Por Isabel de Fátima Alvim Braga

Ao lado de autarquias ligadas ao Ministério da Saíde existe outra entidade, com nome parecido, mas natureza jurídica diferente: a Fiotec (Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde), CNPJ 02.385.669/0001-74.
A Fiotec é uma fundação privada, sem fins lucrativos, criada para apoiar projetos da instituição. Pela Lei 8.958/1994, instituições federais de pesquisa podem contratar fundações de apoio para gerir projetos — compras, contratos, bolsas, prestação de contas. Na prática, parte relevante do dinheiro que “entra na Fundação” passa pela Fiotec.
Isso não é, por si só, ilegal. O ponto que o controle social precisa olhar é outro: quando o recurso público sai do Orçamento da União e entra numa fundação privada, o caminho fica mais longo, mais técnico e mais difícil de acompanhar.
O Portal da Transparência registra que a Fiotec já recebeu, no histórico de relação com o governo federal, mais de R$ 11 bilhões. Só em emendas parlamentares, o mesmo portal aponta 528 emendas e cerca de R$ 874 milhões pagos.
1. Emenda parlamentar: o que é, no português claro
Deputado e senador têm uma fatia do Orçamento da União para indicar destinos. Isso se chama emenda parlamentar. O dinheiro continua público. O parlamentar escolhe o destino; o governo empenha, liquida e paga.
Quando a emenda vai para um hospital municipal, dá para ver a obra. Quando vai para uma fundação de apoio, o cidadão precisa cruzar portais, códigos de projeto, empenhos e prestações de contas. Muita gente desiste no meio do caminho.
A própria Fiotec publica uma lista de empenhos de emendas. Os totais anuais informados nesse portal, segundo compilação feita a partir da página oficial, são:
| Ano | Valor empenhado (portal Fiotec) |
|---|---|
| 2020 | R$ 4.363.846,92 |
| 2021 | R$ 6.113.300,00 |
| 2022 | R$ 1.621.989,00 |
| 2023 | R$ 15.347.057,33 |
| 2024 | R$ 35.078.384,32 |
| 2025 | R$ 22.729.419,40 |
| Soma 2020-2025 | R$ 85.253.996,97 |
Fonte da lista: portal de emendas da Fiotec.
Atenção ao leigo: esses R$ 85 milhões são o recorte do portal da própria fundação no período. O número maior do Portal da Transparência (centenas de milhões pagos) é o histórico consolidado de emendas em que a Fiotec aparece como favorecida. São recortes diferentes. Os dois existem; não se deve misturá-los.
Quem aparece com volume alto no recorte recente
No portal da Fiotec há, por exemplo, empenho individual do deputado Dimas Gadelha de R$ 11.485.622,21 (2025). Também há empenhos em nome do deputado Henrique Vieira (Pastor Henrique Vieira), em faixas que somam milhões, além de outros parlamentares.
Isso não prova desvio. Prova concentração de indicação orçamentária numa fundação privada de apoio. Concentração exige transparência extra, não menos.
E os povos indígenas?
Na consulta ao portal de emendas da Fiotec não saltam marcadores claros do tipo “povos indígenas” ou “indígenas”. Podem existir projetos que alcancem comunidades tradicionais por outro nome. O problema é exatamente esse: sem etiqueta clara, o cidadão não consegue saber se o dinheiro chegou a quem mais precisa. Legalidade do empenho não substitui rastreio social.
2. Bolsas para quem já é servidor público – e já recebe salário para fazer o que faz
Aqui o tema fica ainda mais “de corredor de órgão público”, mas a lógica é simples.
Servidor federal da autarquia correlata já tem salário pago pelo Estado. Em projetos geridos pela Fiotec, a mesma pessoa pode receber bolsa. A fundação e a instituição tratam a bolsa, em regra, como apoio a projeto de pesquisa, ensino ou desenvolvimento institucional — não como segundo emprego CLT. Há portaria interna regulamentando isso. Servidores que fazem pesquisas podem receber bolsas adicionais. A estranheza ocorre quando fucionários que não realizam esse tipo de atividade recebem mais de 6 mil reais por mês em bolsas que, teoricamente, poderiam não estar sujeitas a tributação da receita. É o risco do bis in idem: receber duas vezes pela mesma atividade E é aí que a autoria interna deveria atuar. E o fisco também.
A compilação apresentada a partir de listas internas (SGA RH / Asinfo-Cogepe) aponta:
- janeiro/2026: 827 servidores únicos e 886 vínculos de bolsa;
- julho/2026: 953 servidores únicos e 1.050 vínculos de bolsa (Ou seja: há servidores que recebem o salário e mais de uma bolsa);
- valores individuais de algumas centenas de reais até cerca de R$ 6.220, faixa que se repete como teto prático, sob os quais não incidem os 27.5% de imposto de renda
Não há um somatório oficial único fácil de achar. Pela distribuição descrita, a massa mensal ficaria na ordem de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões. Quantas agulhas de insulina o Ministério da Saúde compra com esse valor? O número estimada: 9 a 17 milhões de seringas.
O que isso significa na vida real
Imagine um órgão público que, além da folha oficial, tem uma “folha paralela” paga por fundação privada, com dinheiro de projeto. A Receita Federal trata esses valores, em geral, como rendimento tributável. Muitas vezes há autorização formal.
A pergunta que sobra não é só “pode?”. É:
- o servidor está fazendo atividade extra de projeto ou cobrindo função permanente do Estado?
- quem autoriza a bolsa é da mesma estrutura que se beneficia dela?
- o público consegue ver nome, valor, projeto e carga horária sem pedir LAI?
A Folha de S.Paulo já mostrou, em 2024, o uso intenso de bolsas da Fiotec também no Ministério da Saúde e a dificuldade de publicar listas.
A Fiotec, em seus manuais, veda bolsa a dirigentes da própria fundação e impõe outras restrições. Isso é regra no papel. O debate público é se a regra segura o conflito na vida real.
3. Quem manda na fundação — e o risco da “porta giratória”
A diretora executiva atual é Cristiane Teixeira Sendim, mandato 2023-2027. O presidente do Conselho Curador é Ricardo de Godoi Mattos Ferreira, pesquisador/servidor com vínculo institucional público. O termo de posse está publicado e não se constitui em difamação.
Ex-dirigentes, como Hayne Felipe da Silva, circularam entre direção da fundação de apoio e estruturas da autarquia. Isso se chama, no jargão de integridade, porta giratória: a mesma rede de pessoas transita entre o órgão público e a entidade privada que executa o dinheiro do órgão.
A Lei 12.813/2013 trata conflito de interesses no Executivo federal. Conflito não exige propina. Basta haver situação em que o interesse privado, associativo ou de carreira possa influenciar decisão pública.
No Portal da Transparência, Cristiane Teixeira Sendim figura como diretora da pessoa jurídica Fiotec. O dado é público.
4. HIV, PrEP e dinheiro internacional — o que é isso?
PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é remédio tomado por quem não tem HIV, para impedir que o vírus se instale se houver exposição. Existe comprimido diário e, mais recentemente, injeção de longa duração (a cada dois ou seis meses).
O Ministério da Saúde autoriza PrEP a partir dos 15 anos, com peso de pelo menos 35 kg. A Nota Técnica 498/2022 e o protocolo clínico sustentam o acesso, inclusive sem autorização de pais ou responsáveis em várias situações, com base no Estatuto da Criança e do Adolescente.
Há debate ético legítimo: prevenção medicamentosa em adolescente de 15 anos, sigilo em relação à família, acompanhamento e efeitos de longo prazo. Esse debate não anula a evidência de que a PrEP reduz infecção por HIV. São duas conversas: eficácia clínica e consentimento social.
Os projetos ImPrEP coordenados com gestão financeira da Fiotec e financiamento da Unitaid somam, no conjunto 2017–2027, cerca de US$ 43 milhões (autorizações documentadas de até US$ 26,4 milhões no grant inicial, mais cerca de US$ 9,9 milhões em 2021 e US$ 6,5 milhões em 2024 para prorrogar o trabalho no Brasil e acelerar a introdução do lenacapavir). A fase original (PrEP oral no Brasil, México e Peru) foi anunciada com cerca de US$ 20 milhões; o ImPrEP CAB Brasil (cabotegravir injetável) entrou com apoio adicional da ordem de US$ 10 milhões; e o ImPrEP LEN Brasil (lenacapavir semestral em sete cidades, ~1.500 participantes) opera com o medicamento doado pela Gilead e com o mesmo envelope Unitaid já estendido, sem preço de compra do fármaco no estudo. As parcerias de longo prazo CDC/PEPFAR e laboratórios no HIV/Aids brasileiro são estruturais e de escala bem maior que esses grants pontuais, mas os valores públicos amarrados especificamente a essa linha ficam nessa faixa de US$ 40–45 milhões ao longo de uma década, mais a doação do lenacapavir e a contrapartida operacional do Ministério da Saúde.
Projetos que cruzam Fundação, Fiotec e agências internacionais
- ImPrEP (Brasil, México e Peru), com financiamento da Unitaid.
- PrEP injetável com cabotegravir (ImPrEP CAB Brasil), também com Unitaid.
- ImPrEP LEN Brasil: injeção semestral de lenacapavir (Gilead) em sete cidades, com doação do medicamento e apoio Unitaid/Ministério da Saúde.
- Parcerias de longo prazo na área de HIV/Aids com cooperação internacional (CDC/PEPFAR e laboratórios), segundo documentos e notícias institucionais.
Esses projetos salvam vidas e geram evidência científica. O ponto jornalístico é outro: recursos internacionais + emendas + bolsas internas passam, em parte, pela mesma fundação de apoio. Sem painel único, o cidadão não vê o desenho inteiro.
5. O que a Justiça e o TCU já disseram
Sindicato dos Enfermeiros (SindEnf RJ)
Em 2025, o SindEnf RJ obteve liminares na Justiça Federal contra processos seletivos dessa entidade (editais do programa que amplia vagas em institutos federais, inclusive no INTO):
- uma decisão derrubou cláusula que excluía servidores públicos da seleção de 152 vagas de enfermagem, por ofensa à isonomia;
- outra suspendeu o certame diante de denúncias de irregularidade na classificação e na convocação, e mandou republicar lista com notas e critérios.
Isso não julga “toda a Fiotec”. Mostra que a forma de selecionar e contratar pela fundação de apoio já gerou choque judicial concreto.
Tribunal de Contas da União
No Fiscobras 2024, o TCU auditou o contrato do Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde (CIBS), em Bio-Manguinhos. Constatou falta de transparência nos recursos administrados pela Fiotec: prestação de contas insuficiente de receitas de exportação de vacinas e publicação incompleta de instrumentos, relatórios e pagamentos, em desacordo com o art. 4º-A da Lei 8.958/1994. Determinou que se discipline a prestação de contas.
Houve depois solução consensual sobre o contrato de obras do CIBS. O alerta de transparência da fundação de apoio permanece no acórdão.
A CGU também fiscaliza fundações de apoio e emendas. Controle interno e externo existem. O que falta, muitas vezes, é tradução para o cidadão comum.
6. Legal, moral e ético — três palavras que o Brasil mistura
A Constituição (art. 37) manda a administração pública obedecer a legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
Traduzindo:
- Legalidade: tem lei, contrato, edital, empenho? Muitas vezes, sim.
- Moralidade: o arranjo é aceitável à luz do interesse público, ou só “está no papel”?
- Ética pública: quem decide, quem ganha bolsa, quem indica emenda e quem presta contas pode ser a mesma rede?
Acúmulo de bolsas, concentração de emendas, gestão de recursos internacionais por fundação privada e ações judiciais repetidas não provam, sozinhos, crime. Formam um padrão de opacidade relativa. Padrão é o que jornalismo e controle social devem iluminar.
Como o leitor pode conferir sozinho
- Abra o portal de emendas da Fiotec e filtre por ano e autor.
- No Portal da Transparência, busque o CNPJ 02.385.669/0001-74 e clique em emendas.
- Leia as notas do SindEnf RJ sobre as liminares.
- Busque no TCU o relatório do Fiscobras 2024 sobre o CIBS/Fiocruz.
- Leia a Nota Técnica 498/2022 sobre PrEP a partir de 15 anos.
O recado final, sem juridiquês: fundação de apoio existe para destravar pesquisa e gestão. Quando ela vira cano principal de emenda, bolsa e contrato internacional, deixa de ser detalhe administrativo. Vira assunto de dinheiro público, saúde e confiança. Legal pode ser. Transparente e prioritário para quem mais precisa — isso o cidadão ainda tem de exigir, linha por linha. A Advocacia Geral da União e a Controladoria Geral da União também. Resta a esses órgãos decidir se a moralidade é mais importante que o silenciamento das vozes divergentes.
Ao lado de autarquias ligadas ao Ministério da Saúde existe outra entidade, com nome parecido, mas natureza jurídica diferente: a Fiotec (Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde), CNPJ 02.385.669/0001-74. A Fiotec é uma fundação privada, sem fins lucrativos, criada para apoiar projetos da instituição. Pela Lei 8.958/1994, instituições federais de pesquisa podem contratar fundações de apoio para gerir projetos — compras, contratos, bolsas, prestação de contas. Na prática, parte relevante do dinheiro que “entra na Fundação” passa pela Fiotec. Isso não é, por si só, ilegal. O ponto que o controle social precisa olhar é outro: quando o recurso público sai do Orçamento da União e entra numa fundação privada, o caminho fica mais longo, mais técnico e mais difícil de acompanhar. O Portal da Transparência registra que a Fiotec já recebeu, no histórico de relação com o governo federal, mais de R$ 11 bilhões. Só em emendas parlamentares, o mesmo portal aponta 528 emendas e cerca de R$ 874 milhões pagos.
- Emenda parlamentar: o que é, no português claro Deputado e senador têm uma fatia do Orçamento da União para indicar destinos. Isso se chama emenda parlamentar. O dinheiro continua público. O parlamentar escolhe o destino; o governo empenha, liquida e paga. Quando a emenda vai para um hospital municipal, dá para ver a obra. Quando vai para uma fundação de apoio, o cidadão precisa cruzar portais, códigos de projeto, empenhos e prestações de contas. Muita gente desiste no meio do caminho. A própria Fiotec publica uma lista de empenhos de emendas. Os totais anuais informados nesse portal, segundo compilação feita a partir da página oficial, são:
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| Ano | Valor empenhado (portal Fiotec) |
| -------------- | ------------------------------- |
| 2020 | R$ 4.363.846,92 |
| 2021 | R$ 6.113.300,00 |
| 2022 | R$ 1.621.989,00 |
| 2023 | R$ 15.347.057,33 |
| 2024 | R$ 35.078.384,32 |
| 2025 | R$ 22.729.419,40 |
| Soma 2020-2025 | R$ 85.253.996,97 |
Fonte da lista: portal de emendas da Fiotec. Atenção ao leigo: esses R$ 85 milhões são o recorte do portal da própria fundação no período. O número maior do Portal da Transparência (centenas de milhões pagos) é o histórico consolidado de emendas em que a Fiotec aparece como favorecida. São recortes diferentes. Os dois existem; não se deve misturá-los. Quem aparece com volume alto no recorte recente No portal da Fiotec há, por exemplo, empenho individual do deputado Dimas Gadelha de R$ 11.485.622,21 (2025). Também há empenhos em nome do deputado Henrique Vieira (Pastor Henrique Vieira), em faixas que somam milhões, além de outros parlamentares. Isso não prova desvio. Prova concentração de indicação orçamentária numa fundação privada de apoio. Concentração exige transparência extra, não menos. E os povos indígenas? Na consulta ao portal de emendas da Fiotec não saltam marcadores claros do tipo “povos indígenas” ou “indígenas”. Podem existir projetos que alcancem comunidades tradicionais por outro nome. O problema é exatamente esse: sem etiqueta clara, o cidadão não consegue saber se o dinheiro chegou a quem mais precisa. Legalidade do empenho não substitui rastreio social. 2. Bolsas para quem já é servidor público – e já recebe salário Aqui o tema fica ainda mais “de corredor de órgão público”, mas a lógica é simples. Servidor federal da autarquia correlata já tem salário pago pelo Estado. Em projetos geridos pela Fiotec, a mesma pessoa pode receber bolsa. A fundação e a instituição tratam a bolsa, em regra, como apoio a projeto de pesquisa, ensino ou desenvolvimento institucional — não como segundo emprego CLT. Há portaria interna regulamentando isso. Servidores que fazem pesquisas podem receber bolsas adicionais. A estranheza ocorre quando fucionários que não realizam esse tipo de atividade recebem mais de 6 mil reais por mês em bolsas que, teoricamente, não estão sujeitas a tributação da receita. É o risco do bis in idem: receber duas vezes pela mesma atividiade E é aí que a autoria interna deveria atuar. E o fisco também. A compilação apresentada a partir de listas internas (SGA RH / Asinfo-Cogepe) aponta:
- janeiro/2026: 827 servidores únicos e 886 vínculos de bolsa;
- julho/2026: 953 servidores únicos e 1.050 vínculos de bolsa (Ou seja: há servidores que recebem o salário e mais de uma bolsa);
- valores individuais de algumas centenas de reais até cerca de R$ 6.220, faixa que se repete como teto prático, sob os quais não incidem os 27.5% de imposto de renda Não há um somatório oficial único fácil de achar. Pela distribuição descrita, a massa mensal ficaria na ordem de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões. Quantas agulhas de insulina o Ministério da Saúde compra com esse valor? O número estimada: 9 a 17 milhões de seringas. O que isso significa na vida real Imagine um órgão público que, além da folha oficial, tem uma “folha paralela” paga por fundação privada, com dinheiro de projeto. A Receita Federal trata esses valores, em geral, como rendimento tributável. Muitas vezes há autorização formal. A pergunta que sobra não é só “pode?”. É:
- o servidor está fazendo atividade extra de projeto ou cobrindo função permanente do Estado?
- quem autoriza a bolsa é da mesma estrutura que se beneficia dela?
- o público consegue ver nome, valor, projeto e carga horária sem pedir LAI? A Folha de S.Paulo já mostrou, em 2024, o uso intenso de bolsas da Fiotec também no Ministério da Saúde e a dificuldade de publicar listas. A Fiotec, em seus manuais, veda bolsa a dirigentes da própria fundação e impõe outras restrições. Isso é regra no papel. O debate público é se a regra segura o conflito na vida real.
- Quem manda na fundação — e o risco da “porta giratória” A diretora executiva atual é Cristiane Teixeira Sendim, mandato 2023-2027. O presidente do Conselho Curador é Ricardo de Godoi Mattos Ferreira, pesquisador/servidor com vínculo institucional público. O termo de posse está publicado e não se constitui em difamação. Ex-dirigentes, como Hayne Felipe da Silva, circularam entre direção da fundação de apoio e estruturas da autarquia. Isso se chama, no jargão de integridade, porta giratória: a mesma rede de pessoas transita entre o órgão público e a entidade privada que executa o dinheiro do órgão. A Lei 12.813/2013 trata conflito de interesses no Executivo federal. Conflito não exige propina. Basta haver situação em que o interesse privado, associativo ou de carreira possa influenciar decisão pública. No Portal da Transparência, Cristiane Teixeira Sendim figura como diretora da pessoa jurídica Fiotec. O dado é público.
- HIV, PrEP e dinheiro internacional — o que é isso? PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é remédio tomado por quem não tem HIV, para impedir que o vírus se instale se houver exposição. Existe comprimido diário e, mais recentemente, injeção de longa duração (a cada dois ou seis meses). O Ministério da Saúde autoriza PrEP a partir dos 15 anos, com peso de pelo menos 35 kg. A Nota Técnica 498/2022 e o protocolo clínico sustentam o acesso, inclusive sem autorização de pais ou responsáveis em várias situações, com base no Estatuto da Criança e do Adolescente. Há debate ético legítimo: prevenção medicamentosa em adolescente de 15 anos, sigilo em relação à família, acompanhamento e efeitos de longo prazo. Esse debate não anula a evidência de que a PrEP reduz infecção por HIV. São duas conversas: eficácia clínica e consentimento social. Os projetos ImPrEP coordenados com gestão financeira da Fiotec e financiamento da Unitaid somam, no conjunto 2017–2027, cerca de US$ 43 milhões (autorizações documentadas de até US$ 26,4 milhões no grant inicial, mais cerca de US$ 9,9 milhões em 2021 e US$ 6,5 milhões em 2024 para prorrogar o trabalho no Brasil e acelerar a introdução do lenacapavir). A fase original (PrEP oral no Brasil, México e Peru) foi anunciada com cerca de US$ 20 milhões; o ImPrEP CAB Brasil (cabotegravir injetável) entrou com apoio adicional da ordem de US$ 10 milhões; e o ImPrEP LEN Brasil (lenacapavir semestral em sete cidades, ~1.500 participantes) opera com o medicamento doado pela Gilead e com o mesmo envelope Unitaid já estendido, sem preço de compra do fármaco no estudo. As parcerias de longo prazo CDC/PEPFAR e laboratórios no HIV/Aids brasileiro são estruturais e de escala bem maior que esses grants pontuais, mas os valores públicos amarrados especificamente a essa linha ficam nessa faixa de US$ 40–45 milhões ao longo de uma década, mais a doação do lenacapavir e a contrapartida operacional do Ministério da Saúde. Projetos que cruzam Fundação, Fiotec e agências internacionais
- ImPrEP (Brasil, México e Peru), com financiamento da Unitaid.
- PrEP injetável com cabotegravir (ImPrEP CAB Brasil), também com Unitaid.
- ImPrEP LEN Brasil: injeção semestral de lenacapavir (Gilead) em sete cidades, com doação do medicamento e apoio Unitaid/Ministério da Saúde.
- Parcerias de longo prazo na área de HIV/Aids com cooperação internacional (CDC/PEPFAR e laboratórios), segundo documentos e notícias institucionais. Esses projetos salvam vidas e geram evidência científica. O ponto jornalístico é outro: recursos internacionais + emendas + bolsas internas passam, em parte, pela mesma fundação de apoio. Sem painel único, o cidadão não vê o desenho inteiro.
- O que a Justiça e o TCU já disseram Sindicato dos Enfermeiros (SindEnf RJ) Em 2025, o SindEnf RJ obteve liminares na Justiça Federal contra processos seletivos dessa entidade (editais do programa que amplia vagas em institutos federais, inclusive no INTO):
- uma decisão derrubou cláusula que excluía servidores públicos da seleção de 152 vagas de enfermagem, por ofensa à isonomia;
- outra suspendeu o certame diante de denúncias de irregularidade na classificação e na convocação, e mandou republicar lista com notas e critérios. Isso não julga “toda a Fiotec”. Mostra que a forma de selecionar e contratar pela fundação de apoio já gerou choque judicial concreto. Tribunal de Contas da União No Fiscobras 2024, o TCU auditou o contrato do Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde (CIBS), em Bio-Manguinhos. Constatou falta de transparência nos recursos administrados pela Fiotec: prestação de contas insuficiente de receitas de exportação de vacinas e publicação incompleta de instrumentos, relatórios e pagamentos, em desacordo com o art. 4º-A da Lei 8.958/1994. Determinou que se discipline a prestação de contas. Houve depois solução consensual sobre o contrato de obras do CIBS. O alerta de transparência da fundação de apoio permanece no acórdão. A CGU também fiscaliza fundações de apoio e emendas. Controle interno e externo existem. O que falta, muitas vezes, é tradução para o cidadão comum.
- Legal, moral e ético — três palavras que o Brasil mistura A Constituição (art. 37) manda a administração pública obedecer a legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Traduzindo:
- Legalidade: tem lei, contrato, edital, empenho? Muitas vezes, sim.
- Moralidade: o arranjo é aceitável à luz do interesse público, ou só “está no papel”?
- Ética pública: quem decide, quem ganha bolsa, quem indica emenda e quem presta contas pode ser a mesma rede? Acúmulo de bolsas, concentração de emendas, gestão de recursos internacionais por fundação privada e ações judiciais repetidas não provam, sozinhos, crime. Formam um padrão de opacidade relativa. Padrão é o que jornalismo e controle social devem iluminar.
O recado final, sem juridiquês: fundação de apoio existe para destravar pesquisa e gestão. Quando ela vira cano principal de emenda, bolsa e contrato internacional, deixa de ser detalhe administrativo. Vira assunto de dinheiro público, saúde e confiança. Legal pode ser. Transparente e prioritário para quem mais precisa — isso o cidadão ainda tem de exigir, linha por linha. A Advocacia Geral da União e a Controladoria Geral da União também. Resta a esses órgãos decidir se a moralidade é mais importante que o silenciamento.
A autora se compromete a corrigir qualquer erro de número ou de informação constante no presente texto. Mas, caso não haja, gostaria que as intituições também fizessem as devidas correções e as devidas auditorias. Não há silêncio que não termine.
Como o leitor pode conferir sozinho
- Abra o portal de emendas da Fiotec e filtre por ano e autor.
- No Portal da Transparência, busque o CNPJ 02.385.669/0001-74 e clique em emendas.
- Leia as notas do SindEnf RJ sobre as liminares.
- Busque no TCU o relatório do Fiscobras 2024 sobre o CIBS/Fiocruz.
- Leia a Nota Técnica 498/2022 sobre PrEP a partir de 15 anos.
Referências
Lei 8.958/1994 (fundações de apoio). Lei 12.813/2013 (conflito de interesses). Constituição Federal, art. 37.
Processo Fiocruz x Isabel de Fátima Alvim Braga e Meta/Facebook: Justiça Federal do Rio de Janeiro, processo 5035958-79.2026.4.02.5101. Ação ajuizada pela Fiocruz, com atuação da AGU/PRF-2ª Região; liminar determinou bloqueio de perfis e restrições a novas publicações que usassem símbolos da instituição. Divulgação oficial da AGU e cobertura contemporânea da decisão.
Unitaid. Grant “Preventing HIV infections in high-risk groups”, lead grantee Fiocruz, valor anunciado de US$ 42,8 milhões (2017–2027). Resoluções do Board da Unitaid: autorização inicial de até US$ 26.355.192 (2017); acréscimo de até US$ 9.869.701 (2021); cost extension de até US$ 6.530.638 até 31/12/2027 (Resolução n. 23-2024-e, implementador Fiotec). Notícia institucional de 2017 sobre o ImPrEP com menção a US$ 20 milhões. ImPrEP CAB Brasil e ImPrEP LEN Brasil: páginas institucionais ImPrEP/Fiocruz e anúncio Unitaid de apoio à implementação do lenacapavir no Brasil, com doação do medicamento pela Gilead.
TCU. Acórdão 2475/2024-Plenário, processo TC 010.152/2024-5 (Fiscobras 2024), auditoria do contrato do CIBS/Bio-Manguinhos e transparência de recursos administrados pela Fiotec; art. 4º-A da Lei 8.958/1994. Solução consensual posterior no contrato de obras: Acórdão 2522/2025-Plenário, TC 026.338/2024-6.
SindEnf RJ. Liminar da 20ª Vara Federal do Rio de Janeiro contra cláusula do Edital 24/2025 Fiotec/Fiocruz que excluía servidores da seleção de 152 vagas de enfermagem no INTO. Liminar da 16ª Vara Federal do Rio de Janeiro (9/12/2025) suspendendo o certame e determinando republicação de lista com notas e critérios. Notas oficiais do sindicato.
Pregões públicos de seringas de insulina com agulha fixa e agulhas para caneta, com preços unitários recentes na faixa aproximada de R$ 0,16 a R$ 0,24 (ex.: Consórcio Paraná Saúde, PE 15/2025; atas da SMS-SP). Estimativa de 9 a 17 milhões de unidades para R$ 2–3 milhões é cálculo a partir desses preços, não cifra oficial de compra do Ministério da Saúde.
Fontes a conferir no original, sem consolidação única aqui: Portal da Transparência (CNPJ 02.385.669/0001-74; emendas e pagamentos); portal de emendas da Fiotec (totais anuais e empenhos nominais citados no texto); Nota Técnica nº 498/2022-CGAHV/DCCI/SVS/MS e PCDT de PrEP; Folha de S.Paulo, 2024, sobre bolsas Fiotec no Ministério da Saúde. Listas internas de bolsas (SGA RH / Asinfo-Cogepe) e o teto prático de R$ 6.220 são as compilações descritas no próprio texto, não um somatório oficial publicado em um único painel.