Isabel de Fátima Alvim Braga

A safra desce a serra. A refinaria trabalha no limite. O navio espera no horizonte. O déficit não começou em Ormuz.

A pergunta que o posto não responde é simples: se o Brasil é potência de petróleo, por que o bitrem bebe diesel de navio? A resposta também é simples, e ninguém gosta dela. O país é superavitário em cru e deficitário em destilado. A Empresa de Pesquisa Energética já tinha escrito isso no caderno de abastecimento do PDE 2034. A guerra no Estreito de Ormuz não inventou o buraco. Cobrou o prêmio.

Na semana de 25 de setembro de 2026 o diesel S-10 na ANP foi a R$ 7,33 o litro — 6,5% a mais no mês, o maior valor desde abril. O Brent voltou a US$ 100. O governo prorrogou a subvenção de R$ 2,12 por litro por mais trinta dias porque a medida provisória anterior tinha caducado no dia 26. A bomba não mostra a paridade. O Tesouro mostra.

O que a EPE já sabia

A EPE não opera refinaria. Publica o desenho. O caderno de abastecimento do PDE 2034 projeta crescimento de 13% na produção nacional de diesel A até 2034 — com o segundo trem da RNEST, o Gaslub e mais hidrotratamento — e, ainda assim, importação líquida de 49 mil metros cúbicos por dia, um quarto da demanda. Em 2022 o pico histórico já era 43 mil. O plano oficial não promete autossuficiência. Promete continuar importando.

A conta de 2025, na nota da FGV Energia de março de 2026: o país vendeu 69,5 bilhões de litros de diesel B e importou 17 bilhões de litros de diesel A. A fatia importada na venda nacional oscilou entre 24% e 33%, média perto de 29%. Outubro é o mês de pico. Safra e frete coincidem com o aperto do Golfo.

Mistura obrigatória de biodiesel: 15%. Em julho o CNPE vetou o biodiesel importado nessa cota. O mandato doméstico segura um pedaço do volume. Não segura o preço do diesel A. São duas indústrias. Uma não substitui a outra no motor do bitrem sem teste.

Por que não “fazemos diesel”

Fazemos. Não fazemos o suficiente. E o óleo que sai do pré-sal não é o tipo que mais vira o litro do caminhão.

Pré-sal é petróleo leve. Destilar óleo leve dá relativamente mais gasolina e nafta e menos diesel do que um óleo médio-pesado. O caminhão, o ônibus e a colheitadeira querem destilado médio. Furar mais não resolve sozinho. É preciso a unidade que transforma o barril no litro certo.

O parque da Petrobras destila 1.813 mil barris por dia. O plano acrescenta 320 mil — RNEST e reformas — e fala em 307 mil barris por dia a mais de capacidade de diesel S-10. Em março de 2026 a produção de S-10 bateu 512 mil barris por dia. O fator de utilização do primeiro trimestre foi 97,4%. Com a guerra, unidades passaram de 100% do nominal. Quando a refinaria já roda acima da placa, não existe ociosidade escondida. O que sobra entra de navio ou não entra.

Magda Chambriard, em 21 de setembro, no Rio: a estatal já entrega mais de 70% do diesel brasileiro; com o que está em obra, cerca de 90%; autossuficiência ficou para o plano 2027–2031, a anunciar até o fim do ano. COMPERJ/Gaslub e o segundo trem de Abreu e Lima atrasaram anos. Pecém e Sergipe, no PDE, são análise de sensibilidade. A EPE escreve que mesmo com eles o Brasil segue importador líquido.

Durante uma década saiu mais barato exportar o cru e importar o destilado. O diesel russo chegou a 90% das compras brasileiras em maio de 2026 e a 57% em junho porque o MDIC mediu R$ 0,15 por quilo abaixo do americano. Fazer refinaria nova compete com isso só quando o navio some. O navio sumiu.

A guerra que não passa no pré-sal e passa na bomba

Nenhum barril brasileiro atravessa Ormuz. O choque é de preço mundial e de produto refinado. Petróleo cru ainda vaza do Golfo por oleoduto. Diesel e querosene não têm oleoduto equivalente. Desde o começo de 2026 o estreito está fechado ou condicionado. O refino no Golfo caiu da ordem de 30% — cerca de 3 milhões de barris por dia. Ataques teriam tirado 1,4 milhão de barris por dia de capacidade. A Agência Internacional de Energia avisou: sem fluxo em Hormuz, a crise de destilado piora. A margem europeia de diesel foi à máxima desde 2011.

A Rússia estendeu o veto à exportação de diesel e gasolina até 31 de janeiro de 2027. Intermediário — o caminho das sanções — continua proibido. A Abicom viu a fatia russa cair abaixo de 15%. O substituto imediato são os Estados Unidos, que em 2025 já eram cerca de um terço da importação brasileira, e a Índia, cerca de 9%. A Índia refina cru do Golfo. Se Ormuz não abre, o diesel indiano também some.

No Senado americano, o senador Dan Sullivan pediu, em 22 de setembro, moratória temporária às exportações de diesel. O líder da maioria disse que “exploraria”. O interruptor legal de 1975 foi revogado em dezembro de 2015, junto com o banimento da exportação de cru. Banir diesel hoje exige emergência, não portaria. O rumor basta para atrasar carga. No mesmo mês a EPA do Alasca citou, no waiver de enxofre, o fechamento de 284 mil barris por dia de refinaria na Califórnia e a queda de 5,4% nas importações de destilado do PADD 5. O exportador de equilíbrio do Atlântico também está mais curto.

Reunião Irã–Golfo sobre navegação em Ormuz foi adiada em 14 de setembro. O Brent reagiu. Morgan Stanley, no meio do ano: só 50% da produção de óleo e gás do Golfo recuperada até setembro e 80% até dezembro — se a rota reabrir.

O papel da Petrobras

Não é o papel de 2022. No segundo trimestre a empresa priorizou o refino próprio para não importar no prejuízo. Com o Golfo e o veto russo, voltou a importar: a expectativa de mercado para setembro era de a estatal ficar com pouco mais de um terço das compras externas. Aumentou R$ 1 o litro do diesel A às distribuidoras e o governo cobriu com a subvenção. O preço de realização no canal que ela atende não sobe na bomba. O importador privado olha R$ 3,38 de defasagem — 103% do preço interno, no cálculo da Abicom — e adia o navio.

No primeiro trimestre a Petrobras reportou lucro líquido de R$ 32,7 bilhões, 110% acima do trimestre anterior, em parte com cru mais caro e volume extra. A produção brasileira no ajuste global subiu da ordem de 210 mil barris por dia. Cru sobe: caixa e royalty sobem. Diesel importado sobe: a conta vai para o Tesouro e para o frete. Produzir petróleo não é a mesma frase que abastecer a BR-116.

A rodovia come o litro

Mais de dois terços da carga brasileira anda em caminhão. Não há plano decenal que mude isso nesta safra. Diesel não é “um item da inflação”. É o custo de grão, cimento, remédio e ônibus. Cada real no litro vira pedágio invisível. A defasagem que o governo cobre na refinaria reaparece no frete se o privado não aportar e o posto do interior ficar sem programação.

O que o número dizFonteO que não diz
Importamos ~29% do diesel que vendemos (2025)FGV Energia / fluxo ANPQue o pré-sal “falhou”
Em 2034 ainda importaríamos ~25%EPE, PDE 2034Que uma portaria fecha o buraco
Defasagem R$ 3,38/l nos polos PetrobrasAbicom, set/2026Que a bomba está na paridade
Subvenção R$ 2,12/l, 30 diasMF / MP 1.391Que isso é refinaria
Petrobras >70% do diesel doméstico; meta de obra ~90%Presidência da empresa, 21/09/2026Que 100% cabe neste inverno

Autossuficiência, hoje, é discurso de plano. Não é tanque.

Isso afeta o preço. Qual é a solução

Já afetou. A bomba não mostra o PPI inteiro porque o Tesouro paga R$ 2,12. O alimento, o frete e o Orçamento mostram. As MPs de 2026 autorizaram R$ 27,4 bilhões no ano para baratear combustível. Até o fim de agosto a ANP tinha reconhecido R$ 7,8 bilhões em subvenção de diesel, gasolina e GLP. O pacote de setembro — diesel mais corte de PIS/Cofins na gasolina e no etanol — foi estimado na casa de R$ 7 bilhões ao mês.

Não existe solução que mantenha bomba barata, tanque cheio, caixa fechado e guerra no Golfo. Escolhe-se o vértice que quebra.

Nesta semana as alavancas são três, e nenhuma é solda: Petrobras abaixo da paridade no canal dela; subvenção de trinta em trinta dias; navio americano no lugar do russo. Isso é anestesia. Enquanto o Brent ficar acima de US$ 100 e Ormuz não abrir para destilado, cada mês extra de R$ 2,12 é escolha fiscal, não física.

O que aumenta diesel brasileiro tem prazo. Em meses, subir a mistura de biodiesel só se o teste de motor e o escoamento existirem — Aprobio pede B17 e fala em 45% de ociosidade no parque, com relato de restrição no plantio do Sul. Qualidade ruim no B alto vira filtro entupido na colheitadeira. Em um a quatro anos, terminar o segundo trem da RNEST, o Gaslub e o hidrotratamento. Isso é o caminho dos 70% aos 90%. Não entra na janela de uma portaria. Nesta safra, recolocar o importador privado: sem preço perto da paridade — ou subvenção também no navio privado, com teto e prazo — o interior fica à mercê do programado da estatal. Estoque compulsório só funciona se alguém comprou o litro. Em uma década, ferrovia e hidrovia. Enquanto a carga for caminhão, o país bebe diesel.

O que não é solução: congelar a Petrobras e xingar o importador ao mesmo tempo. Vetar biodiesel importado e subsidiar diesel americano como se fossem a mesma política. Tratar moratória de exportação em Washington como plano A de Brasília. Anunciar refinaria nova como resposta de setembro. Do papel ao primeiro litro são anos.

O risco que cabe no asfalto

Desabastecimento físico generalizado é baixo se a Petrobras mantiver fator de utilização alto e o governo cobrir o canal estatal. O parque doméstico, o B15 e o estoque de distribuidora não zeram o país em uma semana.

Desabastecimento pontual, fila e aditivo de preço são altos. Cinco condições se somam: defasagem de R$ 3,38 que mata o privado; Rússia fora até 2027; Estados Unidos como plano B — e o Senado americano falando em não exportar; outubro, pico histórico; subvenção de trinta dias. Faltar diesel no Brasil, neste desenho, não é tanque vazio em Paulínia. É o privado não aportar, o posto do interior sem programação e o caminhão da safra pagando o frete que a paridade pede e a bomba não mostra.

A EPE descreveu o déficit estrutural. A guerra só cobrou o juro. A Petrobras escolheu não repassar o litro inteiro. O asfalto não tem segundo modal. Quem vender “não vai faltar e não vai encarecer” está vendendo a portaria. A portaria vence. O bitrem não.

Médica. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada — e não confunde royalty de cru com litro no tanque.

Referências

  1. Empresa de Pesquisa Energética (EPE). PDE 2034 — Caderno de Abastecimento, 29/08/2024. Balanço de óleo diesel A; importação líquida projetada em 49 mil m³/dia em 2034 (~25% da demanda); trajetória de capacidade de refino.
  2. FGV Energia. “Irã–EUA: novas atualizações”, 17/03/2026. Importação brasileira de 17 bilhões de litros de diesel A em 2025; vendas de 69,5 bilhões de litros de diesel B; fatia importada entre 24% e 33% (média ~29%); origem Rússia / EUA / Índia.
  3. ANP. Levantamento semanal de preços. Diesel S-10 a R$ 7,33/litro na semana de 25/09/2026 (+6,5% no mês); R$ 7,13 na semana 13–19/09/2026.
  4. Petrobras. Composição do preço médio do diesel S-10 no Brasil, coleta 13–19/09/2026: média R$ 7,13; parcela Petrobras R$ 2,83 (39,7%); biodiesel 11,2%; impostos e margem.
  5. Abicom. Defasagem frente à paridade de importação, setembro/2026: R$ 3,38/litro nos polos Petrobras (103% do preço interno); R$ 2,90 na média dos polos de importação (88%).
  6. Ministério da Fazenda. Portaria que mantém subvenção de R$ 2,12/litro ao diesel após o fim da vigência da MP 1.363/2026 (26/09/2026), com fundamento na MP 1.391/2026. Correio Braziliense, 26/09/2026.
  7. Presidência da República. Medida Provisória nº 1.391, de 11/09/2026 (subvenção a produtores e importadores de diesel rodoviário enquanto houver instabilidade geopolítica; períodos de 30 dias). Senado Federal, sumário da proposição.
  8. Agência Senado, 14/09/2026. As MPs de 2026 viabilizaram R$ 27,4 bilhões autorizados no ano para baratear combustível.
  9. Folha de S.Paulo, 09/09/2026. Brent acima de US$ 100; subsídios até fim de agosto a R$ 7,8 bilhões (ANP); Petrobras volta a importar cerca de um terço do diesel de setembro; impacto mensal do pacote na casa de R$ 7 bilhões.
  10. Folha de S.Paulo, 30/07/2026. Rússia estende veto à exportação de diesel e gasolina até 31/01/2027. Participação russa nas importações brasileiras: 90% em maio e 57% em junho de 2026; Abicom via queda abaixo de 15% após o veto. MDIC: russo R$ 0,15/kg mais barato que o americano no 1º semestre.
  11. CNPE, 14/07/2026. Resolução que restringe à produção nacional o biodiesel da mistura obrigatória (B15). Eixos.
  12. Petrobras / Magda Chambriard, ROG.e, 21/09/2026. Estatal entrega mais de 70% do diesel brasileiro; obras em curso permitiriam ~90%; autossuficiência no plano 2027–2031. O Globo.
  13. Petrobras. Plano de Negócios: capacidade de destilação 1.813 mil barris/dia; +320 mil no horizonte (RNEST + reformas); +307 mil barris/dia de capacidade de diesel S-10. Recorde de S-10: 512 mil barris/dia em março/2026; fator de utilização 97,4% no 1º trimestre, acima de 100% em unidades após o conflito.
  14. OPEB, 02/07/2026. “111 dias de bloqueio do Estreito de Ormuz”. Lucro líquido Petrobras no 1º tri/2026: R$ 32,7 bilhões (+110% sobre o 4º tri/2025). Aumento da produção brasileira da ordem de 210 mil barris/dia no ajuste global. Morgan Stanley: 50% da produção do Golfo recuperada até setembro e 80% até dezembro, se a rota reabrir.
  15. Folha de S.Paulo, 16/07/2026. Refino no Golfo ~30% abaixo (~3 milhões de bpd); 1,4 milhão de bpd de capacidade atingida por ataques. Destilados não têm oleoduto equivalente ao East-West. AIE: crise piora se Hormuz não retomar fluxo.
  16. Brasil 247, 14/09/2026. Adiamento de reunião Irã–Golfo sobre navegação em Ormuz; nova sequência de ataques; Brent em alta.
  17. EPA, carta-waiver de 08/09/2026 ao governador do Alasca: fechamento de 284 mil barris/dia de capacidade na Califórnia no PADD 5; queda de 5,4% nas importações de destilado.
  18. Senado dos EUA, EPW. S. 3135 Cold Weather Diesel Reliability Act, audiência 11/03/2026, aprovação 10–9 em 16/09/2026. Sen. Dan Sullivan, 22/09/2026: pedido de moratória temporária às exportações americanas de diesel. Revogação do § 103 da EPCA em dezembro de 2015.
  19. Aprobio / O Globo, 21/09/2026. Parque de biodiesel com ociosidade citada em ~45%; pedido de antecipação da mistura (B17) diante de relatos de restrição de entrega no plantio.
  20. Ineep. Boletim de Preços nº 37, junho/2026. Brent em média acima de US$ 100 pelo terceiro mês; efeito do conflito e do fechamento de Ormuz.
Compartilhar.

Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

Deixe Uma Resposta

Português do Brasil
Exit mobile version