Isabel Braga · reportagem · fontes públicas · processo 0008528-30.2010.8.19.0014
Não era um hotel de bandeira. Era uma casa na Rua Ary Ribeiro Vaz, 92, Custodópolis, Guarus — quatro cômodos geminados, porta com corrente, janela com cadeado, arma na porta. De maio de 2008 a maio de 2009, meninas de 8 a 17 anos saíam dali de carro para motéis e hotéis de Campos. O Ministério Público disse, em audiência de 2015, que algumas faziam até 30 programas por dia e eram obrigadas a consumir cocaína, crack, haxixe, ecstasy e maconha. O caso entrou na imprensa como “Meninas de Guarus”. O processo criminal na 3ª Vara de Campos dos Goytacazes leva o número 0008528-30.2010.8.19.0014.
O irmão de Anthony Garotinho está na lista dos 14 condenados. Nelson Nahim Matheus de Oliveira, ex-presidente da Câmara de Campos, ex-prefeito interino quando a cunhada Rosinha foi afastada em 2010, foi sentenciado a 12 anos por estupro de vulnerável, coação no curso do processo e art. 244-A do ECA. A denúncia o liga a uma adolescente de 15 anos, chamada nos autos de “Barbie Girl”, com encontros no sítio Nossa Senhora das Graças, em Caixeta. Em janeiro de 2017, já condenado, assumiu cadeira na Câmara dos Deputados no lugar de Índio da Costa. Em 2018 quase voltou na vaga de Cristiane Brasil. Em janeiro de 2026 ainda falava à imprensa local sobre política campista. A condenação não o tirou da cidade. Tirou, por um tempo, 17 juízes.
Dezessete juízes saíram. Um sentenciou
O Ministério Público e a juíza que fechou o primeiro grau registraram o mesmo número: 17 magistrados se declararam suspeitos ou impedidos antes de o processo ter sentença. Daniela Barbosa Assumpção de Souza, em exercício na 3ª Vara Criminal, escreveu na decisão de 8 de junho de 2016: “somente agora tem seu desfecho em primeiro grau de Jurisdição, depois que 17, inacreditáveis 17 juízes, se autodeclararam suspeitos para o julgamento desta infame causa”. Sete anos de instrução. Vinte denunciados pelo Gaeco. Quatorze condenados. Seis absolvidos. Doze presos na manhã seguinte. Dois foragidos que se entregaram em dias. A sentença não encerrou o caso. Abriu a temporada de habeas corpus.
As penas de 8 de junho de 2016
Leílson Rocha da Silva, o “Alex”: 31 anos e 1 mês — cárcere privado, quadrilha armada, rufianismo, estupro de vulnerável, exploração sexual. Ronaldo de Souza Santos, policial militar: 31 anos e 1 mês — os mesmos crimes, mais tráfico. Thiago Machado Calil, ex-vereador: 25 anos e 8 meses — cárcere de 14 vítimas, quadrilha armada, rufianismo, estupro, ECA. Fabrício Trindade Calil, ex-vereador: 25 anos e 8 meses. Renato Pinheiro Duarte, empresário apontado como dono de motéis usados nos encontros: 14 anos. Nelson Nahim: 12 anos. Fábio Lopes da Cruz, Robson Silva de Barros Costa, Dovany Salvador Lopes da Silva e Gustavo Ribeiro Poubaix Monteiro: 8 anos cada. Marcos Alexandre dos Santos Ferreira, ex-vereador: 7 anos. Cléber Rocha da Silva: 6 anos e 6 meses. Jayme César de Siqueira: 6 anos. Sérgio Crespo Gimenes Júnior: 1 ano e 6 meses.
O que aconteceu com eles
Outubro de 2016: Nahim deixa a cadeia pública Pedrolino Werling de Oliveira, no Rio, com habeas corpus. Novembro de 2016: Gustavo Poubaix e Renato Pinheiro também saem por HC — os mesmos que a Justiça havia recusado em junho. Janeiro de 2017: o irmão de Garotinho empossa-se deputado federal suplente. A condenação de primeiro grau estava viva. A cadeira também.
Agosto de 2024: a 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio julga o recurso, mantém as condenações e manda os réus entregarem o passaporte em cinco dias. O acórdão corre em segredo de justiça. Das 14 sentenças de 2016, o balanço público daquele mês era este: um preso — Leílson Rocha da Silva, o de 31 anos; um morto, em 2020; onze em liberdade, à espera do Superior Tribunal de Justiça. A execução da pena em segunda instância não corre. Quem tem 25 anos no papel e 8 no regime de fato não está “inocente”. Está no intervalo que o sistema reserva a quem recorre.
Não há, nas matérias até setembro de 2026, lista atualizada de cadeia por nome além desse recorte de 2024. O que há é o contrário do que a sentença prometeu: o núcleo político não desapareceu. Nahim deu entrevista em Campos em janeiro de 2026. Anthony Garotinho, em nota de 2017, disse estar afastado do irmão havia seis anos e sem relação política. Wladimir Garotinho, filho de Anthony e prefeito de Campos até abril de 2026, não é réu neste processo — é outro processo, a Chequinho. Misturar os dois é erro. Separá-los também não limpa Guarus.
O que o processo diz que era a casa
A denúncia descreve vigília armada, corrente, cadeado, droga para quebrar resistência, transporte até o cliente. Não é metáfora de “hotel”. É o endereço em Guarus mais a rede de motéis. A vítima que fugiu e procurou polícia e Conselho Tutelar abriu o inquérito. Quinze meninas, no mínimo, segundo o MP na época da sentença. O Globo, em 2016, chamou de um dos mais brutais casos de exploração sexual de crianças do Norte Fluminense. Folha1 e Campos 24 Horas, em 2024, registraram que o TJ manteve tudo e que o STJ ainda pode ser acionado. Entre uma data e outra, passaram-se oito anos de recurso e uma legislatura federal.
O que isto não é
Não é prova de que os 17 juízes foram comprados. É prova de que 17 juízes não quiseram o processo. Não é prova de que Nahim cumpriu os 12 anos. É prova de que a Câmara o recebeu condenado. Não é o caso de Arroio Grande nem o mapa do Datasus. É o fórum de Campos recusando o próprio processo até a 18ª juíza assinar. E é o hotel — a casa, o sítio, o motel — que a cidade conhece pelo nome do bairro.
Referências
1. Processo nº 0008528-30.2010.8.19.0014. 3ª Vara Criminal de Campos dos Goytacazes. Sentença de 8/6/2016, juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza.
2. O Globo, 9/6/2016. “Após sete anos de investigação, 14 são condenados por abuso sexual de meninas.” Antônio Werneck. 17 juízes; penas; Nahim 12 anos.
3. G1 Norte Fluminense, 9/6/2016. “Polícia prende 12 pessoas envolvidas no caso Meninas de Guarus.” Lista completa de penas.
4. G1 Norte Fluminense, 20/8/2015. “Vítimas faziam 30 programas por dia, diz MP.”
5. G1 Norte Fluminense, 27/10/2016. “Condenado no Meninas de Guarus, Nahim é solto após habeas corpus.”
6. G1 Norte Fluminense, 15/11/2016. “Dois condenados no caso Meninas de Guarus são soltos no RJ.” Gustavo Poubaix e Renato Pinheiro.
7. G1, 5/1/2017. “Condenado por exploração sexual, irmão de Garotinho assume como deputado.” Suplente de Índio da Costa.
8. Valor Econômico / Folhapress, 10/6/2016. “Irmão de Garotinho condenado à prisão por exploração sexual de menores.”
9. Folha1, 22/8/2024. “Meninas de Guarus: Justiça mantém condenação e determina entrega de passaportes.” Um preso, um morto, onze em liberdade; STJ à frente.
10. Tribuna NF, 22/8/2024. Acórdão do TJ-RJ; 17 juízes citados na sentença; passaportes.
11. Campos 24 Horas, 22/8/2024. Confirmação das condenações; Leílson único preso à época; recursos ao STJ.
12. Folha1 / Suzy Monteiro, 9/6/2016. Operação Gaeco; trechos da sentença; endereço em Custodópolis.
13. Ururau, 9/6/2016. Lista nominativa das penas.
14. Campos 24 Horas, 19/1/2026. Nelson Nahim fala à imprensa local (legado de Arnaldo Vianna).
15. Wikipedia / TSE. Nelson Nahim Matheus de Oliveira. Suplência 2014; posse 2017; tentativa 2018 na vaga de Cristiane Brasil.
16. Nota de Anthony Garotinho, jan/2017, reproduzida pelo G1: afastamento do irmão desde 2010.
17. Código Penal, arts. 217-A, 148, 230, 288, 344. ECA, art. 244-A.
Isabel Braga
Texto para a editora da Revista Panorama. Apenas fatos publicados. Segredo de justiça impede o inteiro teor do acórdão de 2024.

1 comentário
Acompanho esses casos já há muito tempo. E tudo muito insano, horripilante, escabroso. O pior, nada é feito e sabemos porque. Penso que chegou a hora de escancarar os horrores que nossas crianças, adolescentes e outros, sofrem à décadas, quem sabe, séculos. Mulher corajosa, valente e honrada, não desmorone, siga em frente. Estamos juntas.