Nas águas que banham a Baía de Guanabara e o oceano Atlântico em Niterói, a preservação do ecossistema costeiro ganhou uma abordagem inovadora: transformar a vivência marinha em uma extensão da sala de aula. O projeto Mar de Conhecimento surge no cenário fluminense como uma ponte entre a pesquisa científica, a conscientização ambiental e o engajamento comunitário, mostrando que o futuro dos ecossistemas marinhos depende de como educamos o presente.
Uma Abordagem Imersiva para a Conservação
Diferente dos modelos tradicionais de ensino que confinam a biologia e a ecologia aos livros didáticos, o Mar de Conhecimento aposta no aprendizado vivencial. A proposta conecta estudantes da rede pública, professores e moradores locais diretamente com o ambiente marinho de Niterói, promovendo atividades práticas como oficinas de monitoramento, saídas de campo, análises da qualidade da água e estudos sobre a biodiversidade local.
O município de Niterói possui uma posição geográfica privilegiada, abrigando uma rica diversidade marinha que vai desde costões rochosos e praias de enseada até reservas extrativistas e áreas de proteção ambiental. No entanto, essa biodiversidade enfrenta pressões urbanas constantes. É justamente no ponto de encontro entre a urbanização e a natureza que o projeto atua, despertando um olhar crítico e cuidadoso sobre o patrimônio natural da região.


Os Três Pilares da Iniciativa
Para consolidar seu impacto, a atuação do projeto articula-se em três eixos integrados:
- Educação Ambiental Transversal: Desenvolvimento de atividades pedagógicas que misturam ciência, arte e cidadania. As crianças e jovens aprendem sobre cadeias alimentares, o impacto do lixo plástico e o papel dos ecossistemas costeiros na regulação do clima.
- Ciência Cidadã e Monitoramento Participativo: A comunidade deixa de ser apenas espectadora e passa a colaborar com a coleta de informações sobre a fauna e flora locais, auxiliando pesquisadores no mapeamento das condições das praias.
- Valorização da Cultura Caiçara e Pesqueira: Resgate dos saberes tradicionais das comunidades que historicamente vivem da pesca no litoral niteroiense, conectando o conhecimento empírico dos pescadores ao conhecimento acadêmico.

Em um bate papo com a Bióloga Luciana “Sereia” participante ativa do projeta, ela afirma que o O Projeto “Mar de Conhecimento” promove a integração entre o conhecimento científico e escolar e os saberes tradicionais das comunidades pesqueiras locais, por meio de atividades educativas, interativas e participativas. A participação dos pescadores artesanais da Praia de Itaipu permite compartilhar experiências, práticas de pesca, conhecimentos sobre os recursos pesqueiros e a cultura caiçara, transmitidos entre gerações. Essa troca é complementada pela atuação dos biólogos que realizam palestras educativas sobre os animais marinhos, utilizando uma abordagem lúdica e acessível para aproximar o público do conhecimento científico. Durante as atividades, os saberes tradicionais dos pescadores são associados às informações científicas sobre a biodiversidade marinha, a conservação ambiental e a pesca sustentável. Dessa forma, o projeto promove o diálogo entre ciência e conhecimento tradicional, valoriza a cultura caiçara e a identidade das comunidades pesqueiras, além de estimular a conscientização ambiental de estudantes, educadores e visitantes.
O principal aprendizado que o Projeto “Mar de Conhecimento” busca proporcionar às crianças e suas famílias é a valorização do oceano, da biodiversidade marinha e da cultura caiçara, despertando o respeito e o sentimento de responsabilidade pela conservação ambiental. Por meio do contato direto com os animais marinhos, das atividades educativas e da interação com os pescadores artesanais, espera-se que os participantes compreendam a importância da pesca sustentável, da preservação dos ecossistemas e do papel das comunidades tradicionais na conservação do ambiente marinho. Além disso, o projeto busca estimular a curiosidade, o respeito à vida marinha e a formação de cidadãos mais conscientes, que levem esses conhecimentos para o cotidiano e os compartilhem com suas famílias e comunidades, finalizou Luciana.

Priscilla Costa, sereia do projeto, diz que:
“A reação das crianças é muito significativa porque o contato direto com a vida marinha transforma aquilo que poderia ser apenas uma informação em uma experiência vivida. Quando elas têm a oportunidade de observar e interagir com os animais, conseguem compreender de uma maneira muito mais concreta a importância de cuidar daquele ambiente.
Por exemplo, quando explicamos que não devemos jogar lixo na praia, que precisamos reduzir o consumo excessivo de plástico ou não retirar elementos naturais do ambiente para levar para casa, essa mensagem ganha outro significado quando a criança acabou de ter contato com um animal que depende daquele ecossistema. Ela consegue estabelecer uma conexão entre aquilo que está aprendendo e as consequências das nossas atitudes.
O contato com os animais também desperta muita curiosidade e encantamento. Poder observar de perto um baiacu, tocar cuidadosamente em uma estrela-do-mar ou conhecer uma concha e entender que ela pode servir de abrigo para um caranguejo-eremita faz com que a criança perceba que aqueles elementos não são apenas objetos ou imagens de um livro, mas fazem parte de um ambiente vivo e interligado.
É muito diferente de apresentar esse conteúdo apenas de forma visual, em um desenho ou em uma aula tradicional. Na educação ambiental marinha, a criança vivencia aquele conhecimento. E quando o aprendizado acontece de forma lúdica, afetiva e significativa, ele tende a permanecer na memória.
Para mim, uma das transformações mais bonitas é justamente essa: a criança sai de uma experiência de encantamento levando também uma responsabilidade. Ela passa a olhar para a praia, para os animais e para o próprio comportamento de uma maneira diferente. E muitas vezes essa consciência ultrapassa a própria criança, porque ela leva o que aprendeu para casa e compartilha com familiares e amigos.
No fim, mais do que ensinar sobre animais marinhos, buscamos criar uma experiência que a criança não esqueça. Porque uma experiência significativa pode despertar, desde cedo, o sentimento de pertencimento e de responsabilidade pelo ambiente. E uma criança que aprende a cuidar da natureza hoje pode se tornar um adulto muito mais consciente amanhã.

A importância de iniciativas como essa reflete-se na formação de uma consciência ecológica duradoura. Quando um estudante compreende que o ecossistema marinho de sua cidade é um organismo vivo interligado à sua própria qualidade de vida, a relação com o descarte de resíduos, o uso dos espaços públicos e a defesa de políticas ambientais se transforma por completo.

O projeto Mar de Conhecimento consolida Niterói como um polo de inovação socioambiental no estado do Rio de Janeiro. Ao transformar praias e enseadas em laboratórios abertos, a iniciativa reafirma que proteger o oceano começa pelo fortalecimento dos laços entre as pessoas e os territórios onde vivem.


