens participam de uma estrutura que os aprisiona, seja pela imposição da violência, seja pela tentativa de preservar uma ordem que não comporta a verdade.
Ao levar essa história à Ilha do Governador, a montagem oferece ao público carioca a oportunidade de acompanhar um trabalho que reúne dramaturgia contemporânea, interpretação física intensa e uma discussão urgente sobre as consequências da intolerância.
Em uma sociedade na qual a liberdade de existir ainda pode ser condicionada à aprovação familiar e social, a pergunta que atravessa o espetáculo permanece incômoda: o que acontece quando a preservação das aparências passa a valer mais do que a verdade sobre quem somos?
A resposta não se encerra quando as cortinas se fecham. Talvez seja justamente esse o mérito de “Tom na Fazenda”: transformar a experiência teatral em um confronto com os silêncios que persistem fora do palco.
Serviço
Espetáculo: Tom na Fazenda
Datas: 6 e 7 de novembro de 2026, sexta-feira e sábado
Horário: 20h
Local: Teatro da Ilha, Estrada do Galeão, s/n, ao lado do Colégio Cenecista Capitão Lemos Cunha, Galeão, Ilha do Governador, Rio de Janeiro
Texto: Michel Marc Bouchard
Tradução: Armando Babaioff
Direção: Rodrigo Portella
Elenco: Armando Babaioff, Denise Del Vecchio, Iano Salomão e Camila Nhary
Duração: 120 minutos
Classificação indicativa: 18 anos
Ingressos: Consulte valores e disponibilidade na Sympla
Realização: Ministério da Cultura, com incentivo da Lei Rouanet e patrocínio da Petrobras.
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