O cinema tem a capacidade de atravessar fronteiras sem precisar sair da sala escura. Por meio de histórias, personagens e paisagens, uma produção cinematográfica pode aproximar culturas, revelar diferenças e despertar sentimentos que ultrapassam idiomas. É nessa conexão entre Brasil e Itália que chega a 21ª edição do Festival de Cinema Italiano no Brasil, um dos eventos dedicados à cinematografia italiana no calendário cultural brasileiro.
Realizado desde 2005, o festival acontece em novembro de 2026, com programação gratuita e formato híbrido. A iniciativa prevê sessões presenciais em mais de 120 salas espalhadas pelo país, além de filmes disponíveis em streaming no site oficial do evento. Em São Paulo, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) recebe uma programação especial entre os dias 5 e 30 de novembro, com 21 filmes e sessões diárias, exceto às terças-feiras.
A seleção reúne 14 produções inéditas e sete obras de retrospectiva. Mais do que apresentar lançamentos e revisitar títulos importantes, a edição deste ano propõe uma reflexão sobre a relação entre cinema, espaço, arquitetura e narrativa. Na perspectiva curatorial, as paisagens italianas não aparecem apenas como pano de fundo: elas participam da construção das histórias e ajudam a revelar conflitos sociais, transformações culturais e experiências humanas.
Itália em Cena: quando a paisagem também conta histórias
A retrospectiva desta edição recebe o título de “Itália em Cena” e convida o público a revisitar obras fundamentais da cinematografia italiana. A proposta é observar como cidades, ilhas, regiões costeiras e paisagens do interior influenciam a atmosfera e o desenvolvimento das narrativas.
Roma, com suas contradições e seu fascínio urbano, o Sul marcado por tradições e referências culturais próprias, o Norte moderno e as pequenas cidades carregadas de memória compõem um território cinematográfico diverso. Nesse universo, a geografia deixa de ser apenas localização e passa a funcionar como elemento dramático.
A seleção reúne sete filmes de diferentes períodos: A Doce Vida (1960), de Federico Fellini; A Provinciana (1953), de Mario Soldati; Arroz Amargo (1949), de Giuseppe De Santis; Os Boas-Vidas (1953), de Federico Fellini; Os Noivos (1941), de Mario Camerini; Stromboli (1950), de Roberto Rossellini; e Viagem à Itália (1954), também de Rossellini.
São obras que permitem acompanhar diferentes momentos da história do cinema italiano, de suas experiências estéticas às questões sociais e existenciais que continuam presentes no debate contemporâneo.
Em A Doce Vida, Fellini constrói um retrato da sociedade do espetáculo, acompanhando um jornalista em meio a festas, celebridades e escândalos na Roma da Via Veneto. Já Arroz Amargo, de Giuseppe De Santis, aproxima o espectador do cotidiano das trabalhadoras dos arrozais do Piemonte, articulando desejo, exploração do trabalho e desigualdade social.
Em Stromboli, de Roberto Rossellini, a ilha vulcânica se transforma em uma presença determinante na experiência de isolamento e conflito vivida pela protagonista. Em Viagem à Itália, o deslocamento de um casal à região de Nápoles abre espaço para uma reflexão sobre relações afetivas, memória e passagem do tempo.
A retrospectiva também apresenta Os Boas-Vidas, de Fellini, sobre jovens que adiam escolhas e responsabilidades; A Provinciana, de Mario Soldati, drama psicológico inspirado em obra de Alberto Moravia; e Os Noivos, adaptação cinematográfica do romance de Alessandro Manzoni, dirigida por Mario Camerini.
“Travessura” coloca gerações frente a frente
Entre os destaques da programação contemporânea está Travessura (Scherzetto), novo longa-metragem de Mario Martone, com Toni Servillo e Lorenzo Perrotta no elenco.
Baseado na obra de Domenico Starnone, o filme acompanha o encontro entre um avô e seu neto pequeno, descrito como indomável. Em poucos dias, dentro de um apartamento e de sua varanda, os dois estabelecem um duelo afetivo e geracional que desafia a rotina de um homem acostumado à solidão.
A convivência faz emergir limites, fragilidades e conflitos, mas também a possibilidade de transformação provocada pelo contato com a infância. A narrativa aposta em um espaço cotidiano e aparentemente restrito para explorar questões universais sobre família, envelhecimento, afeto e convivência.
O longa terá três sessões no CCBB São Paulo: 12 de novembro, às 18h; 16 de novembro, às 18h; e 26 de novembro, às 15h30.
Histórias contemporâneas, conflitos humanos e diferentes olhares sobre a Itália
Os 14 filmes inéditos ampliam o panorama da produção italiana recente e apresentam narrativas que atravessam questões familiares, relações amorosas, política, identidade, religião, memória e conflitos sociais.
Em A Vida é Assim (La Vita Va Così), de Riccardo Milani, a disputa em torno de uma área preservada no sul da Sardenha coloca em confronto a permanência de uma comunidade e a promessa de desenvolvimento econômico trazida por um projeto de resort de luxo. A história acompanha um pastor que se recusa a vender a última porção de terra necessária à construção, provocando uma divisão entre os moradores.
Já A Lição (La Lezione), dirigido por Stefano Mordini, acompanha uma advogada envolvida na defesa de um professor universitário acusado de violência sexual. Quando novos acontecimentos começam a interferir em sua vida, a personagem passa a enfrentar uma atmosfera de ameaça, manipulação e incerteza.
Em As Coisas Não Ditas (Le Cose Non Dette), de Gabriele Muccino, uma viagem ao Marrocos expõe fissuras em um relacionamento aparentemente estável. O filme investiga os segredos, os silêncios e as tensões que podem se acumular mesmo nas relações que parecem bem resolvidas.
A história e a memória também ocupam espaço importante na seleção. Elena do Gueto (Elena del Ghetto), de Stefano Casertano, recupera a trajetória de Elena Di Porto, mulher judia romana que enfrentou o regime fascista e atuou para salvar vidas durante o período de perseguição e ocupação nazista.
Em Na Festa da Revolução: O Poeta e a Espiã (Alla Festa della Rivoluzione), dirigido por Arnaldo Catinari, o público é levado a Fiume, em 1919, em meio às tensões políticas que antecederam o fascismo. A trama combina espionagem, disputas de poder, atentado político e relações pessoais em um momento decisivo da história italiana.
A programação também apresenta Baracoa, de Luis Ernesto Doñas, uma jornada de transformação que atravessa paisagens cubanas; Breve História de Amor, de Ludovica Rampoldi, sobre desejo, culpa e relações afetivas; e Idda, de Irene Dionisio, que acompanha duas amigas de infância em uma subida ao Etna, transformando a paisagem vulcânica em parte da reflexão sobre feminilidade e amizade.
As relações familiares aparecem em O Filho Desejado (I Figli della Scimmia), de Tommaso Landucci, que aborda os vínculos entre um homem, seu filho com deficiência e o sobrinho adolescente. Já O Som das Coisas Novas (Il Rumore delle Cose Nuove), de Paolo Genovese, reúne três famílias cujas rotinas são abaladas por um encontro inesperado.
A comédia também marca presença. Que Deus Perdoe a Todos (Che Dio Perdona a Tutti), de Pierfrancesco Diliberto, conhecido como Pif, acompanha um homem que decide fingir ser religioso para conquistar uma mulher católica. Em Vamos Dar um Tempo (Prendiamoci una Pausa), de Christian Marazziti, três casais de gerações diferentes enfrentam a decisão de interromper temporariamente seus relacionamentos. Já Vamos Trabalhar Como Gente Grande (Lavoreremo da Grandi), de Antonio Albanese, aposta no humor e no caos provocado por três amigos reunidos à beira de um lago.
Uma ponte cultural construída ao longo de 21 edições
A aproximação entre Brasil e Itália é um dos eixos centrais do festival. Para o embaixador da Itália no Brasil, Alessandro Cortese, o cinema tem uma capacidade singular de criar identificação entre países e aproximar públicos por meio de paisagens, sentimentos e histórias compartilhadas.
O diplomata destaca a importância da iniciativa na construção de uma ponte cultural entre as duas nações e recorda sua ligação com o evento desde sua chegada ao Brasil, em 2023.
A diretora cultural do Festival de Cinema Italiano, Erica Bernardini, também ressalta a maturidade alcançada pela mostra ao longo de suas 21 edições. Segundo ela, a combinação entre produções inéditas, recentemente apresentadas em grandes eventos internacionais, e obras históricas permite oferecer ao público uma experiência que aproxima diferentes gerações de cineastas e espectadores.
A edição de 2026 reforça, assim, o papel do festival como espaço de circulação cultural e acesso ao cinema. Ao colocar lado a lado novas produções e obras fundamentais, a programação permite observar como a cinematografia italiana continua elaborando questões do seu tempo sem perder o diálogo com a própria história.
Para o público brasileiro, é uma oportunidade de conhecer narrativas que dificilmente chegam ao circuito comercial de maneira ampla e, ao mesmo tempo, reencontrar filmes que ajudaram a construir a identidade da sétima arte mundial.
Serviço
21º Festival de Cinema Italiano no Brasil
Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB SP)
Período: 5 a 30 de novembro de 2026
Endereço: Rua Álvares Penteado, 112, Centro Histórico, São Paulo (SP)
Entrada: gratuita
Ingressos: disponíveis a partir das 9h do dia de cada sessão, na bilheteria do CCBB e pelo site bb.com.br/cultura
Funcionamento do CCBB: diariamente, das 9h às 20h, exceto às terças-feiras
Informações: (11) 4297-0600
Classificação indicativa: varia de acordo com cada filme.
Transporte: o CCBB fica a aproximadamente cinco minutos da estação São Bento do Metrô. Há opções de ônibus com embarque e desembarque nas ruas Líbero Badaró e Boa Vista.
Estacionamento: estacionamento conveniado na Rua da Consolação, 228, com tarifa informada de R$ 14 por seis horas, mediante validação do ticket na bilheteria do CCBB. O espaço oferece traslado gratuito de ida e volta, das 12h às 21h, com parada também no metrô República no trajeto de retorno.
Programação completa no CCBB São Paulo:
- 5 de novembro, quinta-feira: 15h, Elena do Gueto; 17h30, A Vida é Assim.
- 6 de novembro, sexta-feira: 16h, Viagem à Itália; 18h, Breve História de Amor.
- 7 de novembro, sábado: 15h, Vamos Trabalhar Como Gente Grande; 17h, A Doce Vida.
- 8 de novembro, domingo: 15h, Arroz Amargo; 17h, A Lição.
- 9 de novembro, segunda-feira: 15h30, A Provinciana; 18h, Baracoa.
- 11 de novembro, quarta-feira: 16h, Na Festa da Revolução: O Poeta e a Espiã; 18h, Stromboli.
- 12 de novembro, quinta-feira: 15h30, As Coisas Não Ditas; 18h, Travessura.
- 13 de novembro, sexta-feira: 15h30, Idda; 17h30, Os Boas-Vidas.
- 14 de novembro, sábado: 15h, O Som das Coisas Novas; 17h30, O Filho Desejado.
- 15 de novembro, domingo: 14h30, Que Deus Perdoe a Todos; 17h, Os Noivos.
- 16 de novembro, segunda-feira: 16h, Vamos Dar um Tempo; 18h, Travessura.
- 18 de novembro, quarta-feira: 15h30, Idda; 17h30, As Coisas Não Ditas.
- 19 de novembro, quinta-feira: 15h, Baracoa; 18h, Viagem à Itália.
- 20 de novembro, sexta-feira: 15h, Arroz Amargo; 18h, A Provinciana.
- 21 de novembro, sábado: 15h, A Vida é Assim; 17h30, A Lição.
- 22 de novembro, domingo: 14h, Na Festa da Revolução: O Poeta e a Espiã; 16h30, Breve História de Amor.
- 23 de novembro, segunda-feira: 15h, O Som das Coisas Novas; 18h, Elena do Gueto.
- 25 de novembro, quarta-feira: 14h30, Vamos Dar um Tempo; 17h, A Doce Vida.
- 26 de novembro, quinta-feira: 15h30, Travessura; 18h, Stromboli.
- 27 de novembro, sexta-feira: 15h, O Filho Desejado; 18h, Vamos Trabalhar Como Gente Grande.
- 28 de novembro, sábado: 15h, As Coisas Não Ditas; 17h30, Os Noivos.
- 29 de novembro, domingo: 14h30, Idda; 16h30, Que Deus Perdoe a Todos.
- 30 de novembro, segunda-feira: 15h30, Os Boas-Vidas; 18h, O Som das Coisas Novas.
Observação: a programação está sujeita a alterações. Consulte os canais oficiais do CCBB antes de se deslocar.
