Isabel de Fátima Alvim Braga

Todo setembro o país se veste de amarelo. Portais abrem editoriais. Marcas mudam o avatar. Apresentadores leem o número do CVV com voz baixa. A campanha é justa no que pede: que se fale, que se peça ajuda, que ninguém fique sozinho. O suicídio é um sofrimento grave, multicausal, e nenhuma pessoa em crise merece ser reduzida a um argumento.
O que este texto discute não é a existência da campanha. É o descompasso entre o que a mesma esfera pública prega nesse mês e o que pratica nos outros onze — e, muitas vezes, no próprio setembro. Pede-se escuta. Oferece-se linchamento. Pede-se pertencimento. Produz-se exclusão. Pede-se que não se julgue. Monta-se um tribunal sem juiz, sem defesa e sem prazo para acabar.
Como em Minority Report
No filme Minority Report, a polícia prende o crime antes que ele aconteça. A condenação antecede a prova. O futuro, lido por visões falíveis, basta para destruir o presente de alguém. A metáfora serve aqui com precisão incômoda.
O cancelamento contemporâneo — e o linchamento virtual que o antecede ou o imita — funciona como pré-crime reputacional. Uma alegação, um print, um recorte, uma frase antiga, uma acusação ainda sem contraditório: tudo isso vira sentença. A pena não é só a crítica. É o isolamento. É a perda de trabalho, de amigos, de nome. É a mensagem, repetida milhares de vezes, de que aquela pessoa não merece mais ocupar o espaço comum.
A Constituição brasileira afirma que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado. Nas redes e em parte da cobertura, o princípio se inverte: a pessoa já nasce condenada, e o ônus de provar a inocência cai sobre quem está no centro da tempestade.
Quando a mídia tradicional ecoa o tribunal digital sem apuração proporcional, deixa de ser testemunha e passa a ser parte do veredito.
O que a ciência do sofrimento já sabe
Isolamento, vergonha, humilhação pública e a sensação de que “não há volta” estão entre os fatores de risco reconhecidos para o suicídio. Isso não significa que todo cancelamento mate, nem que cada morte tenha uma única causa. Significa que uma sociedade que transforma a exclusão em espetáculo não pode, no mês seguinte, fingir surpresa diante do desespero.
Há relatos documentados, no Brasil e no exterior, de jovens e adultos que morreram por suicídio depois de campanhas de exposição, ostracismo entre pares ou notícias falsas amplificadas.
Em 2024, o suicídio do estudante Alexander Rogers, de 20 anos, na Universidade de Oxford, levou um legista britânico a alertar o governo sobre a cultura de “autopolicia” entre colegas: exclusão social com base em alegações, sem processo formal, com impacto grave sobre a saúde mental. Terapeutas que atendem adolescentes descrevem, com frequência, depressão, ansiedade e ideação suicida meses após o jovem ser “cancelado” pelo grupo — rejeição por pares, nessa idade, aciona os mesmos circuitos cerebrais da dor física.
No Brasil, o caso de Jéssica Vitória, de 22 anos, em 2023, tornou-se referência dolorosa: prints falsos de conversas íntimas circularam e páginas de fofoca ampliaram o dano. Outras mortes se misturam a anos de linchamento virtual. Não se trata de transformar cada biografia em prova ideológica. Trata-se de admitir o mecanismo: a multidão não precisa de sentença transitada para executar uma pena social.
O setembro que não se aplica a si mesmo
A campanha Setembro Amarelo, organizada desde 2014 pela Associação Brasileira de Psiquiatria e pelo Conselho Federal de Medicina, pede cuidado com a linguagem, atenção aos sinais e redes de apoio.
Diretrizes da Organização Mundial da Saúde para a imprensa pedem sobriedade, contexto e oferta de ajuda — não espetáculo, não simplificação, não estigma.
A contradição começa quando o mesmo ambiente que publica o laço amarelo sustenta, o ano inteiro, a economia da humilhação: cliques sobre reputação destruída, “tribunal do povo”, condenação preventiva de anônimos e de figuras públicas.
Em 2020, veículos brasileiros já perguntavam, no próprio Setembro Amarelo, se a cultura do cancelamento não seria o novo bullying. A pergunta ficou. A prática também.Há ainda outra camada, menos comentada nas peças oficiais: o silenciamento institucional. Processos, bloqueios de perfil, afastamentos e manchetes que antecipam culpa podem não ser “cancelamento de rede” no sentido popular, mas produzem o mesmo efeito psíquico — a pessoa deixa de poder se explicar no espaço em que foi acusada.
Um setembro honesto precisaria olhar também para isso: a prevenção não combina com censura prévia nem com isolamento forçado.
O que este texto não pretende
Não pretende negar que existam condutas graves, nem que vítimas de violência tenham direito a denunciar. Não pretende transformar o suicídio em arma contra um campo político. O cancelamento atravessa tribos.
Tampouco pretende romantizar a morte ou detalhar sofrimento alheio. Cada vida perdida é irredutível. Cada família tem o direito ao luto sem ser arrastada para uma tese.
O que se pede é coerência mínima. Se o isolamento mata, não se pode celebrar o isolamento como virtude. Se a escuta salva, não se pode substituir a escuta pelo coro. Se a campanha ensina que palavras pesam, então as palavras da própria mídia também pesam.
Um setembro que mereça o nome
Prevenir o suicídio é trabalho de todo o ano: acesso a cuidado, sono, vínculo, tratamento, redução de estigma, responsabilidade das plataformas, limite ao linchamento. O laço amarelo só deixa de ser adereço quando a mesma voz que lê o telefone de ajuda recusa o papel de jurado anônimo.
Enquanto isso não ocorrer, o Setembro Amarelo corre o risco de parecer o que Minority Report também era: um aparato de boa consciência que justifica, em nome da proteção, a destruição antecipada de alguém. A diferença é que, na vida real, não há cena seguinte em que o sistema se denuncia. Há apenas uma cadeira vazia — e, à volta dela, as mesmas manchetes de sempre.
Nota de respeito
Se você está em sofrimento, procure ajuda agora. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida atende pelo 188, 24 horas, de forma sigilosa. Fale com alguém de confiança. Você não precisa atravessar isso sozinho.
Fontes de apoio à argumentação (casos e análises de domínio público): cobertura do inquérito de Alexander Rogers (BBC, The Telegraph, 2024); reportagens brasileiras sobre linchamento virtual e o caso de Jéssica Vitória (O Globo, Brasil de Fato, 2023–2024); literatura clínica sobre cancelamento na adolescência (Newport Academy); materiais da campanha Setembro Amarelo (ABP/CFM) e diretrizes da OMS para cobertura responsável.