Isabel de Fátima Alvim Braga
Existe um bichinho pequeno, de uns 8 a 12 quilos, que parece um misto de gambá com ursinho e que ganhou fama mundial por um motivo bem simples: ele não gosta de ficar trancado. E não é do tipo que fica quietinho aceitando a situação. O texugo-do-mel (também chamado de ratel) é daqueles que, quando decide sair, encontra um jeito.
O caso mais famoso é o do Stoffel, que vive num centro de reabilitação na África do Sul. Ele foi criado por humanos desde pequeno e nunca pôde voltar para a natureza – dizem os biólogos.
Os tratadores tentaram de tudo para mantê-lo dentro do cercado: tiraram as árvores, tiraram as pedras, colocaram travas duplas no portão, construíram muros altos. Stoffel respondia empilhando o que sobrasse — pedras, bolas de lama, rastelos, pneus — até conseguir escalar. Em alguns momentos ele e a companheira trabalhavam em equipe: um abria a trava de cima e o outro a de baixo. O vídeo dele viralizou e virou documentário da BBC. Hoje, já idoso (com quase 28 anos, o que é muito para a espécie), ele ainda está por lá, mais calmo, mas a reputação de “Houdini” continua.
Outra história conhecida é a da Kaca, fêmea que em 2010 escapou do zoológico de Praga. Provavelmente escalou uma cerca de cerca de dois metros. O zoo recebeu várias ligações de moradores que achavam ter visto ela pela cidade. Não se sabe ao certo o que aconteceu depois. O fato é que, mais uma vez, o bicho mostrou que cerca e muro não são obstáculos definitivos.
O que chama atenção não é só a coragem (e eles são corajosos mesmo — enfrentam cobras, hienas e até leões jovens). É a inteligência prática. Texugos-do-mel em cativeiro já foram vistos usando objetos como ferramentas, destravando portões e resolvendo problemas de forma que poucos mamíferos não-primatas conseguem. No Reino Unido, no Exmoor Zoo, os tratadores chegaram a testar o recinto entrando lá e tentando sair eles mesmos, para ver se o bicho também conseguiria. Não conseguiram. O bicho, sim.
Na natureza, o texugo-do-mel vive de 7 a 10 anos em média. Em cativeiro, com comida garantida e sem predadores, pode passar dos 20 ou 24 anos. Stoffel é um exemplo vivo disso. A espécie não está ameaçada de extinção globalmente (está classificada como “Least Concern”), embora sofra perseguição local de apicultores e fazendeiros, porque adora invadir colmeias. Em alguns lugares da África já existem projetos de “mel amigável ao texugo”, que levantam as colmeias do chão para o bicho não alcançar.
Tudo isso é divertido de assistir e de ler. O bicho é carismático, teimoso e impressionantemente esperto. Mas aí vem a pergunta que fica no ar: se o animal é tão astuto, tão malandro e demonstra, de forma tão consistente, que quer sair, por que continuamos mantendo esse tipo de bicho em zoológicos e cercados? Não é uma crítica pronta. É só o questionamento que as próprias histórias provocam. Quando o bicho passa a vida inteira inventando jeito de fugir, e os humanos passam a vida inteira inventando jeito de impedir, o que exatamente está sendo protegido — e para quem? Qual a base científica da afirmação insistente de alguns biólogos de afirmar que animais não se adaptam à ntureza?
Fontes principais: documentário BBC sobre Stoffel (Moholoholo), notícias de 2010 sobre a fuga de Kaca em Praga, relatos de tratadores e zoológicos europeus, dados de longevidade e status de conservação (IUCN).
